Acordar com o Cão a Ladrar

Acordei com ela a abanar-me. Estava a dormir e fui acordado com os abanões que ela me dava. E dizia Acorda! Acorda! O cão está a ladrar. Anda aí gente.
E eu despertei. Levantei-me rápido da cama e mantive-me assim por momentos, quieto e em silêncio, a tentar filtrar o som da rua de todos os ruídos da casa. Ouvia realmente o cão a ladrar. Aquele ladrar quando quer chamar a atenção para algo que não devia estar onde está.
Tentei apurar melhor a audição. Ouvir para além do ladrar do cão. Ouvi algumas lajes a ceder a peso. Mas podiam ser os gatos. Podia mesmo ser o cão. Talvez algum sardão. Ou um coelho. Nesta altura há muitos coelhos selvagens que passam aqui pelo quintal.
Fiquei mais um pouco à escuta. Depois ouvi o que me pareceu o corpo de uma pessoa a estalar. Como quando nos espreguiçamos e esticamos o corpo e os ossos cedem e estalam e parece que nos estamos a partir. Era o que me parecia.
Levantei-me da cama. Estava nu. Estou sempre nu. Mas, se realmente andava por ali alguém, era melhor não ir nu. Vesti os boxers que estavam caídos na poltrona. Saí do quarto. Fiz o corredor até à cozinha. Fui à despensa e agarrei num cabo de vassoura, sem vassoura, que guardei para um momento como este. Cheguei-me às janelas da cozinha e olhei lá para fora. Não via nada de anormal. Estava escuro. O luar iluminava um pouco. Dava para ver alguma coisa, mas não dava para ver muito. O quintal tinha muitas zonas na penumbra. A penumbra podia esconder muita coisa. Pessoas.
O cão continuava a ladrar. Mas não via o cão. Não via ninguém.
Ela chegou à cozinha. Colocou a mão sobre o meu corpo nu e senti um calafrio. Ela perguntou Então?
E eu olhei para ela. Olhei para ela e percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. E disse Espera aí! Eu vivo sozinho.
Despertei. Despertei na cama. Despertei a ouvir o cão a ladrar. Levantei-me e sentei-me. Olhei para o outro lado da cama e estava vazio. Fiquei ali quieto e em silêncio a ouvir o cão a ladrar. A tentar ouvir para além do cão a ladrar. Devia andar por lá gente. Ou algum animal.
Ouvi as lajes a cederem ao peso de alguma coisa. Mas podiam ser os gatos. Ou até mesmo o cão. Se calhar algum sardão. Talvez um coelho selvagem que eles andam agora por aí que nem doidos.
Apurei a audição. Tentei esquecer o ladrar do cão. Pareceu-me ouvir o corpo de uma pessoa a espreguiçar-se.
Levantei-me da cama. Estava nu e descalço. Vesti os boxers. Fiz o corredor às escuras até à cozinha. Fui à despensa buscar o cabo de uma vassoura e cheguei-me a uma das janelas. Olhei lá para fora. Nada. Havia um pouco de luar, não muito forte, mas o suficiente para ver o exterior. Nada. Fui para a outra janela. O mesmo. Havia zonas na penumbra que não conseguia ver. Tentei aguçar o olhar. Mas continuava igual. Não via nada. Nem via o cão que continuava a ladrar. Nem via os gatos. Onde é que andariam os gatos? Fui à última janela. A piscina estava vazia. O pouco luar permitia-me ver a água da piscina a ondular com a pequena aragem que se fazia sentir. Mas não estava ninguém na piscina nem à volta dela.
E então lembrei-me Eu não tenho piscina! Foda-se! Eu não tenho piscina!
Despertei. Despertei na cama. Despertei com o cabrão do cão a ladrar lá fora, no quintal.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/02]

O Mundo É do Tamanho de um Penico

O meu mundo já não é a minha rua. O meu mundo agora é mesmo o mundo. E não se limita à Terra e às coisas visíveis sobre ela.
Estou sentado no alpendre com as montanhas lá à frente. Hoje estão visíveis. Gosto de ver as montanhas. O céu está azul e não há uma única nuvem branca a pontuá-lo. Estou sentado no alpendre e tenho o computador à minha frente, sobre as minhas pernas, e dou a volta ao mundo e navego pelo cosmos. O meu mundo agora é mesmo o mundo.
Chegam-me as notícias que fazem o dia. A extrema-direita diminuiu nas eleições municipais em França. A direita-musculada polaca não ganhou à primeira volta e é possível que seja derrotada na segunda. A Nova-Zelândia parece que não é deste mundo. É uma outra espécie de Noruega mas mais humana. Também apareceram umas notícias sobre a Zelândia, um mítico continente que terá existido há muitos milhares de anos onde é hoje a Nova-Zelândia. Uma espécie de Atlântida do hemisfério sul.
Aqui neste país onde estou, e onde é a minha casa, vive-se um ataque de esquizofrenia. Depois de sermos os melhores do mundo passámos a ser os piores e já ninguém gosta de nós e está toda a gente a ver se nos lixa a vida e nos rouba a clientela turística. Nem quero saber o que é que isto quer dizer, mas deve ter algo a ver com os pastéis de bacalhau com queijo da serra.
Uns polícias de serviço em Lisboa foram apanhados a beber cerveja numa esplanada. Desconfio que a minha internet esteja ligada umbilicalmente ao Correio da Manhã.
Passo pela live stream do Benfica e vejo que continua tudo a zeros. Está na segunda parte. O que é que se passa com o meu Benfica?
Acendo um cigarro. Levanto o olhar e vejo cão a cagar no meio do quintal. Cabrão! penso. Agarro no maço de cigarros e mando-o ao cão. Acerto-lhe na cabeça mas o cão não parece ter notado. Nem se virou para ver o que era. Espero que não me cague no maço de cigarros que não tenho mais nenhum. Percebo que estou a ficar mal-disposto por causa do Benfica. O futebol faz-me mal.
Reparo que as bancadas estão vazias. As bancadas do estádio. Claro. Claro que estão vazias. Já sabia. Mas não deixa de ser estranho ver as bancadas vazias com faixas alusivas ao clube da casa e aos seus patrocinadores. O futebol é isto agora. Patrocinadores. Ainda é o meu Benfica, este?
O Marítimo marca golo. Fico estupefacto. Largo um sorriso que é um esgar. Se a minha avó, a mãe da minha mãe, fosse viva, teria dito Têm de ir à bruxa! Mas não me parece que seja coisa de bruxas. As bruxas preferem dançar que meterem-se com as coisas da bola.
O mundo é o meu mundo, mas o meu mundo ainda é um caixote. Dou várias voltas ao globo num abrir e fechar de olhos e acabo por prender o meu coração aqui ao pé de casa.
O Marítimo volta a marcar outro golo. E só me apetece dizer Oh Benfica, vai para o caralho!
Desligo o live stream. Não quero ver mais desgraças da bola. Volto às desgraças da vida. O aumento de infectados pelo Coronavírus na área metropolitana de Lisboa e, segundo parece, alguém diz que este vírus se combate com antibióticos, as mentiras de Donald Trump, a fuga para frente de Jair Bolsonaro. Acho que este vai ser o primeiro a pagar caro a sua arrogância intolerante e bruta.
Apago o cigarro no cinzeiro e olho para as montanhas lá em frente. Por cima das montanhas, a Lua, meia-Lua, pendurada no céu azul, e penso, em voz alta Oh, Elon Musk, leva-me contigo para Marte!

[escrito directamente no facebook em 2020/06/29]

O Nojo

Para ir de braço no ar não precisa de ir de braço no ar. O braço no ar é uma figura de estilo. Não precisa de estar representada fisicamente por um braço levantado no ar. Pode-se decepar o braço e ele continua levantado, na linguagem, na ideia, no discurso.
Eu via o tipo a descer a avenida e via-o de braço no ar. Ele não estava efectivamente de braço no ar, não como eles, os que levantam o braço no ar, costumam levantar, mas estava, figurativamente, de braço no ar.
Na mentira. No cálculo. Na raiva. No ódio. Aquele ódio que saía em espuma no discurso cuspido.
Estava a ver as imagens na televisão quando senti qualquer coisa a mexer pelo canto do olho, no canto do enquadramento. Virei para lá a cara, os olhos. Agucei a visão. Desfocado. Coloquei os óculos. Pior. São para ver ao perto. Levantei-me da cadeira, desci as escadas do alpendre e desci ao quintal. Fui até onde me pareceu ver qualquer coisa a mexer. E estava qualquer coisa a mexer. Um comboio de coisas a mexer. Aproximei-me e vi-as. Umas a seguir às outras. A cabeça de uma no rabo da outra. As processionárias. Que raio estavam ali a fazer? Ainda não era a época delas. Mas estavam ali. Tinham descido do pinheiro e faziam comboio, sei lá para onde. Tinha de as matar antes que o cão ou os gatos as vissem. São tóxicas. Fazem-lhes mal.
Voltei a casa para ir buscar álcool e lume.
Ao passar pelo alpendre ouvi a voz do repórter e a manifestação de uma coisa que era outra. Lembrei-me do braço no ar que não estava no ar.
As pessoas do braço no ar não têm nada a propor. Só a força. As pessoas de braço no ar contestam as outras. São contestatárias. Mas não têm nada de novo ou interessante para dizer, para propor e que sirva a todos, a todos sem excepção. São cortadores sociais. Fora estes e aqueles e aqueloutros. Contra. Contra. Contra. Contra negros. Contra chineses. Contra comunistas. Contra a esquerda. Contra emigrantes. Contra ciganos. Contra homossexuais. Contra os diferentes. Contra.
Agarrei numa garrafinha de álcool e numa caixa de fósforos.
Voltei para o quintal, para as lagartas do pinheiro.
Eles pregam a moralidade. A moralidade dos outros, não a deles. A corrupção dos outros, não a deles.
O que mais se percebe do que vou ouvindo da televisão é o ódio. O ódio a tudo o que não são eles. O ódio a tudo o que é diferente.
Aproximo-me das processionárias. Esguicho o frasco de álcool sobre elas. Depois acendo o fósforo e lanço-o, em chamas, sobre elas, sobre o álcool e vejo a chama a formar-se rápida e vejo as processionárias a arder e esguicho mais álcool para elas se queimarem, queimarem todas e ficarem petrificadas.
O cão aparece ao fundo do quintal e enxoto-o. Bato as palmas e digo Xô! Xô! Põe-te a andar! e ele vai embora.
Eu vou à arrecadação buscar uma pá e uma vassoura e apanho os restos queimados das processionárias. Despejo a pá num saco de plástico e fecho o saco com um nó. Depois desço a alameda, saio o portão da rua e vou pela estrada fora até à ilha dos caixotes de lixo e largo o saco no caixote do rsu.
Regresso. E penso na manifestação.
A malta que está sentada no café a refilar não tem nada a propor. Só o ódio. O ódio e a contestação.
A manifestação é uma demonstração de força da pobreza de espírito, do vazio, do nada. Ali não há nada a discutir. Não há nada a propor. Há ódio e a supremacia do músculo.
Cheguei ao alpendre e os gatos já andavam outra vez por lá. Um deles sentou-se na minha cadeira. Mandei-o sair Vá, sai daí!, mas ele não saiu. Tive de o tirar à mão e coloquei-o no chão. Ele miou, a refilar.
Sentei-me na cadeira. Acendi um cigarro. Já não se falava na manifestação. Então fazia-se a actualização dos números do Covid-19. E não podiam ter-se infectado todos enquanto iam todos de braço no ar sem levar efectivamente o braço no ar?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/28]

Quando Ela Morreu

Quando ela morreu, pensei segui-la. Cheguei a ter na mão uma lâmina de fazer a barba. Cheguei a encher a banheira. Cheguei a despir-me e a entrar dentro de água. Cheguei a estar deitado na banheira, relaxado pela água morna, a cabeça encostada a uma borda, os pés dentro de água, quentinhos, o braço direito estendido sobre a borda da banheira com a lâmina na mão, entre os dedos, a girar entre os dedos, e depois a lâmina fez um golpe num dos dedos e caiu para o chão da casa-de-banho.
Assustei-me.
Vi o sangue a começar a escorregar para dentro de água e a alastrar. Levei o dedo à boca e chupei-o. Senti o sangue a entrar-me na boca e a escorrer para dentro de mim.
Olhei a lâmina caída no chão da casa-de-banho com um fio de sangue.
Não estava preparado. Ainda não estava preparado. Não podia ir com ela. Não. Por mais que a ausência me doesse.
Estiquei-me na banheira e abri o ralo. Vi o volume de água a diminuir. Levantei-me. Saí da banheira com cuidado. Olhei para a lâmina no chão para não me cortar nos pés descalços. Cruzei as lajes frias da casa-de-banho até ao pequeno armário. Abri a porta e agarrei na caixa dos pensos-rápidos. Tirei um e colei-o no dedo que estava a sangrar. Depois fui à porta e agarrei na toalha de banho pendurada. Enxuguei-me.
Fui até à janela da casa-de-banho. Olhei para a rua. Ao fundo, um miúdo andava em cima de um muro. Andava de um lado para o outro. Como se estivesse indeciso. Salto, não salto? Para este lado ou para este? Depois o miúdo olhou na minha direcção. Percebi que estava nu à janela da casa-de-banho. Não sei se me via, mas eu estava nu. Suspirei.
Fui ao quarto. Vesti umas calças e uma camisola. Calcei umas sapatilhas. Saí de casa. Fui até ao canteiro onde estão as fisális. O cão passou por mim com um chinelo na boca e não me ligou nenhuma. Apanhei umas quantas fisális. As que me couberam na concha das mãos. Voltei para casa. Lavei as fisális. Abri o frigorífico. Olhei lá para dentro. Agarrei um saco com rúcula selvagem. Uma caixa com tomate-cereja. Um queijo Palhais, seco. Descasquei uma laranja. Cortei-a aos pedaços. Coloquei-a numa tigela. Misturei-lhe a rúcula e o tomate-cereja, as fisális e parti o queijo seco aos bocados. Fui à despensa. Olhei as prateleiras. Agarrei num frasco com cajus. Num frasquinho com sementes de sésamo. Num saco com passas. Pus um pouco de cada na tigela. Um fio de azeite. Uns pingos de vinagre. Uma pitada de sal. Misturei tudo. Abri uma Herdade dos Grous tinto. Enchi um copo. Agarrei num garfo. Fui até ao alpendre.
Sentei-me lá fora, no alpendre. Ao fundo, as montanhas continuavam lá. Não via o cão nem os gatos. O mundo estava silencioso. Dali, de onde estava, não via o miúdo em cima do muro.
Comi a salada. Comi a salada toda. Soube-me bem. Bebi o copo de vinho. Senti-me bem. No fim acendi um cigarro.
Estava a fumar o cigarro, sentado na cadeira, no alpendre, a olhar as montanhas que continuavam serenas lá ao fundo, quando pensei na lâmina da barba que estava caída no chão da casa-de-banho, com um pequeno fio de sangue a alongar-se pelas lajes.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/19]

Uma Sardinhada

Eu devia ter percebido logo. Mas não percebi. Às vezes não percebo logo as coisas. Mesmo quando são evidentes.
Era perto do meio-dia. Eu estava em pé, no alpendre, a ver o cão às voltas do arbusto e a levantar a perna para mijar e marcar território mas já sem ter mijo para despejar, quando ela chegou por trás de mim com um gin tónico nas mãos. Sorri e agradeci. Estava calor. Não costumo beber álcool de manhã mas, não ia dizer que não. Levantei o copo para ela em agradecimento e bebi um gole, um grande gole com o qual despejei quase metade do copo. Estava refrescante. Soube-me bem.
E então ela disse Comprei sardinhas.
Oh, pá! Afinal, era isso. O gin era para me comprar. Era para me preparar para as sardinhas. A lata dela. Bom, tinha uma fogueira para ir fazer. Tinha brasas para ir fazer. Tinha sardinhas para ir assar.
Dei-lhe um beijo e fui até à churrasqueira. Gravetos. Uns pauzinhos maiores e mais grossos. Pinhocas. Acendalhas. Risquei um fósforo. Acendi o lume. Abanei um pouco com o abanador. Beberiquei o gin. Dei novo gole. Acabei com ele. O gin é refrescante. Escorre pela garganta. Vai-se enquanto o Diabo esfrega o olho. E só bate quando é tarde demais.
Continuei a abanar o lume para fazer crescer as chamas. O fogo estava vivo. Ela voltou a aparecer com outro gin tónico e uma caixa com sardinhas e dois pimentos, um verde e um vermelho. Beberiquei o gin.
Peguei no saco do carvão e despejei um pouco sobre o lume. Dei ao abano. Fiz o carvão incandescer.
Virei-me para trás. Vi-a voltar para o interior de casa.
Há uns anos, numa férias, as primeiras férias que fizemos juntos, partilhámos quase tudo, a cama, a comida e a bebida. Lembro-me de estarmos a vir da praia, primeiro dia de praia juntos, os corpos quentes, o meu muito queimado porque não quis usar creme protector, e mais tarde tive de me besuntar com creme hidratante, sentei-me numa esplanada, com ela, e mandámos vir uma tosta mista que partilhámos. Metade para mim, metade para ela. E uma cerveja. Dois copos. Metade para mim, metade para ela. Ela ainda me deu uma trinca da tosta dela, assim, da boca dela, num bocado maior, com um bocado de fora da boca e que me obrigou a aproximar dela, da boca dela, os lábios a tocarem-se, os dentes a rasgarem o pão de forma torrado, o queijo derretido a cair pelo queixo abaixo.
Os gravetos arderam. O carvão estava em brasa. Coloquei a grelha e os pimentos. Deixei os pimentos assarem bem. Queimaram um pouco mas não havia problema. Era a pele. O queimado era na pele. Bebi mais um bocado de gin. Ela apareceu com um saco de plástico. Coloquei os pimentos dentro do saco de plástico. Ela deu um nó no saco. Eu coloquei as sardinhas na grelha. Ela deu um gole no gin. No meu copo de gin. Eu tirei-lho das mãos e acabei com ele. Ela levou o copo vazio e os pimentos.
Nesse dia, e depois de me ter colocado creme hidratante no corpo, saímos para jantar. Comemos frango assado. Meio-frango assado com batatas-fritas e salada. Era uma dose. Partilhámos a dose pelos dois. Voltámos a beber uma cerveja pelos dois. Naquelas férias foi tudo muito assim. Partilhámos tudo. Ou quase tudo.
Ela voltou com outro gin. Beberiquei. Virei as sardinhas.
Mais tarde, naquela noite, partilhámos uma fartura e fiquei cheio de azia. Tivemos de procurar uma farmácia aberta para comprar Kompensan. Ela também tomou uma pastilha. Não porque precisasse. Mas por solidariedade.
As sardinhas estavam assadas. Acabei com o gin. Sentia-me um pouco tonto. Entrei em casa com as sardinhas e o copo de gin vazio.
A mesa estava posta. Uma fatia de broa nos pratos. Uma batata cozida. A saladeira com uma salada de pimentos, pepino e tomate. Azeitonas. Uma garrafa de vinho aberta e vinho nos copos.
Comi e bebi. Fui pondo as sardinhas sobre a fatia de broa. Parti a batata. Um pouco de salada ao lado. Reguei com azeite. Comi uma azeitona. Outra. Porra, estava com fome. Devorei a sardinha. Fui repondo uma sardinha em cima da fatia de broa. No fim, comi a broa cheia de azeite e gordura das sardinhas. Bebi vários copos de vinho tinto. Não sei quantos.
No fim, arrotei. Estava satisfeito. Sonolento.
Fui até ao alpendre. Sentei-me e deixei-me adormecer.
Voltei à praia. Nessas férias fiz nudismo. Fizemos. Eu e ela. Foi a primeira vez que fiz nudismo na praia. Voltei a não usar creme protector. Voltei a queimar-me. À noite, ela voltou a besuntar-me com creme hidratante. Nessa férias partilhámos tudo. Menos os corpos. Eu não estava em estado de fazer sexo com ninguém. No dia seguinte fomos comprar um chapéu-de-sol e passei o resto das férias debaixo do chapéu.
Acordei agora, há uns minutos. Ainda estou a pensar naquelas férias. Um dia tenho de falar naquelas férias. As férias em que partilhei tudo com ela, menos os corpos. Por minha culpa. Às vezes sou estúpido e faço merdas assim. Mais tarde vim a partilhar o corpo com ela. O meu corpo e o corpo dela. Até hoje. Hoje já não vou para a praia sem creme protector. Mas continuo a partilhar tudo com ela. Agora até o corpo. O meu. O meu e o dela.
Naquelas férias também não comemos sardinhas. Foi o único ano em que não comemos sardinhas. Nem sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/13]

Já Não Reconheço a Minha Voz?

Estou à janela da cozinha a olhar para a rua.
Chove.
Já há algum tempo que não estava aqui assim, dentro da cozinha, no quente da cozinha, a ver a chuva a cair lá fora.
Vejo-me reflectido no vidro. Ora foco em mim e vejo-me no vidro da janela, ora foco no infinito e vejo o exterior, a chuva a cair, as árvores a dançar com o peso da chuva, as montanhas que agora mal vejo através da cortina de chuva.
Sopro um bafo quente no vidro da janela e embacio-o. Com o dedo desenho um sorriso dentro de uma cara redonda. Eu tento sorrir. Imitar o desenho no vidro embaciado. Parece-me que faço mais um esgar que um sorriso.
Os gatos estão no alpendre. Encolhidos. Cada um para seu lado. O cão não o vejo. Talvez esteja na casota.
Ao fundo vejo cair um raio. Está mesmo mau tempo. Aguardo pelo trovão. Pelo som do trovão. Mas não ouço nada. Só vi o raio. Não ouço o trovão.
E, afinal, lá vem ele. Começa com pezinhos de lá, aos tropeções, e termina num rebentar doido que parece entrar-me pela cabeça dentro e descer ao coração onde parece roubar o ritmo. O coração e o trovão batem ao mesmo ritmo, juntos, dançam juntos, com a mesma cadência.
Acendo um cigarro. Abro um pouco a janela, mas não muito para não entrar a chuva que parece vir tocada a vento. Os gatos ouvem o barulho da janela a abrir e viram todos a cabeça para mim. Nenhum se mexe, mas olham todos. Ainda estão a olhar. Parecem estar a pedir para entrar aqui em casa, mas sem estarem a pedir que são orgulhosos demais para isso. Mantêm aquele ar imperial e demasiado senhores do seu nariz. Um deles esboça, talvez, um miar, que vejo a boca a abrir e fechar, mas não ouço som nenhum. Não ouço nada sobre o som da chuva e do vento lá de fora.
Não ouço nada! digo eu, alto, só para me ouvir, para ver se conseguia falar, se me conseguia ouvir. Ao início, a voz arrancou embargada. O não não me pereceu perceptível. Teve de rasgar a garganta fechada. Depois, o ouço nada já foi perceptível. Mas a voz pareceu-me irreconhecível.
Era mesmo a minha voz?
Não reconheço a minha voz?
Não reconheço a minha voz? pergunto alto. Agora ouvi-me bem. Demasiado bem. Parecia que estava a falar do palco para a última fila da plateia. Não sei se era a minha voz. Se se parecia com a minha voz. Com o que é que se parece a minha voz? Sou demasiado teatral?
Ouço a campainha do micro-ondas. Já tenho a sopa quente. Está a apetecer-me um prato de sopa. Um prato de sopa de feijão, quente. Mando o cigarro pela janela aberta. Passa rente à cabeça de um dos gatos que se vira, maldisposto, para mim. Fecho a janela.
Ainda tenho azeitonas para pôr na sopa?

[escrito directamente no facebook em 2020/06/11]

Exame de Geografia

Acho que ainda não era Verão. Era uma Primavera quente, bastante quente. Saí da casa de calções e t-shirt e sapatilhas All Star pretas nos pés. Ia leve mas ia nervoso. Afinal, não era todos os dias que fazia exames. E, naquele dia, tinha o exame de Geografia do nono ano para fazer. Era de manhã, tinha acabado de tomar o pequeno-almoço, umas torradas com manteiga e um copo de leite frio com uma colher de Nesquick. Ou talvez fosse de tarde, e eu tivesse acabado de almoçar rissóis de peixe com arroz de cenoura. Não estou seguro. De certeza é que era dia de exame de Geografia e eu saí de casa de calções, nervoso com o exame mas confiante no estudo feito e preparado para me sair bem.
O exame era no colégio perto de casa. O mesmo colégio onde estudava. Não era bem perto de casa, mas suficientemente próximo para ir a pé. Sozinho e a pé.
À entrada do colégio fui barrado por uma freira que me perguntou ao que ia. Ao exame, irmã. Ao exame de Geografia, respondi. Não assim, disse-me. Não assim, de calções. Isso não é maneira de vires para um exame.
Fiquei parado a olhar para ela. Ela ficou parada à minha frente. A barrar-me a entrada. Senti a cara a ficar vermelha. As mãos a fecharem-se em punhos. A garganta a apertar, a prender-me a respiração. Eu a querer falar, a querer perguntar o que fazer, mas a voz, estrangulada, a não sair. Estava a sentir os olhos a ficarem húmidos. Estava prestes a chorar. Até que a freira me disse Vai num instante a casa, vá! Despacha-te! Vai vestir umas calças.
E eu estive ali uns segundos como minutos-horas parado em frente à freira a processar o que ela tinha acabado de dizer e então percebi e voltei para trás a correr. E foi a correr que fiz o caminho inverso e regressei a casa onde os meus pais já não estavam, tinham ido trabalhar. Procurei a chave de casa debaixo do vaso à entrada e entrei. No quarto, vesti umas calças de ganga e senti o calor daquela Primavera quente, daquela manhã de calor, talvez fosse uma tarde de calor, já não sei.
Despachei-me. Saí de casa. Fechei a porta e deixei a chave debaixo do vaso.
Recomecei a correr de regresso ao colégio e, a meio, não era bem a meio do caminho porque já não me lembro onde era exactamente o meio do caminho mas, ao longo do caminho e da minha correria, cruzei-me com um cão, um cão a ladrar, abrandei o passo de corrida com medo, o cão virou-se para mim a ladrar, eu acabei por parar, com receio do cão, mas o cão não se mexeu, não estava a ladrar para mim, estava a ladrar para alguma coisa à frente dele, no meio do mato daquele terreno baldio, e olhava para mim para me avisar, para me chamar atenção e, depois de passar o medo inicial, avancei, cauteloso, pelo meio do mato, com o cão a aproximar-se de mim, mas não estava a aproximar-se de mim, estava a ir comigo de encontro ao que ele queria que eu visse, e eu vi, um ninho de pássaro com três passarinhos, um deles fora do ninho, tombado no chão, no meio do matagal.
Agarrei no passarinho que tinha caído para fora do ninho e coloquei-o lá dentro. E fiquei ali durante algum tempo a olhar os passarinhos no ninho a chilrear, se calhar com fome, se calhar com saudades da mãe, se calhar com frio, se calhar assustados com a queda que tinham dado e eu ainda olhei em volta, em volta para o céu à procura de uma possível mãe e não encontrei ninguém até que resolvi subir à árvore e colocar o ninho entre duas braças.
Desci e fiquei ali, com o cão, agora calado e de rabo a abanar, a olhar para o ninho. Depois sentei-me no lancil do passeio. O cão sentou-se ao meu lado. Estivemos à espera que regressasse a mãe dos passarinhos.
O cão não tinha trela. Eu ainda não fumava. Não passou mais ninguém por ali e, finalmente, um pássaro apareceu a voar e entrou pela árvore dentro e foi até ao ninho. Os passarinhos num alvoroço devem ter começado a contar a sua desgraça, uma desgraça que só não tinha sido maior porque O cão e o rapaz ajudaram-nos, mãe.
Satisfeito com o desenlace da história, levantei-me do lancil, o cão também se levantou, dei-lhe duas palmadas no lombo, à laia de despedida, coloquei as mão nos bolsos das calças e tomei o caminho de casa…
…quando, de repente, me lembrei que tinha um exame para fazer e tirei as mãos dos bolsos das calças, virei costas, recomecei a correr em direcção ao colégio, corria tanto que batia com os pés no rabo e, quando finalmente cheguei ao portão do colégio, a freira, a mesma freira, não me deixou entrar porque o exame estava a terminar. Eu deixara passar o tempo e o tempo fugiu-me e já não tive tempo para fazer o exame de Geografia.
E nessa manhã, que pode ter sido nessa tarde, ficou decidido que eu teria de repetir o nono ano. Por causa da minha ausência ao exame de Geografia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/10]

Parece-me Poesia

Ainda não eram oito da manhã. Ainda não eram oito da manhã de Domingo. E eu já estava de olhos abertos. Eu já estava acordado, de olhos abertos fixos no tecto, nem sei porquê que o tecto não tem nada para ver para além de uma cagadela de mosca, tenho de lá passar a vassoura com um pano embebido em lixívia, a ouvir o roncar do tractor.
Cabrão do tractor.
Ainda não eram oito horas e já o tractor andava lá em frente, no terreno em frente, num terreno votado ao abandono há anos, a que o dono manda fazer uma limpeza de vez em quando, quando as cobras começam a atravessar a estrada, que era o que vinha a acontecer já há alguns meses mas que se adivinhava bastante pior com achegada do calor estival.
Já não conseguia dormir. Levantei-me mal disposto. Zangado, mesmo. Fui nu à cozinha para fazer café. Não tinha café. Ao sair, dei um pontapé na perna da mesa da cozinha com o pé descalço e magoei o dedo mindinho. Porra! gritei. Ca-ra-lhos-ma-fo-dam!
Dei voltas pela casa. A bufar. A bufar de dor. A tentar fugir ao roncar do tractor. Procurei um buraco para escapar àquele barulho imparável.
Nada.
Fui até ao alpendre. Olhei para o lado de lá da estrada. O tractor acima-abaixo. O terreno ainda é grande. De um lado uma casa, rés-do-chão-primeiro-andar, destruída mas onde ainda se descortina uma casa senhorial, outrora senhorial, e do outro lado de uma extensa clareira, umas antigas cavalariças que também já foram lagar e adega, e hoje só um monte de lixo, casas para onde se esgueira a malta do cavalo, as miúdas da escola de enfermagem, os putos do liceu, enfim, todos aqueles que procuram locais isolados para dar azo às suas vontades privadas. O estranho nisto é que, no meio da tanta cobra que cresce no meio daquele matagal, no meio daqueles enormes silvados onde antigamente ainda apareciam algumas amoras silvestres, é nunca nenhum daqueles invasores ter sido alguma vez picado por uma cobra. E, no entanto, é vê-las a atravessar a estrada, às vezes a tentar subir a alameda até ao meu quintal e o cão e os gatos de volta delas. Uma vez cheguei a fazer queixa na junta de freguesia. Ninguém me ligou nenhuma.
O dono actual comprou o terreno numa altura complicada para a família que estava com a corda na garganta e que acabou por vender a propriedade por tuta-e-meia. Isto, segundo consta ao balcão do café Central, em frente ao adro da igreja, na aldeia. Segundo consta também, ainda de acordo com as mesmas fontes entre a Aldeia Nova e a Amarguinha, a ideia era fazer ali um parque de lazer com restaurante, bar, café-lounge, e umas coisas típicas de aldeia, ou, pelo menos, da ideia que alguém urbano faz da aldeia, com uns galinheiros e umas capoeiras, uma bicharada assim, que seria criada por ali, à base de milho, tudo muito orgânico, e que depois alimentaria o menu do restaurante, tal como umas pequenas hortas e o ressuscitar dos peixinhos da horta. Mas nunca nada aconteceu, nunca nada seguiu em frente. E ainda bem para mim, que me restou o silêncio selvagem. Agora tem estado ao abandono. Tudo está mais deteriorado. Nunca vi lá fazer qualquer manutenção. Só este tractor a desbastar mato quando o mato está quase transformado em floresta virgem. Um dia ainda hei-de ver sair lá de dentro alguma tribo perdida que nunca tenha estado em contacto com a civilização.
Mas hoje o tractor estava mesmo a incomodar-me. Não bebi café. Não consegui fugir ao barulho. Estava a ficar com frio. Percebi que ainda andava nu pela casa. Tinha partido a unha do dedo mindinho e estava a deitar sangue do dedo e doía-me bastante, assim que me lembrei disso.
Então, continuei às voltas pela casa. A tentar fugir ao barulho do tractor a esmagar o mato, as silvas, as cobras, de vez em quando o tractor batia com as lâminas de corte em rochas que haviam espalhadas pelo terreno, ocultadas pelo mato, e fazia um ruído maior, como um grito lancinante que me fazia arrepiar o corpo, as costas, ficava com os pêlos do corpo eriçados e sentia um estremecer ao longo de mim inteiro.
Corri para o fundo do guarda-roupa do quarto. Agarrei numa caixa de sapatos que estava no fundo do fundo, debaixo de tudo o que havia por lá para colocar por cima e abri a caixa, a tampa da caixa, e peguei na pistola que era do meu pai, tinha sido do meu pai, uma pequena pistola de defesa, uma pistola pequenina, quase parecia falsa, uma pistola de brincar, com o punho de madrepérola e empunhei a pistola, empunhei a pistola pelo punho de madrepérola, com o cano nas têmporas, o corpo a tremer, eu a tremer, a sentir os fios de transpiração correrem por mim abaixo, a sentir o dedo a querer carregar no gatilho, a ganhar força e vontade para fugir àquele barulho infernal que estava a dar comigo em doido até que, de repente… o silêncio.
O silêncio…
Eu estava no meio do quarto com a mão a empunhar a pistola com o cano encostado à cabeça, à minha cabeça.
Comecei a ouvir a minha respiração. Uma respiração pesada. Depois chegou-me o chilrear dos pássaros. A estridula dos grilos. Parecia que o mundo tinha recuperado a sua voz. Não ouvia o som do tractor.
Suspirei.
Baixei o braço. Tirei o dedo do gatilho. Arrumei a pistola na caixa dos sapatos e devolvi-a ao guarda-roupa, ao fundo do fundo, debaixo de tudo o que havia para pôr em cima.
Depois tomei um banho rápido, vesti-me e saí de casa antes que o barulho do tractor regressasse.
Vim até à praia. Estou a ouvir o som das ondas a bater na areia. Parece-me poesia.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/07]

Os Gatos Lambem o Cu

Há uns anos vivi no meio da cidade, num pequeno apartamento de um quinto andar num prédio com dois elevadores que estavam, quase sempre, avariados.
Essa foi uma época em que andei realmente bastante magro. E em excelente forma física. Subia e descia as escadas do prédio várias vezes ao dia. E é preciso dizer que era um prédio antigo com pé-direito bastante mais alto que hoje em dia. Ou seja, mais degraus para subir e descer.
Data dessa época o meu primeiro gato. Quer dizer, não era bem meu, na verdade nunca tive um gato, como nunca tive um cão, como nunca tive um carro e como, na verdade, nunca tive uma casa realmente minha. Nada em que possamos usar aquela expressão de posse Meu! Este apartamento era emprestado, por um amigo, para o meu período de trabalho na cidade. Não sabia quanto tempo iria ficar por ali e acabei por aceitar o convite. Estive três anos na cidade. Três anos naquele apartamento. Mas paguei sempre a renda, claro. Nem poderia ser de outra maneira. Um valor para amigos, de qualquer forma. Mais barato do que seria uma renda normal. Como é que as pessoas conseguem pagar as rendas das casas na cidade? Como é que uma renda tem um valor superior ao trabalho? Bom, mas foi aí, nesse apartamento, durante esse período de vida no centro da cidade, que tive, mais ou menos, o meu primeiro gato.
Eu estava, num daqueles fins-de-dia de enorme calor, em cuecas, espojado no sofá, a beber uma cerveja e a fumar um cigarro, quando vi entrar, pela porta da varanda aberta, um gato todo preto, um ninja, a caminhar com ar de dono-da-casa, arrogante como só os cabrões dos gatos sabem ser, e vir-se enroscar junto a mim. Eu deixei-o ficar. Acabei o cigarro. Acabei a cerveja. Acabei por adormecer. Acabei por ser acordado pelo miar incessante do gato. Tinha fome, claro. Não se calou enquanto não lhe dei um pires com leite que lambeu enquanto o diabo esfrega o olho.
Ficou por ali. Às vezes. Outras vezes desaparecia. Acho que ia para o apartamento do lado. De onde deve ter vindo, originalmente. As varandas comunicavam, mas era preciso perícia para saltar de uma para outra sem cair lá em baixo, cinco andares lá em baixo.
Passei a deixar a porta da varanda aberta para ele entrar e sair. Dormia várias vezes aos meus pés. Enrodilhava-se em mim quando eu estava sentado no sofá a ver um filme. Acompanhava-me à varanda quando eu ia fumar um cigarro e beber uma cerveja. Por vezes descobria-o assim, no meio da cozinha, a lamber o cu, numa operação que me parecia difícil de entender, pela parte física e, especialmente, pela parte orgânica. Faz-me confusão imaginar a língua a limpar o cu. Mas isto sou eu, filho de uma burguesia religiosa cheia de tabus e culpa.
Um dia ao chegar a casa, descobri o gato caído cá em baixo. A cabeça desfeita. Deve ter vindo a bater com ela nas varandas dos andares por onde foi passando na sua queda de cinco andares.
Fui a casa buscar um saco de lixo. Agarrei naquele corpo mole, parecia um boneco, quente, ainda estava quente, e enfiei-o no saco do lixo e fui colocá-lo no contentor do rsu.
No início não me fez muita impressão mas, depois, com o passar das horas, comecei a pensar no gato, que nunca mais ia estar em casa à minha espera, nunca mais me iria fazer companhia a ver um filme francês de merda, nunca mais me iria aquecer os pés nas noites mais frias, nunca mais teria ninguém para escutar os meus monólogos como diálogos unipessoais. Aí deu-me uma certa fraqueza. Solucei, o meu corpo contorceu-se e cheguei ao choro. Ainda tentei espreitar para o apartamento do lado mas não vi nada. Nada nem ninguém. E nunca me vieram perguntar pelo gato.
Acho que foi nesse dia que decidi nunca mais ter gatos na vida.
E foi nesse dia, também, que percebi como sou um fraco de merda que nem as minhas mais simples decisões, como nunca mais ter um gato na vida, consigo levar a sério. Aprendi as minhas fraquezas nas decisões que tenho tomado ao longo da vida. Por todas as casas por onde tenho passado, tenho tido gatos. Ou já lá estão, e são das pessoas com quem vou viver, ou aparecem-me lá por casa, assim do nada, como aquele meu primeiro gato. Nunca mais assisti à morte de um gato. Mas os que me aparecem lá por casa, acabam por desaparecer pouco tempo antes de eu me ir embora. Não sei se eles percebem, presentem ou lá o que é. Mas desaparecem da minha vida como se não quisessem ser um incómodo, quando está na altura e eu ir embora.
Não percebo esta minha relação com gatos. Eu nem gosto de gatos. Eu gosto de cães. Mas há mais de vinte anos que não tenho nenhum. Sim, há mais de vinte anos. Também não gosto de pessoas e, no entanto, insisto em ir vivendo com elas.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/01]

Desvairado

O calor faz-me mal. Este excesso de calor que tem estado nestes dias que deviam ser de Primavera mas que nem em Agosto, dão-me volta à cabeça e transformam-me. Fico desvairado. Uma pequena gota faz transbordar o copo.
O pior de tudo isto é que eu sei. Eu sei quando me estou a transformar num monstro. Tenho noção disso. Acompanho par-e-passo todo o processo que leva à minha transfiguração e, no entanto, não serve de nada porque mesmo com essa consciência não deixo de fazer as merdas que faço quando sou levado a isso.
Falo com propriedade. Querem que vos diga? Neste momento, neste momento exacto, neste momento em que vos estou a contar esta história, estou sentado no alpendre, no alpendre onde normalmente estou sentado a olhar as montanhas lá ao fundo, montanhas que hoje estão bem nítidas, que eu já estive a olhar para elas há momentos enquanto fumava um cigarro, mas não agora, porque agora, agora neste exacto momento estou a olhar para as minhas mãos plenas de sangue, de sangue que não é meu, e que pingam nas lajes de cerâmica aos meus pés. Caem pingos nas lajes e salpicam-me as sapatilhas. Também tenho sangue na camisola e nas calças. Mas esse foi apanhado no momento em que dei a primeira martelada na cabeça do tipo. Mal lhe mandei a primeira martelada, o sangue da cabeça jorrou logo para cima de mim. Por momentos deixei de ver. Entrou-me sangue nos olhos. Enquanto limpava os olhos às costas das mãos, enquanto tentava voltar a abrir os olhos, ouvia-lhe o queixume. Um gemido patético para quem momentos antes se exprimia com todo o volume que a garganta deixava cuspir.
O tipo tinha tocado à campainha no portão lá em baixo. Eu estava na cadeira, nesta cadeira, a olhar as montanhas e a fumar um cigarro e não quis interromper a minha contemplação. O tipo insistiu. Deve ter percebido que eu estava cá. O cão foi para lá ladrar, para o pé do portão. Os gatos foram atrás dele, mas deitaram-se em cima do muro a apreciar a cena. Eu via-os daqui, daqui da minha cadeira.
E o tipo colocou o dedo na campainha e esteve assim durante bastante tempo, a tocar, a campainha a tocar, eu a não querer atender e à espera que o tipo percebesse que não era bem-vindo aqui, ninguém estava à espera dele nem queria nada do que ele tivesse para vender. Mas não. O tipo era um daquele tipos de sorriso fácil, simpático, demasiado simpático, sempre alegre e contente, daqueles que me enervam logo mal olho para eles e nunca percebem quando não são queridos, quando lhes dizem não, quando as coisas acabam ou nem sequer começam. Eu vi isso tudo quando cheguei lá abaixo. Porque ele pôs o dedo na campainha e não o tirou.
Eu levantei-me da minha cadeira, da cadeira onde tinha estado sentado no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e desci as escadas para o quintal. Apanhei, num degrau, o martelo com que tinha estado a pregar uns pregos na sala para pendurar dois quadros de um amigo meu artista plástico, muito bom, por sinal, mas que ainda não tem mercado, eu fui o primeiro comprador de um quadro dele e ele ofereceu-me outro, peguei no martelo, nesse martelo com que preguei a arte na sala, e desci a alameda até ao portão.
Abri-o e parei em frente ao tipo.
Ele tirou o dedo da campainha e disse-me Trago-lhe o melhor pacote de TV por cabo que possa imaginar. E eu só consegui dizer Não vejo televisão! quando senti o meu braço puxado atrás e lançado para a frente, rápido, rápido e com força, e lhe desferi o primeiro golpe que lhe tirou logo o sorriso-pepsodent da cara. Ele cambaleou e caiu quase logo de seguida ao primeiro golpe. Mas eu não consegui parar. Senti-me eufórico e desferi-lhe mais três ou quatro golpes, que depois parei de contar, perdi-me, esqueci-me, sei lá, e só parei quando senti o braço dormente e a cabeça do tipo feita numa pasta mole e disforme.
Foi quando voltei a mim e percebi o que tinha feito. O calor. A merda do calor. O calor enerva-me.
Depois voltei cá para cima e telefonei à polícia. Estou aqui à espera que eles cheguem. Deixei o portão aberto. Para eles entrarem.
Vou buscar um copo de vinho. Está a apetecer-me um copo de vinho. Vou beber um copo de vinho e fumar um cigarro…
São as sirenes que ouço, não são? Já lá vem a polícia. É melhor acender já o cigarro.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/29]