Um Agente da G.N.R. Tocou a Campainha da Porta da Rua

Fiquei sem gasolina na motorizada. É uma merda ficar sem gasolina na motorizada às sete da manhã, depois de uma noite de trabalho em dia que promete chuva.
Sou o único a fazer as noites aqui na fábrica. O que fica a funcionar à noite é tudo automatizado, mas alguém tem de estar de vigia não vá o diabo tecê-las e alguma das máquinas parar, ou aquecer demasiado. Quando a fábrica acabou com o turno da noite, ninguém se prontificou a continuá-lo. Eu ofereci-me. Gosto de trabalhar à noite. Recebe-se um pouco mais. Não é muito mais. Mas ainda é algum. De qualquer forma, não tenho ninguém à minha espera em casa. Com excepção da minha filha quando cá vem. Ela vem e vai assim, quando lhe dá na telha. Nem diz água vai. Quando se farta da faculdade, dos colegas, do namorado, vem cá passar uns dias a casa. Às vezes mal a vejo. Ela entra e sai. Eu também entro e saio. Às vezes jantamos. Jantamos cedo para eu entrar ao serviço. Mas jantamos. Às vezes também tomamos o pequeno-almoço juntos. Já aconteceu eu estar a chegar a casa e ela ter a mesa posta, torradas feitas e barradas com manteiga e uns ovos mexidos, coisa que nunca como ao pequeno-almoço mas que me agrada que ela faça. Mas não acontece muito. Geralmente está a dormir quando chego a casa. E quando acordo, ela já não está por lá.
Começa a chover. Uma merda nunca vem sem companhia. Gaita.
Logo à noite tenho de vir mais cedo para fazer o caminho a pé e trazer um jerricã com combustível para a motorizada. Até me faz bem andar a pé mas, ao fim de uma noite de trabalho, quero é esticar-me na cama e deixar-me adormecer. Não andar a fazer maratonas. Já não tenho idade para maratonas. E agora chove. E começa a chover com alguma força.
Não vale a pena acelerar o passo. Já estou encharcado. E não consigo andar muito mais depressa com esta perna apanhada pelo reumatismo. Maldita velhice. Maldita vida de pobre.
As luzes dos candeeiros de rua ainda estão acesos. Já há alguns carros na estrada. E ali vai a carreira para Lisboa. Também ia nela para Lisboa. Ia ao Estádio da Luz ver o voo da águia Vitória. Ia a Belém comer um Pastel de Nata, daqueles a sério. Apanhava o comboio no Cais do Sodré e ia até Cascais. Depois voltava. Gosto de viajar ali assim, ao lado do rio que é quase já mar. Há zonas lá que quando as ondas estão mais furiosas quase que atingem o comboio. Gosto de ver isso. Gosto de ver a fúria daquele quase-mar quase em cima de mim. Já uma vez lá fui. E gostei. Prometi que voltava. Nunca mais voltei.
Também gostava de apanhar o Cacilheiro e cruzar o rio até à outra margem. Passear-me ali pelo Cais do Ginjal. Ver aqueles carros que se enfiam por lá, a tentar sair sem cair ao rio. Há gente muito doida. Muito doida mesmo.
Fumava um cigarro, mas molhava-se todo. É melhor não.
Também ia comer um bife à Portugália. Um dia não são dias. E levava a miúda. Se ela quisesse ir comigo. Gosto daqueles bifes com molho. Acho que é um molho de mostarda, não é? E um ovo estrelado por cima do bife. E as batatas fritas. Gosto de molhar as batatas fritas naquele molho. E tenho de pedir o bife mal passado. Quase cru. Senão, torram-no todo. Há quantos anos não vou a Lisboa?
Nem sei porque é que estou a pensar nestas coisas. Sei que não vai acontecer. Eu nem posso sair daqui. Quem é que iria fazer as noites na fábrica? Ninguém quer fazer as noites na fábrica. Só eu.
Tenho de fumar um cigarro antes de entrar em casa. Não fumo em casa com a miúda lá. Ela não gosta do cheiro. Eu percebo-a. E não me custa nada, não é?
Aqui. Aqui na paragem dos autocarros. Sento-me aqui um pouco e fumo um cigarro. A casa é já ali. Fumo um cigarro e depois vou descansado para casa.
Acendo o cigarro. Faço um esquema do meu dia. Tomo um banho. Seco-me. Deito-me. Adormeço. Tenho de me levantar mais cedo, amanhã. Para ir buscar combustível para a motorizada e fazer o caminho a pé até à fábrica. Como qualquer coisa. Arranjo o farnel para a noite. E vou à estação de serviço. E agora, um banho antes de me deitar. Estou encharcado. Encharcado e com frio. Talvez ela tenha feito o pequeno-almoço.
Acabo com o cigarro. Vou até casa. Entro. A casa está às escuras. E em silêncio. Cheira-me a café. Vou até à cozinha. A máquina do café esta ligada. Ela fez café, mas não fez pequeno-almoço.
Está uma folha de papel em cima da mesa da cozinha. Agarro no papel.
Fui-me embora. Não sei quando venho outra vez. Arranja um telemóvel. Xi♥. A tua filha.
Fico ali um bocado em pé com o bilhete na mão. Sei que nos vemos pouco. Que não conversamos muito. Mas agora que sei que ela voltou, de novo, para Lisboa, sinto a casa ainda mais triste. Triste e fria. Tenho um arrepio de frio. Lembro-me que estou molhado. Bebo uma caneca de café que ela deixou feito e vou para a casa-de-banho. Tomo um duche quente. Seco-me. Vou para o quarto. Deito-me na cama. Estou cansado. Ponho o despertador e fecho os olhos. Aguardo que o sono me leve.

Sou acordado com a campainha da porta da rua a tocar. Abro os olhos. Vejo as horas. Ainda é muito cedo. Muito cedo para mim. Levanto-me. Visto umas calças. Calço uns chinelos. Saio do quarto. Percorro o corredor e abro a porta da rua. Está um agente da G.N.R. do outro lado da porta aberta. Conheço-o. Faço uma interrogação com a minha cara. Ele diz Houve um acidente com a carreira que ia para Lisboa.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/14]

Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Quase Parece Feriado, mas Não É

Vejo-os a correr. Esbarram uns nos outros e gritam um Desculpe!… enquanto se afastam, atrasados, sempre atrasados para onde quer que vão cheios de pressa.
Quando aqui cheguei, a cidade parecia dormir. Não é feriado mas parece. É véspera de feriado com tolerância de ponto para funcionários públicos que resulta numa cidade fantasma, pelo menos até os primeiros atrasados caírem da cama e perceberem que têm poucas horas para comprar o amor do próximo.
Sentei-me neste banco de jardim, aqui no Rossio da cidade, frente ao antigo Banco de Portugal que já não comporta notas nem ouro (e não sei se alguma vez comportou ouro) e agora expõe as obras de arte dos artistas de que faz gala e não havia ninguém na cidade. Nem a velha varredoura das ruas, uma loira, com quem me cruzo todos os dias, passou aqui em frente. Está tudo a em estágio para a barrigada natalícia.
As horas passam. Vão passando. Conto-as pelas beatas dos cigarros fumados. Devia comer qualquer coisa. Beber um vinho. Mas estou a antibióticos, não devo beber. Fumo. Fico por aqui e vejo passar os apressado, os atrasados, os últimos a aperceber-se de que falta qualquer coisa para atingirem a suprema felicidade.
A cidade foi-se compondo. Por volta das duas da tarde já quase parecia um dia normal. Muita gente nas ruas.
O dia ajudou a que as pessoas saíssem de casa. Está sol. Não está frio. As pessoas não precisam de ir para o Centro Comercial. Mas vão. Muito gostam as pessoas de se enclausurarem entre paredes de néon. E ainda me olham de esguelha porque estou a fazer publicidade negativa. Mas logo largam um esgar porque aceitam a publicidade, e negativa ou não, publicidade é publicidade. Não importa que falem mal, o importante é falarem. As velhas máximas do capitalismo. Ironias. Como aquele que diz que temos de comprar menos coisas mas abre bem as portas da loja para despachar toda a mercadoria e ter um Natal Feliz.
O dia começa a morrer. O sol desapareceu atrás da colina do castelo e, daqui até ser noite é um abrir e fechar de olhos. A cidade volta a parecer fantasma. Agora ainda mais. Há luzes. Muitas luzes numa cidade que volta a estar quase deserta. Passam alguns carros. Poucos. Novamente os atrasados. Já não há pessoas a caminhar nas ruas. Está frio. Agora está frio.
Sinto um cheiro a perfumes no ar. São as pessoas a ultimar-se para as festas, para os reencontros, para dar amor, um amor bem-cheiroso.
Levanto-me a custo do banco de jardim. Faço força na bengala para dar impulso. Vou também para casa. Tenho lá um bocado de arroz de pato que comprei no Rei dos Frangos. Pena que não posso beber vinho. O antibiótico… Os dentes… A merda da velhice, é o que é!
Quando é que vai dar o Sozinho em Casa?

p.s.: por vezes gostava de ser um soldado de regresso a casa para ter um abraço quente a acolher-me… talvez um beijo… talvez um bem-vindo a casa…

[escrito directamente no facebook em 2019/12/24]

As Brancas Montanhas da Morte

Está mau tempo.
Chove muito, uma chuva tocada a vento. Entra por todo o lado onde exista uma nesga aberta. Fumo em casa com as janelas fechadas. Acendi uma vela por causa do cheiro, mas só tinha uma vela de baunilha que alguém me tinha oferecido e agora estou enjoado.
O vento é muito forte. Ouço-o através das janelas de vidros duplos. As portas e as janelas abanam. Ouço também a chuva a bater contra as persianas. É um barulho violento e um pouco assustador.
O céu está cinzento, o dia escuro e ainda são duas da tarde. Não se vêm nuvens. É uma massa uniforme.
Da janela da cozinha olho para as montanhas mas não as vejo. Talvez estejam tapadas pelo nevoeiro.
Onde é que estão as montanhas?
As notícias dão conta já de dois mortos e vários desaparecidos.
Há cidades inteiras inundadas. Cidades erguidas em leito de cheia. Cidades com os canais pluviais entupidos e esgotos cheios. Cidades de cimento sem escoamento para as águas da chuva.
As barragens abriram as comportas. Há notícias de cidades quase submersas no norte do país. Só morreram duas pessoas até agora. Nenhuma delas nestas cidades quase submersas. Mas há pessoas desaparecidas.
Olho a chuva a tombar sobre as casas batida pelo vento e a ausência das montanhas.
Onde raio é que se meteram as montanhas?
Não está frio. É inverno, está temporal mas não está frio. Estou de t-shirt e descalço na cozinha. Olho para o tempo cinzento e penso que não está frio nenhum.
Apago o cigarro num cinzeiro da Cinzano. Tenho uma grande colecção de cinzeiros em porcelana que eram dos meus pais. Eles não fumavam. Eu fumo.
Outras notícias falam dos meios de transporte públicos que estão parados em todo o lado sem se saber quando poderão retomar a actividade normal. Os aviões não levantam voo. Os comboios dormem na estação. Os barcos baloiçam no cais. Os autocarros não saíram dos terminais. Há inundações um pouco por todo o lado. Há árvores caídas. Abriram-se buracos no asfalto de algumas cidades. Em Lisboa, uma carrinha escolar enfiou-se num buraco na estrada e caiu sobre os carros de um parque de estacionamento subterrâneo. Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Já há quem fale em milagre. O milagre de Natal. Mas há quem se queixe das avultadas perdas financeiras. As seguradores já vieram explicar que estão a analisar todas as queixas mas esclarecem que a maior parte das pessoas não têm seguro contra intempéries.
Será que as montanhas desapareceram? E tinham seguro?
Uma notícia de última hora diz que a pala do MAAT voou para o Tejo e o museu vai ficar fechado até meados do próximo ano. Já há turistas a desmarcar férias. Há agentes turísticos a quererem indemnizações mas não sabem bem a quem fazer o pedido.
Calço as botas. Visto uma camisola e o casaco e saio de casa.
À saída de casa percebo que a chuva continua a sua queda imparável, tocada a vento. Puxo o capuz do casaco sobre a cabeça, as mãos nos bolsos do casaco, saio para a rua e vou em frente. Vou à procura das montanhas.
As montanhas têm de estar lá.
É difícil cruzar a cidade. Muito trânsito. Muitos carros. Alguns parados em enormes poças de água. Lá mais à frente percebo que o rio galgou as margens e a ponte está submersa. Tenho de seguir pela direita e tentar passar mais à frente.
Há guindastes caídos um pouco por todo o lado. Andaimes tombados. Varandas quebradas. Muitos vasos que fugiram das varandas ventosas.
Há muito barulho na cidade. A chuva o vento os carros as buzinas as motorizadas as pessoas os gritos das pessoas ouve-se música vinda não sei de onde…
Vem-me à memória Jeremiah Johnson, As Brancas Montanhas da Morte de Sydney Pollack. Uma espécie de western que é mais uma lição de vida sobre o confronto do homem com a natureza e a sua luta pela sobrevivência.
Já cruzei a ponte mas nem me apercebi.
Estou distraído. Desconcentrado. Divago. Divago muito.
Vejo postes de alta-tensão vergados ao peso da tempestade. É incrível como estes postes de alta-tensão passam tão perto das cidades, passam por cima de vilas e aldeias.
A estrada começa a subir. Aproximo-me das montanhas. Não vejo nada. Está tudo cinzento. Há um blur cinzento à minha volta. Acho que já não chove. Mas não tenho a certeza. Não vejo nada. Não vejo nada de nada. Não vejo a ponta do meu nariz.
Não ouço nenhum barulho.
Onde estão as montanhas?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/20]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]

A Casa Abandonada

Às vezes estou a lavar a louça à mão, no lava-louça da cozinha, e vejo, através da janela que fica mesmo em frente ao lava-louça, para além do vidro, para além do alpendre, para além das árvores do quintal, para além da estrada e no meio das árvores no terreno em frente, mas muito lá para a frente, muito lá para o fundo, em direcção às montanhas, mas não tão longe que eu não visse, uma casa abandonada.
Já conheci essa casa abandonada, assim como está hoje, não tão destruída, claro, mas bastante, quase como hoje. Quando vim para cá, quando vim viver para aqui, a casa estava abandonada mas, os miúdos da escola costumavam ir para lá partir os vidros, as portas, as telhas… Um dia deitaram uma parede abaixo. Hoje já não vão para lá. Já não há lá quase nada para partir. Mas às vezes ainda lá vão uns tipos passar droga e uns casais com pressa.
Quando estou aqui assim a lavar louça, a água quente a correr sobre a louça suja que vou esfregando com a esponja Scotch-Brite com um fio de Fairy verde, e a espuma a envolver-me as mãos, olho para a casa e imagino-a como um portal para outro lado. Para outro mundo.
Imagino-me a transpor a porta que já não existe, a entrar dentro das paredes que ainda não vieram a baixo e caminhar até ao centro da antiga sala, onde o tecto já desabou, e esperar pelo novelo quântico que me irá permitir a passagem até um sítio diferente deste.
Mas nunca apareceu o novelo quântico. E eu regresso à cozinha, ao lava-louça, ao Fairy e à minha vida do lado de cá da janela.
Também já pensei que a casa podia ser um terreiro para as bruxas aqui da zona. Dizem que há bastantes por aqui. É verdade que se encontram vassouras perdidas um pouco por todo o lado. E às vezes vêm-se por aí carros da cidade, a rolar muito devagar, com mulheres de meia-idade e cabelo armado, à procura da santinha. Ouço dizer. E então, imagino-as a chegar a cavalo de vassouras voadoras, a despirem as vestes e a mergulharem numa festa de bacantes. Imagino-me a correr para lá, para a casa abandonada, mas ao chegar não está lá ninguém, reina o silêncio, a escuridão o cheiro da erva molhada pela chuva e os cogumelos selvagens que se erguem ao céu nocturno. Regresso a casa e colho os cogumelos que deixo secar e mastigo.
Quando estou assim a lavar louça aqui, no lava-louça, olho lá para fora e vejo a casa abandonada e penso que gostava que a minha vida fosse mais do que a casa abandonada. Uma casa abandonada que poderia ser mesmo uma casa, a casa de alguém, mas que nunca é visitada pelo dono, e que as ervas selvagens já começaram a cobrir.
Às vezes penso que a minha vida é assim como aquela casa abandonada. Tanta expectativa e tão pouco resultado. Uma vida cheia de potencial, reduzida ao meu abandono.
No outro dia, era de noite, acendeu-se uma luz dentro da casa. Larguei a louça e fui dar fé. Vi-me ir. Vi-me a descer a ladeira. Vi-me cruzar a estrada. Vi-me caminhar ao longo do matagal selvagem do terreno em frente. Vi-me aproximar da casa abandonada e espreitar lá para dentro. Vi-me entrar na casa e nunca mais sair.
Não sei o que é que me aconteceu. Eu não sou eu. Eu que estou aqui a contar a estória sou só uma projecção astral de mim que entrou naquela casa e não mais saiu. É por isso que estou aqui a lavar a louça, no lava-louça da cozinha. Porque foi a última coisa que fiz antes de entrar na casa abandonada e não voltar a sair. Sou a minha assinatura. Mas não sou eu. Embora também o seja.
É difícil de perceber. Às vezes até eu não percebo muito bem.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/13]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]