Desconfinamento

Ia a meio do percurso quando percebi que estava sozinho. Onde é que se teriam metido? Voltei para trás à procura deles. Andei durante algum tempo no sentido inverso, a refazer o caminho, mas não via ninguém. Depois tive de parar. Havia bifurcações e eu já não sabia de onde é que tinha vindo. Os caminhos pareciam-me todos iguais. As árvores eram iguais. Os movimentos sinuosos dos caminhos também me pareciam todos iguais. Tudo parecia a mesma coisa, mas não o podia ser. Por momentos tive medo de me perder. Estava sozinho no meio do mato. Sentia-me perdido mas, ao mesmo tempo, ainda não tinha saído do caminho que começara a fazer com todos eles.
Recomecei a caminhar em frente. Haveria de ir dar a algum lado. Talvez ao sítio onde queríamos ir quando começamos a caminhada, lá atrás.
O horizonte não tinha mais que cinco, dez metros de cada vez. Sempre na próxima árvore. Sempre na próxima curva. A vista nunca estava desafogada. Estava no meio do mato. Um mato quase-cerrado. E eu continuava a palmilhar terreno à espera de chegar onde devia chegar e, com um pouco de sorte, talvez encontrar quem tinha perdido.
Era preciso não desmotivar.
Continuei sempre em frente. Sempre a caminhar sem parar. Sempre à espera de chegar a algum lado. Porque a algum lado deveria ir dar.
Até que cheguei. Finalmente! pensei.
A luz estava a cair. Ali à minha frente, o mar. A areia. A praia. A festa. A festa estava a acontecer. íamos para uma festa, afinal? Já não me lembrava. Teria chegado a tempo? A tempo da festa?
E eles? Onde é que eles estavam?
E pus-me às voltas pela areia à procura deles. A circular pelo meio dos outros, os que já lá estavam.
Enquanto circulava, ia percebendo que a festa já tinha acontecido. Garrafas vazias caídas pela areia. Embalagens de alumínio com pequenos ossos e restos mastigados de frango assado. Caixas gordurosas de pizzas, com restos de massa roída. Rodas de fogueiras a morrerem e a serem atiçadas ao mesmo tempo que a noite se fazia adulta e eu começava a ter mais dificuldade em perceber quem era quem no meio daquelas pessoas. Havia grupos de gente reunida à volta de tocadores de djambés e de guitarras. Havia grupos de gente à volta de fogueiras a partilhar charros, pequenas conversas, adivinhas, anedotas. Havia quem lesse a mão, as linhas-da-mão. Havia quem divagasse acerca da astrologia e do valor dos signos. Havia grupos de gente a dançar à volta de pequenas e potentes colunas que cuspiam metros de música colorida. Havia gente solitária parada a olhar para o mar; para as ondas do mar; para as fogueiras a arder; para os corpos entrelaçados e caídos na areia. Havia gente a mergulhar no mar. Havia gente a cantar. Havia gente a foder.
Não reconhecia ninguém.
Afastei-me para um canto e sentei-me numa pequena duna, encostado a uma árvore. Não sei que árvore era. Era uma árvore. Puxei de um cigarro e, quando o ia a meter na boca, entre os lábios, percebi que estava de máscara, de máscara social. Lembrei-me do vírus. Lembrei-me que estávamos a desconfinar, mas que devíamos manter distância. O vírus estava activo. Não havia vacina. Ainda nos infectávamos. Estávamos a desconfinar, mas devíamos ter cuidado. Muito cuidado. E então lembrei-me que não vira nenhuma máscara entre toda aquela gente que estava ali na festa, uns em cima do outros, uns encostados aos outros, uns dentro dos outros.
Ouvi uma sirene. Vi umas luzes azuis e vermelhas a varrerem o ar. A noite já tinha ganho o espaço. Vi a chegada do que me parecia ser a polícia. As pessoas começavam a desmobilizar. Sem grandes dramas. Levantavam-se e iam embora. Saíam do mar, molhados, e continuavam pelo mato dentro. Talvez em direcção aos carros. À estrada. Alguns iam abraçados. Outros iam amparados. A polícia ficara para trás a apanhar os que estavam tombados na areia. Os que estavam a dormir. Os que estavam em êxtase. Os que estavam mortos.
Eu fiquei ali mais um pouco. Ninguém deu por mim. Fiquei a fumar um cigarro atrás do outro. A perguntar-me Onde raio é que eles se enfiaram? e sem conseguir resposta.
Então, estava sozinho na praia. Já não havia festeiros nem polícia. Já não havia ninguém. As fogueiras já tinham morrido ou sido apagadas pela polícia. O que restava era o lixo da festa. Uma festa a que cheguei tarde e não encontrei ninguém conhecido e acabei por não estar com ninguém que não conhecesse.
Dois dias mais tarde soube que o número de infectados pelo coronavírus tinha aumentado drasticamente por causa daquela festa. Semanas mais tarde houve gente a morrer. Gente que nem tinha estado na festa.
As pessoas com quem tinha ido, nunca mais as vi. Não sei se estão vivas ou mortas. Nem sei já quem eram.
Hoje pergunto-me se realmente tinha ido com alguém ou se tinha ido sozinho. Já não me recordo de nenhum deles. De um nome. De uma cara. De qualquer relação. De uma pequena estória. Nada. Não lembro de nada nem de ninguém. Só me lembro de mim, sozinho, a caminho de uma festa onde cheguei tarde e que foi o melhor que me podia ter acontecido.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/22]

A Última Super Lua

Escureceu. A noite caiu antes de tempo. O dia estava farto e abalou. Amanhã há mais, disse.
Mas o amanhã não chegou a chegar. Ficámos todos pela noite, mesmo. Era uma noite de super Lua. Estão em promoção. Quase todos os meses há uma super Lua. Ficam muito em conta. Mas desta vez correu mal.
Fartos de estarem em casa uns com os outros, a comerem que nem umas bestas, a aturarem-se mutuamente, a aguentarem as birras dos filhos, a lutarem pela posse do comando da televisão, a guerrearem-se para ver quem levava o cão e o gato a passear pelas ruas da cidade deserta, fartos das filas civilizadas e silenciosas como velórios para entrar nos supermercados, onde alguns compravam só uma coisa de cada vez para terem a desculpa de estarem sempre a voltar, de manhã, à tarde e não já à noite porque agora os supermercados estão fechados à noite e assim até poupam nas horas extras, as pessoas aproveitaram esta super Lua, a primeira da quarentena (acho que havia já outra para o mês que vêm), para saírem todos em romaria a cantar canções de embalar e gritar juras de amor em altos berros e mau hálito por perca dos rituais normais de higiene e limpeza pessoal.
Saíram de casa em fatos-de-treino com garrafas de vinho e licores, bebidas brancas e cerveja, charros, coca e mdma e tudo o mais que fosse festivo, e martelos de São João e manjericos de Santo António, realejos e harmónicas, adufes e guitarras e fizeram um enorme happening.
Juntaram-se todos debaixo da super Lua não muito grande mas branca, branca e luminosa como um sol nocturno, como gatos com o cio, abraçaram-se numa enorme corrente humana a cantar o We Are the World e a chorar e acabaram a pegar-se uns-aos-outros o coronavírus que gosta destas correntes humanas de solidariedade dos corpos para se transmitir em alegre passeata.
Não foi preciso muito tempo. Nem as máscaras, nem luvas, nem álcool-gel os salvaria do destino a que se propuseram ao participarem no evento. Não seriam necessários, como não foram, os ventiladores. Tudo seria já tarde demais. E só não foi tarde porque já não havia ninguém para o dizer. Ninguém pôde afirmar É tarde! Nem eu.
Começou primeiro a falta de ar. As gargantas apertaram-se. O ar deixou de chegar aos pulmões e ser irrigado para o resto do corpo. De repente toda a gente sofria de asma. Sofria mesmo. Quem já estava habituado, como eu, já não ligava muito. Já estavam preparados. A preparação de uma vida. E então, começaram a cair. A cair que nem tordos. Toda a gente acabou por morrer. Até eu.
Esta história? Uma simples liberdade artística privilégio dos dotados. Mesmo morto continuo a criar.
Quando o dia regressou, não regressou para ninguém. Nem para mim.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/08]

Tive uma Namorada que Foi a Primeira mas Pode Não Ter Sido

Tive uma namorada que foi a minha primeira namorada. Ou a segunda, já não recordo com certeza absoluta. Já não recordo com certeza absoluta a ordem dos factores, porque houve várias primeiras-namoradas na minha vida, umas mais primeiras que outras, umas de quem ainda me recordo e outras que já não sei quem foram e se alguma vez foram, tal o esquecimento, mas lembro-me desta porque sei quem é, lembro-me perfeitamente dela, e só não revelo o nome para justificar as minhas certezas porque não quero arranjar-lhe problemas em casa que ela tem família, é mãe de duas meninas e tem um marido muito ciumento que, já ouvi dizer, lhe chega a roupa ao pêlo. Isso é algo que não tenho certeza. Mas é melhor prevenir e, além do mais, ninguém tem nada a ver com o nome das minhas antigas namoradas.
Foi uma namorada com quem passeei de mãos-dadas, mas escondidas pela vergonha. Naquela época eu era muito envergonhado. Naquela época, ainda mal entrado na adolescência, eu era um miúdo muito envergonhado, de olhos postos no chão e os pés metidos para dentro que tive dificuldade em educar a ficarem direitos. Eu e ela encostados ao muro do liceu, as mãos atrás das costas, das costas de um ou de outro, em alegre brincadeira, um com o outro, as mãos de um nas mãos do outro.
Eu caminhava pelos corredores do liceu com as mãos dentro dos bolsos do casaco e ela com a mão dela dentro do meu bolso, a mão a apertar a minha, transpiradas pelo calor e pelo medo que alguém visse e fizesse disso assunto.
Tive uma namorada que foi também a primeira namorada com quem fui ao cinema. Não foi a primeira rapariga com quem fui ao cinema mas foi a primeira namorada com quem fui ao cinema e foi a única com quem eu consegui mesmo ver os filmes. Afinal, era para isso que estávamos lá. Para ver filmes. E foi com ela que vi o John Travolta a dançar de dedo apontado ao céu num fato branco em Saturday Night Fever; que vi a Olivia Newton-John adolescente numa saia rodada e elegante numas calças de napa preta justas a cantar com o John Travolta no Grease; e me apaixonei pela Princesa Leia em Star Wars enquanto mundos eram destruídos. Depois, nunca mais pude ir ao cinema com namoradas se o que eu queria era mesmo ver os filmes.
Foi esta primeira namorada que me deu o meu primeiro beijo de lábios, sem língua, que me fez ir à Lua e voltar num abrir-e-fechar de olhos. Foi esta primeira namorada, que talvez não tenha sido mesmo a primeira, que dançava comigo, agarrada a mim, o corpo dela junto do meu, colados mas ainda sem malícia ou anseios, o Angie, e me tocava nos cabelos com os dedos finos e compridos e me desconcentrava e me levava a pisar-lhe os pés e a calcar os sapatos de verniz pretos ou a sujar as John Smith brancas.
Tive uma namorada que foi a primeira namorada que levei para o meu quarto, de porta fechada, com quem os meus pais não implicaram. A minha mãe aparecia lá com uma bandeja com um copo de sumo e umas bolachas. A minha mãe gostava muito dela. Acho que foi a única namorada de quem a minha mãe gostou.
Depois de tantas namoradas que já tive na vida, gostava de conseguir poder voltar a sentir tudo o que senti com a minha primeira namorada que talvez não tivesse sido bem a primeira. Acho que isso sim, seria a minha verdadeira fonte da juventude. E então poderia dizer que que tinha uma primeira namorada em todos os momentos da minha vida, mesmo que já não fossem a primeira.
[se calhar essa não seria a melhor ideia porque depois esquecia-me desta primeira namorada, que talvez não tenha sido a primeira, e de todas as outras primeiras seguintes, porque se tornavam todas iguais e o que é bonito é que elas tenham sido tão diferentes, iguais mas diferentes, iguais mas únicas]

[escrito directamente no facebook em 2020/02/25]

O Futuro Homem da Casa

Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Ainda frequentava o liceu. Não me recordo em que ano estava mas, sei que ainda estava no liceu. Estava numa aula. Não sei de quê, mas estava numa aula. Estava lá dentro mas andava lá por fora. O corpo respondia presente à chamada, mas esquecia a lição no momento do sumário. Para onde ia? Não sei. Perdi essas memórias. Desse tempo há coisas que guardei e outras que perdi. É uma época volátil. O tempo consumia-se de maneiras diferentes conforme fosse manhã, tarde ou noite. Conforme estivesse numa sala de aulas ou em casa de uma namorada. Conforme fizesse um teste a uma disciplina ou uma partida de futebol com os amigos da rua. Algumas coisas permaneceram na memória, viraram estórias que contei aos filhos e aos netos. Outras apaguei-as. Apagaram-se. Esqueci.
Naquele dia, tinha eu então dezasseis ou dezassete anos, talvez menos, estava na sala de aula mas não estava atento à matéria que a professora estava a tentar ensinar. Foi quando vi entrar a directora do liceu na sala e, antes que elas as duas olhassem na minha direcção, desci de lá de onde estava e disse para mim próprio Pronto!…
Percebi o que tinha acontecido. Antes de me dizerem o que quer que fosse, eu percebi. Vi os olhares das duas sobre mim. Um olhar piedoso. Mesmo triste. A directora veio na minha direcção, disse-me para arrumar as minhas coisas e segui-la. Eu arrumei as minhas coisas dentro da mochila. Pus a mochila às costas e saí da sala de aula atrás da directora. Senti os olhos de todos os meus colegas nas minhas costas. Senti o olhar piedoso de todos eles. E queria ter-lhes dito Não olhem assim para mim. Cantem. Dancem. Antes que seja tarde para todos nós… Mas não disse nada. Saí da sala. Senti o silêncio da sala nas minhas costas. Senti a porta a bater quando saí. Ouvi o burburinho que se formou depois de ter saído. E segui a directora até ao gabinete dela.
Depois não me recordo nada do que aconteceu nos momentos seguintes. Talvez tenha entrado no gabinete da directora. Talvez ela tenha tido alguma conversa séria comigo. Talvez ela me tenha oferecido um chá de camomila ou metade de um Xanax (talvez não me tenha oferecido a metade de um Xanax, mas gosto de pensar que, eventualmente, tal podia ter sido possível acontecer).
Desperto já a caminho de casa. Saí da sala de aula e estou a caminho de casa. Há uma elipse temporal que é, na verdade, um buraco negro. Não sei o que aconteceu. Mas vou a subir a rua. A pé. A mochila às costas. Os carros a acelerarem na estrada. Uma estrada longa, larga, arejada, boa para carregar o pé no acelerador. Ouço-os a passar ao meu lado, a espremerem o motor. Acho que vou a chorar. Sim. Acho que vou na rua, a subir a rua e vou a chorar. Não sei o que se passou entre ter saído da sala de aula e descobrir-me ali, na rua, mas sei o que é que aconteceu nesse dia. Sei porque é que a directora do liceu me foi chamar à sala de aula. Sei porque é que saí mais cedo do liceu. E porque é que ia a pé para casa. E ia devagar. Portanto, talvez fosse a chorar. Mesmo que não tivesse chorado na altura. Agora, a esta distância, penso que que tal podia ter muito bem acontecido. Eu ia a chorar enquanto subia a rua até casa.
Cheguei a casa. Parei no passeio para cruzar a estrada para o outro lado. Lembro-me de ter parado para deixar passar o autocarro. O autocarro que ia dar a volta ao outro lado da cidade e, num dia normal, seria o autocarro que eu apanharia no regresso da escola para ir a casa almoçar se não tivesse de ir a pé mais cedo como fui.
O autocarro passou e cruzei a estrada. Mas agora que estava a chegar a casa os pés não me queriam obedecer. Parecia que não me queriam levar para casa. Mais, parecia que eu não queria ir para casa. Protelei a passagem. O outro lado tornou-se a outra margem de uma estrada como um rio caudaloso como um mar. Cheguei ao outro lado. Sentei-me no muro da casa vizinha. A casa vizinha era a casa dos meus vizinhos. Não estaria ninguém em casa. Só os cães que andavam lá de um lado para o outro a ladrar a quem passava do outro lado do muro, do lado de onde eu estava. Sentei-me no muro e acendi um cigarro. Já era tempo de parar de esconder que fumava. Um dos cães chegou-se a mim. Esticou-se até ao cimo do muro para que lhe fizesse uma festa. E eu fiz. Sempre gostei de cães. Dos de marca e dos rafeiros. Mesmo com aqueles que teimam em me arreganhar os dentes ao início, tento sempre dar-lhes a volta com algumas meiguices e umas palmadas no lombo.
Olhei para casa. As persianas estavam corridas. As janelas não estavam fechadas, mas as persianas estavam corridas para baixo, talvez a manter a luz baixa em casa.
Acabei o cigarro. Não havia ninguém na rua. Lembro-me porque achei estranho. Embora fosse uma rua residencial, durante o dia havia sempre gente a passar, a ir à padaria, à mercearia, a ir a casa uns-dos-outros, principalmente as mães, as mães que não trabalhavam fora, as mães domésticas que cuidavam dos filhos e da casa. Mas naquele dia, a rua estava deserta. Não havia ninguém nos passeios, nos jardins, nas varandas das casas. Só os carros continuavam a passar pela rua em direcção ao seus destinos.
As persianas da minha casa estavam corridas. Respirei fundo e fui em direcção a casa.
Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Naquele dia iria crescer. Naquele dia iria tornar-me no homem da casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/07]

Uns Petiscos em Famalicão

Lembro-me de irmos no carro. Éramos quatro. Dois à frente. Dois a trás. Em altos berros, nas colunas fanhosas do carro, o Black Room, o primeiro álbum dos Editors. Uma surpresa. Uma boa surpresa.
Tínhamos estado nos petiscos em Famalicão, ali para os lados da Nazaré. Queijinhos frescos. Salada de polvo. Orelha de porco. Moelas estufadas. Duas imperiais cada um, só para matar a sede, e depois o vinho tinto do jarro a acompanhar os petiscos.
Uma tarde. Era tão só uma tarde de passeio. De mesa. De conversa entre amigos. Era uma tarde a passear de carro. Ouvir música. Viver.
Enchemos o depósito na Estação de Serviço da Galp na rotunda para a Guimarota. E saímos da cidade. Para onde? alguém perguntou. Em frente, alguém respondeu.
E fomos em frente, para fora da cidade.
Alguém tinha comprado o Black Room. Foi posto no leitor. Primeiro, ouvimos o disco todo. Uma novidade já conhecida. Nada de novo. Bom como são as coisas já conhecidas.
Janelas do carro abertas. O vento a despentear os cabelos. Alguém berrou Fechem as janelas. E todos fechámos as janelas. Depois um charro chegou-me as mãos. Veio do lado. Fumei. Passei à frente. Ainda deu mais uma volta. Duas. E alguém disse Vamos à Praia dos Salgados tomar banho. E todos dissemos Sim!
E fomos à Praia dos Salgados.
Chegámos. Largámos o carro e fomos a correr até junto da água. A rir. A rir que nem uns parvos. Um despiu-se. E mergulhou na água fria. Os outros, nós todos, fomos atrás. Nus. Mergulho rápido para fugir ao frio. Um gelo, a água. Umas braçadas para aquecer. Mas logo a desistência. Todos a fugir. Não havia toalhas. Eu sequei-me com a t-shirt. E vesti-a molhada.
Depois chegou a fome. E foi aí que alguém sugeriu uma tasca em Famalicão. E partimos. Estávamos todos com fome. Fome e sede. E uma vontade de cantar. E foi assim que começámos a cantar o disco dos Editors. À frente, alguém batia no tablier a marcar o ritmo. Alguém abriu o vidro e sentou-se à janela a cantar aos berros para os pinheiros que iam passando. Não era eu. Não era o condutor. Não era o marcador de ritmo que ia à frente. Só podia ser o tipo que ia sentado comigo atrás. Sim, provavelmente era ele. Ou, se calhar, era o condutor. Já não sei. Já não me recordo de alguns pormenores.
Chegámos a Famalicão esfaimados. Sequiosos. Saímos do carros e bebemos logo duas imperiais enquanto esperávamos pelos petiscos. Depois migrámos para o vinho. O vinho do jarro de barro. Se calhar saído de uma caixa de cartão de dez litros. Mas não importava. O que os olhos não vêm o coração não sente, não é o que diz o corno?
Então, bebemos. Comemos. Conversámos. Conversámos muito. Sobre tudo e sobre nada. Atropelámos-nos uns aos outros na ânsia de nos fazermos ouvir. Eu atropelei-me a mim próprio, com uma língua que parecia ter ganho vida própria. Fumámos na sala. Estávamos sozinhos. Foi-nos permitido. Ou fomos nós que nos permitimos.
Saciados, voltámos a partir. De regresso ao carro. A fazer as estradas do pinhal. Os Editors em altos berros na companhia das nossas vozes, e risos, e alegria e bebedeira e estupidez. Muita estupidez.
Chegou-me novo charro às mãos.
Não cheguei a desfazer-me dele. Foi naquela curva. Naquela curva na estrada ladeada de pinhal já depois de sairmos de Famalicão. Eu levei o charro à boca. Ouvia, aos gritos, People ar fragile things / You should know by now / You’ll speak when you’re spoken to… E ainda estava a puxar o fumo para os pulmões quando senti o carro a fugir da estrada, rodopiar, vi os braços do condutor no ar e senti uma pancada muito forte no carro, senti o charro a ser cuspido da minha boca com o impacto. Lembro-me do meu corpo aos trambolhões dentro do carro, e depois tudo começou a rebolar, andei eu a rebolar dentro do carro, estive agarrado a alguém e perdi-o, senti vidros a partirem-se e algo a espetar-se em mim e depois, não sei, acho que senti o carro a deslizar durante algum tempo até parar no meio de um ribeiro.
Devo ter adormecido momentaneamente. Acordei com água do ribeiro a passar-me pela cara e a cara começar a arder. Acordei de um pulo, mas sem ter pulado, que estava preso e não me conseguia mexer, muito menos pular. E a primeira coisa que lembro de ter pensado, no meio de todo aquele silêncio, foi Onde está a música?
Depois devo ter desmaiado de novo.
Voltei a acordar numa cama de hospital. Havia gente a chorar à minha volta. Perguntei pelos outros. Ninguém me respondeu. Uma rapariga saiu do meu quarto, rápida. Outra foi atrás dela. Acho que iam a chorar.
Este foi o início da luta que me esperava. Quatro anos de terapia. Vivo numa cadeira de rodas. Mas mexo os braços. Consegui criar músculo. Adaptei-me. A vida adaptou-se. Tenho lido. Tenho lido muito. É o que mais faço.
Às vezes penso naquele dia. Eu fui o que teve azar. Eu fui o que ficou vivo. Vivo nesta cadeira de rodas. Às vezes gostaria de ter tido um pouco mais de sorte. E ter ido na companhia daqueles que eram os meus amigos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/21]

Dois Olhos Coloridos Olham para Mim do Alto do Céu

Dois sóis. Dois. Dois sóis como olhos purulentos a olhar para mim. Um verde. Talvez azul. O outro castanho. Talvez fosse vermelho. Mas nunca soube de um olho vermelho. Talvez fosse pus. Talvez fosse sangue. Talvez fosse a minha cabeça toda rebentada a imaginar vida onde reina a morte.
Estava deitado no meio da relva. Acho que estava num estádio. Num estádio da bola. Estava deitado na relva e vi dois sóis como olhos de cor diferente a olhar para mim, lá do alto do céu. Caindo das estrelas para cima de mim. Do meu peito. Virei-me de lado e vomitei. Vomitei as tripas para cima da relva. Vi perder todo o vinho tinto que tinha andado a tarde inteira a beber.
E ouvi Pára quieto, caralho! e parei. Parei a olhar para o céu. Para os dois sóis como olhos purulentos, de cores diferentes, que me olhavam cheios de desejo. Via as minhas mãos levantadas ao céu. Os dedos encarquilhados. Não os conseguia mexer. Pareciam uma raiz de mandrágora. Os olhos para além da mandrágora. E depois senti as mãos dela dentro das calças. À minha procura. A encontrá-la. A tirá-la para fora. A lambê-la. A metê-la na boca. A chupá-la. Os olhos vítreos, coloridos, os dedos encarquilhados e então Here are we, one magical moment / Such is the stuff from where dreams are woven, e então percebi onde estava.
O olhos coloridos continuavam lá no alto mas estavam numa cara em cima de um palco a cantar e a dançar. A cara dos olhos purulentos, vestida elegantemente num fato de bom corte, moderno e bem vincado, dava passos de dança em cima de um palco onde um baixo cadente marcava o ritmo do comboio em Station to Station. David Bowie cantava, para mim Lost in my circle / Here am I, flashing no color, o que não deixava de ser bizarro porquanto Station to Station não fazia parte da set list do concerto onde afinal me descobria, deitado sobre a relva do Estádio de Alvalade, com o David Bowie lá ao fundo, em cima do palco, a cantar uma canção que não cantou e a minha pila na boca dela e eu a acabar de me vir, ficar enjoado e voltar a vomitar, facto que me fez dar um solavanco, erguer o corpo, projectar o vómito para a frente, o que o fez cair em cima dela tombada sobre mim e a fez gritar Caralho, meu! e levantar-se a correr desesperada, enquanto limpava os cantos da boca com as costas da mão, à procura de uma casa-de-banho e eu voltava a deitar-me, recuperado o céu negro, estrelado, agora sem olhos como sóis, mas só o céu negro da noite, as luzinhas de Natal lá penduradas à espera de um qualquer Yuri Gagarin, e um silêncio de morte e a minha respiração calma, tranquila, suave, a respiração de um bebé ao colo seguro da mãe que o embala em direcção ao paraíso.
Queria levantar-me mas não conseguia. Estava deitado numa poça de vómito. Chegava-me o cheiro. Azedo. E nem o facto de ser meu lhe fazia perfumar o odor.
Não me lembro de como fui ali parar.
Via as pessoas a passar por mim. As pernas abertas sobre o meu corpo. O cuidado em não me pisarem. Iam caindo. A galhofa de uns. O riso escarninho de outros. Ninguém me deitou a mão. Ninguém me ajudou a levantar. Alguém espetou-me o resto de um charro na boca. Que fui fumando. Uma passa a cada momento de respiração. Fumei-o até ao fim. E depois do fim. Não consegui mexer os braços. As mãos. Os dedos. Fumei o charro. O filtro. Queimei os lábios. Gritei Foda-se! mas ninguém ouviu que foi um grito silenciado no vácuo do cosmos. E depois reparei. Tinha a pila fora das calças. E não me conseguia mexer. Não a conseguia agarrar. Guardar. Esconder.
E senti a cabeça a rodopiar. A andar às voltas em torno da Via Láctea. Cada vez mais rápido. Até perder a dimensão do espaço, a dimensão do tempo, a dimensão do que era. Tudo eram riscos de todas as cores conhecidas e desconhecidas. Pareceu-me ver um unicórnio.
Escureceu. Eu escureci.
Quando acordei estava aqui. Aqui onde me estás a ler. Aqui no teu computador. Perdi as pernas e os braços. O tronco. A cabeça. A pila. Perdi o meu corpo. Mas sou eu. E estou aqui. Estou na nuvem. Estou em todo o lado. Sou tudo. Sei tudo. E ao mesmo tempo. Conheço-vos a todos. Conheço-vos a vocês todos no mais íntimo dos vossos segredos. Vejo-vos quando se masturbam frente ao écran do computador enquanto olham um filme porno. Enquanto trocam mensagens secretas com pessoas proibidas. Enquanto fazem, solitários, todas as coisas que nunca fariam em frente a outras pessoas. Todos ao mesmo tempo. E eu sei. Eu vejo. Eu sou.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/08]

Estação de Serviço

Não devia ter feito o que fiz. Mas estava ali, mesmo à minha frente. Peguei no envelope de cartão, meti-o no bolso e vim-me embora. Até me esqueci do que tinha ido lá fazer.
A freira tinha-me feito entrar na sala do padre. Ele vem já, disse-me. E eu sentei-me. E olhei à volta. Um escritório austero. Alguns livros. Poucos. Uma Bíblia em cima da mesa. Um terço em cima da Bíblia. Um quadro na parede. A única decoração. Não, a única não. Também havia um jarro com um molho de flores campestres em cima da mesa. Na mesma mesa onde estava um candeeiro, uma caneca com umas canetas, um bloco A5 e um computador portátil. Um cinzeiro. Com cinzas. O padre fuma. Será pecado, fumar?
Encostado ao computador estava um envelope de cartão. Como um maço. Cheio. Grosso. O que seria aquilo?
E a minha curiosidade.
Levantei-me e agarrei o envelope. Abri-o. Era dinheiro. Notas. Notas de cinquenta euros. Muitas. Um grosso maço de notas de cinquenta euros. Não pensei. Foi automático. Enfiei o envelope grosso no bolso do casaco. E fui-me embora. Saí da sala. Saí do edifício e evitei encontrar as freiras. Entrei no carro e vim embora.
Já nem me lembrava do que me tinha lá levado. E interessa isso, agora?
Agora preciso de gasolina. O combustível do carro está a entrar na reserva. Estou… Nem sei onde estou. Estou algures por aqui, no meio do que me parece ser um mato, uma floresta. Não vejo um carro há bastante tempo. Não vejo uma casa. Nada. Podia parar e ver quanto dinheiro está no envelope. Mas para quê? É muito. É simplesmente muito.
E ali à frente? Olha! Uma Estação de Serviço. Nem de propósito. Vem mesmo a calhar.
Paro ao lado de uma bomba. Saio do carro. Enfio a agulheta no depósito e ligo a mangueira. Encho o depósito. Olho à volta. A Estação de Serviço parece abandonada. Um pouco desleixada. Não deve cá passar muita gente. Está um pouco abandonada. Mas tem gasolina. Ouço o clique da agulheta a avisar o depósito atestado. Vou à loja pagar. Pago em dinheiro. Dinheiro do envelope.
Arranco com o carro. Vou sair da Estação de Serviço. Mas não saio. A estrada está mesmo ali, mas o ali mantém-se sempre lá. Eu conduzo em direcção à estrada mas parece que a estrada mantém sempre a mesma distância de mim, como se esse horizonte acompanhasse a minha viagem e não me deixasse aproximar. Olho para trás e vejo que continuo na Estação de Serviço. Não estou a conseguir sair. Que raio?!
Páro o caro. Saio. Caminho a pé até à estrada. E acontece o mesmo. A estrada vai-se afastando de mim. Não permite a minha aproximação. Eu começo a correr, mas tudo se mantém na mesma. A estrada afasta-se de mim. Não, não se afasta. Mantém é sempre a mesma distância. Como se eu não conseguisse aproximar-se dela.
Volto para trás. Volto a entrar dentro da loja. Não está ninguém. Dou uma volta aqui dentro. Mas não sei o que estou a fazer. Não há aqui ninguém. Volto para a rua. Volto a entrar dentro do carro. Arranco. Arranco mas não consigo sair de onde estou. Bato com a mão no volante. Desligo o carro. Acendo um cigarro. Não devia estar a fumar aqui, mas não consigo sair. Tenho de fumar.
Chega um carro. Finalmente um carro. Não via nenhum desde que entrei nesta estrada. Um casal. Ele fica a pôr gasolina no carro. Ela vai à loja. São um casalinho novo. Ainda devem estar apaixonados. Oh, que porra! O que é que isso interessa?
Olha, ela já lá vem. Traz uma garrafa de água. E o quê? Umas bolachas. Abraça-o. Dá-lhe um beijo. Entra para o carro. Ele arruma a agulheta e também entra no carro. Eu ponho o meu carro a trabalhar. Espero por eles. Ele arranca com o carro. Ela vai relaxada, com os pés no tablier. O carro chega à estrada e entra nela. Eu arranco imediatamente atrás do carro. Mas não o consigo alcançar. Eu fico para trás. Ele vai estrada fora. Desaparece de vista. E eu aqui. Na Estação de Serviço.
Volto a sair do carro.
Dou umas voltas a pé. Aqui à volta. Apago o resto do cigarro com o pé. Vou à casa-de-banho. Entro, mas não sei o que é que estou aqui a fazer. Não me apetece urinar. Abro a torneira. Molho a cara. Vejo-me ao espelho. As gotas de água escorrem pela cara abaixo. Penso no envelope de dinheiro. E penso que não devia ter feito o que fiz.
Saio da casa-de-banho.
Aproximo-me das bombas e vejo que está lá uma carrinha. A Estação de Serviço deve estar na hora de ponta. Há uma freira a encher o depósito da carrinha. Uma freira? Dentro da carrinha, várias crianças a cantar. Não sei o que estão a cantar. Mas estão a cantar. A freira que está a encher o depósito também trauteia qualquer coisa de vez em quando. Acaba de encher o depósito e vai à loja. Uma freira?
Eu olho em volta. As mãos na cintura para me ajudarem a pensar. Para me ajudarem a decidir. Vou ao carro. Agarro no envelope. Dirijo-me à carrinha da freira. Abro a porta do lado do condutor. Está outra freira sentada à frente. Canta com os miúdos. Meto a cabeça lá dentro e digo Boa-tarde, irmã!, e a freira e os miúdos param de cantar. Ela cumprimenta-me com um Boa-tarde! E eu replico Estudei num colégio de freiras em miúdo. Também cantávamos umas canções assim. Despertou-me uma nostalgia. Cantem, cantem! E a freira sorri e recomeça a cantar. Os miúdos vão atrás dela. Deixo-me estar ali um bocadinho. Deixo cair o envelope com o dinheiro no porta-luvas da carrinha. Sem ninguém dar por nada. Agradeço com a cabeça e com um enorme sorriso na cara. E faço gestos com as mãos para eles continuarem a cantar. E eles continuam. Eu fecho a porta da carrinha e vou para o meu carro. Entro. Sento-me ao volante. E espero.
A outra freira vem da loja. Entra na carrinha. A carrinha arranca e entra na estrada.
Eu estou agarrado ao volante. Respiro fundo. Dou à chave. O carro começa a trabalhar. Meto a primeira. O carro arranca. Meto a segunda quando me aproximo da estrada. Estou à espera que o horizonte acompanhe a velocidade do carro. Mas não. Entro na estrada. Acelero. Meto a terceira. A quarta. A quinta. A sexta. As árvores passam a grande velocidade por mim. Suspiro. Tenho o coração a bater muito depressa. Mas sinto-me aliviado. E vou estrada fora. Uma estrada no meio do mato. Preciso de uma cidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/02]

Miss You

Acordo.
Acordo com o telefone a tocar aqui mesmo ao lado.
São três e meia da manhã.
Acordo com o telefone a tocar e não quero ver quem é.
Coloco as mãos nos ouvidos e começo a cantar para não ouvir o telefone a tocar aqui mesmo ao lado às três e meia da manhã.
La la la la la lara
La la la la la lara
And I miss you…
Well, I’ve been haunted in my sleep
You’ve been starring in my dreams
Lord, I miss you…
Não quero ouvir o telefone a tocar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/17]

Sentei-me no Sofá e Deixei-me Ir

Era um dia cinzento e chuvoso de Verão, o dia em que morri.
Não tive uma morte gloriosa, simplesmente deixei-me ir.
O dia tinha amanhecido cinzento. A meio da manhã começou a chover. Uma chuva miudinha, chata.
Levantei-me, sem vontade, da cama. Arrastei-me até ao sofá. Sentia-me cansado.
Ouvia, ao fundo da rua, os cães a rosnar. Estavam de volta dos caixotes de lixo do supermercado. Lutavam por comida. Andavam magros, os cães aqui da rua. Sentia-os nervosos. Agora ouvia-os a rosnar.
Sentei-me no sofá.
Tentei pensar em qualquer coisa. Tinha a cabeça em branco. Melhor, em cinzento. Não conseguia pensar em nada. Fiz um esforço. Precisava de despertar. Sentia que precisava de me afirmar vivo. Com gana.
Os cães continuavam a rosnar. Lá ao fundo da rua.
Hoje, toda a gente é história. Nos livros do futuro virão loas às equipas de futebol. Às equipas inteiras. Do treinador ao responsável pelo guarda-roupa. Porque a parte faz o todo. E são todos vencedores e especiais. Com destaque para os destaques. Os craques terão uma caixa especial. Debruada a ouro. Nos livros do futuro virão os políticos. Os bons e os maus. Especialmente os maus que as más decisões terão maiores consequências nas vidas de todos os dias e irão ter efeitos bem mais duradouros. Nos livros do futuro virão também os artistas todos. Os cineastas. Os músicos. Os escritores. Os influenciadores. Os instagramers. Os youtubers. As personalidades da televisão, da rádio e da internet. Os actores de cinema, de teatro e de televisão. Os declamadores e os comediantes. Os entrevistadores. Os entrevistados. Os turistas. Os agentes do Alojamento Local, a grande democratização das viagens. Os taxistas e os uberistas. Os pais e as mães. Todos eles especiais. E os príncipes e as princesas desses pais e dessas mães. Todos os filhos príncipes e filhas princesas que poderão ser o que quiserem, basta quererem, que a história há-de tratar de os reverenciar.
Ainda bem que a memória RAM veio ocupar o espaço da massa cinzenta tão em desuso. Já não será preciso decorar tudo isto para os exames escolares, para a vida social-digital do Facebook e do Tinder, para a vida de todos os dias. Bastará googlar e a informação pertinente estará ali, na palma da mão, à beira da vista. Será só colher. Como uma verruga na ponta do nariz de uma bruxa de Salém.
Toda a gente fará parte da história. Da história moderna do Homem. Toda a gente menos eu.
Eu deixei-me ficar parado. Deixei-me ficar parado em casa. Agoniado com tanta e tão grande conta do Homem especial.
Os cães aproximavam-se de casa. Agora lutavam entre eles. Percebia-se bem. O rosnar era outro. Percebia-se que havia bocas ferradas em carne viva que estrebuchava. Havia cães a ganir. Ouvia inúmeros passos a correr no asfalto. Fugiam uns dos outros.
Eu não era ninguém. Nem queria ser ninguém. Nunca fui especial. Nem nunca o desejei ser. Queria só estar ali. Colocar um pé a seguir ao outro. Tonificar com o sol. Florir com a chuva. Mergulhar no mar. Rebolar na relva. Beijar as mulheres e os homens. Passear no Outono. Dormir no Inverno. Cantar na Primavera. Dançar no Verão.
Mas não. Tinha de ter uma casa. Um carro. Um cão. Um emprego. Uma conta no banco. Seguros vários. Estar inscrito na Segurança Social. Ter um nome e um número de identificação pessoal. Tirar férias. Comprar coisas. Muitas coisas. Coisas várias. Ter mulher. Ter mulheres. Várias. E filhos. Muitos. E acreditar em Deus. Ter uma religião e orar. Votar.
E achar que a vida era uma dádiva.
Parei.
Morri.
Não foi uma morte glamorosa nem com honra. Não fui morto na ponta de uma baioneta. Nem a defender alguém. Nem a lutar por nada. Nem sequer a defender os cães esganados de fome que tentavam sobreviver lá em baixo na rua.
Só morri. Num dia cinzento e chuvoso de Verão. Estava calor. Um pouco abafado. Comecei a ouvir tiros. Os cães ganiam. Ganiam todos. Até deixarem de ganir. E já não haver cães. Agora não havia cães vencedores. Agora os cães estavam a sucumbir aos tiros de espingarda disparados das janelas altas dos prédios urbanos. Os cães mais raivosos matam os cães mais inocentes.
Eu sentei-me no sofá e deixei-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/02]