Para um Diário da Quarentena (Quarto Andamento)

Estou há uma semana em casa. Mas não estou completamente fechado. Tenho dado uns passeios. Vou ao pão. Às vezes vou ao minimercado onde não há filas de espera e onde, às vezes, sou o único cliente. Para além de mim, costuma estar uma empregada, a mesma que corta o fiambre em fatias fininhas e depois recebe na caixa o dinheiro da despesa.
Mesmo quando estou por casa estou pela rua. Pelo alpendre. Pelo quintal. Desço ao fundo da alameda. Vou até à estrada, ando uma centena de metros para um lado, depois para o outro, e não passa nenhum carro. Pareço ser o último homem na terra.
Ontem saí. Saí de casa, da terra, e fui à cidade. Fui levar mantimentos à minha mãe.
A minha mãe já tem oitenta e nove anos e vive sozinha no meio da cidade. Ela gosta de sair, de laurear-a-pevide, ir ao café, ao supermercado, de ir almoçar uma sopa de peixe à Quarta-feira, ao café da Avenida. Agora passeia-se maldisposta por casa. Vai até à varanda!, digo-lhe eu ao telefone. E ela vai. Passa todo o tempo possível na varanda, pelo menos até o tempo começar a arrefecer, mas depois diz Não é a mesma coisa. E agora já não passa quase ninguém na rua, e eu digo-lhe Tens de aguentar! e lá começa ela a desfiar todas as histórias das minhas adolescentes fugas de casa que, julgava eu, ela não sabia. Mas sabia. E agora penso se não me está a preparar para alguma asneira. E digo-lhe Porta-te bem. Ficas em casa e quando isto passar, vamos comer uma sardinhada à praia, na esperança que uma sardinhada na praia ainda tenha o mesmo efeito cativante de antigamente.
Comprei várias coisas para ela aqui pelo minimercado, pelo pequeno talho e pela senhora que ainda vem à aldeia, numa carrinha, vender peixe fresco. Assim evito as filas dos hipermercados e o contacto com outras pessoas.
O mundo, com as pessoas assim à distância, até nem me parece muito mau.
Fiz um pequeno cabaz com mantimentos para uma semana, mas talvez lá consiga ir mais cedo. Também não quero ter muito contacto com ela, por estes dias.
Levei um robalo que pedi à senhora que o amanhasse e cortasse em quatro partes (era grande, o rabalo), e que em casa iria colocar em saquinhos individuais, dois bifinhos de vaca, duas iscas e um chouriço caseiro. Levei batatas novas, grelos de couve e algumas cebolas e alhos. Uns iogurtes gregos, que ela gosta bastante, e um pacote de manteiga pequeno que ela queixa-se que nunca encontra, são sempre muito grandes, e ela não come muita manteiga, embora às vezes lhe apeteça um bocadinho, e depois fica muito tempo no pacote aberto e ganha ranço. Também levei uma meia-dúzia da ovos caseiros que uma quase-vizinha me ofereceu.
Passei pela padaria e comprei alguns papo-secos, que até aguentam mais tempo molinhos, e uma broa amarela. Passei também na farmácia para levantar uma receita da sua medicação habitual e foi o único sítio onde estive à espera. Mas lá fui aviado sem muitos problemas.
Entre entradas e saídas tenho lavado as mãos com álcool. Não uso máscara que não tenho nenhuma e nunca encontrei à venda.
Cheguei a casa dela. Olá, mãe! Olá, filho! E ela foi para a sala ver televisão enquanto eu desfiz o cabaz e deixei tudo em cima da mesa da cozinha para ela arrumar e saber o que tem lá em casa. Abri-lhe uma garrafa de vinho tinto para ela beber um copo se quisesse. Enchi a caixa dos comprimidos. Havia alguns que ela não andava a tomar. Tinha de lhe dizer que sabia que não os andava a tomar para ver se ela os tomava. Depois fui ao quarto dela e fiz a cama de lavado. Ia gostar de se deitar nos lençóis impecavelmente esticados e depois levei a roupa da cama para a máquina e deixei-a a trabalhar.
Fui à entrada da sala e disse-lhe Vou-me embora. Porta-te bem. Vai até à varanda. E vê lá se tomas os comprimidos todos. E ela começou a abanar a cabeça e respondeu, refilona Se não tomei os compridos todos foi porque não calhou, ora. Nunca te esqueceste de nada? E farta da varanda estou eu. Quando cá voltares e eu não estiver em casa é porque fui dar uma volta, ao que eu repliquei Vê lá, vê!…
Voltei para casa a pensar que na próxima ida teria de aspirar a casa. Dar uma limpeza à casa-de-banho. E que ela estivesse em casa. Ah, sim, que ela estivesse em casa. E ri-me.
Hoje o dia acordou de chuva. Vim para o alpendre onde ainda estou. Os gatos andam para aí a passear à chuva. Nunca percebi isto. Os gatos têm medo de água, cada vez que ligo a mangueira para regar as plantas e as couves, os tipo fogem, e depois andam à chuva. O cão está a dormir todo enrolado ao pé de mim. Eu fumo um cigarro e estou a ver as manchetes dos jornais online. Parece que já morreram doze pessoas. Em Itália já morreram mais de quatro mil.
Como a minha mãe costuma dizer, aqui estamos num cantinho do céu. Espero que continuemos.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/21]

Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]

Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Depois

Depois do divórcio, depois de ter saído de casa e porque estava desempregado (o divórcio tinha sido também uma consequência do ter sido despedido), passei um período bastante complicado.
Durante alguns dias andei a dormir na rua. Não custou muito, era Verão. Depois consegui trabalho por uns tempos no McDonalds e arrendei um quarto. Um quarto numas águas-furtadas que não tinha janela, tinha uma clarabóia por onde eu podia enfiar a cabeça e ver os telhados das casas adjacentes. Estas águas-furtadas tinha vários quartos, e estavam todos alugados a homens. A senhoria, que vivia no apartamento por baixo, deixava-nos alguma privacidade, mas não nos deixava levar para lá mulheres. Era a única objecção. Não queria lá mulheres, fossem elas as nossas mães ou irmãs, companhias ou meras amigas. Não há amizade entre homens e mulheres, dizia, só interesse.
Havia uma pequena cozinha que podíamos utilizar e que ninguém utilizava. Normalmente quase toda a gente comia frango assado e pizza ou ia à carrinha da Igreja Evangélica que passava uma vez por semana na avenida lá perto de casa.
Também havia uma casa-de-banho que tinha de servir para toda a gente e que, de manhã, em certos dias, eu utilizava ainda de noite para evitar o congestionamento matinal. Toda a gente queria a casa-de-banho à mesma hora. Eu evitava isso.
Cheguei a dever dois e três meses de renda do quarto, mas a senhoria era compreensiva. Sabia que, mais dia menos dia haveríamos de encontrar trabalho e aí regularizávamos as contas. E eu assim fazia. Quando tinha trabalho, regularizava as contas da casa. Mesmo que me obrigasse a passar fome. Mas precisava de um quarto. O Inverno na rua devia ser terrível e não queria passar pela prova. Já me chegara aqueles dias iniciais, no Verão, quando a minha mulher, a minha ex-mulher, me pediu para sair de casa, da vida dela, da vida de toda a gente que conhecíamos que os amigos eram dos dois e passaram a ser só dela. E eu saí.
Depois do McDonalds passei por vários outros sítios. Sítios assim, de salário curto. Já fui jardineiro. Andei a varrer as ruas da cidade. Também andei nos camiões de recolha do lixo, mas não aguentei por muito tempo aquele cheiro. Não sou um tipo esquisito, mas aquele cheiro deixava-me com umas terríveis dores-de-cabeça que me levaram várias vezes ao médico de família no Centro de Saúde. Também andei ao dia, a dar serventia a pedreiros, mas não aguentei. A minha bronquite limitava-me os esforços físicos. Ao fim de uma semana desisti.
No McDonalds tive sempre como colegas miúdos do Politécnico. Alguns também do Secundário. Fui uma espécie de pai deles todos. No fim do dia eles iam para as suas casas aquecidas, ter com os pais, com os namorados, para casas partilhadas, e eu regressava ao meu quarto, abria a clarabóia e fumava um cigarro com a cabeça de fora. Por vezes eles olhavam para mim e tinham medo de se verem a eles próprios. Eu era licenciado. Pré-Bolonha. Cinco anos de Licenciatura. E estava ali, com eles.
Após alguns trabalhos temporários, quase sempre para poder comer e pagar o quarto, estou, finalmente, há cerca de seis meses, no mesmo trabalho, numa quinta de eventos onde me dedico à limpeza das pequenas casas para alugar, uma espécie de bangalós. Faço as limpezas maiores. Aspiro. Lavo. Limpo o pó. Uma miúda passa depois de mim e faz as camas de lavado, muda as toalhas, enche a fruteira, uma garrafa de água no pequeno frigorífico e deixa tudo preparado para receber os hóspedes seguintes. Também faço pequenos arranjos. Um parafuso solto. Um vaso tombado que se partiu. Um estrado que se quebrou.
Como sou a primeira pessoa a passar pelas casas depois da partida dos hóspedes, para recolher a roupa suja e a levar à lavandaria, também deparo com alguns restos que ficam nas casas. Alguns esquecidos. Outros perdidos. Outros ainda simplesmente para serem deitados fora. Se bem que a quinta tenha regras bem definidas para tudo o que seja encontrado nas casas, tudo é guardado numa espécie de Perdidos & Achados durante um ano, ao fim do qual as peças são distribuídas pelos empregados, se as quiserem, senão, são oferecidos a centros de dia da zona, eu costumo ficar com as comidas e bebidas. Primeiro eram os chocolates e os pacotes de batatas fritas ainda por encetar. Mas depressa comecei a guardar as garrafas de vinho, mesmo que só tivesse um pequeno resto. Os restos de comida. Se no início eram só as coisas que me parecessem intactas, agora já levava tudo. Restos de hambúrgueres. De frango assado. Fatias de pizza. Queijos. Alguns com bolor mas que bastava raspar e ficavam bons. Rodelas de enchidos perdidas no pequeno frigorífico. Garrafas de cerveja. Normalmente minis. Aprendi a aproveitar tudo. A dar valor a coisas insignificantes. A nunca desperdiçar nada.
A minha vida nunca mais se endireitou, no sentido de retomar um trajecto que já tive e que parecia levar-me para algum lado. Que não levou. Mas nestes últimos tempos pareço ter ganho algumas raízes aqui onde já estou há seis meses. Ganho o salário mínimo, o que não me dá para economizar ou sonhar com o futuro nem ter grandes ideias sobre o que hei-de fazer à minha vida. Mas vou tendo que comer. Deito-me numa cama quente e seca. Consigo tomar banho de água quente todos os dias. Lavo o cabelo duas vezes por semana. Sinto falta de uma mulher. Não uma mulher para ir para a cama. Às vezes vou ali ao Marachão e dou dez euros a uma rapariga. Mas uma mulher com quem partilhar o dia-a-dia. Com quem falar. Perguntar Como foi o teu dia? Alguém a quem me queixar das dores-de-cabeça. Alguém que se preocupasse comigo, alguém que me perguntasse Queres uma canja de galinha? Um Brufen? Um Antigripine? Mas não tenho vida suficiente para ter vida nela. Só consigo ganhar o suficiente para a minha solidão. E assim vou seguindo em frente. A ver até onde consigo chegar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/25]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

O Circo Chegou à Aldeia

Foi na Quinta-feira de manhã que as vi chegar. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Com elas vinha um altifalante a anunciar-se. Começam cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. O cão começou a ladrar. Passaram as primeiras auto-caravanas. Depois uns camiões TIR. Uns deles transportavam jaulas. A primeira que vi trazia um tigre. Um enorme tigre de Bengala. Pensava que os animais enjaulados tinham sido proibidos.
Passaram aqui em frente e desapareceram. O altifalante morreu em fade.
À hora do almoço voltei a ouvir o altifalante. Mas desta vez parecia que não queria ir embora. Fui à janela. Olhei. Estava uma carrinha estacionada na estrada aqui em frente. Uns rapazes andavam de um lado para o outro a colocar umas placas nos postes de electricidade e nas árvores. Um deles estava parado a fumar um cigarro e a olhar aqui para cima. Aqui para casa. Eu deixei-me estar quieto onde estava. Não me mexi para não me detectarem.
Depois do almoço desci à estrada. Fui ver. Tinham andado a colocar publicidade. Era o Circo. O Circo Chegou a Esta Localidade, informava um cartaz. Assim, sem identificar a localidade e dando para todas as localidades por onde passassem. Também informava 30 Animais na Arena. Voltei a pensar que tinha sido proibido haver animais no circo.
Voltei para casa.
À noite, depois de jantar, dei uma volta a pé. Fui até ao circo. Estava cheio de gente à entrada. Era dia de semana e havia muita gente pronta para assistir ao espectáculo de circo. Gente que entrava em magote para dentro da enorme tenda. Ao lado da entrada, um rapaz fumava um cigarro e olhava as pessoas. O olhar dele cruzou-se com o meu. Desviei o olhar.
Há anos que não ia ao circo. Sempre achei que era deprimente. Triste. Mas pensei em ir. Olhei o cartaz à entrada. De Quinta-feira a Domingo às 21:30’. Sábado e Domingo também às 16:30’. Tinha tempo, pensei.
Acendi um cigarro e voltei para casa a fumar.
Passaram os dias. E as noites. Foi-se o fim-de-semana. A carrinha com o altifalante continuou a passar várias vezes na estrada lá em baixo para me convidar a entrar na tenda grande e assistir à vida na arena. Mas fui empurrando a vontade, que não era nenhuma, até deixar passar a última sessão.
Era já Segunda-feira de manhã quando as vi partir. As auto-caravanas.
Ainda o sol não tinha despontado por trás das montanhas, já as primeiras auto-caravanas estavam a passar aqui em frente. Desta vez iam em silêncio. Não havia altifalantes a anunciar a partida. Vão cedo, estes, pensei.
Eu estava no alpendre a fumar um cigarro. Primeiro passaram as auto-caravanas. Depois os camiões TIR. O último a passar transportava uma jaula. Uma jaula com o tigre de Bengala. E eu vi-o afastar-se ao longo da estrada enquanto fumava o cigarro. Depois desapareceu. Chegou o silêncio.
E estava instalado o silêncio quando ouvi o primeiro grito. Logo depois o segundo. E, em seguida, vários gritos em confusão. A localidade estava toda a acordar ao gritos. Vi gente a correr na estrada lá em baixo. Vi passar um jipe da GNR. Um vizinho viu-me no alpendre, aproximou-se do muro, ao fundo, e gritou-me As crianças! As crianças desapareceram todas! E eu perguntei-me Que crianças?

[escrito directamente no facebook em 2019/07/04]

Ter Crédito no Telemóvel e Alguns Cigarros no Bolso

Eu vi o tipo caído no chão e não fiz nada. Passei ao lado. Desviei-me no passeio, mas não cheguei à estrada. Foi só um pequeno desvio para não o pisar. Mas também não me baixei para perguntar se era preciso alguma coisa.
Olhei para as outras pessoas que passavam por ele. Fizeram todos como eu. Passaram à volta. Não o ignoraram porque não podiam. Ele estava ali. No meio da passagem. No meio do caminho entre um sítio e outro que as pessoas têm de utilizar para cumprirem as suas obrigações, os seus rituais, as suas necessidades. Ele estava presente e não podia ser ignorado. Mas as pessoas passavam ao lado. Como eu.
Depois de tê-lo deixado lá para trás, parei. Parei e virei-me. Olhei lá para trás. Para ele. E chegou-me uma convulsão de choro. Lágrimas a caíram-me dos olhos e escorrerem céleres cara abaixo. Entraram pela boca. E estavam salgadas. Que porra!
Isto faz de mim uma pessoa má?
Eu sei que devia, que podia ter parado ao pé dele. Que podia ter-me baixado. Que podia ter-lhe perguntado se precisava de alguma coisa. Mas o que é que eu podia ter dado? O que é que eu podia dar? O que é que eu tinha que podia dar a quem quer que fosse?
Peguei no telemóvel e liguei para o cento e doze. Avisei que estava um homem caído no chão no meio da rua e desliguei.
Acendi um cigarro e fiquei ali à espera. O homem continuou caído no chão. Não sei se estava bêbado, drogado, morto ou a dormir. Mas não o vi mexer-se. Também não vi sangue. Talvez não estivesse ferido. Talvez fosse só uma queda. Talvez fosse só uma quebra de tensão. Mas também podia ser fome. Podia ser desespero.
Olhei para o meu cigarro e pensei que ainda tinha dinheiro para os cigarros. E ele?
Pensei numa coisa que ouvi um dia destes Ter algo em que acreditar! Como se pode ter algo em que acreditar quando não temos nada em que acreditar? Quando vemos que a vida nos passa ao lado? Que não percebemos como é que as pessoas agarram a vida se ela, a nós, a ele, a mim, nos escorre pelos dedos como a água do mar? Como se pode ter algo em que acreditar quando a barriga dá horas e temos de fazer ouvidos de mercador. Quando somos largados na rua porque não podemos pagar as rendas de casa feitas a pensar no turismo de airbnb. Quando nos dizem que não há dinheiro para pagar pensões, desemprego, calamidades e depois vemos… E depois vemos o que vemos à nossa volta que não em nós.
Há muito dinheiro a circular, neste mundo. Mas não é por aqui.
Porra!
Ouvi a sirene do INEM. Chegaram os paramédicos. Mexeram-lhe. Ele mexeu-se. Eles fizeram-lhe alguma coisa que não percebi o quê e meteram-no numa maca. Enfiaram a maca na carrinha. Vi a carrinha a desaparecer e o som da sirene a extinguir-se lá pelo meio da cidade agressiva e impessoal.
Virei-me para seguir o meu caminho e percebi que não tinha caminho. Eu não ia para lado nenhum. Não tinha nenhum sítio para onde ir.
Pensei que eu também não tinha nada em que acreditar porque era como aquele tipo ali caído sozinho no passeio. Só que eu ainda tinha algum crédito no telemóvel e uns cigarros no bolso. Mas é só. E até quando?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/11]

Um Prego no Pneu

Eu ia na auto-estrada. Era de noite e eu ia na auto-estrada. Ia sozinho no carro. Não havia ninguém para além de mim. Era uma noite vazia. Uma viagem tranquila e solitária. Senti uma guinada para a esquerda no volante. Pensei que fosse o vento. Mas não parecia haver vento. O carro endireitou. O volante continuou a seguir as minhas mãos. O carro seguia em frente. Parecia mais pesado. A direcção parecia mais pesada. O carro começou a tentar fugir-me. Eu tentei escutar. Não ouvia nada estranho. Desliguei a música. Nem me tinha apercebido que tinha música a tocar. Desliguei a música e escutei. Parecia haver um som esquisito, mas não percebi bem o que era. A direcção do carro continuava pesada. O carro, agora, parecia teimar em virar à esquerda. Encostei na berma direita da auto-estrada.
Saí do carro. Dei uma volta em torno dele. Numa quase obscuridade não via grande coisa. Não havia carros a passar. Não havia feixes de luz. Parei no pneu da frente do lado esquerdo. Não precisei de luzes. Estava em baixo. Via-se o pneu em baixo. Completamente em baixo. A jante quase no asfalto. Tinha um furo. Pus as mãos na cintura e maldisse a minha vida.
Fui ao porta-bagagens. Abri-o. Olhei lá para dentro. Cocei a cabeça. Levantei o chão do porta-bagagens. Uma roda com ferramentas. Um triângulo, e pensei O triângulo! Tenho de ir colocar o triângulo. Um macaco. Mais umas coisas que não identifiquei. Tirei essa roda de ferramentas para fora do carro. Lá por baixo, uma roda pequenina com uma faixa amarela. Tirei-a também.
Peguei no triângulo e comecei a andar para trás para o colocar na estrada. Não havia carro nenhum a passar. Não havia. Logo apareceu um carro da Brigada de Trânsito. Ligou as sirenes de luz. Parou na berma depois de passar por mim. Larguei o triângulo no asfalto. Regressei. Ao passar ao pé do guarda disse Boa-noite. E ele respondeu Boa-noite? Já tem uma multa. Eu parei a olhar para ele. Não tinha percebido. Ele tinha um sorriso sacana na cara. Perguntei Como?! e ele perguntou-me O colete? E eu pensei Foda-se!
Procurei pelo carro todo. Não o encontrei.
Comecei a desmontar a roda. Desaparafusar os parafusos. Oh, pá! E força? Aquela porra é apertada com máquina. Tentei fazer força com o pé dentro de uma sapatilha que se dobrava toda com a força. Insisti. Mudei de parafuso. Fui insistindo. Fui mudando de parafuso. Fiquei com a palma da mão direita toda negra da força. Os dedos sujos do pneu. Rasguei uma sapatilha.
Um dos guardas foi colocar-se, com uma vareta luminosa nas mãos, ao pé do meu triângulo, para avisar os carros. Mas não passou nenhum. O outro ficou ao pé de mim a ver as minhas dificuldades. Eu transpirava. Rasguei a palma da mão. Fiz sangue. Finalmente um dos parafusos cedeu. Os outros foram atrás. Mais ou menos.
Enfiei o macaco debaixo do carro. Comecei a dar à manivela. Aquela merda não dá jeito nenhum. Encaixei o macaco no veio. Comecei a levantar o carro. Depois acabei de desaparafusar os parafusos. Retirei-os todos. E o pneu. Olhei para o guarda, satisfeito. Ele abanou a cabeça e sentenciou O colete!…
Voltei a fechar a minha cara. Olhei para o pneu. Um prego. A cabeça de um prego no pneu. Levei-o para o porta-bagagens e mandei-o lá para dentro. Tinha as mãos pretas. Uma delas encarnada do sangue. Peguei no pneu pequenino e levei-o até à roda. Coloquei-o. Apertei um pouco os parafusos. Baixei o macaco. O carro ficou direito no asfalto. Apertei os parafusos. Apertei com força. Apertei com toda a força que tinha. Fiz força com os pés. Carreguei. E disse Quero ver o gajo da oficina a espremer-se todo para tirar esta merda. E olhei para o guarda. Ele não disse nada. Arrumei as ferramentas e o macaco na roda das ferramentas. Uma carrinha parou atrás do carro da Brigada de Trânsito. Também tinha luzes no tejadilho. Outro carro da Brigada? pensei. Não, era o carro de serviço da auto-estrada. Ainda chegas a tempo!, voltei a pensar. Coloquei a roda das ferramentas no porta-bagagens e fechei a porta. Tinha as mão imundas. Limpei-as às calças. O guarda aproximou-se de mim e pediu-me os documentos do carro e a carta. Eu pensei A sério?!, mas fiquei calado. Tirei os documentos da carteira que tinha no bolso das calças. Sujei tudo com as minhas mãos. Uma delas estava com sangue. E suja. E se fico com tétano?, ainda pensei. Passei os documentos ao guarda. Ele pegou neles e começou a escrever num caderno. Aproximou-se o tipo da carrinha e perguntou É preciso alguma coisa? E eu abanei a cabeça. O tipo voltou para a carrinha e arrancou. O guarda acabou de escrever no caderno, rasgou uma folha e entregou-ma juntamente com os meus documentos. Disse Boa-noite! e voltou para o carro. O outro, com a vareta luminosa, já lá estava. Entraram para dentro do carro, desligaram as luzes da sirene e arrancaram devagar. Ao passarem por mim, o segundo guarda baixou o vidro e disse Não se esqueça do triângulo. O triângulo!, pensei. Estou sempre a esquecer o triângulo. O carro arrancou. Fiquei ali sozinho. De novo na escuridão nocturna. Só. Em silêncio. Cansado. Com sangue numa mão. Com as mãos sujas. As unhas cheias de óleo. As calças, a camisola e o casaco sujos. Uma sapatilha rasgada. A cara toda mascarrada, mas na altura ainda não sabia. Fui buscar o triângulo. Mandei-o para o banco de trás. Entrei no carro. E respirei fundo.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/09]

Uma Bota Pousada na Minha Cabeça

Abri os olhos. Não conseguia mover a cabeça. Tinha uma bota pousada em cima da minha cabeça e não a conseguia mexer.
Revirei os olhos o máximo que pude para perceber o que se estava a passar. Mas não percebi grande coisa.
Ia numa carrinha de caixa aberta. Ia deitado na caixa aberta da carrinha. À minha frente, à frente dos meus olhos, um corpo. Um corpo inerte. Alguém adormecido. Alguém desmaiado. Alguém morto, talvez.
Via umas botas. Tipo militar. Só via uma. A outra estava pousada sobre a minha cabeça. Sabia-o. Sentia-o.
A carrinha percorria uma picada. Um caminho de terra batida. Ia aos saltos. Eu ia aos saltos. Íamos todos aos saltos.
Era de madrugada. Estava escuro, mas já se percebia alguma claridade. Árvores. E casas.
O barulho da carrinha não permitia perceber outros barulhos em volta.
Senti o cheiro de um cigarro. Alguém ia a fumar. Apetecia-me um cigarro. Vi fumo.
Tinha a boca seca. Sabia-me a sangue. Devia ter sangue seco na boca.
Não sei o que aconteceu. Não sei o que se passou.
Não sei sequer quem sou.
A carrinha parou.
Ouvi homens aos gritos. Pareciam ordens. Não entendi. Não percebi o que diziam.
A bota saiu de cima de mim. Alguém agarrou-me pelas mãos presas atrás das costas. Magoou-me. Senti uma dor percorrer-me a coluna. Os braços pareciam que iam ser arrancados.
O corpo que estava à minha frente foi agarrado por dois homens e tirado da carrinha como um saco de batatas. Lançado para o chão. Lançado pelo ar para o chão.
Estávamos numa ponte.
Vi agarrarem o corpo e lançarem-no da ponte abaixo.
Depois agarraram em mim e alguém disse Tens sorte. Tens as pernas livres. Se bateres os pés chegas à margem. E lançaram-me, também, da ponte abaixo.
Senti todos os centímetros de ar durante a queda.
Não vi a minha vida a passar-me à frente. Mas vi a ponte a afastar-se de mim, lentamente, e o rio a aproximar-me, devagar, mas cada vez mais próximo.
Tentei cair de pé.
O impacto foi violento. Senti uma dor lancinante quando bati na água, quando mergulhei, quando me agitei dentro de água, quando me debati e abanei os pés, com a força que já não tinha, até atingir o cimo do rio.
Ar. Ar. Ar.
Bebi golfadas de ar. Bebi golfadas de água. Aguentei-me à tona.
Vi o outro corpo inerte a passar, lá mais à frente, e ser levado pela corrente.
Eu deitei-me na água. Bati os pés. Agitei o corpo. Fui-me arrastando pelas pequenas ondas do rio. E cheguei à margem. Bati na margem. Ergui-me pela margem. Senti terra. Terreno duro. Fixo. E deixei-me ficar. Senti-me ir. E fui.
Fui não sei para onde.
Não sei quem sou.
Não sei o que me aconteceu.
Está tudo escuro.
Não sei se estou adormecido. Não sei se morri.
Estou à espera. À espera do que virá a seguir.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/28]