Regressar a Casa, parte 06 e Final

[continuação]

Vejo o tecto desfocado. As duas rachas transformam-se em quatro.
Sinto a aragem a passar pelo meu corpo e a provocar-lhe um pequeno arrepio. Mas não é frio. Não está frio. Talvez seja a passagem de algum fantasma. Talvez seja a passagem de alguma memória.
Levanto-me da cama e vou à estante dos livros. Procuro o Príncipe Valente. Não o encontro. Aliás, não encontro nenhuma banda-desenhada. E depois recordo-me que as levei todas comigo e acabaram por ficar lá atrás, numa das minhas casas, numa das minhas vidas. E depois percebo que gostaria de voltar a ler o Príncipe Valente, mas que já não o vou voltar a comprar. Já não vou voltar a comprar livros que já comprei. Já o fiz e não quero voltar a fazer. Há livros que já comprei duas e três vezes e continuo sem eles. Já não vale a pena. Já comprei. Já li. A maior parte deles já os li. Já desfrutei. Talvez alguém mais tenha desfrutado, talvez mesmo apreciado. E isso é o principal, não é?
Não quero mais comprar livros que vou deixar nalguma casa onde não irei voltar. Nunca regresso aos sítios de onde saí.
E o que é que faço aqui, então?
Olho em volta. A cama. A estante. A escrivaninha. O sofá. A cadeira. A máquina de escrever em cima da escrivaninha. Há quantos anos não ouço aquele matraquear? Taque-taque-taque…
Acendo um cigarro.
Ouço-me perguntar alto Ficava aqui bem um escritório, não ficava? Talvez mesmo uma pequena biblioteca?
O telemóvel toca. Agarro nele e vejo quem está do outro lado. Desligo o telemóvel. Depois viro-me no quarto, para as paredes do meu antigo quarto e digo Estantes em toda a volta. Uma secretária à janela. A escrivaninha recuperada para outro lado qualquer.
De repente sinto-me cheio de energia. Mando a beata do cigarro pela janela fora, para o quintal, e ouço-me censurar Tens de deixar de fazer isso! e sorrio.
Ouço a voz da minha mãe dizer O dia de amanhã ninguém sabe! e agradeço à minha mãe o nunca ter-se desfeito daquela casa tão cheia de memórias, recordações, fantasmas das minhas vidas passadas e que sinto que querem voltar a viver.
O telefone volta a tocar. Vejo de novo quem é e não atendo.
Puxo as persianas para baixo mas deixo os vidros abertos para a casa arejar. Se vou regressar cá para casa a casa tem de perder este cheio a humidade e mofo. Sinto-me contente com a minha decisão. Mas já decidi? Vou fechando as persianas e decido O meu quarto no quarto dos meus pais. Decido No meu quarto uma biblioteca. Decido A sala mantém-se a sala. Decido A cozinha precisa de mais espaço e uma mesa para trabalhar, que gosto de trabalhar na cozinha, e maior abertura de janela para o quintal. E decido Preciso de mandar verificar as canalizações. Decido Tenho de mandar verificar a instalação eléctrica, o quadro, as fichas, as tomadas, os interruptores, os fios, os cabos, essa coisa toda que nem sei o que é. Chego à porta da rua, viro-me para trás, para o corredor de regresso a uma certa penumbra e digo Parece que já decidi mesmo. E digo Tenho de ir buscar os livros que fui deixando por aí, e é só nesse momento que me baixa uma pequena angústia ao imaginar voltar a contactar com algumas das pessoas com que vou ter de contactar.
E pergunto-me Valerá a pena?
Que se foda! Claro que vai valer a pena. Recuperar anos e anos de livros, aqui, aqui na casa onde tudo começou. Onde eu comecei. Onde nasci e me criei. De onde nunca me fui verdadeiramente embora, afinal. Sei-o agora.
E vejo a minha mãe a cruzar o corredor da cozinha para a sala com uma panela fumegante e o meu pai logo atrás a abrir uma garrafa de vinho. Olham-me e sorriem-me.
O telefone volta a tocar. Volto a olhar para quem me chama. E agora atendo. Mas nem espero que digam nada. Digo eu Afinal a casa não está para venda. Saiu de mercado. Aliás, nem sequer lá chegou a entrar. E desligo.
Saio para rua e fecho a porta. Fecho a porta à chave. Passo devagar ao longo do quintal em direcção ao portão. Olho as árvores mal tratadas. As pequenas árvores quase mortas. Os arbustos moribundos. A erva crescida ao Deus-dará. As ervas daninhas. O canto cheio de fisális. Penso Tenho de arranjar um jardineiro. E penso que tenho amigos arquitectos. Arquitectos paisagistas. Não é para isto que servem, também?
Ao chegar ao portão viro-me para trás, para a casa, olho, olho com atenção e ainda tomo outra decisão Um alpendre. O que esta casa precisa é de um alpendre. E saio pelo portão para a rua. E sinto-me mesmo de regresso à casa-de-partida. Ao sítio onde tudo começou. Onde eu comecei.
De repente lembro-me dos primeiros dias de escola e da maravilha dos cadernos novos e dos livros por estrear e dos lápis afiados e as canetas com tinta e a borracha lisinha e a pasta sem vincos nem coçada e a caixa nova de doze canetas de feltro e a caixa nova de doze lápis-de-cor e a caixa nova de doze lápis-de-cera e a caixinha de aguarelas e os tubos de guache e os pincéis e o mata-borrão e o compasso e o transferidor e o esquadro e a régua-t e…
Calma, pá! Calma! Não estás a regressar à escola, estás somente a regressar a casa, à tua casa, e dá-te por contente se conseguires recuperar os livros que foste plantando em casas-alheias. Já será um bom regresso. Já será um bom recomeço.
E vejo-me a sorrir como um tonto, a caminhar sozinho na rua, a pensar nas voltas que a vida dá para acabarmos a regressar ao início.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/24]

Regressar a Casa, parte 05

[continuação]

A mão gira na maçaneta da porta e entro dentro do meu quarto. Ainda é o meu quarto, depois de todos os quartos por onde andei a viver estes anos todos?
Cheira mal. Não mais que nas outras divisões da casa, mas talvez por ser o meu quarto e ter o seu cheiro mais marcado. Está escuro como nos outros sítios. Mas conheço a geografia do quarto de cor. Se a minha mãe não mudou os móveis de sítio, não preciso de luz para ir até à janela e abrir tudo para trás e para cima e deixar entrar o dia cá dentro. Ainda seria capaz de ir às estantes, às prateleiras onde estão os livros e escolher alguns. Os livros de cinema que estarão na prateleira de cima, porque eram maiores e de formatos mais estranhos. A poesia em baixo, nas últimas prateleiras, porque eram os mais fininhos e ficavam para o fim. Talvez ainda descobrisse Os Filhos de Torremolinos porque era grosso. Ou Os Maias por ter a cota rasgada de tanto andar na mochila, para cima e para baixo, durante o nono ano sem nunca ter sido lido.
Afasto as cortinas. Puxo as persianas. Abro a janela. Respiro fundo. Olho para fora. Acendo um cigarro e debruço-me à janela a olhar para fora. Vejo a casa de L. Tantas vezes que saltei aquele muro. Para ir ter com ela. Para ir ter com ela ao quarto. Para fugir do pai. Às vezes do cão, cabrão, que não me reconhecia às tantas da manhã, ou não sentia o meu cheiro. Via-me a passar pelo quintal e punha-se a ladrar e eu parava. Ele também parava. Parávamos os dois a olhar um para o outro. Ele ficava quieto, mas a ladrar. Acendia-se uma luz em casa e eu corria para fugir de quem quer que lá viesse, talvez o pai dela, e ele começava a correr atrás de mim, a ladrar, a ladrar. Nunca me apanhou mas, chegou a estar muito perto disso. E L. à janela, a rir-se, a ver-me a ser perseguido pelo cão, a fugir ao pai dela, a largar a cama dela à pressa quando me esquecia das horas e nem percebia que era dia de semana, havia aulas e tinha de estar em casa onde era suposto estar e então tinha de correr e ela ria, ria.
Tenho saudades desses tempos.
Tenho saudades daquele meu eu.
Deixo cair a beata do cigarro no quintal. Viro-me de costas e encaro o meu quarto. Era assim. Era mesmo assim que era o meu quarto. Era assim que me lembrava dele, que sempre me lembrei dele. A cama a um canto, encostada a uma parede. A mesa-de-cabeceira com uma pilha de livros para ler e que nunca li. Fui embora sem que os conseguisse ler. E a minha mãe nunca os tirou de lá. Sorrio. Sorrio à memória da capacidade da minha mãe de respeitar as paranoias do filho. Que livros andava eu para ler? E vou à mesa-de-cabeceira e agarro nos livros. O primeiro tem tanto pó que nem sei o que é. Limpo-o na perna, às calças de ganga. Notícia da Cidade Silvestre… Lídia Jorge? Espanto-me. A Malcastrada de Emma Santos. Mas eu li este. Não me lembro quando. Nem onde. Mas li. Acho. Acho que li. Na verdade já não me lembro. Assim Falava Zaratustra do Nietzsche. Pois. O livro que andou por todo o lado. Comprei várias edições. Nunca o li. Também não vai ser agora, não é? E este? Pássaros Feridos. Colleen McCullough. Nem sei o que é isto. O que é que isto está aqui a fazer? É meu? Era, devia ser. Não me lembro nada disto.
Sento-me na cama com os livros na mão. Deixo-me cair para trás. Sinto o pó subir. Entra-me pelas narinas, pela boca, sinto o pó invadir-me os pulmões, sinto a asma a reclamar com o pó, mas deixo-me estar deitado de costas na cama, a olhar o tecto. Há duas rachas. Duas rachas que vão de ponta a ponta. Largo os livros e deixo-os cair em cima da cama. Mas eles rebolam e acabam por cair no chão. Ouço o barulho do tombo. Foda-se!, penso. Fecho os olhos. Não queria que os livros se estragassem. Tenho sempre muito cuidado com os livros. Como é que os deixei cair? a estes?
Olho para o cimo de uma das estantes e percebo uma pilha de jornais. Que jornais serão aqueles? Não me levanto, mas sinto um sorriso nos lábios e digo alto, estremeço um pouco quando ouço a minha voz a dizer Os Blitz! e percebo que julgava que a minha mãe os tinha deitado para o lixo. Dizia-me muitas vezes que Os jornais são um criador de bicharada, e sempre pensei que os tinha deitado fora. Já não existe, o Blitz, não enquanto jornal. Será que valem ainda alguma coisa? Não devem valer. No fundo é só papel amarelecido que já nem suja as mãos. Hoje já nada tem valor.
Depois sinto a cama a mexer-se, o colchão a estremecer e vejo M. a gatinhar em cima da cama até chegar ao pé de mim, pôr-se em cima de mim e enfiar a língua na minha orelha, eu estremecer, abanar a cabeça e dizer Na orelha não! e sentir a orelha húmida da lambidela da língua marota de M. que o fazia sempre de propósito só para me irritar. Mas gostava de mim. Gostava bastante de mim, M. Eu também gostava dela. Como é que acabou? Como é que acabámos?
E depois ocorre-me uma gravidez. Ocorre-me um aborto. Ocorre-me os pais. Os pais dela. Os pais dela primeiro. Os meus pais depois. Como é que me esqueci disto? Como é que consegui esquecer uma coisa destas? O que será feito de M.?
E, de repente, sinto-me sem forças.
Estou deitado na cama do meu antigo quarto a olhar para as duas rachas do tecto a pensar numa merda que já não me lembrava e a porta da rua está aberta e as janelas também estão todas abertas e eu já não vinha aqui há tantos anos e já não sei quem são os vizinhos nem sei o que é feito dos meus amigos de infância e acho que vou chorar e sinto a tua falta mãe e também a tua falta pai e porque é que esquecemos coisas e lembramos outras e dói-me o peito e estou com dificuldade em respirar e devia levantar-me mas não quero só quero fechar os olhos e adormecer e voltar a acordar e estar deitado nesta cama a comer uma torradas com manteiga e a ler umas histórias do Príncipe Valente e sentir o cheiro das amêijoas de Sábado…

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/23]

Regressar a Casa, parte 04

[continuação]

E então, o cheiro. O cheiro dos refogados da minha mãe. A cebola a aloirar no azeite, na companhia do alho picado, a abrir caminho para as amêijoas de Sábado, compradas no Mercado da cidade, o Sábado era sempre dia de peixe fresco, sardinhas, carapau, peixe-espada, às vezes uma posta de safio, às vezes berbigão ou amêijoa, o que eu gostava mais, que a minha mãe fazia com pedacinhos de toucinho para dar Um gostinho, como ele dizia, e um pouco de vinho branco para embebedar as amêijoas, e eu sentado na cama a ler uma banda-desenhada e já depois de ter despachado uma fatia de pão saloio torrado, barrado com manteiga, sentia chegar-me os odores do meu almoço predilecto de Sábado, e então, de banho tomado de véspera, levantava-me da cama, vestia-me e ia perguntar se a minha mãe precisava de alguma coisa e já sabia a resposta, Não, meu querido, obrigada, e eu afinal queria era rasgar um bocado de pão para ir ao molho que se formava no tacho enquanto se transformava aquelas conchas sem jeito nenhum num manjar dos deuses se os deuses tivessem uma cozinheira como a minha mãe, não era mãe?
Não abro os armários da cozinha mas imagino a colecção de pratos e de copos desirmanados que para lá deve haver que a minha mãe guardava tudo e nunca deitava nada fora e o que estivesse bom era guardado e por isso manteve alguns pratos que já desapareceram do imaginário de toda a gente, mas eu, quando vejo conjuntos de pratos e copos de vidro verde ou castanho (se calhar é vermelho, mas não vou abrir a porta do armário para confirmar) onde quer que seja sinto uma enorme empatia porque ter aqueles pratos e aqueles copos é uma referencia de época e apetece-me dizer Sobrevivemos, apesar de tudo.
Passo pela mesa da cozinha, deixo o meu dedo percorrer a mesa onde comi, estudei, escrevi, onde ouvi os sermões da minha mãe e do meu pai, a mesa onde disse à minha mãe que tinha entrado na universidade e ia sair de casa, e vejo o risco que o dedo deixa ao limpar uma linha de pó que tem tombado sobre a mesa depois que os meus tombaram na vida.
Antes de sair ainda reparo na máquina de lavar louça e penso que me daria jeito que a minha está avariada e mandar reparar é quase tão caro quanto comprar uma nova e agora não é boa altura para estas despesas, e por mais que goste de lavar a louça à mão, às vezes é melhor não gastar tanta água e detergente e pôr a louça na máquina (é o que me dizem: Gastas muita água gás e detergente para lavar meia-dúzia de pratos).
Regresso ao corredor. Olho para o fundo, onde ficam os quartos, e onde reina a escuridão, tenho de ir abrir as janelas, e vejo-me vir lá do fundo, pequenito, bola de cautchu nas mãos, de calções e sapatilhas, gritar um Ciao, mãe! para o ar, à espera que ela estivesse atenta e ouvisse que eu ia para o terraço jogar à bola com os amigos da rua, jogávamos Benfica-Sporting, às vezes outra coisa qualquer porque não havia paridade nas equipas, e depois chegava a casa com os joelhos esfacelados, os calções rasgados, as sapatilhas rotas, e o meu pai a ralhar comigo porque estive a jogar à bola à chuva Olha a bronquite! E eu passo por mim e não me ligo. Um de nós não está ali, é só um fantasma, uma memória que se atravessa à frente e me faz pensar se não gostaria de voltar lá atrás e refazer tudo outra vez?
Suponho que não.
Caminho pelo corredor. Entro no primeiro quarto, o quarto à direita, o quarto dos meus pais, e volto a abrir a janela, as cortinas, as persianas e os vidros e deixo entrar o ar fresco da rua naquela quarto abafado e cheio de humidade, e vejo a colcha de renda, uma colcha que a minha mãe fez, uma colcha pesada, uma vez peguei-a ao colo para levá-la à lavandaria e senti-lhe o peso, mas o quarto dos meus pais é a divisão de que tenho menos memórias aqui de casa. Recordo a época em que aguardava que o meu pai saísse de casa, sentia a porta da rua a bater, e vinha deitar-me ao lado da minha mãe. Gostava de sentir o cheiro do sono da minha mãe. A cabeça enterrada na almofada do meu pai. Não sei quando é que isso aconteceu mas é uma das poucas memórias que o quarto me traz, não era costume entrar aqui, talvez quando vinha à procura de moedas ou notas perdidas nos bolsos dos casacos e das calças do meu pai, abria a porta do guarda-fatos e enfiava as mãos nos bolsos e às vezes tinha sorte, um ano foi assim que alimentei as minhas idas aos carrinhos-de-choque na Feira de Maio.
À porta do quarto ainda olho para trás, ainda vejo a senhorinha cor-de-rosa da minha mãe mas nunca a vi lá sentada, nunca lá vi roupa caída (aliás, nunca vi roupa caída em lado nenhum, cá em casa, a não ser no meu quarto, aí havia às vezes calças caídas pelo chão, sapatilhas cada uma no seu canto, meias perdidas atrás da cama…).
Estou no corredor e avanço uns passos. Estou à frente da porta do meu quarto. Deito a mão à maçaneta.
Há quantos anos não entro na minha vida de adolescente?

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/22]

Regressar a Casa, parte 03

[continuação]

Volto a olhar a janela da cozinha e a minha mãe já lá não está. Há já muito tempo que deixou de lá ir gritar por mim em diminutivo para voltar para casa, Malandro, que o teu pai já está a jantar.
Chego-me à frente, enfio a chave no fechadura e forço a porta a abrir, para trás, para dentro, e sou invadido por um terrível cheiro a mofo vindo das entranhas de uma casa que não era aberta há tanto tempo quanto o tempo da despedida. Adeus, mãe! Adeus, pai! Encontramos-nos lá, onde quer que seja.
Entro em casa e deixo a porta aberta nas minhas costas. Não há luz. Toco no interruptor mas não acontece nada. Avanço pelo corredor e viro à esquerda, entro no que era a sala e ainda será provavelmente a sala. Procuro as janelas e abro-as. As cortinas, as persianas e os vidros. Deixo entrar a luz. Deixo entrar o ar fresco. Preciso de combater esta humidade que me está a deixar maldisposto.
Viro-me para trás. Há pó por todo o lado. Vejo a televisão. A televisão fininha, lcd, em cima de um móvel comprado em tempos para suportar uma televisão grande com cinescópio. Agora parece-me estranho. A televisão parece perdida na dimensão do móvel. Há um naperon em cima do móvel. A televisão está em cima do naperon. A minha mãe era de uma época em que os napeons eram reis. Eu nunca gostei de naperons nem de bibelots nem de acumuladores de pó que não têm utilidade nem sequer estética e são só acumuladores de pó que é preciso andar a limpar e era o que fazia a minha mãe, sempre na lida da casa, a limpar o pó, a aspirar, a sacudir os tapetes, pôr os edredons e os cobertores a arejar, mudar a disposição dos móveis, de seis em seis meses entrava em casa e pensava se não estaria a entrar em casa dos vizinhos tal as alterações ocorridas e o sofá agora estava de costas para a porta e a poltrona ao canto, perto da janela e com vista para a rua, o sítio onde eu mais gostava de ter a poltrona mas que só podia usufruir quando o meu pai não estava porque aquela poltrona era a cadeira dele, era dali que via a televisão, era ali que lia A Bola quando ainda tinha paciência para ler jornais, ainda A Bola era trissemanal e do tamanho do Expresso.
Vejo ao lado o móvel da aparelhagem, a minha aparelhagem, a aparelhagem de alta-fidelidade que o meu pai comprou para mim e onde eu devorei os meus discos de vinil até à exaustão e que ainda estão, posso vê-los, na prateleira por baixo do amplificador. Aqueles vinis são os que ouvia mais, mas hão-de haver outros, outros mais, que a minha colecção era grande e devem estar numas prateleiras no meu quarto que era onde a aparelhagem estava até eu deixar de vir cá a casa e do meu pai trazer a aparelhagem para aqui, para a sala, para ele poder ouvir o António Variações (foi ele, o meu pai, que comprou os dois discos do António Variações) e a minha mãe poder ouvir os discos da Amália de quem era realmente fã, e reparo também que as colunas, uma em cada canto da sala, colunas grandes como caixotes, também têm um naperon por cima e uns objectos artísticos que tenho dificuldade em identificar, mas acabo por perceber que um deles é uma escultura moçambicana que eu trouxe quando estive lá, em Moçambique, há muitos anos, tantos anos que já não reconhecia uma coisa que tinha sido escolhida por mim para presentear os meus pais.
A cristaleira está toda suja, mas ainda consigo perceber lá dentro os copos de vidro, sim, que lá dentro da cristaleira não sei se há cristais, talvez só mesmo vidro, os copos cá de casa eram de vidro, muitos deles comprados na Marinha Grande, uma colecção, talvez completa de vidros da Ivima, com os seus piquinhos a lembrar a Casa dos Bicos, em tantas cores quanto o arco-íris, copos que durante a vida dos meus pais só viam a luz do dia em épocas excepcionais, no Natal, na Passagem de Ano, na Páscoa, num ou noutro aniversário que calhasse fazer cá em casa. E o mesmo se passava com os pratos das colecções de louça da minha mãe, coisas às quais nunca liguei nenhuma mas que ela entendia serem de valor, como um conjunto de louça inglesa estreada nas vésperas do meu casamento e, tal como o meu casamento, foi usado uma vez e guardado. Mas talvez tivesses razão, mãe, talvez eu não perceba o valor destas coisas que tu valorizavas como tu não entendias o valor das minhas coisas. Talvez tivesses razão, talvez eu gostasse, afinal, de comer as minhas refeições nesses pratos artísticos e com história em vez daqueles pratos brancos e simples e anónimos que estou sempre a partir quando me ponho a lavar a louça à mão, coisa que faço muitas vezes quando estou aborrecido, coisa que me acontece com uma certa regularidade nestes últimos anos, mãe.
Volto ao corredor e cruzo-o para a cozinha. Volto a abrir as persianas e os vidros da janela. Experimento abrir a torneira de água mas nem um fiozinho. Nem o barulho engasgado de um tubo fechado mas ainda com água na sua garganta.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/21]

Regressar a Casa, parte 02

[continuação]

Olho para a janela da cozinha por onde a minha mãe me chamava por diminutivo e vejo-a lá, nem nova nem velha, mãe, que foi o que ela foi sempre, mãe, e penso se vale a pena entrar em casa e deixar-me perder em histórias que já deviam estar mortas.
O que é que lá vou fazer? Recuperar memórias antes da casa ser vendida? Talvez lá estejam ainda os discos de vinil, os discos que nunca levei para mais lado nenhum das minhas casa por se ter intrometido o cd e o mp3 e o streaming e os vinis ficaram cá por casa nas estantes que pedi ao meu pai que fizesse, que tinham de ser fortes para aguentar o peso dos discos que foram sendo comprados ao longo de anos, primeiro timidamente nas discotecas da cidade e depois, mais tarde, vindos directamente de Inglaterra, por correio, porque cá não havia, e eu por ansioso a aguardar, e nunca mais chegavam, os discos, que as coisas às vezes demoravam a chegar e a aparecer, e era quando apareciam, e já o António Sérgio me ensinava o gosto pela diferença, o prazer de escutar sons que não escutava em mais lado nenhum e que fazia de mim um privilegiado que conhecia coisas que a maior parte dos meus amigos não conhecia e ficava muito contente quando encontrava alguém assim, um desconhecido com os mesmo gostos que eu, principalmente se fossem raparigas, e para quantas delas não fiz eu cassetes-pirata com selecções minhas das músicas que passariam a ser nossas pelo tempo que fosse, e nunca era muito tempo porque os gostos mudavam à velocidade da luz e era impossível estar parado, tranquilo, com os acenos que a vida nos dava e hoje, quando penso na calma da vida que levo hoje, na música que já não ouço e nas raparigas com quem já não namoro, pergunto se cresci como devia, se envelheci como devia, se a minha vida foi aquilo que quis que fosse ou se foi aquilo que mereci, depois de tantas cabeçadas dadas ao longo dos anos sempre a aprender, sempre a aprender, mas sempre a cometer os mesmos erros, sem perceber que as mesmas acções dão sempre os mesmos resultados, depois de fugir de casa, da cidade, do país, conhecer mundo e gente diferente com gostos e conhecimentos muito diferentes para terminar aqui, outra vez, no mesmo país, na mesma cidade, na mesma casa, a casa que foi minha, e ainda é claro, agora que os meus pais se foram, agora que eles morreram e a casa está vazia e em silêncio e eu só quero é desfazer-me dela e continuar a minha vida longe de histórias que já ficaram lá para trás e algumas delas não gostaria de lembrar, algumas delas foram esquecidas, trabalhei duro para as esquecer e agora, agora que olho para a janela da cozinha e vejo a minha mãe a chamar-me pelo diminutivo, e se eu não aparecer breve levo, talvez, umas palmadas no rabo, talvez com a colher-de-pau que as mãos da minha mãe são muito frágeis, e eu pergunto o que será feito das cassetes-pirata que nunca seguiram caminho, as cassetes-pirata que gravei e nunca foram entregues, por vergonha ou por prazo de validade, se elas ainda por lá estarão, mas gavetas da escrivaninha do meu quarto onde não entro há tantos anos mas que a minha mãe sempre quis preservar, não fosse o diabo tecê-las e eu tivesse de regressar a casa de partida, O dia de amanhã ninguém sabe!, dizia-me sempre.
Ainda terão os nomes para quem foram gravadas, as cassetes? ou a ideia de terem nomes é uma esperança que invento hoje, agora, na vã tentativa de recuperar o que não pode ser recuperado?
Talvez também esteja por lá o fato do judo que aprendi durante algum tempo, a luta não era o meu forte, não é, nunca foi, e que cor é que cheguei a atingir?, o amarelo, talvez, não sei, mas não andei por lá muito tempo, ainda me lembro bem do fato de judo com que gostava de andar vestido por casa a fingir-me mestre e com o qual cheguei a mascarar-me num Carnaval para fugir ao eterno fato de Cowboy com as calças de ganga de todos os dias, o chapéu e a pistola de fulminantes e o cinto com o coldre e a estrela de Sherife, que um Cowboy que se presasse era sempre um Sherife, comprado no Bazar das Novidades, que sempre imaginei muito maior do que na realidade era, mas foi num ano muito frio e acabei por apanhar uma pneumonia porque a parte de cima do fato estava sempre a abrir-se e acabei constipado e com os meus pais a terem de me levar ao hospital para saberem o que podiam fazer por mim que me viam a sofrer sem saber o que fazer.
Sim, mãe, tudo o que passaste para que eu não sofresse dos problemas comezinhos do mundo e agora foste embora, tu e o pai, e eu fico por cá sozinho, sem saber o que fazer, sem saber se meto a chave à porta e entro em casa ou se viro costas e vou embora.

[continua]

[escrito directamente no facebook em 2020/05/20]

Regressar a Casa

Já lá não ia desde a morte dos meus pais. Agora precisava de ir. Não precisava mesmo. Podia não pensar em tudo o que está semeado por lá, tudo o que foi semeado por lá ao longo dos anos, dos meus anos também, durante a minha infância e adolescência, todos os segredos que fui guardando em cofres impossíveis de serem encontrados, em caixas do tempo que iria abrir alguns anos depois e que esqueci, ou perdi o interesse, não sei, há alturas na vida em que somos parvos e fazemos gala dessa parvoíce, como as cidades que deitam casas antigas, casas com história, abaixo, ou as árvores, que estão sempre doentes, nunca vi árvores para adoecer como as árvores da cidade e ao longo do rio, coitadas, sempre doentes, sempre a apodrecer, sempre a fazerem tudo para serem serradas, podadas, deitadas abaixo, às vezes também é porque tiram a vista a alguém importante, ou sujam a calçada, e para que é que interessa a sombra que fazem nas pedras de basalto da cidade quando se percorre as ruas da cidade de automóvel com motorista?
Na verdade não precisava de ir lá a casa. Podia deitar fora a chave, vender a casa a quem quisesse comprar, com ou sem recheio, segredos, livros, poemas escritos aos dezasseis anos, contos que se arrastavam em folhas soltas e que um dia iriam fazer um livro, um Epitáfio à Loucura, um nome assim pomposo na arrogância da minha adolescência, e depois largados por lá, perdidos em gavetas, no meio de livros que nunca mais abri, ficaram a apanhar pó que a minha mãe nunca mexia nas minhas coisas, era eu que limpava sempre o pó aos livros, aos discos, às prateleiras que ia enfiando no quarto, era preciso acomodar sempre mais livros que apareciam assim, às carradas, nasciam do dinheiro das senhas de almoço que não comprava, dos trabalhos que prometia à vizinhança, à minha mãe, ao meu pai, para poder ler quando descobri que havia mais gente no mundo que eu e que tinham histórias fantásticas de vidas absurdas, tão longe da minha para me contarem, e são ainda alguns destes livros que ficaram por lá, Os Cinco, os Sete, As Gémeas no Colégio de Santa Clara, O Colégio das Quatro Torres, a colecção Mistério, livros que guardei para os meus filhos e foram ficando por ali, eles cresceram, não ganharam hábitos de leitura, nunca lhes cheguei a dar os livros e eles agora não servirão para mais ninguém, nem para mim que não tenho vontade de regressar à infância, uma infância em que a vida ainda podia ser uma aventura nos Rochedos do Demónio, mas ainda por lá estarão outros livros, livros para alguém mais crescido, como os livros do Harold Robbins que devorei na cama noites dentro, de lanterna em punho e a porta encostada para os meus pais não verem a luz acesa tão tarde em dias de aulas, e cadernos inteiros com desenhos e riscos e palavras soltas e nomes de miúdas, miúdas de quem gostava, algumas já nem saberei quem são, quem foram, mas devem ter sido importantes que as miúdas sempre foram importantes na minha vida, mesmo as que não me ligavam nenhuma que eu sempre gostei das miúdas mesmo as que não gostavam de mim, algumas delas vieram a gostar anos depois mas já era tarde, não era?, que o comboio só passa uma vez na estação, li esta frase estúpida não sei onde e sempre pensei que a iria utilizar um dia e ainda estou à espera desse dia.
Quantos anos passaram desde que aqui entrei pela última vez?
Lembro-me de ver a minha mãe ali à janela, naquela janela ali, a janela da cozinha, onde ela ia chamar-me, chamar-me pelo meu nome em diminutivo, em altos berros para toda a rua e todo o bairro saberem que ela andava à minha procura, malandro, e onde é que eu andaria? Por aí, mãe, por aí.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/19]

No Início de um Novo Normal

O tipo foi para lá de madrugada. Estava ansioso. Farto de estar em casa com a mulher e os filhos, enfiado num T2 num bairro residencial onde só havia casas como a dele, gente como ele, famílias como aquela com quem estava confinado. Queria sair. Ver outras pessoas. Falar com outras pessoas. Trabalhar. Gostava do que fazia e fazia-o com gosto. Há gente que nunca encontra prazer nas coisas que faz, durante toda uma vida, e faz porque precisa de comer e pagar contas. Ele fazia precisamente o que gostava. Mas dois meses depois, dois meses fechado em casa sem poder exercer o seu trabalho, era demais. Estava a começar a dar em doido. A falar torto com a mulher. A ignorar os filhos, precisamente quando eles começavam a dar mostras de mais precisarem dele e do seu carinho.
Então, hoje de madrugada, levantou-se em silêncio. Tomou banho. Mexeu uns ovos. Fez umas torradas. Café fresco. Tomou o pequeno-almoço na cozinha a olhar pela janela a cidade ainda nocturna. Deu um beijo na mulher. Nos filhos. Deixou-os a dormir. Pegou no carro e foi até ao restaurante.
Antes de lhe meter a chave, olhou a porta de madeira forte, a montra com as cortinas corridas, o letreiro de néon que tem estado ligado todas as noites mesmo com o restaurante fechado, inspirou fundo e benzeu-se. Meteu a chave, abriu a porta e entrou.
Teve a sensação de estar a entrar num sítio desconhecido. Um sítio novo. Um sítio vazio. Cheio de vibrações, boas vibrações claro, mas vazio.
Viu as horas. Ainda era cedo. Muito cedo.
Colocou o Fairytales of Slavery dos Miranda Sex Garden nas colunas do restaurante, mais alto do que o que costuma estar com clientes e foi olhando para o trabalho que andaram, ele e os seu empregados, a finalizar na última semana. Dava um toque na perna de uma mesa. Alinhava as cadeiras que estavam mais que alinhadas. Verificou o stock de máscaras, de luvas, de viseiras, de calçadeiras para os sapatos, de álcool-gel, de desinfectante para as mesas, cadeiras, maçanetas, chão da sala, da casa-de-banho, do interior do balcão. Mediu o espaço entre as mesas e voltou a medir. Organizou, de novo, todas as garrafas de bebidas na parede atrás do balcão com o rótulo virado para a frente.
Foi buscar o cinzeiro de pé-alto e foi colocá-lo na rua, ao lado da porta de entrada. Depois pensou melhor, era ainda muito cedo, e voltou a colocar o cinzeiro de pé-alto no interior do restaurante.
Olhou em volta a perscrutar o espaço enquanto batia com a mão na perna ao som da música. Estava ansioso, mas contente.
Viu as horas. Já eram horas suficientes. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Sim, os frescos já vinham a caminho. Descansou.
Foi a um móvel e pegou numa pilha de folhas de papel. Eram as ementas. Uma despesa enorme fazer as ementas descartáveis. Todas iguais. Depois os pratos do dia escrito no pequeno quadro de xisto em cima do balcão.
A porta da rua abriu-se e entrou alguém. O primeiro empregado a chegar. Antes da hora. Também ele ansioso. Também ele desejoso de trabalhar. Cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e grunhidos que ambos entenderam. O empregado fez-lhe sinal para a cara. Ele percebeu. Foi pôr uma viseira. A música continuava a tocar. Os outros empregados começaram a chegar. Os frescos também. Toda a gente começou a fazer o que tinha de fazer. Na cozinha, havia quase um ambiente de festa, mesmo se havia um cuidado, por vezes excessivo, em não se tocarem. Todos estavam contentes com terem voltado ao restaurante. Havia até quem dançasse nas suas voltas pela sala e pela cozinha enquanto se afinava tudo ao pormenor para o primeiro cliente.
E, então, eu entrei.
Fui o primeiro cliente do dia. E já eram catorze horas.
Até aquele momento, ainda não tinha lá entrado ninguém. Eu só soube isso depois.
Naquele momento, entrei. Fui à casa-de-banho lavar e desinfectar as mãos. Indicaram-me uma mesa. Uma mesa minimal num espaço deserto. Não havia mais ninguém a comer. Pedi um dos pratos do dia e vi a azáfama a tomar conta de toda a gente. Toda a gente precisava de se sentir a contribuir para o dia, para o primeiro dia, para o início de um normal que havia de ser outro mas que se iria tornar norma.
Enquanto esperava pelo prato do dia, que não haveria de demorar, bebi um copo de vinho tinto de uma garrafa das pequenas do vinho alentejano da casa, e o dono do restaurante sentou-se numa mesa perto da minha, mas distante, e começou a desabafar.
Eu vim para aqui, hoje, ainda de madrugada, sabe? Precisava disto. Os clientes é que parece que não. Devem estar com medo, percebe?
Tenho andado ansioso com este dia depois de tanto tempo fechado em casa com a mulher e os filhos. Filhos pequenos, percebe? Num T2, está a ver?
E eu acenava a cabeça. Percebi que ele precisava de falar. Eu não me importava de ouvir.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/18]