Agir sem Pensar

O tipo chamou-me ao escritório. Não havia lay-off. Alguns iam ser despedidos. Aos outros teria de baixar o salário. Era a crise. A crise atinge-nos a todos, não é? Ele queria que eu ficasse. Com menos um terço de salário. A fazer o meu trabalho e o do tipo que ia mandar embora. Eu mandei-o para o caralho e vim-me embora.
Vim para casa.
Agora estou aqui em casa sem trabalho nem dinheiro e sem saber o que fazer.
Acendo um cigarro, olho para a ponta incandescente e pergunto o que é que seria da minha vida se não pudesse fumar? Se a minha bronquite se agravasse e eu não pudesse mais fumar? Quando o dinheiro se me acabar e não puder comprar mais tabaco?
Abro a porta da despensa. Olho para as prateleiras. Prateleiras vazias. Ou quase. Um quilo de arroz. Duas latas de conserva de atum com feijão frade. Uma lata de salsichas. Um pacote de pevides para a canja. Já está ali há anos. Há quantos anos não faço uma canja? Desde que a minha mãe deixou de me dar galinhas caseiras, que ela própria criava no quintal das traseiras de casa, da casa que era a casa dela e onde eu nasci e vivi até vir embora, a mesma casa que ela deixou quando o meu pai morreu e ela decidiu ir para a cidade, para não estar sozinha, para andar pelas ruas a ver montras e pessoas. Para ver pessoas! O que importam as pessoas? Por causa disso fiquei sem as galinhas dela, galinhas cheias de gordura com as quais fazia uma bela canja e, às vezes, uma cabidela, quando ela me guardava o sangue das galinhas degoladas no quintal das traseiras pelas suas mãos firmes e decididas. Eu nunca consegui degolar uma galinha.
Olho para a despensa e pergunto o que é que vou fazer com isto. Também há uma lata de feijão encarnado. E milho. Quem é que comprou milho? Eu nem gosto de milho. Milho em lata. Para fazer salada?
Sinto uma tontura.
Acho que reajo mais depressa do que penso. É o que se chama agir sem pensar. Talvez devesse pensar um pouco mais antes de fazer as merdas que faço. Ser mais pragmático. Um salário mais baixo é melhor que salário nenhum, não? Mas mais trabalho por menos salário?
Oh, foda-se!
Saio de casa rápido e deito fora o resto do cigarro. Saio a correr. Preciso de correr. Cansar-me. Impedir a cabeça de pensar no que não deve. Desço a alameda a correr. Para baixo todos os santos ajudam. Levanto bem os joelhos. Estico os braços. Saio o portão e viro à esquerda para a aldeia. Não sei se chego a fazer quinhentos metros. Não chego às portas da aldeia. Falta-me o ar. Páro. Encosto-me com uma mão a uma árvore. É difícil respirar. Sinto a pieira. A pieira na minha respiração. Preciso de um cigarro, mas é melhor não fumar agora. Descanso um pouco aqui em pé, encostado à árvore, e regresso a casa.
Oh, foda-se! E agora começa a chover!

[2020/08/18]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

Às Vezes, Vomito

Almocei pataniscas de bacalhau e fiquei maldisposto. Já vomitei. Lavei os dentes e saí de casa. Fui ao café da aldeia. Ainda não está a funcionar a cem por cento mas, lá vai servindo uns copos e a malta fica lá por fora, sentada no lancil do passeio, a beber e a conversar.
Pedi uma aguardente para me compor o estômago. Acendi um cigarro e encostei-me à montra do café. O lancil estava quase todo ocupado e ao sol. Estava demasiado calor para me sentar ao sol. Fiquei em pé encostado à montra do café. O dono devia lavar o vidro da montra. Aliás, o café todo devia levar uma barrela. Agora é que se nota. Quando metemos a cabeça no interior para fazer o pedido, cheira ao chão do Lagoa dos anos setenta depois de uma vitória da União de Leiria.
Encostado à montra suja do café, de cigarro numa mão e uma aguardente noutra, ouço a conversa alheia.
E alguém diz O Ventura tem razão, os ciganos têm a mania que isto é tudo deles.
E outro alguém responde Tu também tens a mania que isto é tudo teu.
E o primeiro alguém remata Mas eu não sou cigano.
E o segundo alguém pontua Pois!
Ao lado vejo os sorrisos dos outros que não se meteram na conversa. Sorrisos que variavam entre o cínico e o condescendente. Alguns abanavam a cabeça. Concordavam. Mas concordavam com o quê? Com quem?
Eu empinei o copo de aguardente. Larguei-o no beiral da montra e, antes de sair dali disse Vocês vão mas é para o caralho!, conas de merda!
Passei em frente aos tipos sentados no lancil e ainda ouvi alguém perguntar Então, pá? e outro acentuar Xó?!, mas ninguém me disse mais nada. Enquanto ia indo embora, a descer a rua para sair do centro da aldeia, não voltei a ouvir a voz de nenhum deles. Devem ter lá ficado ensimesmados com a explosão de um gajo que normalmente entra mudo e sai calado e não mete conversa com quase ninguém e só o ouvem gritar Golo! quando se dá o caso de assistir por lá a algum jogo do Benfica, coisa que não tem acontecido vai para dois meses.
No caminho para casa senti-me irritado. Não devia ter dito o que disse. Não me devia ter metido numa conversa que não era comigo. Esta mania que eu tenho!
A mão onde levava o cigarro começou a tremer. O cigarro caiu. Enfiei a mão dentro do bolso das calças e desejei que a mão não estivesse a tremer e que tivesse sido só um espasmo muscular. Mas não voltei a tirar a mão do bolso para não ter de me confrontar com a evidência do que não queria.
Ainda antes de chegar a casa voltei a ter de vomitar. Encostei-me a uma árvore e vomitei o pouco que ainda tinha em mim. Eram quase só espasmos. Já não havia quase nada para deitar fora.
E foi então que percebi: As pessoas enjoam-me e fazem-me vomitar. Tenho de começar a vomitar em cima delas. Talvez isso me alivie mais depressa.
O sol batia-me na cabeça. Ergui-me e voltei à estrada. A caminho de casa. E ainda pensei Tenho de lavar os dentes. Odeio o sabor a vomitado na boca.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/07]

O Meu Primeiro Dia de Liberdade

Preciso de beber. Preciso de me embebedar. Preciso de me embebedar ao balcão de um bar.
Estou farto de livros de filmes de séries, estou farto de notícias e das frases bonitas com que os jornalistas da SIC se despendem todas as noites, estou farto que utilizem o Mário Viegas como se fosse o Cristiano Ronaldo (vão buscar o Cristiano Ronaldo, caralho!), estou farto das estatísticas e dos gráficos e dos números da DGS que esqueço assim que os ouço, estou farto de me aturar, de me ouvir cuspir palavras amargas todos os dias, farto de me ver engordar dia após dia no espelho da casa-de-banho, já não vejo a pila, as calças de ganga não me servem, tenho os cabelos compridos como um headbanger num concerto dos Judas Priest e a barba mal cortada e cheia de peladas, e os pêlos do nariz e das orelhas parecem bigodes, e estou farto desta solidão triste e melancólica que me arrasta através dos chinelos rotos que não tiro dos pés vai para mais de um mês.
No dia primeiro da minha liberdade vou sair de casa. Abrir a porta da rua e dar um passo, pousar o pé do lado de fora da porta. Depois de tomar um banho quente e lavar o cabelo com champô anti-caspa, vestir uma roupa casual e uns ténis porque os meus pés não aguentarão mais que isso, irei sair de casa e caminhar os mil novecentos e sessenta e seis passos que me separam deste meu quarto andar em prédio citadino ao snack-bar que fica um pouco mais acima na mesma rua e que eu frequentava diariamente antes de me fechar em casa para sobreviver à peste e que irei voltar a frequentar porque sou um gajo de rotinas. Irei caminhar todos esses passos durante os quais irei fumar um cigarro ao longo da rua, enquanto relembro o cheiro a monóxido de carbono das viaturas que irão recuperar as artérias da cidade e irei entrar no snack-bar onde já me conhecem de anos e irei sentar-me ao balcão sujo onde irei colocar um cotovelo enquanto pedirei ao empregado um copo de bagaço que irei despejar de um gole, assim como o segundo e o terceiro, e irei pedir um quarto que irei beber devagar para não vomitar logo tudo, e irei pedir um pires de tremoços e ele irá dizer que é só para acompanhar as imperiais e eu irei então pedir uma imperial para poder trincar os tremoços, e trincarei os tremoços e beberei a imperial no intervalo dos bagaços e irei lamentar-me que não hajam pevides, e ao meu lado irá lá estar a mesma puta de todos os dias, a mesma puta que está sempre sentada no mesmo banco ao balcão desde o princípio dos tempos do snack-bar e ela irá cravar-me um cigarro e eu irei dizer que lhe darei um cigarro se foder comigo na casa-de-banho, dir-lhe-ei que estou necessitado sem um pingo de carinho há muitas semanas, e ela irá anuir sem falar e iremos para a casa-de-banho foder sem preservativo, quem é que irá pensar em preservativos nessa altura?, e será uma coisa assim tão rápida e desenxabida que nem vou perceber que acabei de dar a primeira foda depois da quarentena, e irei regressar ao balcão, beber um quinto bagaço, pagar outro à mulher que está sempre no mesmo banco ao balcão e que me acompanhou à casa-de-banho, e oferecer-lhe-ei um cigarro, irei fumar um com ela e o empregado do snack-bar irá refilar connosco como refila sempre, mas eu irei cagar para o que o empregado irá dizer e depois do sétimo bagaço, irei virar-me para a mulher que está lá sentada desde sempre no mesmo banco e irei vomitar-lhe no colo, irei vomitar tudo o que tenho acumulado dentro de mim até sair a bílis verde quando já não houver mais nada para sair e o empregado irá agarrar em mim e levar-me-á de rojo pelo snack-bar fora até me lançar para a rua, e irei cair no passeio de calçada portuguesa e irei bater com o queixo no chão, abrir um lenho e partir dois dentes e deixar-me lá estar caído até que a mulher vomitada irá lá ter comigo e ajudar-me-á a levantar e será o meu apoio para fazer os mil novecentos e sessenta e seis passos de regresso a casa, durante os quais voltarei a cair e numa dessas quedas quebrar a cabeça, e o sangue irá escorrer-me pela face e a mulher irá dizer que será melhor ir ao hospital e eu dir-lhe-ei, com um sorriso na cara, Estamos livres, mulher! Foda-se!

[escrito directamente no facebook em 2020/04/09]

Faz Agora Cem Anos, a Pandemia

Primeiro colocaram-nos em casa e trancaram as portas. Depois fecharam o país. Nada entrava e nada saía.
Era preciso estancar a disseminação do vírus. Isolar toda a gente. Impedir a propagação trazida de fora. Em casa, sem contactos físicos uns com os outros, não éramos veículos transmissores.
Só estavam a funcionar os grandes centros de distribuição alimentar. Toda a alimentação era acumulada nesses centros, criavam-se cabazes alimentares para uma, duas, três e quatro pessoas e os militares estavam encarregados de fazer a distribuição por todo o país. De porta em porta. Em todas as portas de todas as casas do país inteiro.
As únicas pessoas com autorização para saírem eram as pessoas envolvidas neste processo de distribuição, os técnicos das empresas de energia, das empresas de água e os médicos e enfermeiros que continuavam a trabalhar nos hospitais, muitos deles improvisados em tendas de campanha, pavilhões gimnodesportivos e escolas C+S, que tentavam minorar os danos da pandemia.
No início ainda haviam aulas não-presenciais dadas através da internet. Ainda havia quem fizesse tele-trabalho. Mas as redes de distribuição de internet começaram a colapsar. Demasiada gente ao mesmo tempo durante demasiado tempo a circular informação online. Os alunos começaram a desistir das aulas recebidas através dos ecrãs dos telemóveis, muitos deles com o vidro quebrado, coisa de miúdos. Os pais que estavam em tele-trabalho depressa se fatigaram de trabalharem em pijama, sem horário, a terem de proverem aos filhos e às mulheres. E o trabalho, na verdade, deixou de existir. O que havia para fazer para um mundo que estava a ficar parado?
Ao fim de algum tempo, o ócio transformou as semanas de filmes e séries em discussões violentas. Começaram a voar livros pelas janelas. Os jogos de tabuleiro eram lançados às peças para durar mais. O ódio começou a destilar. E apareceram as primeiras mortes fora do quadro directo do vírus.
Foi logo ao fim do primeiro mês de distribuição alimentar que os cabazes começaram a deixar de vir com a mesma regularidade. Foi logo ao fim do primeiro mês que os cabazes de distribuição alimentar começaram a chegar com menos quantidade e menos qualidade de alimentos. As pessoas começaram a manifestar-se nas janelas. As cidades passaram a serem coros de revolta. Um bairro inteiro a gritar palavras de ordem. A bater em tachos e panelas. Contra. Contra. Contra. Já nem se sabia bem do quê, em concreto. Contra o estado geral das coisas. O cansaço do confinamento. A fadiga da companhia. A falta da solidão. A ausência de rotinas que se foram perdendo. Já ninguém tomava banho. Ninguém lavava o cabelo. Os homens não faziam a barba. As mulheres já não pintavam as unhas, os lábios as raízes negras dos cabelos loiros. Era preciso gritar. Era preciso explodir.
Os trabalhadores do centro de alimentação e os produtores de frescos, frutas, lacticínios, carne e peixe andavam exaustos. Demasiado trabalho para tão pouca gente com a responsabilidade de milhões.
E, depois, depois a comida começou a escassear. As fronteiras fechadas. A insuficiência. E quanto mais escasseava mais escasseava ainda mais porque havia quem, na cadeia, começasse a desviar para proveito próprio.
Foi ao final do segundo mês que as coisas aconteceram.
A fome começava a instalar-se. Havia algumas pessoas mais afoitas que faziam saídas à rua, à noite, às escondidas, e negociavam no mercado negro que tinha começado a funcionar. Mas o grosso, o grosso das pessoas começava a enfrentar uma enorme fome. Muita gente já só tinha a água que continuava a correr nas canalizações. Começaram a aparecer cadáveres na rua, atirados pelas janelas e varandas dos enormes prédios das cidades-dormitório.
Quando o governo se preparava para declarar vencida a pandemia, os sobreviventes saíram para a rua e revoltaram-se contras as autoridades que encontravam pela frente. Houve muitas mortes. Mortes de parte a parte. Embora o exército estivesse armado e mais bem preparado, as pessoas traziam a fúria dos desesperados que, enclausurados durante quase três meses, e o primeiro mês foi quase um exercício de estilo pós-moderno na forma de uma quarentena auto-infligida, como umas férias forçadas para ler os livros comprados e nunca lidos à espera do dia certo, e fora esse o dia certo, cansados do ócio e do confinamento com gente com quem nunca tinham estado mais do que algumas horas por dia e a maior parte delas a dormir, partiram furiosos para cima do único inimigo que conheciam e sobre o qual queriam despejar todas as frustrações.
Muita gente morreu naquele período. E não foi só cá, neste país. Foi igual em todo o lado. Em todos os países. Em todos os continentes. A globalização normalizou-nos. E reagimos todos da mesma maneira.
No final, restaram uma minoria. Uma minoria por país. A economia estava de rastos. Era necessário recomeçar tudo. Recomeçar tudo de novo. Do zero. Só que desta vez as coisas foram diferentes. Desta vez as coisas não foram deixadas ao acaso.
Desta vez havia um único governo mundial. Um governo composto por um grupo de sábios. As pessoas tinham as suas vidas programadas desde a infância. Ninguém podia fazer menos, ninguém podia fazer mais. Ninguém passava fome, ninguém era obeso. Mas haviam contra-medidas para esta segurança da vida das pessoas. Ninguém podia ser o que quisesse. Fazer o que quisesse. Quando quisesse. Se quisesse. Toda a gente tinha de contrair matrimónio aos dezoito anos. Todos os casais deveriam ter três filhos. A manipulação genética garantia as necessidades de género. E os casais tinham de ser, obrigatoriamente, compostos por um homem e uma mulher.
Todas as pessoas tinham a sua vida programada. Desde o nascimento à morte. Cada pessoa era destinada a determinado objectivo consoante as necessidades do mundo e essas necessidades eram decididas e controladas pelo conselho de sábios.
Mas algumas pessoas não estavam de acordo.
A pandemia do Covid-19 aconteceu faz agora cem anos. Setenta por cento da população mundial pereceu nesses terríveis meses de contágio e, mais ainda, durante as revoluções pós-confinamento.
O meus bisavós foram dos poucos sobreviventes. Os meus avós aguentaram os primeiros anos de regime mundial. Depois cometeram suicídio-social. Desapareceram do mapa e criaram a primeira rede clandestina global. Os meus pais já nasceram na clandestinidade. Os dois.
E a história que vos contei hoje foi a história que me foi contada a mim, durante as longas e escuras noites que tivemos de passar escondidos, a lutar pela liberdade de todos nós, mesmo daqueles que nem sabem o que é a liberdade. A liberdade de poder escolher o seu destino ou de poder fumar um cigarro, beber um copo de vinho tinto e mandar alguém para o caralho.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/20]

Dias Loucos, os de Chuva

Em dias como este, entrávamos no carro e íamos andar à doida para a Estrada Nacional.
Mesmo com duas auto-estradas, uma de cada lado da cidade, a A8 mais junto ao litoral, a A1 mais pelo interior, mas as duas muito próximas de Leiria, os grandes camiões TIR continuavam a circular pela EN1 para pouparem nas portagens, extremamente caras.
Então, em dias assim como o de hoje, dias de muita chuva, pegávamos no carro e íamos para a EN1 acelerar entre os grandes camiões que por ali passavam sempre com muita pressa. Ultrapassávamos os camiões no limite. Prego a fundo. O pé quase a furar o chassis.
E riamos. Riamos os dois que nem perdidos.
Dávamos um beijo à porta de casa, com as montanhas a servir de fundo, eu tirava o carro debaixo do telheiro onde estava resguardado, conduzia com cuidado enquanto ela fazia um charro e, antes de chegarmos ao IC2, que se fundia na EN1, já o tínhamos fumado e já eu estava a fumar um cigarro.
Os vidros do carro fechados por causa da chuva e o fumo a acumular-se no interior, criando uma nuvem tão espessa e escura que, por vezes, nos impedia de ver o que se passava à nossa volta na estrada.
Foram tempos loucos esses. Bebíamos muito. Fumávamos muito. Fodíamos muito. Sempre nos limites. Às vezes ela levava a PC4 e gravava as nossas aventuras na estrada. Quando estávamos mais calmos, de ressaca por casa, a arrastar o cu pelos sofás, víamos as gravações e eu perguntava-me o que é que andávamos a fazer. Ela ria. Acabávamos os dois a rir. Voltávamos à estrada. À EN1. Passávamos junto às raparigas sentadas, em cadeiras de praia, de pernas abertas e olhar alheado, à beira da estrada. Acelerávamos na estrada que passava pela Benedita, pela Venda das Raparigas e seguia para Rio Maior ou para Aveiras. Sempre que víamos um traço descontinuo, lá íamos nós à aventura, a ultrapassar enormes camiões, alguns com dois eixos, a espremer o motor, a rezar para que não surgisse outro carro, e muito menos outro camião, na faixa contrária.
Uma vez, ia de camioneta para Lisboa, e nessa época as camionetas faziam também aquela estrada porque a auto-estrada só começava em Aveiras, vi um carro, um carro pequenino, um Renault 5 GTI, cravejado com tubos de cimento que deviam ter saído disparados de algum camião e entraram, como flechas, pelo pára-brisas do pequeno Renault. Lembro-me de ver, através da janela da camioneta, um corpo tombado no asfalto. Um corpo desfigurado. Um corpo em sangue. Inerte.
Várias foram as vezes em que me lembrei desse corpo enquanto me punha a ultrapassar os camiões debaixo de fortes quedas de água, com ela ao meu lado a gritar Vai! Vai! Vai! Vai, meu caralho! e eu ia. Prego a fundo. Cheio de adrenalina. A ultrapassar camiões na EN1, uma estrada cheia de buracos e bermas baixas, e eu de cigarro ao canto da boca com o fumo a entrar-me pelos olhos e a fazer-me chorar.
Um dia, foi o último dia, saímos de casa assim, debaixo de uma chuvada como a de hoje. Demos um beijo sem as montanhas como pano de fundo que o nevoeiro não as deixava ver. Ela fez um charro enquanto eu chegava à EN1. E entrámos. E disparámos por ali fora. Como loucos.
Só eu é que voltei.
Arrisquei passar um camião TIR que estava a respingar água para os lados e, quando ia a meio da ultrapassagem, deixei de ver a estrada com toda aquela água a tombar-me no pára-brisas e ela, ela tinha-se agarrado a mim, estava a dar-me um beijo no pescoço, em êxtase, o corpo sobre o travão de mão, e eu guinei um pouco o volante, aproximei-me demasiado do camião, levei um toque que me projectou para o outro lado da estrada, bati nos rails de protecção laterais, o carro virou-se, capotou e andou a derrapar pela faixa de rodagem até ser atingido por um outro camião, que vinha em sentido contrário. Eu tive sorte e fui cuspido do carro. Ele ficou entalada na chapa e, segundo os peritos, deve ter tido morte instantânea. O funeral dela foi de caixão fechado, tal o estado do corpo. Eu não fui ao funeral. Estive hospitalizado durante alguns meses. Alguns meses para voltar a andar.
Nunca a visitei no cemitério. Não ouso.
Voltei a conduzir, dois anos após o acidente. Agora já conduzo sozinho. Mantenho-me dentro dos limites de velocidade. Opto, sempre que possível, por andar em auto-estradas. Não tenho medo de conduzir mas, vou sempre muito atento.
Às vezes, quando chove assim, como está a chover hoje, penso nela. Penso nela e nas loucuras que vivemos. Penso em como a matei. Eu sei que não devo pensar assim. A minha psicóloga está sempre a dizer-me isso. Que a culpa não tinha sido minha. Eu digo que sim com a cabeça, aceno, para cima e para baixo, mecânico, às vezes até me ouço dizer sonoramente Sim, mas é só para a sossegar.
Eu sei que a culpa foi minha. É uma dívida que, um dia, vou ter de pagar.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/26]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Trabalho em Troca de uma Cerveja

Vejo o fumo sair da ponta incandescente do cigarro preso entre os dedos e voar lá para cima, para o canto do tecto.
Não se pode fumar aqui, disse a miúda enquanto passava.
Eu ouço o que ela diz, mas estou a ver o fumo a voar para o tecto e juntar-se no canto.
Ainda estava a pensar no que o gajo me tinha dito. Tudo assim ao mesmo tempo. Ele, ela e o fumo. Ele estava à espera de uma resposta. A mim, apetecia-me mandá-lo à merda. Mas ele é um daqueles tipos que não se pode mandar à merda. Por isso é que ia explodindo quando a miúda disse que eu não podia estar a fumar ali. Se não rebento para um lado, rebento para outro. Mas, coitada da miúda. Ela não tinha culpa. O meu problema não era com ela. Era com ele. E sim, sabia que não podia estar ali a fumar. Mas estava. Estava tão zangado que o cigarro foi a minha maneira de mandar tudo para o caralho.
Bebi o resto da bica de um trago. Já estava fria. Deixei lá cair a cinza do cigarro.
O tipo aclarou a garganta. E diz São só uma ou duas horas. Umas fotografias rápidas. Uns registos. Não posso é pagar-te, não é? Não tenho dinheiro para isto!
E é isto! o que me irrita! O isto! O nunca haver dinheiro para isto! mas, no entanto, estão sempre a contar com isto!
O fumo continua a subir para o tecto. A miúda volta a passar. Não diz nada. Mas vejo-a parar lá à frente, a olhar para mim. O olhar a fuzilar-me. A pensar que eu devo julgar-me importante. Ou parvo. Toda a gente sabe que não se pode fumar em sítios fechados que não sejam a casa de cada um. E no entanto, ali estava eu a fumar um cigarro, a colocar a cinza dentro da chávena vazia de uma bica, e a ver o fumo a subir até ao tecto.
Gostava de saber fazer argolas de fumo, como calamares. Mas não sei. Só sei puxar o fumo para os pulmões, prendê-lo e deixá-lo sair, pela boca ou pelo nariz. Nunca fui um artista do fumo. Sou só um artista da imagem. Fotografia. É o que faço. É onde sou bom. Mas há pouco trabalho para um gajo como eu. Não é que não precisem de fotógrafos. É que já têm. Já têm fotógrafos. Geralmente um. Que não chega para as encomendas, claro. Mas para quê pagar a dois gajos para andarem para trás e para a frente a passear as máquinas a tira-colo, a roçar o cu pelas paredes à espera do momento, quando um deles faz o trabalho todo? Mas o problema é que não faz o trabalho todo. Nunca faz. E depois surgem tipos como eu. Os mortos de fome. Os que estão sempre à espera da oportunidade de uma vida. É agora! É agora, porra! Mas nunca é agora. Porque o meu trabalho só é bom quando é à borla. Porque o meu trabalho não é bem trabalho, não é? Os artistas não trabalham, pá! Fazem umas cenas. Divertem-se lá com as coisas deles. E riem-se muito, dentes branquinhos escancarados no sorriso alarve, a rir, a gozar.
Acabo o cigarro. Esmago a beata na chávena. A miúda vem logo retirar a chávena da mesa com o cigarro lá esmagado.
O tipo continua Mas há umas cervejas! Há sempre umas cervejas. É o combustível que nos faz mover, a cerveja. E quando deixar de ser eu, há sempre outro morto de fome à espera da oportunidade.
Olho para o tipo e espeto-lhe um murro entre os olhos. Parto-lhe a cana do nariz. Vejo o sangue a jorrar sobre a mesa do café e a miúda a gritar e a aproximar-se com um pano para limpar a mesa do sangue.
Olho para o tipo e digo-lhe Ok! Está bem! e vejo-o sorrir, aquele sorriso cínico de quem enganou mais um. Mas não foi ele que me enganou. Fui eu que me deixei enganar.
O tipo levanta-se. Dá-me uma palmada amigável no ombro e diz Sempre gostei das tuas fotografias! Tens olho! e eu penso que sim, que tenho olho, mas não tenho mais nada. Não tenho capacidade para me vender e fazer-me render o que devia e penso que ainda não é desta que a minha vida muda.
Levo a mão ao bolso das calças e conto as moedas para ver se tenho suficiente para pagar a bica. Mas o tipo diz Não! Deixa lá! Eu pago!
Eu aceno a cabeça, agradecido. Eu sou um agradecido. Agradeço a bica enquanto ofereço o meu trabalho em troca de umas cervejas.
Mas não fui enganado. Deixei-me enganar. Porque quis. Porque gosto de fazer o que faço. Porque sei que sou bom no que faço. E porque sou melhor que estes tipos que nunca têm dinheiro para pagar o trabalho dos outros a quem têm o descaramento de pedir borlas.
Saio do café e acendo outro cigarro. Saio pela cidade. Esqueço-me do tipo que ficou lá para trás a pagar a bica e desapareço entre gente atrasada, muito atrasada para os seus trabalhos mal-pagos mas que são obrigados a aceitar porque é assim que a vida é.

Preciso de Ir mas Ainda Não Fui

As grossas gotas de água caíam-me em cima. A água estava fria. O meu corpo estava quente. A ferver. As gotas de água caíam como punhais cravando o meu corpo.
Estava deitado, nu, sobre a relva do quintal. O sol torrava-me. A mangueira, agarrada pela mão direita, apontada ao céu, mandava para lá a água que vinha das montanhas e saía pela agulheta. Depois caía em cima de mim, como uma chuva de Verão refrescante.
Apetecia-me fumar um cigarro, mas não havia como. À minha volta era já um charco. Não devia tardar o coaxar das rãs.
Perscrutava com toda a atenção, todo e qualquer bocadinho de céu à procura de uma nuvem, por pequena que fosse, que me agilizasse o pensamento e me fizesse imaginar alguma coisa.
Tinha a cabeça a ferver. Não conseguia pensar em nada. Um blur cinzento num mundo colorido. O verde na terra. O azul no céu. Mas a cabeça cinzenta. Preciso pensar, dizia num mantra. Preciso pensar. Mas não conseguia.
O céu estava azul. Nem uma nuvem. Nem uma amostra de nuvem.
A água continuava a cair em chuveiro sobre mim. Sobre a minha cabeça e o meu corpo. Comecei a ficar com os dedos engelhados. O corpo envelheceu. Fiquei com frio. Fiquei frio. Larguei a mangueira e ela ficou ali a engrossar mais o charco onde eu estava deitado.
Levantei-me. Tentei levantar-me. Uma cãibra. Uma cãibra na perna. Uma dor diabólica. Voltei a cair no charco. Agarrei o pé com as duas mãos e fiz força. Tentei impedir o músculo de se fechar sobre si próprio. As dores eram horríveis. Fiz força. Depois massajei o músculo. Massajei a perna. Tentei levantar-me. Estava farto daquele charco. Fiquei furioso. Estas merdas são só para me chatear. Acabei por me pôr em pé. Fui a coxear desligar a mangueira. Voltei a olhar o céu. Azul.
Eu estava molhado. A coxear. E foi a coxear que entrei em casa. Entrei na cozinha a molhar as lajes do chão. Abri o frigorífico. Uma cerveja. Fui para o alpendre. Sentei-me nu e molhado a beber a cerveja. Acendi um cigarro. E disse Está um calor do caralho. E dói-me a perna. Tudo só para me chatear.
E foi então que sorri. Já conseguia pensar. A dor no músculo libertara-me daquela dormência. Já conseguia pensar. Primeiro pensei na dor que ainda sentia no músculo onde tivera a cãibra. Depois no dia de calor extremo que estava. E finalmente decidi que era hora de ler um bocado. Precisava de ler. Andava há uns tempos para acabar de ler o Homo Deus de Yuval Noah Harari. Era isso. Mas tinha de me levantar para o ir buscar. Lá dentro. A casa. À sala. À mesa da sala. E decidi que já ia. Mais tarde. Depois de descansar um pouco.
Ainda não fui.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/22]