Boca Doce

Aproximava-se o aniversário da minha filha e eu tinha de fazer alguma coisa. Alguma coisa que compensasse estes dias de chumbo que temos vivido. Procurava uma pequena alegria. Procurava colocar-lhe um pequeno sorriso nos lábios e que esse sorriso a fizesse esquecer estes últimos meses.
Levantei-me de manhã cedo. Não a acordei. Deixei-a dormir. Não havia tele-escola e podia dormir um pouco mais. Lavei as mãos. Lavei a cara. Lavei os dentes. Os boxers estavam já demasiado rotos. Nem dava mais para remendar. Tomei nota mental para tentar arranjar mais um ou dois boxers. Vesti umas calças. Calcei as botas com biqueira de aço. Uma camisola. Uma casaco com bolsos. Uma mochila às costas. O cartão multibanco, um lápis com borracha na ponta, algumas moedas e umas notas. Depois calcei umas luvas. Coloquei uma máscara cirúrgica na cara, sobre a boca e o nariz. Apertei a mola sobre a cana do nariz. Agarrei no revólver e coloquei-o preso no cós das calças, nas minhas costas, e uma faca de mato, afiada, dentro das botas. Antes de sair de casa pus os óculos escuros. Não me benzi porque não sou religioso mas, no momento mesmo antes de sair de casa virei-me para trás e olhei para a casa silenciosa e quase na penumbra, os estores estavam corridos até baixo, deixando somente os buracos abertos para passar alguma luz mas não deixar entrar mais nada, para deixar a casa em segurança, e esse momento foi como se me tivesse benzido e rezado uma Avé Maria e um Padre Nosso. Depois saí e fechei a porta à chave nas minhas costas.
Nunca gostei de usar as máscaras. Dificultam-me a respiração, fazem-me comichão e muito calor. Mas sei que tenho de as usar. Se quero sair à rua, tenho de ir protegido. Protegido de todas as formas.
Tinha o carro na garagem. O carro atestado. Mas achei melhor ir a pé. Nem sequer levar bicicleta. Provavelmente teria de ir a vários sítios. O melhor era não estar preocupado que me roubassem o carro, a gasolina, a bicicleta. Ir a pé era a melhor escolha. Mesmo que uma escolha perigosa. E assim fiz.
Cheguei à rua e olhei para um lado e para outro. A rua estava vazia. Aquele era um bairro essencialmente residencial. Era muito raro encontrar alguém na rua. Mesmo nos quintais, quem os tinha, já era difícil encontrar alguém. As pessoas barricavam-se em casa. As que podiam trabalhar em casa trabalhavam. As outras tentavam sobreviver. Ficavam fechadas em casa o dia inteiro. A noite inteira. A semana quase toda. Mas às vezes, às vezes faziam pequenas saídas para procurar alimentos e remédios. Vasculhar os caixotes do lixo. Tentar algum assalto e evitar ser assaltado.
Ainda havia algum comércio durante o dia. A maior parte das lojas já só funcionava no mercado-negro. Eram protegidas por milícias. E continuavam a ser os sítios onde ainda se podia encontrar algumas coisas. Ainda se aceitava cartões multibanco e MBWay. Já ninguém aceitava cartões de crédito. O dinheiro em género era a forma mais imediata de se fazer compras mas, a troca de uns produtos por outros, estava a ganhar o seu espaço. Principalmente porque a maior parte das pessoas já não trabalhava e já não tinha dinheiro.
Eu ainda era um dos poucos sortudos com algum trabalho e algum dinheiro. Mas até para pessoas como eu as coisas estavam a ficar complicadas porque os próprios governos estavam a desintegrar-se. A perder as ruas. O Estado ainda tinha os militares e alguma polícia. Mas as milícias, os grupos armados, os grupos de piratas começavam a estender as suas malhas por todo o lado. Os Mercados já não existiam. Pelo menos, não como eram entendidos antes de tudo isto começar. Agora tudo se comprava e vendia directamente. Troca por troca. Mão havia mercados futuros. Fundos de investimento. Compra e venda de acções. Nada dessas coisas. Agora o que tinha valor era o real. Uma alface. Uma vaca. Um par de sapatilhas Adidas. Uma Glock.
Havia ainda produção no campo. E gente a garantir essa produção. A maior parte eram já protegidos por estes mesmos grupos de piratas. Quem tinha as armas é que mandava. Quem tinha as armas e os homens e a coragem. Os outros todos, obedeciam.
Eu ainda trabalhava para o Estado. Todos os meses ainda recebia o meu dinheiro através do banco. Os bancos ainda funcionavam. Afinal, era lá que os grupos de piratas guardavam o dinheiro. Na verdade, os piratas já tomavam conta dos bancos. Mas eles ainda funcionavam. Funcionavam era já de uma maneira diferente. Com outros objectivos. Agora eram essencialmente cofres-fortes. Guardavam ouro e outros metais preciosos. Pagavam-se entre eles para trocas entre clientes. Era assim que se fazia chegar um carregamento de uvas da Beira-Alta até Lisboa, por exemplo.
Mas enfim, saí de casa, cheguei à rua e virei à esquerda e fiz a rua toda até ao fim, até ao fim do bairro e depois continuei por ali fora, quase uma hora a caminhar pela estrada até chegar ao baldio, um antigo e enorme parque de estacionamento do estádio de futebol abandonado, terreno perigoso quando é noite, mas que se faz relativamente bem durante o dia. Depois faria mais cinco ou seis quilómetros em frente e estaria na periferia da cidade mas numa zona comercial onde, eventualmente, poderia encontrar alguma coisa do que procurava.
Fazer a rua do bairro foi muito penoso. A rua estava deserta. Alguns carros parados nas bermas junto aos passeios, mas já só umas carcaças metálicas. Esqueletos de antigos carros, despojados dos seus acessórios, desmontados e vendidos individualmente para renderem mais no mercado negro.
Havia gente dentro das casas. Via algumas caras à janela. Um homem saiu e disse Vais à cidade? Espera por mim que vou contigo! e voltou a entrar dentro de casa. Eu não esperei. Prefiro ir sozinho. Não levantar ondas. Passar despercebido. Manter-me invisível como sempre tinha sido toda a minha vida. Alguns quintais estavam abandonados. As casas ainda tinham gente mas as pessoas já não vinham à rua. Por medo do vírus. Por medo dos grupos armados. Por medo dos piratas. Por medo de tudo. Até da própria sombra. A vida, por estes dias, não vale um chavo.
Cheguei ao fim do bairro e fiz a estrada. Cerca de dez quilómetros até ao baldio do parque de estacionamento. Estrada deserta. Não passou um carro. Uma antiga estação de serviço abandonada e destruída. Cheguei ao antigo parque de estacionamento. Ao longe já se avistavam outras pessoas como eu, a ir para a cidade, a vir da cidade, atentos. Olhávamos uns para os outros a tentar perceber se éramos um perigo ou não. Agora ninguém sabe com quem se cruza. Há histórias de gente morta por amigos por causa de uma lamela de paracetamol. A vida tinha desvalorizado bastante na bolsa de valores. E a amizade mais ainda. Já não havia amigos. Era difícil encontrar gente em quem confiar. É por isso que precisava de encontrar qualquer coisa de especial. Para um dia especial de uma miúda especial.
Passei ao lado do antigo Estádio. Conta-se que lá dentro é o quartel-general de um dos grupos de piratas mais terríveis da zona. Mas pode ser só um mito urbano. As portas estão fechadas. Não se vê ninguém a entrar nem a sair do Estádio. Mas também se fala que existem túneis secretos. Na verdade não sabemos muito bem o que pensar de tudo isto.
Ao passar ao pé de uma das portas, levei a mão ao bolso onde tinha o revólver. Agarrei-o. Agarrei-o para o sentir. Vi qualquer coisa caída no chão por entre as ervas que cresciam no meio do asfalto rachado do antigo parque de estacionamento. Continuei a andar mas foquei melhor o olhar. Era um corpo. Um corpo de homem. Um cadáver ainda recente, provavelmente. Cuspi para o chão. Continuei em frente. Cruzei a estrada que vinha do norte e continuei até ao limite da cidade. Um quilómetro mais à frente começavam as primeiras lojas. Uns antigos supermercados adaptados aos novos tempos. Agora vendia-se de tudo, de tudo o que houvesse.
Lembro-me há muitos anos, em Luanda, ter ido ao Roque Santeiro, o maior mercado a céu aberto de África. Lá encontrava-se de tudo. Desde uma agulha para coser os meus boxers, quando eles ainda tinham salvação, até um míssil para disparar sobre a cidade vizinha. Agora, por aqui, era mais ou menos assim. Mas havia especializações nas lojas.
Cheguei ao primeiro supermercado logo à entrada da cidade. Era um antigo Minipreço. Mostrei o cartão multibanco ao segurança armado à entrada e entrei dentro do Minipreço. Dei uma volta pelo interior mas não havia nada que me interessasse. O antigo Minipreço era pequeno e não tinha muita variedade de coisas. Era essencialmente um entreposto de lacticínios e enchidos, tudo vindo directamente do produtor, algumas embalagens antigas, já tudo fora de prazo, mas muita coisa a granel. Só se leva o que se pode pagar. E não se pode levar tudo que as coisas são geridas de maneira a haver sempre quase tudo quase sempre.
Saí e entrei num antigo Pingo Doce. Fiz o mesmo ritual. Mostrei o cartão multibanco ao segurança e entrei. O Pingo Doce tinha muitas conservas. Era, essencialmente, um entreposto de latas de comida e bebida. Dei uma volta. Era bom se encontrasse uns pacotes de gelatina. Ela gostava de gelatina quando era miúda. Há quantos anos não comia gelatina? Mas não conseguia dar com nenhuma embalagem de gelatina. Até que, de repente, vejo-a a olhar para mim. Perdida numa prateleira. Fora de sítio, provavelmente, porque não havia ali mais nada daquilo. Uma embalagem de Boca Doce. Boca Doce! Uma embalagem de Boca Doce de Morango. O Boca Doce era uma espécie de pudim gelatinoso instantâneo. Agarrei logo na embalagem. Não precisava de procurar mais. Tinha encontrado o que procurava.
Paguei. Era caro. Paguei com o multibanco. Marquei o código com a parte de borracha do lápis. Depois desinfectei-a com um pouco de álcool e guardei o lápis no bolso do casaco. Pus a embalagem de Boca Doce na mochila. Podia voltar para casa. Não precisava de mais nada.
Saí.
Não tinha andado quinhentos metros, ainda estava dentro dos limites da cidade, quando fui abordado por um homem. Sem máscara. Afasta-te!, pedi. O tipo continuou a avançar para mim, mostrou-me uma faca na mão, uma faca grande, e disse O cartão! e tentou agarrar-me o braço. Eu levei a mão ao bolso do casaco e agarrei no revólver. Disse ao tipo Afasta-te, se fazes favor! Ele voltou a tentar agarrar-me. Deitou-me a mão ao braço e agarrou-me o braço e puxou-me para ele. Eu dei-lhe um pontapé com a biqueira de aço numa canela que o fez tropeçar. Enquanto ele se baixava cambaleante, eu tirei a mão do bolso com o revólver e disparei à queima-roupa. Disparei sobre o tipo. O tiro acertou-lhe em cheio na cara. Senti alguns salpicos a caírem sobre mim. Foda-se! disse. A mão do tipo largou-me o braço e ele caiu no chão. Dei-lhe um pontapé na mão e vi-a voar e cair quieta ao lado do corpo. Eu pequei no frasquinho de álcool e aspergi um pouco sobre mim.
Fui-me embora e deixei o corpo lá caído.
Enquanto passava ao lado do Estádio, enquanto caminhava pelo antigo parque de estacionamento, pensava que tinha de tomar um banho quando chegasse a casa e tinha de pôr a roupa para lavar e tudo isso antes da miúda acordar. E mais ainda pensava que à noite iria fazer o pudim-gelatinoso de Morango para o aniversário dela no dia seguinte. Achava que ela iria gostar de um Boca Doce. E sorri. Depois ainda pensei Não procurei os boxers para mim. E não pensei mais no tipo a quem tinha acabado de matar.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/06]

Ida à Praia

Hoje peguei no carro e saí de casa. Nem tomei banho nem me vesti. Fui com as calças de fato-de-treino que enfiei pelas pernas quando me levantei e uma sweat de algodão. Nem fiz café nem torradas nem comi nada. Nem fumei sequer o primeiro cigarro do dia. Calcei logo as sapatilhas e saí da casa.
Estava a dar em doido assim fechado. A espreitar pela janela. A ver o vazio nas ruas. As caras à janela. As caras mirradas como a minha nas janelas. A fumar cigarros. Uns atrás dos outros. Enquanto uns enfiaram sacos familiares de papel-higiénico nos carrinhos de supermercado, eu aviei-me de volumes de cigarros e vários pacotes de tabaco de enrolar, filtros e mortalhas. Falta-me a paciência. Não me falta tabaco.
Saí de casa e entrei no carro. Saí pela cidade. Pela cidade vazia. Quase vazia, afinal. Fui-me cruzando com algumas pessoas a caminhar pela cidade. Uns com cães. Outros sem cães mas solitários. Uns caminhavam decididos. Outros apalpavam terreno. Vi um velho de mãos atrás das costas à beira de uma passadeira a ver quem poderia passar. Passei eu. Levantou-me a mão num cumprimento cúmplice. Respondi também com o levantar da mão. Acho que o velho estava a dizer-me que éramos os corajosos, nós os que estávamos na rua. E eu só queria que ele percebesse que eu não era nenhum herói mas que precisava de ver o mar. Precisava mesmo de ver o mar. Não precisava de ir à praia, de mergulhar, de nadar, nada dessas coisas tão veraneantes como o tempo que parece estar, mas ver, só ver. Era só o que eu precisava. Uma espécie de Xanax da alma. Ver o mar.
Cruzei a cidade. Havia mais gente na rua que imaginava. Talvez bem menos que aquilo que tenho visto noutros lugares através da televisão e das redes sociais. Somos um povo de rua. Gostamos de estar na rua. É por isso que não entendo as poucas esplanadas na cidade, no país. Um país de bom tempo e poucas esplanadas. E as poucas esplanadas que existem estão cobertas. Nem todas, claro.
Cruzei a cidade, passei os subúrbios e deixei-me ir estrada fora até à praia.
Passei pelo pinhal ainda morto, com alguns focos de vida teimosa a brotar entre os cadáveres das árvores carbonizadas. Muito verde e violeta e amarelo a pintalgar o chão de onde ainda se erguiam árvores mortas, ainda não cortadas depois de todo este tempo em que o Pinhal do Rei ficou reduzido a pouco mais de vinte por cento da sua área original, anterior ao grande incêndio. Vê-se, aqui e ali, algumas tentativas de replantação. Mas está tudo ainda muito no início. Há ainda enormes pilhas de troncos de madeira que era suposto terem sido vendidas. Para as celuloses. Para lenha. Mas estão aqui. A apodrecer. Esquecidos.
Chego ao Vale Furado. O pequeno parque em terra batida frente ao Mad, fechado, está vazio. Não há ninguém. O dia está claro. Faz sol. Está calor. Saio do carro e aproximo-me da arriba. Sento-me em cima do varandim de madeira a olhar o mar lá em baixo. Não há ninguém na praia. Só o mar a rebentar as suas ondas e a espraiá-las pelo areal. Consigo ver a costa até à Praia do Norte e o Forte da Nazaré. Não dá para ver se há surfistas ou não na água. Estou demasiado longe para o perceber. Também vejo as Berlengas. Daqui de cima parece tudo muito calmo e tranquilo. Eu respiro. Respiro fundo e com calma.
Acendo um cigarro e deixo-me ali estar por um bom bocado, a apanhar os raios de sol, a maresia que espero que chegue cá acima, e a ver a melodia das ondas, acima abaixo, que me relaxam.
Depois, algum tempo depois, alguns cigarros depois, percebo que retemperei baterias. Fazia-me falta esta comunhão com o mar.
Vi chegar um outro carro com um casal. Voltei para dentro do meu carro e regressei a casa. Enquanto conduzia de regresso percebi que estava com vontade de reler o Knausgard. Tempos de excepção precisam de literatura de excepção. Era tempo de voltar à Morte do Pai.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/29]

Para um Diário da Quarentena (Oitavo Andamento)

Desde que começou esta crise com o coronavírus e eu me remeti a uma reclusão voluntária, que não difere em muito da minha vida habitual pré-covid-19, que decidi começar uma espécie de diário dos meus dias de clausura.
Ao fim de duas semanas, e precisei de tanto tempo para entender, percebi que os meus dias são sempre iguais, banais, de um minimalismo tão grande que parecem algumas das obras do Philip Glass, e concluí que afinal não tenho grandes coisas para contar a quem quer que seja.
Resta-lhes ficar como memórias destes dias. É claro que vou continuar a escrever sobre estes dias de confinamento. O que é que iria fazer se não estivesse aqui a escrever o que estou a escrever?
Os dias repetem-se. Ora faz sol, ora está a chover. Uns dias faz calor, outros faz frio. Por vezes levanto-me de manhã, faço café e vou bebê-lo para o alpendre enquanto olho as montanhas lá ao fundo (quando não estão cobertas pelo nevoeiro), outras vezes deixo-me ficar enfiado debaixo do edredão a cozer a depressão. Umas vezes sento-me à mesa da cozinha, frente ao computador, a trabalhar, outras vezes passeio-me pelo quintal sem conseguir fazer o que tenho de fazer. Às vezes almoço, às vezes não. Tem dias em que me sento no alpendre a ler as notícias nos jornais online, e tem dias em que me encosto à ombreira da porta e vejo a luz descer até ser noite. Às vezes apanho uma maçã da macieira, limpo-a às calças e como-a ali mesmo, outras vezes vou fumar um cigarro para a estrada na esperança vã de ver passar um carro, uma motorizada. Há dias em que dou uma volta pela aldeia e não me cruzo com ninguém, nem mesmo com o padre, e há dias em que me sento no sofá, ligo a televisão e fico a ver a CMTV até começar a enervar-me. nessa altura dou um murro na parede, faço sangue nas nozes dos dedos e tenho de tomar um Brufen para acalmar as dores. A CMTV puxa-me pela violência e por vezes, só às vezes, vejo-a para destilar um pouco da fúria que me acossa. Às vezes dá resultado. Mas só às vezes, não sempre.
Quando tenho paciência, por vezes faço um bom jantar, experimento receitas, invento misturas, quando não tenho paciência como um pão com manteiga, às vezes um pão de véspera, duro, mas só o torro quando consigo ir ao fundo de mim buscar um pouco de vontade, o que não acontece sempre e, na maior parte das vezes, acabo por comer o pão com manteiga assim, duro e seco, e fico embuchado.
Tem noites que me sento no sofá a fazer zapping até adormecer com o comando na mão, cair para o lado e acordar com um fio de baba a escorrer-me pelo canto da boca, mas tem noites em que me sento no alpendre, a ouvir os barulhos da bicharada nocturna e a fumar uma ganza. Às vezes vejo um filme, uma série. Às vezes leio um livro. Mas a cabeça foge-me e na maior parte das vezes o livro fica a meio, adormeço a meio do filme e não vejo o resto dos episódios da série.
Há dias em que o relato do número de mortos e de casos detectados me deixa triste e antecipo o apocalipse num futuro bem próximo. Outros dias o relato desses números deixa-me indiferente e então temo que me esteja a tornar num tipo insensível.
Às vezes não vejo as mensagens que recebo e não atendo as chamadas que me fazem. Deixo tocar o telemóvel até se calar e, depois, desligo-o. Outras vezes leio as mensagens e respondo-lhes, atendo o telefone e até gosto de falar com quem acabo por falar. Mas essas vezes são muito raras. Acontecem muito pouco e sem avisar.
Uma constante que acompanha todos os meus dias, os dias assim-assim e os dias assado é o copo de vinho. Ah, e também o cigarro. São duas as constantes que servem para todas as estações em todos os dias do ano. Esteja eu como estiver, ter um copo de vinho tinto numa mão e um cigarro aceso na outra faz parte de mim, tanto como respirar. E não sou esquisito, posso passar da Barca Velha à Adega Cooperativa da Batalha. Embora a minha carteira esteja bem mais para beber Adega Cooperativa da Batalha que outra coisa.
Os dias repetem-se. Iguais. Monótonos. Continuo sem álcool, sem máscaras e sem sabão azul e branco. Bebo vinho e fumo cigarros, às vezes ganzas. Se não mato o bicho de uma maneira, tento de outra. Não creio muito nas minhas hipóteses de me livrar dele com vinho tinto e cigarros mas, pelo menos, contento o espírito e dou-me alento à alma. Posso morrer mas vou satisfeito. Pelo menos um poucochinho satisfeito.

Para um Diário da Quarentena (Sétimo Andamento)

Não estava a fazer conta sair de casa. Levantei-me a meio da manhã, vesti umas calças de fato-de-treino, uma t-shirt, calcei os chinelos e fui para a cozinha espremer laranjas para um sumo. Fui para o alpendre beber o sumo e ler as notícias nos jornais online.
Nada de muito substancialmente diferente, nas notícias. As mesmas coisas mas com os números a aumentar constantemente.
Enquanto lia os números assustadores de mortos, e lia esses números com uma indiferença que já me era transmitida pelos jornais e pelos responsáveis que todos os dias actualizam os números em conferência de imprensa, carregando nos números para aliviar as pessoas, deixando que as pessoas se tornem números e, dessa forma, perderem um pouco da carga emocional que transportam, pensei que podia guisar o coelho que a vizinha, que mora duas casas mais abaixo, veio cá oferecer.
Tocou o telemóvel. Era a minha mãe. Olá, mãe!, disse. E ela começou Vens cá logo? Preciso de ovos e de sumos de manga para o pequeno-almoço. Já não tenho nenhuns. E sacos do lixo… Ah, e antes que me esqueça, preciso de álcool que já não tenho nada cá em casa. E eu respondi Oh mãe!, mas eu não posso ir ao supermercado dia sim, dia não, e senti-a em silêncio lá do outro lado. E continuei Está bem. Vou aí depois de almoço. E damos um passeio à volta do quarteirão. E alegre, ela respondeu Está bem.
E onde é que vou arranjar álcool? pensei.
Troquei os chinelos por umas sapatilhas. Vesti uma camisola. Fui a uma vizinha na aldeia e comprei uma dúzia de ovos. Passei na farmácia, mas não havia álcool. Passei na mercearia mas não havia sumos de manga. Voltei a casa para ir buscar o carro. Já não ia cozinhar o coelho. Levei-o para a minha mãe. Ela até gosta mais de coelho que eu.
Saí com o carro. Ainda tinha combustível. Passei no Pingo Doce. Estava fechado. Só abria mais tarde. Fui ao Lidl. Uma fila enorme. Mais à frente o Modelo-Continente. Aberto. Sem fila. Comprei dois packs de quatro garrafas pequenas de sumo de manga. Um rolo de sacos do lixo de trinta litros. Procurei álcool. Não havia. Lembrei-me do sabão azul e branco. Também não. Procurei luvas e máscaras. Nada.
Fui até casa da minha mãe. Antes de subir fui à pastelaria comprar-lhe pão fresco. Estava fechada. Novo horário. Este será o maior problema destes tempos. O conhecimento dos horários de funcionamento de lojas onde precisamos de ir porque cada uma funciona com o seu próprio horário.
É uma porra, é o que é!
Subi a casa dela. Estava na sala. Larguei as coisas na cozinha. Aspirei a casa. Depois passei uma esfregona molhada na cozinha e na casa-de-banho. Pedi-lhe para ir para a cozinha arrumar as coisas que já íamos sair e aspirei a sala.
Ficou muito contente com o coelho. Ficou triste pela falta de álcool.
Saímos. Descemos no mesmo elevador. Mas ela ia ao fundo. Eu mais próximo da porta. Eu é que ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto e fechado. Na rua começamos a andar ao longo do passeio. Não havia vivalma. Ela sentiu-se triste. E disse-me Eu sei que as pessoas estão em casa mas ver a cidade assim é diferente. Mesmo visto da varanda é diferente. É uma cidade muito triste.
Sim, era uma cidade muito triste. A cidade quase deserta. Quase vazia. Quase silenciosa. Irreal. Mais à frente vimos algumas pessoas. Ela conhecia algumas delas. Sorriu-lhes e cumprimentou alguns conhecidos à distância de um aceno com a mão, ou com um adeus. Andámos à velocidade dela. Distantes um do outro mas próximos o suficiente para ele conversar. Ela é que fazia a maior parte da despesa da conversa. Estava há muito tempo fechada. Precisa de ser ouvida. Ela falava. Eu ouvia. E respondia. Às vezes parava a ver uma montra. Eu dizia-lhe para ter cuidado e não se encostar. Demos a volta ao quarteirão e regressámos a casa dela. Levei-a a casa. Eu ia abrindo e fechando tudo o que precisava de ser aberto ou fechado. Dissemos adeus. Pedi-lhe de novo, e a saber que não valia de nada pedir, para me ir dizendo o que precisava com antecedência para eu anotar tudo e tratar das coisas todas de uma vez. Ela disse que sim, claro. Como diz sempre. Mas acho que já nem se lembra com o que é que está a concordar. Levei o lixo dela para baixo.
Fui embora.
Ao despejar o saco de lixo no caixote, na rua, reparei que haviam luvas e máscaras espalhadas pelo chão. Perguntei-me de onde vinha aquilo. E porque raio estava espalhado pelo chão em vez de estar dentro de sacos dentro do caixote.
No carro, ainda parado, pensei que não tinha luvas, nem máscaras, muito pouco álcool e só um pequeno pedaço de sabão azul e branco. Não conseguia arranjar em lado nenhum. Também não ia de propósito à procura das coisas mas, em todo o lado que ia para comprar outras coisas, procurava e nunca havia. Via muita gente com estes produtos na rua. Se calhar açambarcaram logo no início. Se calhar têm tido sorte em apanhar as novas remessas. Eu não gosto de açambarcar coisas. Não encho jerricãs de combustível. Limitei-me a ter o depósito cheio. E só o enchi uma vez. Não comprei papel-higiénico. Não mais do que o que compro normalmente. Não comprei conservas para além das habituais. Não comprei álcool porque tinha uma garrafa em casa, e é com essa garrafa que me tenho desinfectado antes de entrar em casa da minha mãe e no regresso à minha. Quando tentei comprar máscaras e luvas, percebi que já era tarde. Não havia nem para os profissionais de saúde que estavam na linha da frente do combate e eles precisam mesmo destas protecções, haveria para mim? Mas via muitas pessoas na rua com máscaras.
Depois de chegar a casa, fui lavar as mãos. Despi-me. Tomei banho. Lavei a roupa que tinha utilizado. Depois cortei umas peças de fruta, uma laranja, uma maçã, uma pêra e um kiwi, era o que tinha em casa, despejei um iogurte numa tigela e coloquei a fruta em pedaços à volta. E fui para o alpendre comer. Hoje não via as montanhas. Não estava sol. O cão estava a dormir enrolado nele próprio e nem me ligou. Os gatos olharam-me à distância mas nenhum me veio incomodar. Comi sozinho no alpendre.
Chegaram umas mensagens ao telemóvel que não quis ler.
Deixei-me adormecer.
Acordei com frio e com um arrepio nas costas. O cão continuava no mesmo sítio. Agora também lá estavam os gatos. O telemóvel voltou a acusar a recepção de uma mensagem. Pus o telemóvel no bolso e entrei em casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/26]

Para um Diário da Quarentena (Quinto Andamento)

Hoje dei corpo à expressão da directora geral de saúde. Saltei o muro do vizinho e fui lá buscar dois frangos. Hoje ou ontem. Era de noite. Talvez já depois da meia-noite. Ou talvez não. Os dias e as noites, as horas, o tempo está um labirinto onde me sinto perdido. Tenho a noção do agora que é onde estou. Depressa me perco em relação ao tempo passado. Mas acho que foi hoje que já devia ter passado da meia-noite e que devo lá ter ido de madrugada para ninguém me ver.
Hoje, portanto, dei corpo à expressão da directora geral de saúde e saltei o muro da casa do vizinho, que está em França, e fui lá buscar dois frangos ao galinheiro. O vizinho tem lá em casa alguma criação que um velho da aldeia cuida. Galinhas, coelhos, perus. Até lá tem umas cabras que o velho põe a aparar a relva da casa e eu próprio já pensei em pedi-las emprestadas para me virem comer as ervas que crescem desgraçadamente ao deus-dará e para as quais não tenho paciência de andar a cortar quase de dois em dois meses.
Foi um escarcéu dos diabos quando entrei no galinheiro. Mas a casa fica longe da aldeia e o galinheiro fica no lado sul da casa e que serve de bloqueio à propagação do som. Acho que ninguém ouviu o barulho das galinhas a cacarejar e o irritante cocó que não me largava as pernas e, por duas vezes, bateu asas e de um pulo tentou bicar-me o nariz até que lhe dei um pontapé que o fiz dançar e vi-o a fugir para dentro de uma capoeira, talvez para as asas confortáveis de alguma galinha poedeira.
Torci os pescoços aos dois frangos e trouxe-os pendurados nas mãos até casa. Levei-os para a cozinha para o cão e os gatos não se armarem em parvos. Cortei-lhes os pescoços e deixei-os pendurados a derramarem todo o sangue para um alguidar. Pus uma panela grande, a maior panela que tenho em casa e que nunca uso senão para isto, cheia em dois terços de água e deixei-a ao lume em cima do fogão. Enquanto esperava fui para o alpendre fumar um cigarro. Era de noite. Madrugada, já. Via ao longe as luzinhas da aldeia. Não conseguia ver as montanhas lá ao fundo. Não ouvia nenhum barulho. Nem a coruja que costuma pôr-se para aí a assobiar e que às vezes me acorda e me obriga a levantar pois já não consigo voltar a adormecer depois de ter acordado. Ia deitar o sangue fora, claro. Depois de apanhar todo o sangue dos dois frangos, ia deitá-lo fora. Se soubesse fazer arroz de cabidela, guardava-o, mas não sei. Era um segredo da minha mãe que ela própria já esqueceu. No outro dia ainda foi comprar dobrada e fez-me uma dobradinha como eu me lembrava que ela fazia. Falei-lhe da cabidela e ela desculpou-se com as galinhas de agora que já não são boas para a cabidela e eu percebi.
Acabei o cigarro e voltei a entrar na cozinha. A tampa da panela saltitava em cima da água a ferver. Retirei a tampa. Enfiei lá um frango inteiro. Contei mentalmente dois minutos, três minutos e retirei-o e larguei-o no lava-loiças. Fiz o mesmo com o outro. Voltei a contar dois, três minutos. O cheio das penas cozidas dos frangos agoniava-me, mas aguentei. E no fim, atirei o segundo frango para cima do outro, dentro do lava-loiças.
Parei por momentos a tentar pensar no passo seguinte. E agora? perguntei em voz alta. Fechei os olhos e tentei ver a minha mãe a tratar das galinhas que tinha num pequeno galinheiro atrás da garagem onde o meu pai guardava o carro todas as noites para não apanhar o cacimbo nocturno e percebi que era altura de fazer a depenagem.
Arranjei um outro alguidar e levei um frango lá para fora. Sentei-me no alpendre. Uma pequena luz iluminava-me o trabalho. Comecei a depenar o primeiro frango. As penas saíam com facilidade mas, ao mesmo tempo, era preciso usar de uma certa força. Aquela porra estava bem agarrada. O cão e os gatos aproximaram-se de mim. Deitaram-se todos a olhar para o que eu estava a fazer. A olhar para o frango a ser depenado. Um dos gatos saltou para dentro do alguidar cheio de penas molhadas e tive de o enxotar. Depois fui buscar o segundo frango e repeti as acções. No final tinha os frangos depenados e um alguidar cheio de penas. Primeiro acendi um dos bicos do fogão, peguei num dos frangos pelas patas e pelo pescoço e passei-o sobre as chamas para queimar a pequena penugem. Repeti com o outro. Depois despejei as penas dos frangos num saco de lixo e fui levar o lixo ao caixote que está na estrada lá em baixo. Acendi um cigarro e fui a fumar. Larguei o saco no lixo. Parei na estrada. Tentei ouvir barulho, mas não ouvia nada. Parecia que não havia ninguém. O mundo estava silencioso. O céu era uma cúpula cheia de pequenas luzinhas a tremelicar. Do outro lado da estrada, na casa de um outro vizinho, vizinho ausente que tinha ido para a cidade, para a casa do filho para o ajudar, ele e a mulher, mesmo depois de todos os avisos para as pessoas mais velhas evitarem todos estes contactos com os mais jovens e possíveis fontes de contágio muito mais graves para eles, quer dizer, nós, estava uma laranjeira carregada de laranjas. Saltei o muro, que nem era muito alto, tirei a camisola e utilizei-a como saco e trouxe vários quilos de laranjas para casa.
Gostei dessa ideia da horta do vizinho da directora da saúde, mesmo que não seja para ir buscar brócolos.
Regressei a casa. Quando voltei a entrar na cozinha senti o cheiro enjoativo dos frangos passados por uma pequena cozedura, misturado com o queimado da penugem. Abri uma das janelas da cozinha e deixei-a aberta. Tinha rede mosquiteira e os gatos não iriam lá entrar.
E fui-me deitar.
Há pouco, hoje ainda porque o dia ainda é o mesmo que ontem à noite que já era hoje, mas depois de ter acordado, depois de ter feito café fresco e espremido umas laranjas para um saboroso sumo e de ter torrado duas fatias de pão saloio que comi barradas com manteiga, cortei um dos frangos em pedaços pequenos, comecei com uma faca mas depois tive de ir buscar um cutelo, para fazer um guisado.
Já tenho o primeiro frango cortadinho aos bocados. O outro está no frigorífico à espera de uma ideia. Depois irei cortar uma cebola, uns alhos e umas cenouras, juntarei um tomate e um pouco de concentrado, sal, pimenta, um pouco de vinho branco, juntarei o frango em pedaços e, mais tarde, quando o frango estiver quase no ponto, hei-de juntar um bocado de esparguete.
Entretanto estarei aqui pelo alpendre a fumar mais um cigarro. A ouvir o silêncio que me cerca e a ganhar coragem para ir ver quantos são já os mortos de hoje. Mas daqui, desta distância onde estou, tudo me parece irreal. Tenho de ir a mais hortas dos meus vizinhos. Ajuda-me a passar o tempo e a sentir-me vivo, apesar da reclusão. Não tarda é Agosto e eu quero ir à praia. Ou queria. O tempo não está para estes desejos tão mundanos.
Como é que se mata uma cabra?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/22]

Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Para um Diário da Quarentena (Terceiro Andamento)

Hoje foi um dia bizarro. Tudo o que não fiz ontem, fiz hoje.
Levantei-me cedo, seduzido pelo sol matinal. Lancei logo o edredão para os pés da cama. Saí de um salto, vesti uma t-shirt e fui à cozinha pôr o café a fazer. Liguei o iPod à coluna e deixei em modo aleatório. Arrancou com PJ Harvey. Uh Huh Her. Acendi um cigarro e fui fumá-lo para o alpendre. Os gatos vieram roçar-se nos meus pés descalços, dengosos, a ronronar.
Lancei o cigarro para o meio do quintal e entrei em casa para ir tomar um duche.
Sentia-me bem-disposto.
Pensei se eu seria mesmo eu.
Tomei o duche. Vesti-me. Bebi café. Comi uma banana. Lavei os dentes e peguei na chave do carro. Desliguei o iPod antes de sair de casa.
Hoje tinha de sair. Por motivos de trabalho, tinha de sair do meu refúgio. Largar as minhas rotinas. Tinha de ir longe. Não ia estar com muita gente. Nem ia demorar muito tempo. Mas era longe. Tinha de ir encher o depósito do carro. Ia aproveitar para registar o Euromilhões. Comprar pão fresco. Umas garrafas de vinho, que andam a esvaziar-se muito depressa.
Tinha umas máscaras e umas luvas no carro caso precisasse. Algumas moedas. O multibanco. Um lápis com borracha para marcar o código do cartão e fazer os pagamentos. E um frasco aspersor com álcool.
Fui.
Fiz o que tinha a fazer.
E regressei.
Entrei em casa. Despi-me ainda na cozinha. Pus a roupa na máquina e lavei-a a quarenta graus. Depois lavei-me a mim e vesti um fato-de-treino.
Abri uma garrafa de Adega de Pias, das mais baratas. Sentei-me à mesa da cozinha, frente ao computador e comecei a escrever. E escrevi bastante e durante bastante tempo. Tanto tempo que tive tempo de despejar a garrafa de vinho. Só então parei e acendi um cigarro. E reparei que já era de noite.
Este foi um bom dia, pá! pensei.
Lembrei-me que havia o Festival Eu Fico em Casa e liguei o Instagram. E deixei a tocar. Nem sei quem era que estava a tocar. Acho que nem conhecia. Deixei na coluna.
Abri outra garrafa de Adega de Pias. Cortei uns legumes. Desfiei um resto de frango assado que tinha no frigorífico. Salteei tudo no wok. Depois misturei uns bocados de sementes de sésamo e uma azeitonas.
Desliguei o festival e liguei a televisão. Hora do noticiário. Jantei os legumes salteados com o resto de frango desfiado na companhia do vinho tinto a tomar atenção às novidades do Covid-19, aos infectados e aos mortos. Afinal estávamos em emergência, ou não?
As coisas estavam cada vez pior.
Mas eu continuava bem disposto.
Quem seria eu, afinal?
Desliguei a televisão da cozinha. Baixei a tampa do computador. Arrumei a louça suja na máquina. Agarrei num copo e despejei-lhe dois dedos de Bushmills. Sem gelo. Fui para a sala. Liguei a televisão. Ao fim de algum tempo de permanência nos canais de notícias, comecei com o zapping.
Comecei a sentir a melancolia a instalar-se.
Relaxei.
Afina, eu era eu. Sou eu. E aqui estou, de rabo enfiado no fundo do sofá, a ganhar coragem para ir à cozinha buscar mais um bocado de whiskey e trazer para aqui o cinzeiro. Mas não me consigo levantar. Apetece-me, mas não me apetece. Tenho qualquer coisa a tremer dentro de mim.
Sorrio, mas não sei de quê.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/17]