Um Passeio pela Vila

Saio de casa com o saco do lixo na mão. O tempo está cinzento. Ameaça chuva, mas não está frio. Estou de t-shirt e um casaco de malha. Desço a alameda. Os gatos ficam a olhar para mim sem se mexerem de onde estão. Saio pelo portão para a rua. Viro à esquerda e caminho os cem metros que me separam do caixote do lixo. Abro a tampa e largo lá o saco lá dentro. O caixote cheira mal. Sacudo as mãos às calças de ganga. Acendo um cigarro. Inspiro fundo e depois deito o fumo todo fora. Olho as montanhas lá ao fundo. Estão sempre lá, as montanhas. São a minha grande referência, mesmo quando não as vejo, encobertas pelo nevoeiro. Parece estar a chover lá ao fundo, sobre as montanhas.
Respiro fundo. Volto para trás. Passo o portão da casa e continuo em frente. Caminho. Sinto-me como o tempo. Cinzento.
Vou pelo passeio. Neste lado da estrada há um passeio feito com lajes hexagonais. Provavelmente de barro. No outro lado da estrada não há passeio. Há uma vala para escoar as águas. Já lá torci um pé. Já lá encontrei um cão morto. E duas cobras. Há muitas cobras por aqui mas, normalmente só aparecem lá mais para o Verão. Agora está muito frio para elas.
Passo pelo quintal de uma casa. Há um cão pequenino, daqueles muito chatos, que começou a ladrar quando me viu e vai aqui ao lado a acompanhar-me, sempre a ladrar, o cabrão. Está uma mulher à janela da casa a estender um edredão. É a dona da casa. Olha-me com desconfiança. Como se não me conhecesse. Já moro aqui há cerca de cinco anos, mas ainda sou um estrangeiro. Não socializo. Não frequento o clube recreativo. É raro ir ao café da vila. Vou, às vezes, ao pequeno mini-mercado que é mais uma mercearia e que costuma ter frescos, muito frescos, aqui da terra. A mulher continua a olhar mim como se não me conhecesse. Deixo o muro da casa. O cão. O ladrar irritante do cão. O olhar frio da mulher.
Acabo o cigarro e mando-o ao chão. Esmago-o com a ponta da sapatilha. Olho para o céu. O cinzento está a ficar ainda mais escuro. As nuvens que estavam sobre a montanha deslocam-se para cá. Continuo em frente. Agora a subir um pouco. Não é grande o declive, mas prende-me a respiração. Forço o passo e fico cansado. Chego ao cimo da rua e páro para recuperar o fôlego. Depois viro à esquerda. Agora não há passeio. Nem de um lado nem de outro. As bermas dos dois lados são baixas. Costuma haver aqui alguns acidentes. Há sempre muitos camiões a passar por aqui. Camiões que vêm buscar produtos aqui às fábricas da zona. Os carros que passam por aqui e se cruzam com um camião, se não têm cuidado, acabam dentro das valetas. Já aí vi alguns. Outros vão ribanceira abaixo. Mas ninguém se incomoda. A Junta de Freguesia nunca arranjou solução. Não quer saber.
À minha frente passa um gato. Um gato todo preto. Gordo. Pára na estrada a olhar para mim. Também se pergunta quem sou eu. Eu ignoro-o. E o gato acaba a seguir o seu caminho e desaparece no outro lado da estrada por entre o mato que começa a invadir a estrada. Há um certo abandalhamento dos terrenos, por aqui. Não sei de quem são estas terras. Não são minhas.
Do nada, aparece um novo passeio, novamente só de um dos lados da estrada. Do outro lado. Cruzo a estrada. O passeio continua a ser de uma espécie de tijolo barroso, mas agora são lajes rectangulares. Aqui na vila não há uma uniformização dos bens públicos. Desde casa até aqui, já contei com quatro candeeiros de rua diferentes. E ainda vou encontrar mais na volta que irei fazer até regressar a casa. E, provavelmente, alguns deles não devem funcionar. Alguns devem ter as lâmpadas fundidas, outros talvez tenham problemas um pouco maiores mas que ninguém quer resolver.
Passa um carro por mim. O primeiro desde que saí de casa. Às vezes parece que vivo numa terra fantasma.
Acendo outro cigarro. Sinto o cheiro da terra molhada lá mais à frente. Vem aí a chuva. Continuo a andar. Passo em frente a uma pequena fábrica caseira. Acho que fazem produtos em vime. Cestas. Cadeiras. Coisas assim. Há uma carrinha de caixa aberta na rampa de acesso à garagem onde funciona a pequena fábrica. Mais à frente, na estrada, está um carro em cima do passeio. Até aqui os carros ocupam os passeios. Numa terra onde não se passa nada, onde há lugar para tudo, há também carros em cima dos passeios.
Olho para trás, não vejo nenhum carro e desço para a estrada. Passo o carro que ocupa o passeio. À frente do carro puxo os limpa-pára-brisas. Deixo-os assim, em pé, como dois cornos de um boi a pastar nos terrenos verdes que vejo na minha caminhada.
Começa a pingar. Não é ainda uma chuva. São alguns pingos a avisar que vem aí chuva. Eu continuo a andar ao meu passo habitual. À minha velocidade. Não tenho pressa. Não tenho medo da chuva. Na verdade quero molhar-me. Quero refrescar a cabeça. Tirar daqui ideias que me estão a incomodar. Que me andam a moer.
Começo a descer para o centro da vila. Passo pela farmácia que é a primeira casa à direita quando se chega por esta estrada. A porta está fechada. Mas a farmácia está sempre aberta. O farmacêutico mora por cima. Se necessário, toca-se à campainha e ele atende. Está sempre por aqui. Acho que nunca foi de férias. Acho que nunca se ausentou um fim-de-semana. Mas é raro estar mesmo na farmácia. Normalmente está em casa. A fazer o quê, não sei. Mas está quase sempre em casa.
A seguir vem o clube recreativo. Há sempre uns velhotes sentados cá fora. Não hoje, que já está a chover. Ainda não é muita mas já é alguma. Nunca entrei lá dentro. Nem durante as festas. As festas aqui da vila dividem-se entre o clube e o adro da igreja, que fica do outro lado, num pequeno quase-largo, virando ali à direita naquela estrada, mas eu não vou agora por lá porque está a chover. E também não vou passar pela Junta de Freguesia que fica naquela outra rua, mas mais lá para trás, ao lado do cabeleireiro. O cabeleireiro é da mulher do presidente da Junta. Se passasse ao pé da Junta ia lá deixar outra reclamação. Ia reclamar a falta de passeios em torno da vila. Na semana passada fui queixar-me da falta de caixotes para a separação do lixo no lado da vila onde moro. Ninguém por aqui me conhece mas, o presidente da Junta já não me suporta.
Aqui é o Lar. É uma casa de velhotes. Mas é raro vê-los. Nunca há ninguém nas janelas. Nunca há ninguém no pátio quando aqui passo. Devem estar todos deitados ou em frente à televisão. É assim, o fim da vida. O cu colado a uma cadeira a ver um programa de variedades com chamadas de valor acrescentado. Ora, foda-se!
Agora já chove bastante. Tenho o cigarro apagado e molhado ao canto da boca. Tinha-me esquecido dele. Não está frio. Mas chegando a casa, vou tomar um banho quente. Quando foi a última vez que tomei um banho? Um banho assim, de chuveiro? Inteiro? Cabelo e tudo? Já nem me lembro. A vidas são diferentes quando os sítios onde estamos também são diferentes.
Os gatos estão todos em cima do muro à minha espera. Têm medo da água da mangueira e dos baldes, mas não têm medo da chuva. Quem é que os percebe? Raio dos gatos.
Sinto o telemóvel no bolso das calças. Tiro-o para fora para ver as horas. E percebo que ninguém me telefonou. Ninguém me mandou uma mensagem. Olho para o gatos. Guardo o telemóvel e entro pelo portão.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/29]

Regresso à Cama

Acordo. Há pouca luz. Já é de manhã mas, o tempo cinzento e a chuva escondem a luz que podia já estar a iluminar o quarto.
Estou de olhos bem abertos. Podia virar-me para o lado e tentar dormir, mas sei que não vou conseguir. Muitos anos a acordar a esta hora. Já conheço a rotina. Sei que não consigo voltar a adormecer.
Ela está aqui ao lado. Dorme. Sinto-lhe a respiração profunda, descansada.
Saio nu da cama. A casa está quente. Foi uma boa ideia, o recuperador de calor.
Vou à cozinha. Ponho café a fazer. Espreito à janela. Chove. Chove muito. Chove tanto que não se vê nada para além de dois ou três metros daqui da janela. Mal vejo o prédio em frente. Deve estar frio na rua. A casa está quente. Estou nu e estou bem. Foi uma boa ideia o recuperador de calor.
Tomo banho.
Visto uma calças. Bebo café. Vou até à janela de novo. Acendo um cigarro. As manhãs de Domingo são difíceis. Nunca sei muito bem o que fazer. Vou à rua. Compro o jornal. Bebo um café expresso. Como um croissant folhado simples. Às vezes com manteiga. Às vezes com doce de morango. Fumo um cigarro. Venho para casa. Faço o almoço. Almoço. À tarde passeio junto ao rio. Vou ao futebol. Leio um livro. Quando dou por mim já é de noite. Vou comer uma bifana às rulotes. Gosto de estar ali assim, ao frio, a comer uma bifana grelhada e a beber uma mini na companhia de gente que não conheço de lado nenhum mas que, como eu, gostam de estar ali assim, ao frio, a comer de pé, encostados ao balcão da rulote. Há noites em que vou a pé até ao McDonald’s. Como um Royal Cheeseburguer. Bebo uma Cola. Desfaço tudo no caminho de regresso a casa. Depois faço um chá e sento-me no sofá a ver o Trio d’Ataque.
Estou cansado deste ritmo.
Acabo o cigarro. Abro a janela e mando-o para a rua. Molho-me na chuva que entra pela janela aberta naquele breve momento em que abro o vidro. Está muito frio na rua. Sinto o corpo arrepiar-se. Mas a casa está quente. Fecho a janela.
Olho para a tempestade lá fora e digo, em silêncio, só na minha cabeça, para me ouvir Não. Hoje não vou à rua.
Largo a chávena de café na mesa da cozinha. Retorno ao quarto. Gosto de sentir o chão de madeira debaixo os meus pés descalços.
Dispo as calças. Ela continua a dormir. Entro outra vez na cama. Ela vira-se para mim e abraça-me. E, sem abrir os olhos, diz Estás frio. E depois continua Cheiras a café. E a tabaco. E a champô. E a sabonete. Gosto destes teus cheiros todos.
Eu sorrio. Abraço-a a deixo-me ficar dentro da cama junto dela. Os dois nus, na cama, numa manhã de Domingo, a ouvir a chuva a cair lá fora.
Sinto a mão dela a percorrer-me o corpo. Ela repete Estás frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/17]

Croquetes

De vez em quando há um estagiário mais afoito que vai ao fundo do baú recuperar listas perdidas com nomes improváveis. Nomes de gente que já morreu. Nomes de gente proscrita. Nomes de gente banida e esquecida. São os restos. Os que já não contam.
Hoje de manhã tocou o telemóvel. Era um convite. Um convite para uma apresentação ou inauguração ou qualquer coisa assim do género. Que não percebi bem. Que, por defeito, não me interessa. Faço parte dos esquecidos. Mas que acabou por interessar. Ponderei. Pensei que talvez houvesse croquetes. Talvez houvesse vinho tinto. Branco. Espumante. Cajus. Amendoins. Sabem o preço dos frutos secos? Aceitei.
Desliguei o telemóvel e olhei-me reflectido no vidro da janela da sala. A barba grande e compacta. O cabelo desgrenhado. Cheirei os sovacos. E pensei que tinha de tomar um banho.
Primeiro fiz a barba. Cortei a maior parte com uma tesoura. Depois usei a máquina para que não ficasse completamente rapada. Não queria não me reconhecer. Só queria parecer limpo. Apresentável. Social.
Depois tomei um duche de água quente. E deixei-me lá estar em baixo durante algum tempo. A marinar debaixo da água quente. Fervente.
Cortei as unhas dos pés. Cortei as unhas das mãos. Fiquei estafado. Preparei um gin tónico para descansar. Fumei um cigarro à janela. Bebi o gin. Na janela do prédio em frente, uma mulher sacudia tapetes e começou a rir a olhar para mim. Mandou-me um beijo à distância. Percebi que estava nu. À janela. A fumar e a beber. Nu. Sem frio. Para gozo alheio.
Vesti-me. Andei ali às voltas entre uma camisa, um polo, uma t-shirt. Umas calças de ganga azul ou pretas. Sapatilhas, sapatos ou botas? Sapatilhas, claro. E que sapatilhas? Ora, gaita!
Fui preparar outro gin tónico enquanto pensava nas sapatilhas. Pinguei o polo com pingos do limão. Merda! Acabei de beber o gin tónico de novo à janela. A fumar mais um cigarro. Já não estava nu. A mulher dos tapetes também não estava lá.
Depois tirei o polo e vesti uma camisa. Pensei melhor. Ainda era cedo. Tirei a camisa e voltei a vestir o polo sujo até sair de casa.
Voltei à janela. Fumei outro cigarro. Sentia-me nervoso. O sair de casa. O ir para o meio de gente. De muita gente. O ter de falar com pessoas. Estava nervoso com o que lá vinha.
Fui preparar outro gin. Apaguei o cigarro. Bebi o gin enquanto punha roupa suja dentro da máquina de lavar. Lembrei-me do polo. Tirei-o. Pu-lo na máquina. Programa de sessenta minutos. Devia chegar.
Sentei-me à mesa da cozinha com o computador ligado. Procurei as notícias do dia.
Donald Trump a condecorar um cão.
Jair Bolsonaro vociferar como um cão.
No Chile, pessoas a serem tratadas como cães.
Pensei que o mundo estava cão.
Descobri o copo de gin vazio. Olhei em volta. Atrás de mim. Quem o teria bebido?
Preparei outro gin. Olhei as horas no relógio de parede da cozinha. Não percebi imediatamente porque vira as horas. Depois lembrei-me. Tinha onde ir. Mas não consegui perceber se estava a tempo ou atrasado. Acabei de preparar o gin.
Voltei a sentar-me na mesa da cozinha. Frente ao computador. Queria ver as notícias do dia. Mas eram as mesmas em todo o lado e todas diziam o mesmo.
Sentia saudades dos jornais em papel. De outras notícias mais pequenas e só interessantes para mim. Acendi outro cigarro. Gostava de ler notícias em jornais de papel. Gostava de sujar os dedos. Gostava de sentir o cheiro a tinta. De ler aquelas pequenas notícias nas últimas páginas. As locais. Os artigos de opinião. A tira de banda-desenhada. Sentia-me analógico. É verdade que lia todos os dias as notícias online. Mas não era a mesma coisa. Não sentia diferença entre as diferentes origens. Mesmo na televisão, os alinhamentos eram muito parecidos. Havia notícias que só lá chegavam depois de serem mortas pelas redes sociais e, nessa altura, já não eram notícia nem interessavam a ninguém.
Ao puxar o cigarro da boca, ele ficou colado aos lábios. Os dedos escorregaram e queimaram-se na incandescência do cigarro. Depois caiu sobre mim e queimou-me o peito antes de tombar para o chão. Descobri que estava em tronco nu. Percebi que estava a ficar com frio.
Se calhar era tempo de ir embora. Olhei o relógio na parede. Não vi as horas. Esqueci-me de ver as horas. Mas também não me preocupei. Pensei em fazer um último gin antes de sair. Bebi o que tinha de um trago e fui fazer outro.
Enquanto o bebia, vesti a camisa. Vesti um casaco por cima da camisa. Pensei na possibilidade de haver mesmo croquetes lá onde eu ia e para onde tinha sido convidado. Pensei na possibilidade de haver vinho. Pensei que não ia poder fumar lá, onde quer que fosse e acendi um cigarro. Acabei o copo de gin. Larguei-o num sítio qualquer. Pensei na possibilidade de haver mulheres lá onde eu ia. Mulheres como eu. Disponíveis. Ou tão só cheias de vontade. De desejo.
O cigarro caiu-me das mãos. Olhei para baixo à procura dele mas não o encontrei. Levei a mão à boca mas estava vazia. Onde estava o copo de gin?
Abri a porta da rua. Olhei para o corredor que levava ao elevador e pensei Deve estar na hora de me ir embora. E decidi ir-me embora, Vou-me embora! E então o chão moveu-se. Eu tropecei em mim próprio. Desequilibrei-me. Caí. Devo ter caído. Caí entre a entrada de casa e o corredor que levava às portas do elevador. Caí no meio da porta da rua aberta.
Caí e fiquei lá caído. Senti o mundo a andar muito depressa. Como o carrossel da Feira de Maio. Tentei levantar um braço. Tentei agarrar-me a alguma coisa com a mão aberta como uma garra. Mas não agarrei em nada. Os olhos não queriam abrir. Senti um vómito e vomitei à entrada de casa. Não me consegui levantar. Estava tudo escuro. Eu sentia-me bem. Sentia-me confortável. Estava deitado. Apetecia-me um croquete. Sentia-me cansado. Com sono. E deixei-me ir. Sono fora. Senti uma escuridão a ir por mim abaixo e a desligar-me todo. Aos poucos. Até já não sobrar mais nada ligado.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/30]

As Broas de Batata Doce da Minha Vizinha de Cima

Estava em casa a curtir a depressão do noticiário televisivo. Era Hong Kong. A Catalunha. O Chile. O Líbano. Explosões sociais por todo o lado. Os lúmpen fartos de o serem. As massas sociais na mó de baixo, em maioria, em extrema maioria, estavam a revoltar-se contra os poucos que se mantinham por cima. Os poucos que se mantinham por cima e os seus cães de guarda. Eu estava a ver as imagens editadas pela televisão. Imagens assustadoras. O caos nas ruas. Os governos em colapso. Descobria mais uns sítios. Agora também no Equador e na Bolívia. Até ao fim do dia ainda aparecem mais, pensei. E na net encontro as imagens em bruto, voltei a pensar. E, então, tocou a campainha da porta da rua.
Levantei-me a custo do sofá. Estes dias deixam-me sem força. Sem reacção. Com vontade de sair para a rua a gritar a minha indignação, dar o meu apoio à revolução social, mas sem conseguir levantar o rabo do sofá. Acho que andava descrente. Ou tão só cansado. A vida como a estava a viver estava a deixar-me gasto. Inerte. Corria o risco de desaparecer. Puf. Fosse afundado no sofá, com um copo de vinho na mão ou um comprimido colorido no bucho, fosse caído e esborrachado no chão da rua ao fundo da minha varanda. Fiz o corredor à velocidade possível. Espreitei pelo óculo da porta e vi a minha vizinha de cima. Trazia um prato na mão. Um prato tapado com papel de alumínio.
Abri a porta.
Ficámos em frente um do outro. Ela esticou o braço e ofereceu-me o prato, com um sorriso na cara. Agarrei o prato. Levantei a folha de alumínio e vi umas broas, ainda quentinhas, a fumegar. Ela disse São de duas qualidades. Estas, e apontou com o dedo, têm batata doce. As outras não, mas têm passas e nozes.
Eu olhei para ela. Puxei-a para mim, apertei-a nos meus braços e beijei-a. Ela beijou-me. Beijámos-nos. Ali, à entrada da porta. Eu com um prato numa mão e a outra a agarrar a mão dela que dobrei para trás das suas costas, para a envolver e apertá-la contra mim. Ela tocou-me no peito, com a mão, suavemente. Parámos o beijo e senti-a ofegante. Os olhos nos olhos. As bocas abertas, próximas, a respirarem o hálito uma da outra. Ela cheirava bem. Um hálito fresco. Talvez da pasta dentífrica. Eu não tomava banho desde a véspera. Altura em que também tinha lavado os dentes pela última vez. Ela pareceu não se importar. E depois, com o calcanhar da perna levantada, fechou a porta de minha casa e deixou-nos lá dentro.
Tirou-me o prato da mão e colocou-o na mesa de entrada, ao lado do cinzeiro onde estavam as chaves do carro. Agarrou-me na mão e puxou-me para o interior de casa. Entrou no meu quarto. Puxou-me para dentro do meu quarto, para junto dela. E fechou a porta. Fechou-me a porta na cara.
Eu estava lá dentro com ela e não estava. Eu estava lá dentro do quarto com ela e no corredor com a porta do quarto fechada na minha cara.
Experienciei os avanços dela e não assisti a nada. Rebolei com ela na cama e não conseguia contar nada do que nada via.
Senti-me excitado e frustrado.
Voltei a sentar-me no sofá enquanto continuava no quarto com ela. De porta fechada. Com alguns sons ouvidos na surdina.
Voltei à depressão destes dias. Sentei-me no fundo do sofá. A olhar para a televisão. E vi os Mossos de Esquadra a carregarem a torto-e-a-direito sobre tudo o que se mexia. Vi chineses com máscaras hospitalares a partirem montras, furiosos. Vi chilenos frustrados a deitarem abaixo estátuas das praças, largos e rotundas de Santiago. Vi gente na rua de punho no ar. A gritar palavras de ordem. Vi crianças. Velhos. Mulheres. Índios. Caucasianos. Asiáticos.
Tentei imaginar o que se passava no quarto comigo e a vizinha de cima mas não consegui ver, ouvir, imaginar nada. Um vazio. Um nada, era tudo a que conseguia ter acesso.
Então, ouvi a porta do quarto a abrir. E ouvi. Ouvi a voz dela a chamar-me. Anda. Anda cá. Eu levantei-me e imaginei-me numa ménage com ela e eu em duplicado. E então ela disse o meu nome. Ela disse o meu nome.
E eu, apático, respondi Hum?!
E ela estava à entrada da porta de minha casa e chamava-me pelo meu nome para me despertar do torpor em que tinha caído, com o prato coberto por uma folha de alumínio na mão.
Senti-me envergonhado. Por ter pensado o que pensei dela. Por ter feito o que fiz dela. Pelo que ela possa ter percebido do que eu tinha imaginado fazer com ela.
E respondi-lhe Obrigado!, e fechei a porta da rua devagar sobre a cara dela. Uma cara admirada com a minha falta de educação.
Regressei ao sofá. Deixei-me afundar no sofá. Tirei uma broa e dei uma deitada. Soube-me bem.
E disse Gosto destas broas de batata doce. Obrigado, vizinha! E continuei a comer o resto da broa, enquanto, na televisão, uns polícias com ar de Exterminadores Implacáveis corriam toda a gente à bastonada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/27]

Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]

Sinto-me Vazio

Estamos sentados em frente um do outro. Ela no sofá. Eu numa cadeira da mesa virada para ela. Eu estou a falar mas não me ouço. Na verdade já nem sei o que estou a dizer. Estou surdo. Ela parece não compreender nada do que eu digo.
O que é que estás a dizer? pareço ver perguntado na testa enrugada dela.
E depois ela responde. Está zangada. Percebo que está zangada mas não consigo ouvir o que diz. Estou surdo. Mas sinto-me atacado. Se calhar imagino, mas não tenho tempo nem paciência para pensar nisso e estico o braço sobre a mesa e mando a fruteira ao chão e vejo as pêras e as maçãs a saírem disparadas para o chão e rebolarem para debaixo dos móveis. A banana, já escura, fica pesada e solitária em cima da mesa. Há mosquitos à volta da banana.
Agarro a t-shirt com as mãos e sinto-a destruir-se pela fúria. Rasgo-me. E grito Merda, pá!
Levanto-me da cadeira e ouço-a cair com força no chão. Ela pára de falar. Está a chorar mas eu não quero saber. Sinto-me farto. Farto e cansado. Viro-lhe as costas e saio de casa. Bato a porta da rua com força. E é quando já vou a descer as escadas do prédio que penso que não queria ter saído assim de casa, não queria ter batido com a porta da rua, não queria ter rasgado a t-shirt nem mandado a fruta ao chão, não queria ter gritado com ela…
À medida que vou descendo as escadas do prédio vou sentindo-me mais vazio. Cada vez mais vazio. E com falta de ar.
A meio da descida as luzes apagam-se e fico às escuras. Mas continuo a descer, agarrado ao corrimão, sem me lembrar que posso acender a luz das escadas num qualquer interruptor com led de aviso vermelho que vou vendo a tremeluzir enquanto desço as escadas até chegar à rua.
Ar. Respiro.
Encosto-me à parede do prédio. Recupero a respiração. Acendo um cigarro. Vejo a t-shirt rasgada. Penso que não posso andar assim na rua.
Corro até ao carro. Abro a porta. Entro. Acabo o cigarro dentro do carro. Esqueço de abrir o vidro e encho o carro de fumo. Pareço estar numa boîte pré-lei anti-fumo em locais fechados.
Abro o vidro. Começa a doer-me um dente. Ultimamente tem-me doído este dente aqui atrás, em baixo, que está partido. Está partido há anos e nunca me doeu. Começou agora a chatear-me. Foda-se! Tudo para me chatear.
Bato no volante. Com força. Magoo-me. Mas esqueço o dente.
Apetecia-me voltar atrás. Pedir desculpa. Dizer que não queria nada daquilo. Não queria ter mandado a fruteira ao chão nem rasgado a t-shirt nem ter gritado. Mas já tudo aconteceu e não pode não ter acontecido. Olho para fora. Vejo tudo embaciado. Devo estar a chorar. Nem me apercebi.
Saio do carro. Entro no snack-bar em frente. Sento-me ao balcão. Peço um bagaço. Despejo-o. Peço outro. E despejo-o. Um terceiro. E volto a despejá-lo de um golo. Sinto-me maldisposto. Vomito em cima do balcão. Alguém pega em mim e manda-me para fora do snack-bar. Tento ir até ao carro mas não consigo. Não sei onde está. Sinto-me cambalear e caio. Bato com os queixos no chão. Acho que parti qualquer coisa. Senti qualquer coisa a partir. Está tudo escuro. Sinto-me triste. Dói-me tudo. Mas respiro. Acho que ainda respiro. Sim, ainda respiro.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/24]

Arrasto-me

É Domingo e arrasto-me por casa. Vejo o sol muito amarelo a brilhar pouco na rua. Não sinto o calor que estava à espera de sentir. Já não sei se o Verão acabou se está para durar. O ano passado levei o Verão quase até Dezembro. Agora estou em Setembro e arrasto-me por casa com calças de fato-de-treino e camisola de mangas compridas. Não sinto o conforto que costumo sentir.
Acabei de comer umas torradas com pão de sementes, do Pingo Doce, e beber um chá frio de ibisco. Fiquei enjoado. Agora até o chá me enjoa. Pode ter sido o pão. A manteiga. A geleia. O frango assado que comi ao almoço com couve-coração regada com um fio de azeite.
Pensei em descer à rua e ir beber um café à pastelaria. Mas não me apetece sair de casa. Parece que o elevador avariou. Ouvi a campainha tocar bastante. Vozes zangadas. Tenho ouvido passos a subir e a descer as escadas ao longo do dia. Não me apetece descer à rua pelas escadas. Depois vou ter de as subir. Sinto-me demasiado cansado. A minha mãe, se fosse viva, haveria de perguntar Mas cansado de quê? Ao que eu haveria de responder Nem sei, mãe! Nem sei!
Vou à janela. Acendo um cigarro. Sabe-me mal. Mas continuo a fumar. Tusso um bocado. Mas aguento. Um homem aguenta tudo.
Acho que ando a perder cabelo. Tinha a almofada cheia de cabelos, hoje de manhã. E só podem ser meus. Ninguém mais lá tem dormido.
Fui mordido no braço. Talvez um mosquito. Tenho uma bolha que me provoca comichão. Tenho de pôr Fenistil gel. Tenho de ir ao quarto. Mas primeiro acabo de fumar o cigarro.
Ontem vi um bailado fantástico na RTP2. Foi por puro acaso. Giselle. Giselle de Akram Khan. Uma actualização da peça. Uma música assustadora. Doentia. Mas no bom sentido. A peça fez-me enervar, o que foi bom. Geralmente dá-me tédio. Ontem enervou-me. A música fez-me acelerar as batidas do coração. Demorei a adormecer. Revi a peça toda na cabeça. Acabei por adormecer no meio daquelas mulheres em pontas. A tremelicar. No meio daquele ambiente cinzento e muito triste. Gosto da tristeza. Acordei com a vontade de fumar um cigarro. E foi o que fiz. Vim para aqui onde estou agora. A fazer exactamente o que estou a fazer agora. A olhar triste para a rua a espreguiçar-se no seu Domingo.
Há muitos anos, neste dia, estaria, com o meu pai a ver um jogo de futebol da União de Leiria. Gostaria de voltar a esses tempos. Onde tudo era tão mais simples. Eu não me sentia cansado. Nem enjoado. O cabelo não estava a cair. E gostava dos Domingos.
Devia ir ler um bocado. Ir buscar o Fenistil e ir ler um bocado. Não sei o quê. Ler alguma coisa. Talvez os Cinco. Os Sete. Talvez um livro do Tio Patinhas em português do Brasil.
Mando o resto do cigarro para a rua. Sento-me no sofá e ligo a televisão. E deixo-me ficar por aqui. Já vou buscar o Fenistil. E o livro. Vou só descansar um bocadinho em frente à televisão. O que é que estará a dar na CMTV? Os Domingos são dias de gala televisiva, não?

[escrito directamente no facebook em 2019/09/22]