Queria Voltar para a Cama

Senti-me sacudir. Abri os olhos. Era ela. Estava com a mão no meu ombro. Tinha acabado de me sacudir suavemente. Viu-me abrir os olhos e disse Acorda!
Eu acordei. Ela ajudou-me a sentar na cama. Abriu as cortinas das janelas e libertou a luz do sol que me cegou momentaneamente.
Há quanto tempo não via a luz do sol?
Ela aproximou-se de mim e disse Vamos sair. Não sei como é que a minha cara expressou o meu desapontamento, mas ela sorriu e disse E não há discussões!
Ajudou-me a levantar da cama. Primeiro uma perna. Depois a outra. Os pés enfiados nos chinelos. Depois o corpo. Upa! E foi comigo até à casa-de-banho. Eu conseguia caminhar, arrastando um pouco os pés, é claro, mas conseguia caminhar. E levava a mão sobre o ombro dela para me equilibrar.
Mas eu queria era voltar para a cama.
Despiu-me o pijama. Ajudou-me a entrar dentro da banheira. Eu esperei, encostado à parede, enquanto ela colocou o banco dentro da banheira, em cima do tapete. Eu sentei-me. Ela ajudou-me. Ligou a mangueira do duche. Temperou a água. Deu-me o chuveiro para as mãos e saiu da casa-de-banho. Deixou-me sozinho para me conseguir lavar à minha maneira e não me sentir pior do que já sentia.
Quando sentiu o esquentador a desligar, veio buscar-me. Ajudou-me a sair da banheira. Secou-me o corpo com uma toalha de algodão já usada (não gosto de toalhas novas, não aderem). Amparou-me no regresso ao quarto. Perguntou-me o que eu queria vestir. Foi buscar as roupas e ajudou-me a vesti-las.
Depois saímos. Saímos de casa. E eu queria era voltar para a cama.
Entrei no carro com a ajuda dela. Depois entrou ela. Pôs o cinto. Ligou o carro. Perguntou Tens fome? E eu acenei a cabeça, na esperança que ela não notasse a minha concordância. Ligou a rádio e arrancou.
Sorri quando vi os arcos dourados. Já nem me lembrava da última vez que tive o prazer de comer um hambúrguer com as mãos, e os molhos a caírem pelos cantos da boca e o gás da Coca-Cola a fazer-me arrotar. Olhei para a escadaria e pensei que não ia conseguir subir aquilo. Mas ela foi directa ao McDrive. Para mim um McRoyal Cheese. Para ela um McBacon. Batatas fritas com ketchup para os dois. Coca-Cola para os dois também. Ela arrancou o carro mas parou logo ali, no parque de estacionamento, de frente para a estrada. Eu via os carros a passar à minha frente. Sentia-me num Drive In. A estrada era o ecran.
Estava calor. Abrimos os vidros do carro. Passava uma pequena aragem. O cheiro das batatas fritas ia embora. Trincava com prazer o hambúrguer. Lambia os molhos dos dedos. Sorvia a Coca-Cola. Ia olhando para ela. O prazer não era o mesmo que o meu. Mas notava-lhe a alegria de me ver assim, com este ar de satisfação. Quando acabei de comer, amarrotei tudo dentro do saco de papel. Ela também. Saiu do carro e foi depositar os sacos no lixo. Eu estava contente de ter saído de casa. Mas, agora, agora eu queria era voltar para a cama.
Ela arrancou com o carro. Meteu-se na auto-estrada e levou-me até à Nazaré. Fizemos a marginal de carro. Eu ia olhando tudo aquilo que já não via há tanto tempo. Subimos ao Sítio. Depois continuou para norte da Praia do Norte. Parou numa pequena arriba solitária. Não havia lá mais nenhum carro. Abrimos de novo os vidros do carro. Deixei-me inebriar pela maresia. Aquele cheiro da Nazaré é único.
Ela fumou um cigarro. Deixou-me dar uma passa. Depois sorriu para mim e disse Está calor! e sorriu. Saiu do carro, sempre a olhar para mim e a sorrir. Depois começou a correr e a descer a arriba. Deixei de a ver. Endireitei-me no banco para a procurar. Descobri-a já lá ao fundo, na praia, a acenar um adeus, e a despir-se enquanto corria, às vezes de frente, a despir-se, às vezes às arrecuas a dizer-me adeus. As peças de roupa iam ficando lá para trás, no caminho. As calças. A t-shirt. As meias. Não via as sapatilhas. Talvez tenham ficado fora do meu campo de visão. O soutien. As cuecas. Quando tirou as cuecas fê-las rodopiar por cima da cabeça e mandou-as para longe. Virou-se para mim, nua, abriu os braços e riu muito. Depois virou-me costas, foi a correr até ao mar e mergulhou na primeira onda que encontrou.
Vi-a a nadar por momentos, em frente.
Depois pensei E se ela não volta?
Eu queria voltar para a cama.
Não, não queria. Queria vê-la, ali assim, ao pé de mim. Nua. Molhada. Salgada pelo mar. Desejável. Não, eu já não queria voltar para a cama. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/16]

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Ninguém Sabe o Quê, mas Algo se Passa!

Ela entrava e saía de casa em silêncio. Se ainda tinha voz, usava-a fora de casa. Já não a ouvia dizer nada há mais de dois anos. Dois anos nisto. Dois estranhos a viver na mesma casa mas vidas diferentes em casas diferentes.
Cada um de nós tinha o seu quarto. Cada um de nós tinha a sua casa-de-banho. A minha era no quarto. Eu fiquei com a suite. Ela é que saiu do quarto. Da cama. Da nossas vidas. Mas quando estava em casa sozinho, ia à casa-de-banho dela mijar. Às vezes mijava para cima do papel higiénico.
Todas as outras partes da casa eram de quem já lá estivesse. Quem chegasse depois, enfiava-se no quarto.
Houve uma altura em que me esqueci do nome dela.
Ela saiu do quarto, mas não tinha para onde ir. Eu muito menos. Ficámos ambos em casa. Mas ela ignora-me. Eu ignoro-a. Nunca pensei sobreviver a isto. Mas, ao fim de algum tempo, habituei-me. Ela também.
Eu nunca trouxe ninguém cá para casa. Também não tinha ninguém para trazer. Não sou muito dado às pessoas. Fujo. E acho que ainda gosto dela. Mas não tenho a certeza. Na verdade não sei muito bem. Ela também nunca trouxe ninguém cá para casa. Pelo menos que eu percebesse. E eu percebia. Passo a maior parte da minha vida aqui, em casa. Entre o quarto, a sala e a cozinha. Ela sai mais. Mas não muito mais. Lê mais que eu. Eu vejo mais televisão. Programas de merda. Gosto dos programas da tarde. Gosto daquelas conversas estúpidas sem sentido nem utilidade. Também gosto dos documentários que passam a altas horas da manhã. Sobre jornalistas infiltrados no KKK, na Máfia, na Aurora Dourada. Ela às vezes ouve música que eu ouço distante lá no quarto dela. Ela não conhece nada de música. Era eu quem lhe mostrava as coisas de que vinha a gostar. Quem é que lhe andará a mostrar músicas? É melhor nem pensar nisso! Fico com azia!
Com tanto silêncio a que já estava habituado em casa, assustei-me quando a ouvi perguntar O que é isto?
Ela estava ali. Debruçada sobre mim. Sussurrava qualquer coisa ao meu ouvido. Eu virei-me na cama. Ergui-me. O quê?, perguntei. E ela disse Não ouves? E eu insisti Não ouço o quê?. E era estranho ouvir a voz dela. Já não ligava aquela voz àquela cara, àquela boca, àqueles lábios. Ouve! dizia ela. Toma atenção! E eu tomei atenção. Mas não ouvia nada. Fiquei assim um momento. Um momento que me pareceu enorme e, quando já estava a desistir de tomar atenção, ouvi. Não sei bem o que ouvi, mas ouvi. Ela tinha razão. O que era aquilo?
Levantei-me de um salto. Fui até à janela. Ela veio atrás de mim. Abri os estores. Havia bolsas de luz no céu. Como se fosse fogo-de-artifício, mas que durava muito mais. E não fazia barulho. O barulho que se ouvia era outra coisa, mas não conseguia perceber o quê. Havia mais gente como eu na janelas e varandas a tentar perceber o que se estava a passar. Havia gente na rua. Era de madrugada, mas havia muita gente na rua. Gente a tentar sair da cidade. Começavam a arrancar carros. Motas. Camiões. Trotinetas. Havia muita gente a ir embora. Havia muita gente a pé. Não sei para onde iam. Só sei que iam embora dali. Olhei para o lado e vi o meu vizinho. Não sabia que tinha um vizinho. Estava tão aparvalhado quanto eu. O que é que se passa?, perguntou! Eu encolhi os ombros. Voltei para dentro de casa. Ela estava parada no meio da sala às escuras. Olhava para mim. Estava assustada. Eu assustei-me com ela. Por a ver ali. Já não estava habituado a vê-la por ali. Está toda a gente a sair da cidade, disse. E ela perguntou E nós? Também vamos? Eu não sabia o que responder mas disse Acho que sim! E como?, voltou a perguntar. Nós não tínhamos carro. Vivíamos na cidade. Andávamos de transportes públicos, de táxi, de uber. Quando saíamos íamos de autocarro, de comboio, de avião. Nunca precisámos de um carro. Vamos de bicicleta! disparei logo. Tínhamos duas bicicletas de quando achávamos que éramos ecologistas e jovens e desportistas. Ainda deviam estar em condições. Arranja uma mochila que consigas transportar às costas. Coisas de primeira necessidade. Alguma comida. Vou fazer o mesmo. E fomos. E quando estávamos prontos saímos de casa. Fechámos tudo. Descemos à garagem. Fomos pelas escadas. Evitámos o elevador. Encontrei logo as bicicletas a um canto. Tirei-lhes as teias-de-aranha. Soprei o pó. Dei umas bombadas nos pneus que estavam vazios, mas não estavam furados. E perguntei-lhe Consegues? E ela disse Sim.
Saímos da garagem. Do prédio. Fizemos a rua. As ruas. Saímos da cidade. Nós e outros como nós. Íamos atrás uns-dos-outros. Ninguém sabia muito bem para onde. Para fora da cidade era uma certeza. As grande bolsas de luz pareciam concentrar-se sobre a cidade. Os sons que não conseguia identificar também estavam sobre a cidade. Notámos isso à medida que nos íamos afastando.
Eu ia sempre de olho nela. A ver se estava tudo bem. Desmontámos algumas vezes nas subidas. Levámos as bicicletas à mão. E fomos.
Ainda estamos a ir. Encontramos pessoas a quem perguntamos O que se passa? Não sei! é a resposta. Ninguém sabe. Mas vamos indo.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/07]

O que É que Eu Hei-de Fazer?

Agarro-me ao espelho da casa-de-banho como se fosse a coisa mais importante do mundo. Passo-lhe a mão por cima para tirar o embaciado provocado pelo banho, mas não consigo grande coisa. A mão tira o embaciado mas cria um manto de centenas de gotinhas de água que tapam o espelho de igual forma. Pego na toalha das mãos e esfrego o espelho com ela. Melhor. Mas não está completamente limpo. Aproximo a cara. Vejo as olheiras. Os olhos amarelos. Os pêlos brancos da barba mal crescida. Vejo alguns pontos negros. Mas não os espremo. Vejo os lábios gretados. Os cantos da boca infectados não sei como nem porquê. Os dentes nunca foram muito brancos, mas estão cada vez mais cinzentos. É o tabaco. Devia fazer uma destartarização, penso.
Olho-me ao espelho e penso ainda As merdas que faço quando não estou a trabalhar.
Largo a cara. Vou à janela, nu, e deixo o frio deste Agosto em plenas alterações climáticas cortarem-me o corpo. Sinto um arrepio. E gosto.
Visto uns calções. Uma t-shirt. Calço uns chinelos.
Faço café na cafeteira. Gosto do cheiro do café de manhã. Mesmo que já seja quase meio-dia. E mesmo que o café seja uma merda cheia de chicória.
Bebo o café à janela.
Ainda há pessoas na rua, penso.
Eu estou em casa. A Estação de Serviço só funciona no dias pares. Duas horas por dia. Dois empregados de cada vez. E um grupo de fuzileiros para acalmar os clientes desesperados por gasolina.
Passo a maior parte do tempo em casa. Eu e muita gente.
Venho à janela. Olho a rua. Coço os tomates. Fumo um cigarro, enquanto tenho. Já não bebo vinho que se foi já todo. Ainda vou tendo este café.
Sento-me no sofá a fazer zapping. Não consigo ver um programa inteiro. A cabeça não consegue acalmar. Não me consigo sintonizar. Perco-me.
Estou preocupado. Mas não digo nada a ninguém para não gozarem comigo. Ninguém parece preocupado, porque haveria eu de ser o único?
Ponho as mãos nos bolsos dos calções. Apanho umas moedas. Tiro-as para fora e vejo quanto é. Olho para a rua. Vejo a pastelaria. Sorrio.
Saio de casa. Desço as escadas. Desço à rua. Vou à pastelaria. Está quase vazia. Há uma mesa com um grupo de quatro velhotas. Um bule de chá e quatro chávenas na mesa. A montra está um pouco menos que vazia. Dois pastéis de nata. Um russo. Uma broa de mel. Um pão de deus. É mesmo isso. Peço Um pão de deus, se faz favor. E a rapariga avisa-me, baixinho, É de ontem. Não faz mal, respondo. E a broa de mel. Corte-a em quatro. E leve ali aquelas senhoras.
Pago e vou embora antes que as velhas percebam e queiram agradecer e dar beijinhos e falar das famílias e dos filhos que não lhes ligam nenhuma e a reforma que não chega para nada A minha nem chega a meio do mês haveria de dizer uma delas e outra Tantos anos de trabalho para os outros, e agora isto e eu não queria chorar com a vida dos outros já me bastava a minha e tinha de fazer um esforço para me aguentar inteiro sem me desfazer na merda em que me sentia.
Entro em casa. Abro o pão de deus. Barro-lhe um pouco de manteiga. Corto-o ao meio. Guardo uma metade para mais tarde. Ou para amanhã. Sento-me a fazer zapping enquanto como. Apanho as migalhas que deixei cair na t-shirt e enfio-as na boca. Olho para os cigarros mas penso Tenho de os guardar.
Levanto-me. Vou à janela. Olho a rua. Volto para o sofá. Sento-me. Digo em voz alta O que é que eu hei-de fazer?
Descalço os chinelos. Deito-me no sofá. Suspiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/03]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]

Um Domingo a Ouvir The Las Vegas Story dos Gun Club

Era Domingo. Fui acordado pelo sol a lamber-me os olhos Acorda, mandrião!, disse.
Levantei-me da cama. Espreitei pela janela. Era Domingo. Um dia igual aos outros mas com menos gente na rua. Menos gente atarefada. Menos gente a caminho do trabalho. Menos gente a trabalhar. Menos gente no café no rés-do-chão do prédio. Mais gente a comprar pão que a beber café e a tomar o pequeno-almoço.
Estava sol e calor. Ia para a praia, pronto. Decidido. Ia dormir para a praia. Mergulhar no mar. Ver as miúdas. Beber umas cervejas.
Fui lavar o carro. Tomei banho. Desci ao café e comprei pão. Fiz duas sandes de fiambre com manteiga. Agarrei num pêssego.
Ainda não eram dez da manhã e o tempo mudara de cara. O sol tinha ido embora. O tempo, agora, estava cinzento. Começou a levantar-se vento.
Resolvi esperar. Larguei o pêssego na mesa da cozinha.
Ao meio-dia começou a chover.
Ao meio-dia e meio caiu granizo. O tempo ficou frio.
Acendi um cigarro e fui até à janela. Olhei para o meu carro lavado. A ser fustigado pela chuva. A ser sovado pelo granizo.
Começou a doer-me a cabeça. Tomei um Ben-U-Ron Caff. Vesti uma camisola de algodão. Com capuz. Enfiei o capuz na cabeça. Sentei-me no sofá. Fechei os olhos. Comecei a zunir. O corpo a baloiçar. Para a frente e para trás. Para a frente e para trás.
Levantei-me. Fui pôr um disco na aparelhagem. The Las Vegas Story dos Gun Club
A dor de cabeça tinha-se dissipado.
Pus-me a aspirar a casa. Não ouvia a música. Aumentei o volume para ouvir por cima do barulho do aspirador.
Na rua continuava a chover.
Haviam várias festas nas aldeias aqui à volta. E estava a chover.
Havia um concerto do Zé Café & Guida. E estava a chover.
Não saí de casa.
Acabei de aspirar. Puxei a agulha do prato para o início do disco.
Acendi um cigarro. Voltei à janela para fumar. Olhei de novo para o carro. Estava realmente bem lavadinho. Mandei o resto do cigarro para a rua.
Fui à casa-de-banho. Mijei. Olhei-me ao espelho. Mandei um murro no espelho e parti-me em mil-e-um estilhaços que se espalharam por toda a casa-de-banho.
Fiz sangue. Sangue no espelho. No lavatório. Na bancada de pedra. A mão passeou-se pela cara. Levou-me sangue à boca. Senti um pedaço de vidro espetar-se no lábio. Cuspi-o.
Saí da casa-de-banho. Entrei no quarto. Enfiei-me debaixo do edredão. Enrolei-me nele. Estava a tremer. Estava com frio. Estava ansioso. Sentia-me cansado. Sentia-me sozinho.
Estes Domingos cinzentos de chuva e frio deixam-me assim. Ao fundo ouvia o Give Up the Sun. E foi assim.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/30]

E Não Há Jantar?

Ela saiu de casa de manhã cedo para ir trabalhar. Quando ela saiu já eu estava na sala, sentado no sofá, a ver as notícias na televisão.
Quando ela regressou ao fim do dia, eu ainda estava sentado no sofá a ver um qualquer programa vespertino.
Ela levantou-se de manhã, tomou banho, vestiu-se, fez café, uma torrada, bebeu o café, comeu a torrada e ainda trincou uma maçã antes de lavar os dentes e ir embora trabalhar. Não sei se deu por eu estar na sala, sentado no sofá a ver as notícias. Saiu pela porta da cozinha. Ouvi a porta da rua a bater. Ouvi o motor do carro. E ouvi-o até deixar de o ouvir. E fui aos restos. Ainda havia um pouco de café quente. Bebi-o. Bebi-o directamente da cafeteira. Sem açúcar. Deixei cair umas gotas na t-shirt. Vi-as alastrar pelo algodão. De um pingo a uma mancha. Procurei um resto de torrada. Não havia. Não deixou restos. Só migalhas. Deixei-as onde estavam. Voltei ao sofá.
Vi televisão.
Passei pelas brasas.
Levantei-me para fumar um cigarro.
Lembrei-me que tinha alguma coisa para fazer, mas não me lembrava do quê.
Voltei a passar pelas brasas.
Quando ela regressou, ao fim da tarde, eu ainda estava sentado no sofá. Ela chegou a casa. Foi à casa-de-banho. Ouvi o mijo a pingar. O autoclismo. A torneira do lavatório. A porta da casa-de-banho a abrir. Senti-a chegar por trás de mim. Senti-a aproximar. Senti a cabeça dela a aproximar-se da minha. Senti um beijo na cabeça. E ouvi-a dizer Devias tomar banho! E lavar a cabeça! E senti-a afastar-se de novo.
E jantar? pensei, Não vais fazer o jantar?
Na televisão havia qualquer coisa sobre um sismo no Japão. E depois um tsunami. Não, afinal o tsunami podia vir mas ainda não tinha vindo. Era só um alerta. E o jantar? Não há jantar? Tenho fome.
Tentei ouvir os sons dela pela casa para ver se percebia alguma coisa do que se estava a passar.
Foi para o quarto. Tempo. Passos nus no corredor. Voltou à casa-de-banho. Porra, tanto chichi. Não! Afinal vai tomar banho. Porque raio está a tomar um banho a meio da tarde? Ainda não é de noite. Tomou um de manhã. Porque é que está a tomar banho? Vai sair?
Ouvi o duche a desligar. Senti a toalha a deslizar pelo corpo dela. A balança. O corpo dela a endireitar-se na balança. Vinha aí dizer-me que tinha de fazer dieta porque engordou uns gramas.
E ouvi a porta da casa-de-banho a abrir. Senti os passos dela na sala. Senti o cheiro do banho acabado de tomar. Senti-a baixar-se outra vez ao pé de mim. Senti o calor da sua cara. Do seu corpo. O calor do corpo limpo e doce do banho, e ouvi-a dizer-me Vou-me deitar. Estou muito cansada. Deu-me um beijo na cara e voltou a dizer Toma um banho.
E o jantar? Estou com fome. Não há jantar? pensei. Pensei com muita força para ela ouvir. Mas não ouviu. E foi deitar-se. E eu tinha de ir tomar banho. E doía-me o rabo de estar tanto tempo sentado no sofá. E fui para a janela fumar um cigarro. E ainda era de dia. Ainda se via o sol a morrer atrás dos telhados das casas. E eu não ia jantar. E estava com fome.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/18]