Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Trata-a Bem!

Lembro-me que começou tudo quando a conheci e comecei a sair com ela. Nem era ainda namoro. Saía com ela. Íamos a sítios públicos juntos. Encontrava amigos com ela do meu lado. E começou quando alguns dos meus amigos, que também eram amigos dela, me disseram Agora estima-a! Trata-a bem, se não, temos problemas, nós os dois.
Começámos a namorar. Não a trates bem, não! E eu nunca percebi esses avisos. Como era possível não tratar bem alguém de quem gostava?
Casámos. Os amigos continuaram com a história. Agora já não era só os amigos em comum. Agora também eram os meus amigos que se tinham tornado amigos dela. E também eles diziam Trata-a bem!
E eu tratei. Não porque me tinham dito para o fazer. Mas porque sou assim. Gosto de quem gosto e gosto até ao fim. Quando acaba, acaba. Mas gosto de tratar bem a quem quero bem. Aliás, nem penso como pode ser de outra maneira. Não trato mal as outras pessoas.
Mas o casamento começou cedo a azedar. Afinal ela não era como eu pensava que fosse. Eu, provavelmente, também não era o que ela queria que eu fosse.
Não durou muito tempo, o casamento. Quando nos separámos, reparei que estava sozinho. Sem nada nem ninguém. Ela levou tudo o que era nosso, mais algumas coisas que eram minhas (a minha colecção de vinis!) e ainda levou todos os amigos e conhecidos. Não deixou ninguém a quem encostar a cabeça ao ombro e chorar. Ninguém com quem mandar uns copos goela abaixo a maldizê-la, a ela e à minha vida.
E foi a minha sorte.
Sem companhia para os copos de esquecimento, virei-me para a escrita.
Passei as noites a escrever. Escrevi muito. Primeiro umas crónicas que foram publicadas num jornal local. Depois uns pequenos contos que foram publicado numas revistas literárias. Por fim um livro que foi um relativo sucesso para alguém que começou a escrever há tão pouco tempo, mas que mereceu uma segunda edição e um adiantamento considerável para um segundo livro a publicar no prazo de um ano.
E ela?
Ela foi com os amigos. Os dela e os meus. Passavam as noites no Escondidinho. Depois iam para o Lagoa, até aquilo fechar e serem expulsos de lá para fora, e terminavam as noites na Ala dos Namorados. Copos de três. Não sei quando é que começou a beber assim. Enquanto vivemos juntos, bebíamos esporadicamente. Depois, pelo que fui sabendo, era todas as noites. Fui percebendo que os amigos iam tratando dela. Magoou-me imenso, no início. Depois fui esquecendo tudo. A ela. Aos ex-amigos. À relação frustrada que tínhamos tido. Até as aventuras nocturnas dela.
Voltei a saber dela hoje. Por causa do acidente. Parece que andava com uma informação para eu ser o avisado no caso dela sofrer algum acidente. Não sei porquê eu.
Telefonaram-me perto das seis da manhã. Um acidente a caminho da Ala dos Namorados. Um Fiat Punto com seis pessoas lá dentro, espetou-se de frente com um camião cisterna. Morreram todos os ocupantes do Fiat. O motorista do camião sofreu somente algumas escoriações. Por sorte não houve explosões. Nem incêndio. Mas os corpos ficaram muito danificados. Não tinham a certeza, precisavam de confirmação das autópsias, mas parecia que havia demasiado álcool naquele carro.
Não chorei. Fiquei chocado, mas não chorei. Por momentos ainda pensei que a culpa tinha sido minha. Que eu, talvez, não tivesse tratado bem dela. Tratado como me avisaram para tratar. Mas depois percebi que a culpa não era minha. Fiz o que podia fazer. Tentei fazer mais do que o que fiz. Mas tinha sido ela a tratar da sua vida, à sua maneira. Uma maneira que, para mim, era nova. Mas foi uma escolha dela.
Não, a culpa não foi minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/12]

Era Novo e Masturbava-me à Janela

Costumava masturbar-me à janela. A olhar a janela em frente. A janela da casa em frente. A janela do quarto de M. Masturbava-me a ver M. despir-se. A ver M. vestir-se. A ver M. levantar-se de manhã. A ver M. deitar-se à noite. A ir sonâmbula à casa-de-banho. A vir do banho. E quando lá estava com o namorado. Os dois. Os dois deitados na pequena cama dela. Quando ele lhe colocava a mão por dentro da camisola. E ela, mais descarada, lhe desapertava as calças. E eu via. Via tudo. E masturbava-me.
Eu devia andar pelos 14 anos. Ela devia já ter 17. Acho. Era mais velha que eu. Bem mais velha.
Naquela altura masturbava-me muito. Quase todos os dias. Várias vezes por dia. Quando não via M. bastava pensar nela.
M. foi a minha primeira paixão.
Éramos vizinhos. Eu e o irmão dela éramos amigos. Grandes amigos. Durante um grande período, acho mesmo que fomos os melhores amigos.
Mas M. nunca me ligou nenhuma. Eu era o puto da casa do lado. O amigo do irmão. E M. era uma espécie de namoradinha da escola de quem toda a gente gostava. Era muito bonita. Um cabelo castanho claro, que o sol mudava a seu bel-prazer. Uma pele branquinha, quase transparente. Os lábios grossos e brilhantes, cheios de gloss. Atleta da equipa de ginástica da escola. Ganhou vários prémios. E era boa aluna. Bem melhor que eu.
M. namorou durante bastante tempo com aquele namorado. O primeiro com quem a vi na cama. Acho que durou todo um ano lectivo. Depois acabou. As férias mataram o namoro. A partir daí, M. mudava bastante de namorado. Às vezes o namoro não passava de uma noite. Uma noite caída naquela cama que eu via.
M. passou por um período complicado. Deixou a equipa de ginástica. Baixou as notas. Discussões diárias com os pais. Eu ouvia tudo em casa. No meu quarto.
Foi aí que deixei de olhar pela janela. Pelo menos à procura da janela dela. Pelo menos à procura dela.
Conheci a Gina. Alimentou os meus sonhos eróticos durante muito tempo.
M. acabou por ir para a faculdade. Anos mais tarde, eu também fui. Deixei de a ver.
Tive namoradas. Algumas. Casei. Divorciei-me.
Nunca mais vi M.
De vez em quando, ainda me lembro dela, vista à distância de uma janela para outra, e ainda me excito. E lá tenho eu de me masturbar.
Não sei se devo abordar este assunto com a psicóloga.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/16]