O Silêncio do Amor

Já quase não falamos. Às vezes ouço-me grunhir qualquer concordância. Ela nem isso. Não é que não gostemos de estar um com o outro, que gostamos. Gostamos e muito. Ela foi o meu primeiro amor. Eu também acho que fui o primeiro amor dela. Mas ela nunca me disse e eu também nunca lhe perguntei.
Estamos juntos há tanto tempo que, por vezes, funcionamos como um só. Como se eu começasse a desenvolver uma ideia e ela a acabasse, mas a acabasse da mesma forma que eu acabaria. E vice-versa.
De manhã andamos por casa. Ela arruma coisas. Tem sempre coisas para arrumar, coisas que nunca imaginei desarrumadas, mas que ela vai arrumar. Para as coisas mais pesadas, limpar o pó, aspirar, passar a ferro, vem cá uma miúda a casa. É uma bielorrussa. Inteligente. Com estudos superiores mas, isto, isto de andar a tratar da casa de pessoas, foi o que conseguiu arranjar.
Enquanto ela ciranda pela casa a arrumar coisas, eu arquivo os recortes dos jornais que cortei na véspera. Pequenas histórias. Algumas opiniões. Memórias futuras. Depois vejo que filmes vão passar na televisão para eventualmente vermos, ou eventualmente eu ver e ela deixar-se adormecer logo no genérico inicial. Já era assim quando era nova, com a idade só apurou esta sua capacidade.
De manhã bebemos uma chávena de chá. Camomila. Tília. Ou outras tisanas que por vezes nos oferecem. Eu como um biscoito. Ou um bocado de pão torrado, mas não muito torrado por causa dos dentes. Ela costuma comer uns cereais. Eu nunca consegui gostar de cereais.
Depois ela vai lavar-se. A seguir lavo-me eu. Ela, entretanto, prepara o almoço. É a nossa refeição principal. Às vezes aproveitamos restos dos dias anteriores. Comemos pouco. Há sempre sobras. Comemos muito frango. Frango assado. Frango guisado. Frango cozido. Canja de galinha feita com frango. O frango é o mais barato. E gostamos de frango. Gostamos os dois de frango. Às vezes também comemos cavala. Também é barato. Eu não gosto muito mas ela tem o cuidado de fazer a cavala de mil-e-uma maneira de forma a que me seja mais agradável.
Chega o almoço. Almoçamos. Almoçamos em silêncio na cozinha. Por vezes olhamos para a rua através da janela. Por vezes ligamos uma velha televisão a preto e branco que temos na cozinha para ouvir as notícias. Mas já não temos grande interesse nas notícias. Depois levantamos os dois a mesa. Ela passa a louça por água e eu ponho-a na máquina. Fico com dores nas costas. Tenho de me esticar. Em seguida vamos à rua.
Até sairmos de casa ainda não falámos uma palavra. Passámos a manhã em silêncio. Sem música. A ouvir os passos lentos de um e outro a cirandar pela casa.
Na rua caminhamos devagar. Tentamos não cair. Uma queda, nesta idade, pode ser fatal. Caminhamos devagar. Vamos ao café. Eu bebo um descafeinado. Ela bebe um carioca de café. Estamos por ali um pouco. Às vezes chegam alguns conhecidos. Alguns amigos do passado, velhos como nós. Às vezes chegam os filhos desses amigos. Às vezes os netos. Um cumprimento breve. Um sorriso. Passa rápido. E voltamos ao nosso rame-rame. Às vezes os velhos ficam por ali também um bocado. Nessa altura alguém fala. Alguém fala um pouco. Não muito. Mas já é uma conversa. Às vezes pedaços de conversa. Conversas iniciadas no dia anterior, na semana passada, há muitos anos a caminho de uma discoteca, de um festival de Verão, de um jogo de futebol. Sim, também já tivemos uma vida como a de toda a gente. Também fomos a sítios. Também vimos coisas. Também lutámos por melhores condições. Também fizemos sexo. Fizemos. Agora sorrio à ideia de sexo.
Folheio os jornais do dia. Às vezes peço para rasgar uma folha quando a notícia me interessa e levo a folha para arquivar no dia seguinte. Olhamos as pessoas que passam. Os miúdos cheios de vida. As miúdas muito bonitas. Todos com muito cabelo revolto.
O tempo começa a arrefecer. Compramos pão e voltamos para casa. Ela deita-se um pouco sobre a cama. Eu coloco-lhe uma mantinha por cima. Às vezes adormece. Eu sento-me no sofá da sala. Ligo a televisão e, normalmente, deixo-me adormecer.
Depois jantamos qualquer coisa leve. Uma sopa. Uma torrada. Uma peça de fruta. Depois vemos um filme. Ela adormece no genérico inicial. Por vezes lá consegue ver um filme do início ao fim. Se for um filme com acção. Ou uma história de amor.
No fim do filme vamos para a cama. Vestimos os pijamas. Passamos pela casa-de-banho. Lavamos os dentes. Ela penteia-se. Eu não tenho nada para pentear. Tomamos os comprimidos que temos para tomar. Ela deita-se. Eu dou uma volta pela casa. Para ver se está tudo desligado, fechado, trancado, e quando regresso ao quarto, para me deitar ao lado dela, já ela está a dormir. Mas mal me sente deitar ao lado dela, vira-se e abraça-me. O abraço não vai durar muito tempo porque depois terá de se virar para o outro lado, e dormimos de costas um para outro porque é a melhor maneira de conseguirmos dormir. Mas aquele primeiro momento, já adormecida, em que me abraça, já vem desde o início dos tempos. E nunca não aconteceu. E eu gosto. Gosto que ela me abrace por aqueles dois ou três minutos antes de ser virar para o outro lado.
Chegámos ao fim do dia. De mais um dia. Poucas palavras trocámos um com o outro, mas não foi preciso. Já falámos sobre tudo o que tínhamos para falar. Já discutimos tudo o que tínhamos para discutir. Já sabemos o que o outro pensa. Mas só estamos bem assim. Um com outro. Um a caminhar ao lado do outro. Um a almoçar ao lado do outro. Um deitado ao lado do outro, mesmo que de costas voltadas.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/14]

Uma Vida Simples

Simplicidade. É ao que reduzi a minha vida. À simplicidade.
Mudei de casa. Aluguei um T1. Um quarto, uma sala com uma kitchenette e uma casa-de-banho com polibã. Duas janelas para a rua com vista desafogada. Vejo, ao fundo, a cidade.
Vendi todos os móveis. Os que não consegui vender, ofereci à Remar. Fiquei com o colchão da cama e um estrado com pernas. Dois conjuntos de lençóis. Um edredão e uma manta. Uma mesa e duas cadeira. Uma panela. Dois pratos. Duas tigelas para sopa. Dois conjuntos de talheres. Uma colher-de-pau. Uma faca de serrilha para cortar o pão. Uma faca de corte. Uma tábua de plástico para cortar coisas. Uma saca de pano. A kitchenette já tem um pequeno fogão de placa de indução. Um frigorífico pequeno, com uma gaveta pequena para congelar. Há também um esquentador inteligente mas que só espero usar no Inverno.
Vendi toda a minha roupa. O que não consegui vender, ofereci à Cruz Vermelha. Fiquei com dois pares de calças. Duas t-shirts. Duas sweat-shirts. Uma camisola. Quatro pares de meias. Quatro cuecas. Um casaco de meia-estação e um grande, de Inverno, quente. Fiquei com um par de sapatilhas, umas botas e uns chinelos de borracha, de enfiar entre os dedos.
Fiz um contrato com uma cabeleireira da cidade. Vendo-lhe o meu cabelo, quando o corto, uma vez por ano.
Vendi o carro. A mota. A bicicleta. O skate. A televisão. A alta-fidelidade. A máquina fotográfica. A Lomo. A câmara de filmar. Vendi os livros. Todos os livros, com excepção dos livros do Philip Roth e do Alberto Pimenta que esses vou querer reler para o resto da minha vida. Vendi os discos de vinil. Os CDs. Os DVDs. As bandas-desenhadas. Fiquei só com A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt. Vendi tudo o que não pudesse transportar comigo se tivesse que partir, rápido, com uma mochila às costas.
Deixei de fumar. E se me custou! Deixei de beber álcool. Qualquer tipo de álcool. Mesmo o vinho tinto. O que me custou! Deixei de comer fritos. Passei a comer sopa. Muita sopa. Um frango assado de vez em quando. Pão com manteiga é a minha dieta. E fruta. E legumes.
Fiquei com o computador e o telemóvel.
Deixei de ver futebol. Mesmo os jogos do Benfica. E foi, talvez, o mais difícil de fazer, largar assim os jogos do Benfica. Tenho medo da ressaca.
Deixei de ir ao cinema. Ao teatro. A concertos. Deixei de comprar livros. Discos. Filmes. Descarrego música e filmes ilegalmente em torrents da internet para não morrer estúpido e porque o que quero ver nunca aparece cá pela cidade. A cidade só nos dá aquilo que acha que nós queremos ver, não aquilo que nós queremos realmente ver. Muito menos se forem poucas pessoas a quererem ver. Larguei a televisão. Não vejo mais os telejornais. De nenhuma estação. Nem os comentários do Luís Marques Mendes.
Passeio a pé pela cidade. Procuro os poucos jardins ainda existentes. Tento entrar nas redes sociais mas o sinal de wi-fi da rede pública é miserável.
Deixei de frequentar os centro comerciais. Mesmo os da cidade. Não entro nas lojas dos chineses nem das de 1€. Vou às lojas de rua. Compro o que necessito nas mercearias resistentes. É chato porque é um pouco mais caro. Mas a fruta sabe-me a fruta. E as senhoras que me atendem sabem o meu nome.
Faço todos os trajectos a pé. Só quando tenho de sair da cidade é que vou de autocarro, carreira, camioneta. Tudo isto porque não há comboios na minha cidade. E quem disser o contrário, estará a mentir.
Fui entregar os gatos e os cães ao canil municipal. Não sei se fiz bem ou mal. Se calhar fiz mal. Mas não tinha outra opção.
Agora levo uma vida simples. Tão simples que já me perguntei Que raio é que faço aqui? Mas vou aguentando.
Em dias de chuva ou de sol, chego-me à janela a apreciar as mudanças na cidade visto aqui de cima. E nessa altura sinto falta do cigarro entre os dedos e um copo de vinho tinto nas mãos. Mas resisto. Vou resistindo.
Escolhi o meu caminho. A simplicidade.
Larguei a família os amigos e as amantes para me livrar dos vícios e das necessidades que o contacto com os outros obriga. Agora estou só comigo. Levo uma vida simples. Não sei para o que é que me servirá, mas deverá servir para alguma coisa.
Para já estou mais magro. Já tive de mandar fazer mais dois furos no cinto. Não sei exactamente que peso tenho porque não tenho balança em casa e, quando vou à cidade, não vou propriamente à procura de uma farmácia para me pesar. Na verdade vou à procura de uma banco à sombra de uma árvore para ler umas páginas soltas do Bestiário Lusitano do Alberto Pimenta. E aguentar a passagem do tempo. Um dia a seguir ao outro. E ainda aqui estou. Na terceira rocha a contar do sol.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/11]

Fumar um Charro Enquanto Tomo Banho

Cheguei tarde a casa. Cheguei cansado. As palestras exigem muito de mim. Desgastam-me. Quando chego ao fim de uma apresentação sinto-me vazio.
Entrei em casa. Ela estava sentada no sofá. A televisão estava desligada. O que raio é que fazia sentada no sofá com a televisão desligada? Nem um livro aberto sobre os joelhos. A lareira estava acesa. À frente, na mesa de apoio, um copo com qualquer coisa. Talvez whiskey.
Passei por trás dela. Baixei-me e beijei-a na cabeça. Fiz-lhe uma festa nos cabelos. Uma festa suave com a mão que fui deixando para trás enquanto me afastava. Vou tomar banho, disse-lhe. Ela acenou com a cabeça.
Entrei na casa-de-banho. Abri a janela. Senti o ar gelado da cidade entrar e agarrar-se ao meu corpo. Despertou-me um pouco. Gosto de sentir frio quando vou entrar no duche quente. Despi-me. Entrei na banheira e liguei o chuveiro. Deixei-me estar ali por momentos, sem me lavar, só a sentir-me fustigado pelos jactos de água quente que saíam disparados pelos buracos do chuveiro.
Ela entrou na casa-de-banho. Estranhei. Ela nunca entrava na casa-de-banho quando eu lá estava. Ela não gostava que eu entrasse na casa-de-banho quando ela lá estava. Muito menos se estava no duche. E nunca se virava de costas. Dizia que não queria que eu lhe olhasse para o rabo. E tapava-se com as mãos. Tapava tudo aquilo de que sentia vergonha. Eu ria-me e dizia-lhe que gostava dela, do corpo dela e que gostava de a olhar, mas ela gritava, gritava comigo, gritava-me e mandava-me sair. No início chegou à histeria. Berrava-me. Estava algum tempo zangada comigo e não me falava durante alguns dias. Depois, com o passar do tempo, lá passou a acalmar. Mas nunca gostou que eu a visitasse na casa-de-banho. Coisa que eu gostava de fazer. E nunca deixei de o fazer.
Estranhei vê-la entrar pela casa-de-banho.
Eu estava debaixo do chuveiro a absorver o calor da água quente. Ela baixou a tampa da sanita e sentou-se lá em cima. Cruzou as pernas. Eu pus champô no cabelo. Esfreguei. Ela começou a fazer um charro. Outra novidade. Normalmente era eu que os fazia. Ela só fumava. Mas ali estava ela, na casa-de-banho, sentada na tampa da sanita, a fazer um charro. Eu ensaboei o corpo. Tinha um sabonete Patti. Gosto do cheiro deste sabonete. Ela acendeu o charro. Eu comecei a tirar o champô do cabelo e, de seguida, também o sabonete do corpo. Ela estava a fumar o charro. Levantou-se e chegou o charro à minha boca. Eu dei uma passa. Ela voltou a sentar-se no tampo da sanita com o charro nos dedos. Eu desliguei o chuveiro. Peguei na toalha e comecei a limpar-me.
E, então, ela disse Vou-me embora. E eu pensei que estava cansado mas estava disposto a ir com ela e disse-lhe Espera um pouco que vou contigo, fosse lá para onde é que ela ia. E ela insistiu Vou-me embora. Eu já estava seco, larguei a toalha sobre o lavatório e voltei a dizer-lhe Também vou. São cinco minutos. Mas ela levantou-se, deu uma passa no charro e depois colocou-o na minha boca. Eu puxei uma passa. Ela saiu da casa-de-banho e deixou a porta aberta. Estava a puxar uma segunda passa no charro quando ouvi a porta da rua a abrir e a voltar a fechar-se.
Olhei para o espelho mas estava embaciado e não me vi lá reflectido. Puxei mais uma passa. E reparei que a escova dos dentes dela não estava no copo das escovas de dentes.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/07]

Os Almoços com a Minha Mãe

Não era só aos Domingos. Nem era sempre aos Domingos. Mas era muitas vezes aos Domingos. Eu telefonava de véspera à minha mãe e dizia-lhe que a ia buscar no dia seguinte para irmos almoçar fora. Ela gostava de almoçar fora. E gostava muito mais ainda de almoçar fora comigo. Gostava de se amparar no meu braço, como fazia com o meu pai. E depois dizia às moças dos restaurantes que eu era o namorado dela. É bonito, não é? perguntava às moças, que riam, e eu corava de vergonha e dizia baixinho Oh, mãe!
Às vezes ia com ela à Barosa e partilhávamos uma picanha. Uma dose de picanha vinha com quatro fatias jeitosas de picanha, batata-frita, arroz branco, feijão preto e uma salada de tomate, a que a minha mãe acrescentava sempre o pedido de Um bocadinho de alface, se faz favor! Uma dose de picanha, que era para uma pessoa, chegava para nós os dois. Às vezes a minha mãe ainda conseguia levar uma fatia de picanha para o jantar. Ali, na Barosa, mas não só, também à volta da cidade era assim, em quase todo o lado ali à volta, as doses eram cavalares e enfartavam brutos.
Nesses dias em que almoçávamos no D. Duarte, na Barosa, sentados frente-a-frente, eu bebia uma imperial e ela bebia um panaché. Comíamos uns bocadinhos de pão tostado com pasta de atum enquanto esperávamos pela picanha, que demorava sempre mais que o franguinho que estava sempre a sair porque também vendiam para fora e era uma fila que se juntava ali no parque de estacionamento a partir das onze da manhã que quem não conhecesse o local julgava tratar-se da missa das onze.
Nunca fazia reserva de mesa. E, no entanto, a partir do meio-dia já era difícil arranjar. Ao meio-dia já havia gente a almoçar. As mesas das duas salas ou estavam ocupadas ou reservadas, com as mesmas mesas reservadas para horas diferentes e lá tinha eu de fazer o choradinho, Só para duas pessoas, somos rápidos, e a mesa a ser desencantada com um passe de mágica, junto à enorme janela que dava para o campo e que a minha mãe se arregalava de olhar. Principalmente em dias de chuva Chove, chove que é necessário, coitadas das hortaliças.
Enquanto trincávamos os pedacinhos de pão tostado com pasta de atum e azeitonas banhadas em azeite e alho, eu despejava a imperial e pedia outra e ela dizia Mas será que é possível? Já bebeste tudo? Não sei a quem sais! A mim não é, de certeza! E ao teu pai também não que ele não era muito de beber. E depois contava-me as peripécias da semana. O que se passava na novela que andava a ver, mas andava a ver sem grande entusiasmo que os actores eram sempre os mesmos e as histórias também. Que se deitava cedo porque tinha frio e na cama estava mais quentinha principalmente porque encontrara o cobertor castanho, grosso e muito fofinho que já não se lembrava onde é que o tinha guardado. Ou que se levantara a meio da noite para ir à casa-de-banho e acabou a sentar-se um pouco à janela a ver quem passava lá em baixo, na rua, sob as iluminações de Natal Tão bonitas, este ano, devias ver! e eu a acenar a cabeça, sim-sim, enquanto empinava a segunda imperial debaixo do olhar reprovador que me lançava.
Vinha a picanha. Eu servia um prato. Cortava a picanha aos bocadinhos. Ela dizia para deixar a gordura, se ela fosse fininha, que gostava do sabor da gordura e sim, era fininha e eu deixava a gordura nos pedaços de picanha que ela comia devagar e cheia de prazer. Tínhamos duas fatias para cada um. Às vezes ela só comia uma fatia e levava a outra para casa e dizia Assim já tenho jantar! e assim já tinha jantar, cortava a fatia também aos pedaços, punha dentro de uma carcaça, acompanhava com um copo de vinho tinto e ficava satisfeita e pronta para voltar à sua dieta semanal de peixe, principalmente cozido.
Por vezes, a meio do almoço, lembrava-se de algo e dizia-me para que eu me lembrasse mais tarde Lembra-te quando lá fores a casa, abre-me a garrafa de vinho que eu não consigo, e eu dizia Sim, mãe, mas esquecia-me que a minha cabeça estava pior que a dela, mas invariavelmente ela acabava por se lembrar quando eu lá estivesse em casa e pedir-me-ia que abrisse a garrafa.
Depois perguntava-lhe se queria sobremesa mas já sabia a resposta Não me apetece doces. E tenho fruta em casa, e então eu pedia um café para mim, um carioca para ela, que o descafeinado deixava-a maldisposta e eu ainda lhe perguntava, a brincar, se ela queria uma aguardente ao qual ela me respondia Queres ver-me a dançar a valsa, é? e ria-se da sua resposta ao meu atrevimento.
No fim de almoço levava-a a casa. Normalmente levava-a por um caminho mais comprido para que visse as alterações da cidade e para que se recordasse do que era e como está. Ela ia descansar um pouco. Sentar-se no sofá, se calhar adormecer e passar pelas brasas frente a qualquer filme de acção que ela gostava de ver e que ia vendo aos pedaços que não se preocupava muito se perdia o fio à narrativa, o que ela gostava mesmo de ver eram as cenas de acção, principalmente se fossem com o Jackie Chan com quem, dizia, Farto-me de rir!

[escrito directamente no facebook em 2019/12/01]

Estou à Espera da Minha Saída

A velha alisa o cobertor e puxa a dobra do lençol. Estou todo tapado até ao pescoço. A velha tapa-me todo e mantém-me as mãos debaixo da roupa da cama para eu não lhe apalpar o cu. Velha!… Velho sou eu. Ela terá, quanto muito cinquenta anos. Velho sou eu que já passei dos oitenta. Estou velho mas ainda lhe passava a mão pelo pêlo se ela não me tivesse preso os braços debaixo do cobertor.
Tenho à minha frente o televisor ligado. Está aos pés da cama. Está a dar um qualquer programa da manhã. Se calhar com a Cristina Ferreira, acho que é ela, não é? Daqui parece-me. Não tenho a certeza. Mas deve ser. Deve estar com o som baixo, ou desligado, o que a mim vem a dar no mesmo. Para eu ouvir alguma coisa o vizinho de baixo também teria de ouvir. Então, a televisão faz-me companhia, mas sem som. Só as imagens a galopar no ecrã. Às vezes uso o aparelho, principalmente para ouvir algum disco daqueles que gostava muito de ouvir quando era mais novo. Os noticiários, não. Já não me interessa o que se passa no mundo. Este mundo já não é meu. Nem é para mim. Estou à espera da minha saída. Deve estar a chegar.
Não gosto que a velha trate de mim. Mas não tenho outro remédio, não é? No início fazia-me muita confusão. Ela ir comigo à casa-de-banho. Ela lavar-me. Ela ver o meu corpo nu. O meu corpo flácido. Cheio de manchas. Áspero. Agora já não ligo. Mas agora já não ligo a nada. Não gosto de não ligar a nada. Gostava de ainda ligar a tudo. Era por isso que, no início, lhe apalpava o cu. Ela não gostava nada que eu o fizesse. Se eu fosse mais novo… Mas a verdade é que nem a mim o tocar-lhe me despertava o que quer que fosse. Era só uma brincadeira estúpida a fingir que ainda estava vivo e com desejo. Mas não. Não estava vivo. Nem com desejo. Ainda ando por aqui, é verdade. Os meus olhos ainda piscam. Os meus pulmões ainda inspiram e expiram ar, cada vez menos, e o coração ainda bate. Mas eu já não estou aqui. Eu já morri há muito tempo. Morri no dia em que fiquei confinado a esta cama. Mesmo para ir à janela olhar a rua, tenho de ser ajudado. Ajudado por ela. Pela velha. Para ir à janela onde fumava os meus cigarros. Que saudades tenho de fumar um cigarro.
Passo os dias aqui deitado. E as noites. Durmo quando calha. Não ligo às horas. De resto, é a velha que manda em mim. Como quando ela me dá a comida à boca. Lavo-me quando ela me lava. Vou à janela quando ela me ampara. Às vezes também me leva à rua. Normalmente vou de cadeira-de-rodas, porque vou mais rápido para onde tenho de ir mas, às vezes, levo só uma bengala e ela vai ali ao meu lado, a controlar-me os passos, a ver se não me meto com as miúdas giras com quem me cruzo. Tenho saudades das miúdas giras da minha vida. Dos beijos. Da pele macia e convidativa. Foda-se para a velhice!
Agora que estou para aqui armazenado, à espera da minha vez de partir, penso muito na vida. No que vivi. No que não vivi. No que deixei por viver. Em todas as merdas que fiz às pessoas que se cruzaram comigo ao longo dos anos.
Estava à espera, no entanto, de ir vendo a minha vida a passar-me pela cabeça como uma série de Sábado à noite, episódio atrás de episódio, a recordar os momentos mais importantes da minha vida: o primeiro dia de escola; o dia em que entrei para a faculdade; o dia em que me licenciei; o dia em que me casei, pela primeira vez, depois foi mais do mesmo, uma remake em pior do que já não tinha sido grande coisa; o nascimento do primeiro filho; o nascimento do segundo; o meu primeiro filme; o meu primeiro prémio; a minha primeira viagem ao outro lado do mundo; a morte do meu pai; a morte da minha mãe; o meu primeiro neto; o segundo; o terceiro; acho que já vem aí um quarto, mas não sei se já o posso contabilizar. De qualquer forma, não é nada disso que eu recordo, quase em loop, todas estas horas que passo aqui acordado, na cama, a olhar para o tecto, para a televisão ou para a rua, através da janela, e do qual só vejo o céu azul, cinzento, branco ou preto, com e sem luzinhas de Natal, não! o que eu mais recordo é um almoço que tive com o meu pai, só os dois, sozinhos, eu e ele, em Castanheira de Pêra, e foi a única vez que almocei sozinho com o meu pai, só os dois, e ele conversou comigo como se eu fosse um adulto e não a criança que ainda era. Falámos sobre o Benfica. Sobre a União de Leiria. Eu falei sobre os Sete. Ainda não tinha chegado aos Cinco. Lembro-me de lhe ter falado de cada um dos elementos do grupo e de ele ter escutado. Ele falou-me da escola. E da importância para o meu futuro. E que devia pensar em ser médico, advogado, engenheiro, alguma coisa que me garantisse o futuro. Mas acabou por ficar contente quando viu o meu primeiro filme. E ajudou-me bastante.
Eu devia ter sete, oito anos. Era ainda uma criança. Era Verão. A minha irmã ainda não tinha nascido. A minha mãe estava internada no hospital e o meu pai tinha uma reunião de negócios em Castanheira de Pêra. Não tinha onde me deixar e levou-me com ele. Viajámos os dois pelo interior. Já não me lembro bem do trajecto, mas recordo algumas curvas, talvez. Subidas. Muito campo. Casas espalhadas pelo campo. Aldeias pequenas. Couves. Umas árvores. Muitas árvores. Muito verde.
Lembro-me de achar Castanheira de Pêra uma terra muito mais pequena que Leiria. O que é óbvio. Mas não o era para uma criança de oito anos. Fui com o meu pai a uma empresa. Esperei numa sala com uma senhora muito bonita que me ofereceu rebuçados. E depois fui almoçar com o meu pai. Ele de um lado da mesa. Eu do outro. Estávamos frente-a-frente. Só os dois. Eu pedi um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. Se fosse hoje, era um bitoque. Naquela altura era só um bife com batatas fritas e um ovo a cavalo. O meu pai comeu o mesmo que eu. Eu bebi um refrigerante de laranja. O meu pai bebeu um copo de vinho tinto. Conversámos muito. Mas o que gostei mesmo mais, o que revejo tantas vezes na minha cabeça, sou eu a almoçar sentado a uma mesa em frente do meu pai. Estou eu aqui e ele ali, ali mesmo, à minha frente. E estamos os dois sozinhos. Estamos tranquilos. E conversamos.
Nunca mais voltei a comer sozinho com o meu pai. Entretanto a minha irmã nasceu. A minha mãe nunca mais voltou ao hospital e, alguns anos mais tarde, ainda eu não tinha saído de casa, o meu pai morreu.
É nisso que penso muito agora. Agora que estou aqui deitado na cama, à espera de ir ter com ele, penso no dia em que almoçámos os dois sozinhos. Um com o outro.
Talvez um dia os meus filhos também possam ter uma lembrança assim. Ou não. Cada um tem de ter as lembranças que tiver de ter.
E a velha? Onde anda o raio da velha? Quando me vier dar a sopa vou tentar apalpar-lhe o cu. Tenho tantas saudades…

[escrito directamente no facebook em 2019/11/28]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]

O Carteiro Toca Mesmo Sempre Duas Vezes

Eu estava a beber. Ela também. Estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Ela ficou por baixo de mim. Acabou com as costas queimadas de roçar na carpete. Eu esfacelei os joelhos e os cotovelos. No fim fumei um cigarro. Nu. À janela. Ela não, que não fumava. Mas a boa disposição não durou muito. Ela tinha parado de tomar os comprimidos para não perder a libido e não me perder. Começou a enervar-se. Primeiro foi o cigarro. O fumo do cigarro. Depois o estar nu à janela. Zangou-se comigo. Levantou-se uma discussão feia. Nem parecia que tínhamos estado tão bem alguns minutos antes. E pôs-me fora de casa. Assim. Num estalar de dedos. Põe-te a andar! disse.
Eu fiz uma pequena mochila e saí de casa.
Sentei-me num banco de jardim no pequeno largo em frente a casa. Dali eu via as janelas. De casa ela via-me ali em baixo.
Raios partam a gaja! pensava eu enquanto acendia um cigarro e ia olhando para a janela de casa dela. Não via nada. Nada de nada. As cortinas tapavam tudo. Nem me via nu, à janela, a fumar um cigarro depois de ter feito amor com ela.
Veio a noite. Deitei-me no banco. Enrolado sobre mim próprio. A cabeça sobre a mochila. Para onde é que havia de ir? Não tinha dinheiro para um hotel. Não ia para casa da minha mãe. Fiquei ali. No banco de jardim. Frente à casa dela.
Estava com fome. Mas acabei por adormecer.
Fui acordado de madrugada. Já se via o dia clarear atrás da montanha que rodeava a cidade. Fui acordado com o telemóvel a tocar. Era ela. Anda para casa! dizia.
E eu fui para casa. Para casa dela.
Mas isto voltou a acontecer mais vezes. Ela voltou a não tomar os comprimidos. Bebíamos cada vez mais. Passávamos os dias nus a andar por casa. Ela trabalhava em casa. Eu estava sem trabalho. Bebíamos e comíamos. E fazíamos sexo. Dançávamos. Dançávamos muito. Dançávamos nus, enrolados um no outro. Às vezes estávamos alguns dias sem tomar banho. Íamos para a cama. Depois para o sofá. Para a mesa da cozinha. À porta da rua a ouvir o elevador a subir e a descer. Também aconteceu no duche, numa das poucas vezes, nesse período, em que tomámos banho.
Durante essa época fui posto na rua mais três ou quatro vezes. De todas as vezes ela acabava a mandar-me subir. E eu era bem-mandado. Saía de casa quando ela me mandava embora. E voltava a subir quando ela me chamava. Foi um período um bocado esquizofrénico. Muito amor. Muito ódio. Muito sexo. Muita loucura.
Este foi um período muito estranho. Bebia muito. Ela também. Eu fumava. Ela não, não fumava cigarros. Mas acompanhava-me nas ganzas. Nessa altura fazíamos grandes banquetes. Experimentávamos cozinhados com o que havia lá por casa e, normalmente, acabávamos no chão da cozinha, um em cima do outro, às vezes violentamente, a tentar descobrir até onde é que conseguíamos ir. E fomos muito longe. E fomos, por vezes até, demasiado longe. Mas não quero falar sobre isso.
Ela continuava sem tomar os comprimidos.
A última vez que me mandou embora eu fui, mas dessa vez não fiquei no banco de jardim. Também, já era Inverno, estava frio e ameaçava chuva. Ganhei coragem e fui para casa da minha mãe. O telefone voltou a tocar de madrugada. Mas dessa vez não atendi. E durante essa semana, nunca atendi o telefone. E depois, as chamadas dela foram espaçando-se no tempo. Até se extinguirem por completo.
Eu acabei por arranjar um trabalho. Continuei a viver em casa da minha mãe. Afinal, não estava lá mal.
Hoje estava no Pingo Doce, um pequeno Pingo Doce que existe ao pé de casa da minha mãe, estava a comprar umas cavalas para ela cozer (ela gosta de cavalas cozidas com feijão verde) quando a vi. Ela estava parada, ao lado dos congelados, a olhar para mim enquanto eu pedia à senhora do supermercado para amanhar umas cavalas.
Ela tinha uma garrafa de Mouchão nas mãos. E disse Olá. Eu fiquei a olhar para ela. Para ela e para a garrafa de Mouchão. Foda-se! pensei. Larguei as cavalas e o cesto com as compras que estava a fazer para a minha mãe e saí com ela do supermercado.
Fomos para casa dela.
Eu comecei a beber. Ela também. Já estávamos alegres. Bem-dispostos. Estávamos em casa dela. Ela começou a despir-me. Eu despi-a. Caímos os dois no chão da sala. Eu levantei-me e vim até à casa-de-banho. Ainda cá estou. Queria ir-me embora. Não devia ter vindo. Não devia ter vindo para casa dela. Não quero voltar a passar pelo mesmo. Eu estou nu aqui dentro. Aqui na casa-de-banho. Ela está nua na sala. À minha espera. E eu quero ir-me embora. Mas não sei como.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/23]