Dia de Sopa de Peixe

Hoje é dia de sopa de peixe no café da Avenida. Pensei em levantar-me. Gosto de sopa de peixe. Esta sopa tem muita farinha, cascas de camarão e delícias, e tenho de ter cuidado com as espinhas, mas gosto do sabor. Vem numa malga pequenina. Tenho de me curvar para comer a sopa. Se a sopa for muito líquida, salpico-me todo. Por isso até é bom a sopa ter farinha. Fica mais espessa. Quando me cai da colher não salpica tanto.
Depois como um rissol de peixe. Ou de camarão. Gosto dos dois. Às vezes só há de leitão. Não gosto dos rissóis de leitão. São muito fortes. Dão-me cabo do estômago.
Nos dias como os de hoje, se vou ao café da Avenida comer uma sopa de peixe, trago outra para o jantar. Eles põem a sopa numa pequena tigela de plástico. Tenho de ter cuidado quando a trago para casa. Já não é a primeira vez que perco metade da sopa. As tampas de plástico não vedam muito bem. À noite como a sopa. Depois como uma maçã ou uma fatia de melão e passo assim. Passo bem.
Mas hoje não me está a apetecer levantar. Está muito calor. Sinto-me dormente. Estou bem aqui deitado na cama. Em cima do lençol. O edredão puxado para os pés da cama. A janela aberta mas os estores meio fechados. Cortam-me a luminosidade e dão-me alguma frescura. Já bebi uma garrafa de litro e meio de água. Já a fui encher de novo na torneira.
Acho que não consigo levantar-me.
Há dias em que o corpo me puxa para a cama. Nem a sopa de peixe me consegue fazer levantar.
Tenho ainda dois pães de ontem. Uma lata de cavalas com tomate. Bem dividido dá para o almoço e jantar. E como uma fatia de melão ao almoço e uma maçã ao jantar. Pois.
Não me apetece ver televisão. Viro-me para o outro lado e vejo as sombras da rua a moverem-se ao longo da parede. Parece a televisão mas mais clama e sem gritaria. Eu também fico mais calmo.
Amanhã é dia de sopa de cozido no restaurante aqui debaixo de casa. Amanhã tenho de me levantar. A sopa de cozido é muito boa. Traz muita carne. Muitos legumes. Normalmente tiro a carne da sopa e ponho-a dentro de uma carcaça. Como a sopa e depois o pão com a carne. Gosto muito da sopa de cozido. Também gosto muito da sopa de peixe. Só é pena ter tanta farinha.
Hoje não me levanto. Mas amanhã tenho de me levantar. Preciso de fazer exercício. Preciso de me mexer. De andar. Preciso de ver pessoas. Preciso de respirar o ar da cidade. E ouvir barulho. Quero sentar-me numa mesa do café e ficar atento às conversas alheias. Ouvir as pessoas a conversar. Gosto de ouvir as pessoas a conversar. A dizer o que não se pode ouvir.
Mas hoje não. Não me apetece levantar. Nem pela sopa de peixe no café da Avenida. Como um bocado de cavala com tomate num pão. E fico bem assim. Não preciso de muito para ficar bem. Sim, fico bem.
Gosto de ver as sombras na parede. Às vezes preciso de as ouvir falar. Só para ouvir as vozes. O barulho. Mas só às vezes.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/04]

Não Dou Beijos

Tenho os dedos das mãos inchados. Não os consigo dobrar. Devem ser frieiras. Este tempo, entre o frio e o calor extremos, mexe com o meu corpo. A minha carne. Com as articulações.
Os dedos das mãos parecem chouriços a querer romper para fora da pele que encarcera a carne no interior. A pele parece que vai estalar.
Dói.
Não consigo acender o isqueiro. Tenho de levar o cigarro ao fogão para o acender.
E penso quando ela me disse Não dou beijos.
Tinha arranjado uma miúda no Marachão. Convidei-a para vir a minha casa. Declinou o convite. Propôs uma pensão barata. Lá ao pé. Ao pé do Marachão.
Ainda não tinha os dedos das mãos assim, inchados. Ainda não me provocavam comichão. Ainda não os coçava. Ainda não doíam. Mas as costas já estavam quase em sangue. Este tempo frio provoca-me um ligeiro prurido do corpo. Nas partes do corpo que roça na roupa. As costas. As pernas. O rabo. Os sovacos. E coço. Às vezes violentamente. Costumo encostar-me às esquinas e esfregar-me nelas.
Entrei na pensão com a miúda. Cheirava a creolina. Senti-me enjoado. Agarrei-a. Tentei beijá-la. Ela disse Não dou beijos. Despiu-se. Era bonita. Muito branquinha. Seios pequenos. Um rabo teso. Umas nódoas negras nas pernas. Nos braços. Eu não me queria despir. Ela insistiu. Eu não me mexi. Ela desapertou-me o cinto. Quando me tirou a camisa não conseguiu disfarçar a aversão. O meu corpo estava arranhado. Coçado. Com riscos de sangue. A principiar uma chaga.
Fiquei nervoso. Ela também.
Voltei a vestir a camisa. O casaco. Apertei o cinto. Olhei para ela. Vi a cara de nojo. Ouvi-a dizer Não dou beijos.
Larguei duas notas de vinte euros na cama da pensão e saí do quarto. Da casa. Do prédio.
Precisava de ar.
Desci as escadas a correr. Saí da pensão a correr. Entrei na rua e cruzei a estrada sem olhar, a correr. E continuei por ali fora, a correr, a correr, até chegar às margens e ser parado pelo frio que vinha lá debaixo, da água gelada do leito do rio.
Parei. Ofegante. Faltava-me o ar. Respirei fundo. Tentei recuperar o fôlego.
Mas estava nervoso. Sentia o corpo a tremer.
Via-a a olhar para mim. Para o meu corpo. Para a bestialidade do meu corpo.
Ouvia-a dizer Não dou beijos.
Procurei os cigarros. Tentei tirar um. Não consegui. Os dedos estavam inchados. Deixei cair o maço de cigarros no chão. Dobrei-me. Apanhei o maço. Mas desisti de tentar agarrar um cigarro. Os meus dedos não eram meus. Estavam gordos. Enormes. Uma caricatura. Um desenho animado de dimensões desproporcionadas. Os dedos ardiam-me. Não conseguia dobrá-los. Cocei-os.
Coloquei o maço no bolso do casaco e fui para casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/12]