Nervoso num Autocarro

Estou nervoso.
Há gente que quando está nervosa disfarça. Não diz nada a ninguém. Foge à condição. Não gosta que se saiba. Talvez para não se sentir diminuída. Talvez porque ninguém tem nada a ver com isso.
Há gente que quando está nervosa, anuncia por todo o lado. Não consegue fingir. Os nervos são bem evidentes. A perna não pára de abanar. O pé está sempre a bater no chão. As mãos transpiram. Há um dedo que está sempre a subir à cara. Há sempre uma angústia latente.
Eu sou destes últimos. Quando estou nervoso digo logo. E digo a toda a gente. Acho que para me exorcizar. Talvez para diminuir os nervos. Talvez para desculpar alguma asneira provocado pelo nervosismo.
Estou num autocarro. Estou a caminho da cidade grande.
O autocarro está cheio. Há gente mascarada. Há gente adulta mascarada. Com saias de tule. Caras muito pintadas. O cabelo armado. Estou no meio da loucura.
Há um palhaço sentado duas filas mais à frente que está sempre a voltar-se para trás. Para mim. Para olhar para mim. Se calhar conhece-me. Eu não consigo perceber quem é. Não assim, mascarado.
Sinto algum medo de palhaços. Talvez algum trauma de infância. Talvez algum espectáculo de circo não percebido. Talvez alguns desenhos-animados perversos.
O autocarro cheira mal. É o cheiro de muita transpiração junta. Mais os perfumes. Os bons e os maus. Nesta altura já é só tudo mau. Mau cheiro. Alguma flatulência, com certeza. E isto deixa-me mal-disposto. Nervoso.
O autocarro não tem Wi-Fi. Não consigo ver as últimas notícias.
Agora entro numa estação. Uma pausa de dez minutos. Para o motorista fazer chichi. Fumar um cigarro. Também fumava um cigarro. Mas estou demasiado nervoso para fumar.
Há gente a sair. Há gente a entrar. Mais mascarados. Há uma mulher-barbuda. Não sei se é a sério ou de Carnaval.
Lá fora um homem mostra castanhas assadas. Pergunta se quero. Eu finjo que não o vejo. Olho em frente. Para a cabeça do tipo que está sentado à minha frente e não se levantou nesta pausa.
Chega uma mulher que fala alto. Fala alto e não se cala. Conta a sua vida. A sua vida hoje. Andou a sambar. Mas é portuguesa. E não se cala.
Não há Wi-Fi no autocarro.
Não era suposto haver Wi-Fi na Rede Expressos?
Estamos de regresso aos anos ‘80 do século passado. Mas sem poder fumar em sítios fechados.
Tudo isto me deixa ainda mais nervoso.
A mulher não se cala. Agora fala ao telemóvel com alguém. Estás no Pingo Doce? Eu chego daqui a uma hora. Leva comida para o cão, coitado.
Eu fecho os olhos. Tento abstrair-me. Tento dormir. Tento esquecer a voz da mulher. Mas não consigo.
O cão foi deixado no Pingo Doce. Abandonado. A mulher disse ao segurança Pode agarrar-me o cão enquanto vou comprar umas coisas? E nunca mais voltou. Um cão muito giro. Com franja. Bom para os penteados.
Porra. Cala-te, mulher, penso.
Começo a ficar mal-disposto.
Não há Wi-Fi no autocarro. Não consigo dormir no autocarro. Não consigo descansar no autocarro. Malditos mascarados. Malditos cães. Maldita mulher que não te calas. Pum!
Estou nervoso.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/03]

A Puta da Gravidade

Nem tudo é preto no branco, // Sou bandido e santo // Mas só toco no céu // Se subir a um banco // Eu nem sei bem porque canto, // Eu já nem a mim me espanto // Orelhas de burro ao canto// A ver se aprendo entretanto…

A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da gravidade, A puta da!…

Vinha pela estrada do pinhal para a Nazaré. No rádio, a TSF. No rádio os Linda Martini a berrar A Puta da Gravidade. No rádio a Playlist de Tó Trips. E que Playlist! Podia ser a minha. Não! Não podia! Havia três ou quatro escolhas dele que eu não conhecia. E que bem me soube conhecer.

Era Sábado de Carnaval e era bom fugir ao Apita o Comboio e ao Meu Amigo Charlie, Charlie Brown e levar uma bela tareia de bom e velho rock’n’roll de guitarras eléctricas cheias de genica e gana a dar-me cabo da cabeça. Que se fodessem os tímpanos e as dores de cabeça!

Não cheguei a descer à Nazaré. Fiquei-me pelo Sítio. É mais tranquilo. Havia lugar para o carro. E dava para ver o corso lá em baixo. Na marginal.

Engano. Dei logo de caras com o Love Bus. Um autocarro cor-de-rosa cheio de mascarados com duas caras. Foliões de copo na mão. Dançavam uns com os outros. Roçavam-se uns nos outros. Cantavam músicas cujas letras ficavam embargadas nos altifalantes fanhosos e na voz enrolada de gente já muito bebida.

Não vou embora daqui sem ela, nã vou, nã vou, nã vou…

Depois desta gente arrancar atrás do Love Bus, chegaram outros com uma cabeça de tubarão plantado no cocuruto e a cara pintada de branco, como mimos, mas estes não conseguiam estar calados. Estes tentavam vender porta-chaves para pagarem a bebedeira. Deixem-me em paz! dizia eu.

Sentei-me numa esplanada com lugares vagos. Percebi logo o porquê. Das colunas rasgava um som alto de música popular, folclórica e alguma brasileira, com gente a bailar feito louca.

Cada balão uma criança, lá lá lá lá lá…

Os turistas fotografavam. Os locais bebiam. Os locais dançavam. Os locais cantavam. Os turistas riam. Os turistas fotografavam mais ainda. Very typical!…

Alguém disse Olha o corso lá em baixo! E sim, afinal havia corso. Ou uma imitação dele. Uma miúda encostou-se ao muro para uma selfie com o corso na marginal de fundo. Levantou uma perna. Sorriu. Abanou a cabeça. Os cabelos voaram. Ela tirou a selfie. A perna levantada. Desequilibrou-se. Caiu para trás. Ainda lançou a mão para a frente. Para o muro. O telemóvel caiu no chão. Estilhaçou-se. As duas pernas levantaram-se acima do corpo. O sorriso fugiu. Eu levantei-me da cadeira. Ela gritou. E ficou em suspenso por alguns momentos. Em suspenso no ar. No vazio daquele precipício. Entre o Sítio e a Nazaré.

E depois… E depois, a puta da gravidade. E ela foi puxada para baixo. Caiu no vazio. Ainda vi a primeira vez que bateu com a cabeça numa rocha. Depois sentei-me e deixei de a ver cair. Ouvi os gritos das pessoas que acompanhavam ainda a queda. As mãos nas bocas. O desespero nas caras. O horror.

Ao fundo, o Love Bus descia para a Nazaré em alegre cantoria. Os foliões dançavam. Cantavam. Apitavam ao comboio, em apitos de plástico de todas as cores do arco-íris. Eu já não consegui levantar-me da cadeira. O café que tinha pedido estava a ficar frio. Acendi um cigarro. Fumei-o quase todo de seguida. Esqueci-me do café.

Na esplanada a música continuava a sair pelos altifalantes. As pessoas já não cantavam. Nem dançavam. Ali à volta, à volta daquele sítio, ali no Sítio, o Carnaval estava ferido. Havia música mas já não havia vontade de festejar.

Do outro lado Praça havia mais um grupo a preparar-se para descer. Mas estavam longe. Não se tinham apercebido.

Olhei para a praia, lá em baixo. Vi a Doca. Vi a Praia do Salgado. Se fosse Verão haveria lá alguns nudistas. Elas com as mamas ao léu. Eles com as vergonhas a dar-a-dar.

No horizonte do mar viam-se as Berlengas. E os Farilhões. Raios de luz rompiam o céu como uma bênção divina. Faziam círculos iluminados no mar. Às vezes Deus parece adormecido. Depois acorda. Mas geralmente acorda tarde.

Ao fundo da marginal via-se umas luzes a brilhar. Não sabia se era da polícia, dos bombeiros ou do corso de Carnaval. Mas lá em baixo ninguém se tinha apercebido do que tinha acontecido.

A puta da gravidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/02]

Queria Ter Mais Tempo

Queria ter tempo para recomeçar tudo. Recomeçar de novo. Mas agora a sério. Desta vez, de vez.
Queria ter tempo para voltar a dormir numa cama rija, com um bom colchão que não se desfaça debaixo do meu corpo, que se move cada vez com mais dificuldade, todas as vezes que me viro. Voltar a ter os meus livros, deixados um pouco ao Deus-dará, arrumados em prateleiras, em estantes, com as cotas limpas, ordenadas e viradas para mim e eu poder saber que livros ali tenho, que livros já li, e lembrar-me o que contam só por reler os seus títulos, como fazia quando criança, na minha casa que era a casa dos meus pais, e os livros eram poucos, mas eram lidos e relidos, com a mesma avidez do início, e voltava a vivê-los ao ler-lhes as cotas. Voltar a andar de bicicleta ao longa da Costa Atlântica e deixar-me inebriar com a maresia fresca da madrugada. Voltar às festas de Agosto e bailar aquelas músicas pirosas cujas letras conheço de cor. Voltar a ter a primeira bebedeira. O primeiro beijo. A primeira noite de amor.
Queria ter tempo para experimentar uma vida como a dos outros. Uma casa com cerca de madeira pintada de branco; umas laranjeiras a espalhar o perfume ácido que entra pelas janelas abertas da casa; um baloiço para me embalar; um tanque para mergulhar nos dias quentes de Agosto; um labrador castanho a correr livremente na relva cortada por mim ao Domingo; um gato sonolento deitado no muro do alpendre e a olhar o mundo com desdém; uma família grande, enorme, reunida nas férias grandes, no Natal, na Passagem de Ano, no Carnaval, na Páscoa, no dia dos meus anos, a contar histórias, representar pequenas peças de teatro, a correr pela praia em pleno Outono e mergulhar nas ondas do mar frio antes da chegada das marés vivas.
Queria ter tempo para ter tempo. Queria que fosse tudo outra vez como era, mas agora como devia ter sido. Explicado por quem soubesse como devia ser, se quisesse e não obrigado a ser por ter que ser. Que a vida era assim, mas podia ser diferente, devia ser diferente. Deixar os excessos no começo da idade. Recuperar outro caminho.
Queria ter tempo. Mas não tenho.
Seis meses. Talvez um pouco mais. Talvez um pouco menos. Mas certo como destino.
Queria ter tempo para poder despedir-me de toda a gente que foi gente comigo. Todos os amigos que fui perdendo na voragem dos anos. Todos os amigos que fui perdendo nas razões que já esqueci. Todos os amigos que afastei, que me afastaram. Todos os amigos que deixaram de o ser. Todos os amigos por vir. Todas as amantes que foram trituradas na velocidade dos dias, dos anos. As que deixei de amar. As que deixaram de me amar. As que ainda amo. As que ainda me amam. Todos os filhos que fui semeando. Todas as mortes que me roubaram.
Somos jovens durante toda a vida. Até que um dia acordamos velhos, na antecâmara da partida e sem tempo. Sem tempo para poder cheirar mais uma vez as torradas queimadas esquecidas entre uma conversa, dois beijos, um golo. O cheiro do café acabado de fazer numa manhã de Inverno com a chuva a cair lá fora. O sabor do chá de hibisco em tardes monótonas de Domingo. Talvez com uns scones. Barrados com manteiga e um pouco de geleia.
Seis meses não são nada mas são o que me resta. E o que me resta é um mundo. É este o meu mundo, agora, e vou vivê-lo de punhos cerrados para não ser parado por ninguém que só queira o meu bem.
E no dia, no dia que for o último, só quero que chova e eu possa sentir, uma última vez, o cheiro acre da terra molhada. E levá-la com lembrança de uma vida de onde não posso levar mais nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/28]

Abalroado por uma Iluminação de Natal

Eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, aquela rua que queria ser avenida mas não é, só tem um sentido, o de vir, o de entrar na cidade, nunca sai, tem duas faixas de rodagem mas uma é para estacionar com os quatro piscas ligados que Eu vou só ali, num instantinho!, está sempre com obras, com estaleiros que ocupam os passeios, pequenos, e obrigam os peões a galgar o asfalto, ora de um lado, ora do outro, ou uma das faixas de rodagem, o que afunila a entrada na cidade para quem vem dali, do norte, que tem meia-dúzia de lojas, umas que abrem-e-fecham, outra enorme, num edifício bonito que serve de armazém de chineses, uns comes-e-bebes, uma oficina de motorizadas, uma estação-de-serviço rodeada de casas, algumas de habitação, uma discoteca, mas afinal são duas, quase três, e outras coisas avulso, mas que tem direito a iluminação de Natal que, como toda a gente sabe, é quando um homem quiser e a mulher deixar! – tenho ouvido esta na TSF, diariamente, várias vezes ao dia, tanta vez que se torna obsessiva, chata e enfada que é normalmente o que me acontece com a publicidade antes dos noticiários da TSF, replicados até à exaustão, e que já me dão ressaca, estou tão farto de os ouvir que lhes comecei a ganhar algum ódio a esses produtos anunciados antes da hora-certa em que me preparo para ouvir as novidades do país e do mundo.
Então, eu ia ali na Mouzinho de Albuquerque, devagar, que é a única maneira possível de fazer aquelas faixas de rodagem que afinal é só uma, e há sempre carros a entrar na cidade e a tentar mudar de faixa porque lá à frente já só há uma e ninguém avisa nada, não há indicações, placas, anúncios, telegramas, telex ou o que seja, quando me caiu uma iluminação de Natal em cheio nos cornos. Nos cornos é uma maneira de dizer que eu não os tenho. Caiu em cima do carro, de mim e da minha sanidade. Partiu-me o vidro pára-brisas. Amolgou-me o capot. Fez-me guinar o volante para a esquerda. Galguei o passeio. Atropelei uma jovem mãe com carrinho de bebé (não aconteceu nada ao bebé!) e entrei pelo armazém do chinês dentro e ainda levei com o carro que vinha atrás e que se atrapalhou com o que viu e sentiu e acabou por seguir-me os passos, bater-me por trás e empurrar-me ainda mais para dentro do armazém .
Eu vinha devagar. Ali não se consegue vir depressa àquela hora, mesmo que quisesse. Vinha entre um carro e outro. A ouvir qualquer coisa na rádio. Talvez o Tubo de Ensaio. Talvez o Não Há Dinheiro mas Há Palhaço. Sim, vinha a dar atenção ao que estava a ouvir, mas vinha com atenção à estrada que a minha costela feminina é grande e eu sou multitasking. Vinha a tentar não desesperar com aquele pára-arranca que, numa cidade de pequena dimensão, é ainda mais desesperante, quando uma enorme placa de luz veio lá do céu, suspensa nos cabos de electricidade, e baloiçou à minha frente, como o Tarzan, trazendo atrelado um pedaço do muro do telhado que lhe servia de apoio mas que, afinal, não apoiava nada, estava moribundo, partiu-se e despenhou-se sobre a rua cheia de viaturas tendo acabado por escolher exactamente a minha para me deixar ainda com mais espírito natalício.
Parei o carro. Os outros carros pararam atrás do meu…
Já era Natal quando a polícia finalmente lá chegou. Chegou para fazer o relatório do acidente. Averiguar responsabilidades.
Já tinha passado o Ano Novo quando finalmente todos os carros conseguiram passar pela Rua Mouzinho de Albuquerque.
Foi já pelo Carnaval que finalmente consegui comer o Bolo-Rei que me tinham oferecido.
Felizmente, ninguém se magoou. Acho.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/26]

Um Gajo Escangalhado

Sou um gajo escangalhado. Tiro fotografias imaginárias às minhas mazelas. Não se vêm, mas estão cá.
Aparentemente estou saudável. Escapo às constipações do Inverno. Sobrevivo aos meus ataques de bronquite, mesmo na ausência do Ventilan. À falta de laranjas, vou tomando Cecrisina quando tenho dinheiro. Lavo os dentes três vezes por dia. Por enquanto ainda com pasta dentífrica. Mesmo quando não como, o que tem acontecido ultimamente. Não tenho fome. Agora de Inverno deixei de tomar banho diariamente porque tenho frio. E poupo na água, no gás, no champô, no sabonete. A minha perna bamba está mais forte. Deixou de doer. Já não coxeio. Já não uso a bengala. Ainda tenho bastante cabelo, mesmo que com grande entradas nas frontes. Herança do meu pai. Fisicamente não me posso queixar. Sou um sujeito relativamente saudável. Acho.
O meu problema é outro.
Tenho a cabeça em permanente revolução. E já não vai lá com químicos. Não com todos estes que tenho tomado. O único resultado são as horas que passo sentado na retrete a tentar fazer algo que não consigo. Também não tenho nada para conseguir. Às vezes saio de lá com as pernas dormentes. Já cheguei a cair quando uma perna se recusou a mexer-se e eu nem a senti recusar. Estou baralhado. Quebrado.
Hoje estava no café. Insisto em sair de casa. Forço-me a isso. Às vezes tento não estar vencido. Fui beber um chá e tentar ler A Bola. Ao lado, uma miúda contava a outra como o namorado lhe dava uns estalos. Não é bem bater-me, dizia, É acordar-me, que eu às vezes não percebo bem as coisas. Eu tive vontade de lhe dizer que ele é que a estava a adormecer e que era um canalha e que o melhor era ela parar as coisas logo ali, matar o erro à nascença, mas não fui capaz. Tenho dificuldade em falar com estranhos. E toda a gente me é estranha. Mesmo quem eu já conheço. Tudo me é estranho. Vejo-lhes as bocas a abrir e fechar e só vejo as cáries e os dentes chumbados e podres. Tudo é doença. E morte. O som das vozes desaparece em fade sob o som ambiente que aumenta muito, tanto que me ensurdece. Não consegui dizer nada à miúda e desatei a chorar. Nem sei porquê. Saí do café. Choquei com um tipo à entrada e mandei-lhe dois murros violentos. Deixei-o estendido no chão. E fui embora. Não senti remorso. Senti-me mais leve. Voltei para casa. É onde me sinto melhor. Mais seguro. Mas atento.
Tento pegar num livro e não consigo passar da primeira página. As letras baralham-se. As palavras fogem. Perco-me nos sentidos. Canso-me. Os olhos ardem. Vomito.
Ando obcecado com a dor. A dor da alma. Leio nas notícias os males do mundo e perco as forças. O meu corpo não se sustenta. Dobra-se. Cai. Enfio-me debaixo dos cobertores e deixo-me lá ficar dias inteiros. Às vezes toca a campainha. Às vezes toca o telemóvel. Às vezes acusa mensagens. Às vezes chegam, sonoramente, e-mails. Às vezes há gente a tentar contactar comigo. E eu fujo. Tenho medo das pessoas. Tenho medo de mim. Não quero ver ninguém.
Deixei de escrever. Não tenho nada para contar a ninguém. Não tenho ninguém a quem queira contar alguma coisa.
Não tenho sentido. Não há sentido. Vejo as pessoas correr e pergunto-me Para onde vão? Para quê?
Deixei de perceber o Natal. A Páscoa. O Carnaval. E todas as outras celebrações. Celebrações de quê? De estarmos vivos? E estamos vivos para quê?
Sinto-me numa queda existencial adolescente. Não vejo sentido em nada. Não vejo sentido em mim. Quero fugir de casa dos meus pais. Mas já não vivo com eles.
O mundo todo parece algo que está cada vez mais distante. Os sons tendem a afastar-se, como quando estamos com sono. As imagens tornam-se difusas, como se estivesse a ficar com a visão embaciada. Os pensamentos sobrepõem-se uns aos outros numa amálgama caótica e não entendo nada de nada.
Acendo um cigarro e pergunto-me porque é que fumo. E dou conta que é a única coisa com sabor na minha vida. Gosto de fumar. Gosto de ver o fumo subir pelas luzes dos candeeiros e acumular-se no tecto da cozinha. Gosto de sentir o fumo dos cigarros encher-me os pulmões e dificultar-me a respiração. É a única altura em que me sinto vivo. Mas nunca sei se quero continuar vivo ou de pulmões cheios.
É possível que com vontade e alguma ajuda eu tivesse alguma espécie de arranjo. Mas acho que não quero. Perdi os pais. Perdi os filhos. Perdi as vontades. Perdi os sentidos.
Agarrei nos livros e mandei-os pela janela. Vi-os voar. Vi as folhas soltarem-se, rasgarem-se. Vi as estórias fugirem pelo mundo. O cigarro na mão. A queimar-me os dedos. Os dedos a ficarem amarelos. E depois começo a chorar a perda de todas aquelas estórias. Porque é que mandei os livros embora? Eu quero e não quero. Não sei mais nada. Sinto-me escangalhado. Mas acho que já não quero ser arranjado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/02]

Um Tremor-de-Terra Logo pela Manhãzinha

Estava com os copos ou aquilo tinha sido um tremor-de-terra.
Acordei aos pulinhos na cama. Abri os olhos e vi o candeeiro a girar, preso ao tecto, numa órbita circular. Enjoei. Ergui-me na cama. Sentei-me. O candeeiro parou de girar. Pararam os enjoos.
Ouvi alguma coisa a cair lá dentro, na cozinha.
Da rua chegavam os alarmes dos carros e das lojas. Todos a apitar como numa festa de Carnaval. Lá vai o comboio…
Pus os pés no chão e estranhei. Parecia areia. A praia. Vi-me a mergulhar em São Pedro de Moel. Mas não era real. Era só uma investida da imaginação sem saber bem para onde ir depois da informação da planta dos pés.
Olhei para o chão e percebi. Não era areia. Era pó da madeira do estrado da cama. Maldito bicho-da-madeira. Devia fazer qualquer coisa. Qualquer dia estou no chão.
Fui buscar o aspirador. Liguei-o. Não ligou. Esqueci-me que estava avariado. Tem estado avariado estes meses todos. Abri a janela e mandei-o para a rua. Mandei-o inteiro. Com cabo e extensor e escova. Tudo para a rua. Não queria mais saber do aspirador. Ouvi o estrondo do aspirador a bater no chão da rua. Ampliado pelo silêncio da cidade.
Fui buscar a vassoura e uma pá. Varri o pó da madeira. Apanhei com a pá e coloquei no caixote do lixo.
Depois fui à janela e olhei para baixo. O aspirador jazia morto na calçada portuguesa. Não atingira ninguém. Não havia ninguém a passar.
Sim, ainda era cedo. Não havia ninguém na rua. O sol ainda estava escondido atrás do monte que cerca a cidade.
Porque raio acordei tão cedo?
Teria sido o tremor-de-terra?
Ou estava mesmo com os copos?
Fui fazer café. Tinha de acordar de uma forma ou de outra. Entrei na cozinha e vi duas garrafas estilhaçadas no chão. Vinho por toda a parte. E vidros. Vidrinhos. Virei a cara. O café, naquele momento, era mais importante.
Vesti uns boxers. O cheiro a café inundou a casa. Enchi uma chávena. Peguei num cigarro. Acendi-o. E fui para a varanda fumar o cigarro e beber o café.
O sol começava a despertar. Já se via a luz do dia a contornar o monte. As árvores. Aquela casa que está lá em cima, mesmo na linha do nascer do sol.
Uma velhota parou, lá em baixo, enrolou os cabos e levou o aspirador de arrasto, puxando pelo extensor.
Vi o primeiro raio de sol.
Senti-me abençoado.
E pensei que tinha de arranjar um estrado novo. Mas com o historial do aspirador, não acreditava muito nestas minhas ordens.
E ainda havia as garrafas de vinho partidas no chão da cozinha.
Oh, pá!

[escrito directamente no facebook em 2018/09/04]

Os Irmãos Metralha

Ela estava parada no meio da rua, de costas, com a mala pendurada no braço e as pernas afastadas, e estava a puxar as cuecas para o lado, através dos collants. Depois virou-se para mim e vi que ela era ele, e não estava habituado a usar fio dental.
Começou a andar, desengonçado, de pernas abertas e de difícil equilíbrio naqueles saltos e passou por mim. Exalava um odor a transpiração. A maquilhagem estava borrada e caía-lhe cara abaixo.
Eu estava encostado ao muro a fumar um cigarro e por ali fiquei. Vi-o passar ao pé de mim, senti-lhe o cheiro ácido de fim de festa, e fiquei a vê-lo desaparecer lá ao fundo da rua, na esquina com a perpendicular.
Era Carnaval. Felizmente já não era como noutros tempos. Pelo menos aqui. Os foliões fugiram todos para outras latitudes para dar aso aos seus desejos mais inconfessáveis e libertaram-nos a cidade.
Ainda havia uma ou outra criança. Mas eram residuais.
Tenho ficado exilado em casa nestes dias. Hoje arrisquei sair. E a verdade é que já não há quase ninguém mascarado por aqui. Pelo menos durante o dia. Esta matrafona foi um caso isolado.
Enquanto pensava nisto e fumava o cigarro, ouvi o chiar dos travões de um carro, que deslizou e foi bater, com estrondo, num táxi que estava parado no semáforo vermelho, na estrada à minha frente.
O táxi abalroado deu um solavanco para a frente e parou. O taxista saiu do carro e dirigiu-se a gesticular para o carro que lhe bateu por trás. Não chegou a aproximar-se ao carro. Lá de dentro saíram quatro Metralhas, quatro rapazes mascarados de Irmãos Metralha que saltaram para cima do taxista e começaram a bater-lhe. O taxista caiu ao chão. Os Irmãos Metralha desataram aos pontapés.
Eu peguei no telemóvel e fiz uma chamada para o 112.
Acabei o cigarro. Os irmãos Metralha acabaram com os pontapés. E o taxista acabou por ficar no chão, enrolado sobre si próprio, sem se mexer.
Desencostei-me do muro e fui embora. Os Irmãos Metralha entraram no carro e arrancaram estrada fora, passando por cima do passeio, ao lado do táxi, e com o semáforo vermelho. O taxista começou, lentamente, a levantar-se. Os carros que estavam atrás dele começaram a apitar com alguma insistência quando o semáforo passou a verde e o táxi continuou a bloquear a passagem.
A cidade estava perigosa. As pessoas andavam perigosas. A humanidade caminhava para o seu fim. E eu ia para casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/12]