Às Vezes Desejo Ser o Mr. Blonde

Penso que o grande problema com que nos deparamos nos dias de hoje é a ausência de empatia. Não nos conseguimos aproximar dos outros de uma forma gratuita. Ou há um interesse efectivo ou simplesmente criamos uma barreira de arame-farpado que impede de nos aproximarmos uns-dos-outros.
Vivemos numa era antropoceno-narcísica. Ou eu ou nada.
Estávamos os dois sentados à secretária. Um de cada lado. A secretária era dele então, na verdade, ele estava sentado à secretária e eu sentei-me lá em frente para lhe pedir ajuda. Mas enquanto eu estava sentado muito direito na ponta da cadeira, sem tocar com as costas nas costas da cadeira, ele estava refastelado na sua cadeira, sentado com o cóccix e com as mãos cruzadas em cima da barriga e os dedos grossos a tamborilarem uns nos outros, à espera.
Ele estava em silêncio. Eu também.
Ele aguardava que eu dissesse alguma coisa depois do que me tinha dito. A bola estava então do meu lado. Mas eu não sabia o que lhe dizer. Estava tão irritado que, na verdade, apetecia-me saltar-lhe para cima e desatar a dar-lhe murros na cabeça. Eu que até sou um tipo pacífico!
Estava ali sentado a olhar para o tipo, chefe da sua pequena ilha-secretária onde punha e dispunha a forma como interpretava as leis, as regras e as normas da sua empresa, uma empresa que eu tinha de utilizar, que remédio!, sem se preocupar com as mazelas que criava a quem dava a informação da forma como a dava. A mim. E o problema nem era a informação que ele dava, existem regras e, para que as coisas funcionem, temos de as cumprir, até aí tudo bem, sou a favor das regras para que nos entendamos e consigamos viver em conjunto, em sociedade, mas era a forma como ele dava a informação, disparada assim à queima-roupa, como se eu fosse uma lagartixa a quem ele podia cortar a cabeça quando quisesse só porque o podia fazer. Cuspia a informação e ainda me chamava burro por não ter conhecimento prévio da informação que me estava a dar. Tinha-me informado e, acto contínuo, recostou-se na cadeira, à espera do efeito do que me tinha dito. Encostou-se na cadeira, a tamborilar os dedos grossos, uns-nos-outros, à espera. O tipo podia ter usado bom-senso. Até porque a informação que me estava a dar tinha consequências graves para mim. Um pouco de bom-senso ajuda a sentirmo-nos humanos e não um monte de esterco. Mas não, eu senti o prazer na cara do tipo. Um pequeno e quase imperceptível sorriso nos lábios. E eu então imaginei-me o Mr. Blonde, ali a dançar frente ao tipo, esparramado na sua cadeira de pequeno-chefe, imaginei-me aproximar-me dele e cortar-lhe uma orelha com o canivete-suíço com que ando sempre na mochila e que não me tem servido para nada na vida.
Ainda me ouvi trautear Stuck in the Middle with You dos Stealers Wheel, vi-me levantar da cadeira onde me sentia desconfortável e começar a dançar frente à secretária, frente a ele, de canivete-suíço na mão, a língua a molhar os lábios, antecipando o prazer da lâmina a cortar-lhe a orelha e o sangue jorrar para cima dele, e os gritos, o medo, o choro, acho que ainda o ouvi chamar pela mamã, mas isso foi só tudo imaginação minha.
Levantei-me da cadeira com vontade de dizer Vai à merda, pá! mas a única coisa que fui capaz de fazer foi agradecer a informação, Obrigado! disse enquanto me levantava da cadeira e pendurava a mochila às costas com o canivete-suíço ainda na bolsa exterior sem continuar a ser-me útil.
Quando cheguei à rua vi que ainda tinha a senha com o número de atendimento na mão, enroladinha muito fininha como um fio de esparguete. Olhei pelo vidro da montra e vi o tipo já com outra pessoa à frente e a deixar-se deslizar para trás na cadeira, na sua pose de espera quanto a vítima digere a informação dada.
Deixei cair o papel no chão. Acendi um cigarro. E pensei em como alguns de nós gostam de ser chefes, de mandar, de ter algum poder, por mais pequeno que seja, sobre os outros. E deu-me vontade de vomitar. Não vomitei. Segui pela rua fora a fumar o cigarro e a pensar no meu canivete-suíço. E foi nessa altura que me lembrei que tinha uma faca de mato de quando era escuteiro. Estava em casa e precisava de ser afiada.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/24]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]

A Lâmina Mais Pequena É Sempre a Mais Afiada

Não sei como fazer as coisas. Mas não posso continuar como se não se passasse nada. Não posso.
Vejo os meus olhos tristes ao espelho. Faço a barba. Faço a barba com navalha e espuma de sabão. Nunca tinha feito a barba com navalha. Ela não está muito bem afiada. E eu nunca tinha feito a barba com navalha. Passo-a várias vezes pelo mesmo sítio. Para raspar bem. Para raspar melhor. Corto-me. Mas nada de grave. Uns cortes sem importância. Estanco o sangue com pedaços de papel higiénico.
Massajo a cara barbeada com after shave. Encetei um frasco que a minha filha me deu há… Há dois anos, acho. Não costumo fazer a barba. Não costumo usar after shave.
Será que vão achar estranho?
Tenho de fazer alguma coisa. Não posso esperar mais.
Tomo um banho de imersão. Há quantos anos não o fazia? Ela vai achar estranho. Não tarda vai querer entrar na casa-de-banho e vai achar estranho eu estar a tomar banho de imersão. E não sei mentir. Não consigo fingir. Oh! Mas sabe-me tão bem!
Deixo-me ficar quieto na banheira durante algum tempo. E penso como a vida pode ser fabulosa na sua simplicidade. Um simples banho de imersão e esqueço-me de mim.
Ela abre a porta da casa-de-banho, coloca a cabeça dentro e diz Demoras muito? e eu sinto-me despertar da minha letargia, forço um pequeno sorriso e digo Saio já! e ela ainda comenta Banho de imersão, hum? Lorde!, sorri e eu volto a dizer Saio já!
E saio. Saio já. Seco-me. Vou vestir-me no quarto. Não me cruzo com ela. Nem com eles. Visto-me. Umas calças de ganga e uma camisola. Ouço-a entrar na casa-de-banho. Ouço-os a eles na brincadeira na cozinha. Desço as escadas e dirijo-me à porta da rua. Grito alto para toda a casa ouvir Adeus! Estou atrasado! Beijos! e ainda os ouço gritar, chamar por mim Pai! Pai!, mas saio a correr, rápido, não os quero ver, não os quero encarar, e entro dentro do carro e arranco pelas ruas do bairro. Olho para o espelho retrovisor e vejo os olhos molhados. Páro o carro na berma de uma rua qualquer e desato a chorar. Choro compulsivamente. Grito. Ainda aqui estou e já sinto saudades. Saudades dela. Deles. Da minha vida. Da vida.
Tento respirar. Tento respirar com calma. Acalmo. Páro o choro compulsivo. Mas choro. Ainda choro. Acendo um cigarro. Abro a janela do carro e deixo o fumo sair para a rua.
Vejo as crianças a pé a caminho da escola. Uma mulher, de robe, passeia um cão pequenino pela berma da estrada. Passam carros. Carrinhas. Um jipe. Motas. Várias bicicletas. Miúdos de bicicleta a caminho da escola.
Deito fora a beata ainda fumegante.
Olho o relógio. Vejo as horas.
Acendo outro cigarro.
Vejo os carros passarem. As pessoas passarem. Os cães passarem. As minutos passarem. A vida passar.
Volto a casa. Está em silêncio. Vazia. Já não está ninguém.
Deixo o carro. Deixo a carteira. O dinheiro. O telemóvel. As chaves. Tudo em cima da mesa da cozinha. O bloco aberto. Amo-vos! escrito numa linha de página do bloco como se fosse uma redacção da escola.
E vou embora. Outra vez. De vez.
Saio a porta. Olho a casa pela última vez. Penso que aguentei quase dois anos sem trabalho. Ela aguentou. Eles todos aguentaram por mim. Mas isto agora… Isto agora já é demais. Eles precisam de viver as suas próprias vidas. Sem âncoras que os prendam.
Faço as ruas do bairro a pé. Não me cruzei com ninguém conhecido. Pelo menos, não dei por isso.
Desço até à cidade. A pé até à cidade. Um bilhete de autocarro para fora da cidade. Não precisa de ser muito longe. Tem de ser é muito rápido. Para não ter tempo de me arrepender.
Vou até uma aldeia que nem conheço. Nunca ouvi falar. E fica aqui nos arredores da cidade. Saio do autocarro. Caminho ao longo da rua da aldeia. Saio da aldeia. Entro no pinhal. Caminho à deriva pelo pinhal. Vou andando enquanto consigo. Começo a chorar. Sinto saudades. Saudades deles. De tudo. Tenho uma dor de estômago e vomito. Vomito agarrado a uma árvore.
Sento-me no chão, em cima de uma manta de musgo, encostado a um pinheiro. Acendo um cigarro. Sinto uma grande angústia.
Penso em quando acompanhei o meu pai à quimioterapia. Penso em quando acompanhei a minha mãe. E penso que não quero que me acompanhem a mim.
Acabo de fumar o cigarro. Apago-o no musgo, entre as minhas pernas.
Agarro no canivete-suíço. Puxo a lâmina mais pequena. Está mais bem afiada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/09]

Corto-me

Corto-me, não para libertar a dor, mas para me castigar.
Já cheguei ao final do mês. Do mês que agora começa. Recomeço. Outra vez. Olho a carteira. O fundo da carteira. O fundo vazio da carteira.
Não entendo as regras. A minha iliteracia é selectiva. Mas concreta. Real. Não entendo as regras. Os códigos. A linguagem.
Corto-me. Corto-me com o canivete-suíço. A lâmina cega. Preciso de forçar. Magoa mais. Castiga mais.
Tenho uma casa que não é minha. Um trabalho que não é pago. Um almoço que não é comido. Mas tudo o resto custa-me um olho. Custa-me uma mão. Custa-me a vida. Um café com açúcar. Um pão com manteiga. Um frango assado. Um disco. Um livro. A escola obrigatória. O hospital. Um concerto. Uma bicicleta. Um carro. Uma casa. Uma mulher. Um filho. Um nome.
Corto-me. Uma vez. E outra. Castigo-me.
Escondo-me. No fundo do armário. No fundo da cave. No prédio abandonado. Lá onde já mais ninguém vai. Só as agulhas. As putas. Os paneleiros. Onde ninguém vai. Vou eu. E os que não são ninguém. Não estão nas estatísticas. Mas estão lá. E nas estatísticas. Escondo-me no fundo do fundo, escuro e sujo. Tenho por companhia os ratos e as baratas. Que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me nos braços. Desfaço as unhas no chão de cimento à procura de uma fuga. Mas não saio daqui. Não sei para onde ir. Não tenho para onde ir.
A minha companhia são os ratos e as baratas que me roem os dedos das mãos e as orelhas.
Corto-me. Corto-me e espero nas sombras que me esqueçam. Que não me peçam o IMI, a Segurança Social, o IRS e o IVA. Que me enterrem numa vala comum e me deixem ser comido pelos bichos até deixar de ser memória.
Corto-me e deixo-me ficar assim. Quieto. Em silêncio. Ali. Onde ninguém vai.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/06]

Quando a Internet Falhou

Só percebi o que estava a acontecer quando fiquei sem internet. No início nem percebi muito bem porque era normal falhar a internet. Só não podia era faltar o pagamento dessa internet que estava sempre a falhar. Mas a internet, essa estava sempre com falhas. Naquele dia a falha começou a durar demasiado. Liguei para o Apoio ao Cliente mas dava sinal de ocupado. Dava sempre sinal de ocupado. De todas as vezes que liguei, até ter linha telefónica, o serviço de Apoio ao Cliente esteve sempre ocupado. Depois, até a linha telefónica ficou muda. Só percebi que estava realmente a passar-se alguma coisa quando faltou a luz. E o gás. Logo depois faltou a água.
Saí de casa. Vim até à rua. Ainda havia luz do dia. Não havia sol. Não tinha havido sol durante o dia. E se bem me lembrava, há uma semana que não se via o sol. Estava assim um ambiente cinzento e triste. E foi isso que vi, naquele resto de dia, no alpendre de casa, quando saí depois de perceber que alguma coisa se passava, que estava um ambiente cinzento e triste.
Acendi um cigarro. Olhei em frente. A estrada em frente. Os campos. As montanhas lá ao fundo. Olhei com atenção para ver se via alguma coisa. Alguém. Mas nada se mexia. Não via vivalma. Nem um cão. Onde raio é que estava o cão? E os gatos? Onde andariam os gatos?
Não via ninguém a quem pedir informações. Podia ir até à cidade. Mas não queria deixar a casa vazia. Alguma coisa se estava a passar e não queria deixar a casa sozinha.
Não havia electricidade. Não havia televisão. Tinha um rádio a pilhas. Era isso. O rádio a pilhas. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora. Entrei em casa. Procurei o rádio a pilhas na confusão da dispensa. Encontrei. Tinha pilhas. Procurei uma estação. Só estática.
Levei o rádio para a sala e sentei-me.
Fiquei à espera do que estava para acontecer. Do que ia acontecer.
Mantive o rádio perto. De vez em quando fazia uma varredura por todas as ondas. Silêncio.
Anoiteceu.
Estava a amanhecer quando ouvi uns camiões. Levantei-me do sofá. Fui à janela e vi passar, na estrada lá em baixo, vários camiões. Por cima dos camiões voavam uns drones. Um deles saiu do comboio e voou até à minha casa. Eu larguei as cortinas e afastei-me um bocado para o interior de casa. Mantive-me em silêncio a espreitar para além das cortinas. Engoli em seco. Não me mexi. Percebia o drone a sobrevoar a casa. A espreitar a toda à volta. Ainda bem que o cão e os gatos tinham desaparecido. Não havia cá em casa movimento nem ruídos. Mas havia assinatura térmica. A minha assinatura térmica. Rezei para que o drone não conseguisse ter leitura térmica. E a verdade é que ao fim de algum tempo, e algumas voltas, o drone afastou-se e voltou ao comboio.
Eu estava a transpirar.
Precisava de sair dali. Quem quer que fosse, iria voltar.
Peguei numa mochila. Enfiei lá dentro o rádio. Uma caneta. Um bloco de papel. Um rolo de papel higiénico. Uma máquina fotográfica pequena. Um chouriço e um queijo, embrulhados em prata. Umas maçãs. Um canivete-suíço. Os óculos de sol e os de ver. Coloquei o relógio de corda no pulso. Agarrei na caçadeira do meu pai. Umas caixas com cartuchos que pus na mochila. E saí de casa. Devagar. Em silêncio. Calmo. Mas atento. E fui até às montanhas em frente.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/13]

Perdi a Mochila que Levava às Costas

Atravessava a cidade quando ouvi o primeiro trovão. Fui apanhado desprevenido. Eu e todas as outras pessoas que de deslocavam na baixa da cidade em final de dia cheio de um calor tórrido e sufocante. Estava de calções e chinelos. Uma pequena mochila às costas, com o iPad, a Moleskine, a Kaweco, o Ventilan, as chaves de casa, um pacote de lenços de papel, um canivete-suíço e o livro que andava a ler. Já não sei qual era o livro porque, quando tudo se precipitou, perdi a mochila com tudo o que lá estava dentro.
Quando rebentou o primeiro trovão, toda a gente se assustou. Foi um grande estrondo. E apanhou toda a gente de surpresa. As pessoas pararam a olhar para o céu, a tentar perceber o que estava a acontecer. E foi por pararem a olhar para o céu, que toda a gente viu, e eu também, os relâmpagos que se precipitaram sobre a terra, vindos de um céu que escurecera tão rápido que nem tivemos tempo de processar o que estava acontecer. Eu vi os relâmpagos a riscar o céu. E achei lindo. Fantásticas obras de arte. Uns riscos tortos, descendentes, luminosos, decididos e assustadores. Parecia que cortavam o céu, de cima abaixo. Como se criassem portais para outra dimensão, outro universo. E caíram assim vários relâmpagos antes ainda de se ouvir o primeiro som. E quando começou a ribombar, parecia um concerto celestial diabólico que se abatia sobre a terra, sobre a cidade, sobre mim. Uma percussão em ritmo cadente. Com os baixos a acompanhar.
Começou a chover. Uma chuva copiosa, de gotas grossas que magoavam quando me caíam na cabeça.
Olhei em volta. Desatei a correr até uma esplanada coberta do outro lado do rio. Cruzei a ponte. Olhei, pelo canto do olho, enquanto corria, a água do rio agitada, sovada por milhares de pingos agressivos que faziam subir estilhaços de água até à plataforma da ponte. Entrei dentro da esplanada coberta. O barulho era ensurdecedor. Os pingos da chuva caíam na cobertura da esplanada, que não sei de que era feita, e eram amplificados a ponto de não me conseguir ouvir a pensar.
Sentei-me, molhado, a uma mesa. Sacudi-me. Esperei que me perguntassem o que queria. Nem sabia o que queria. Mas ninguém veio ter comigo. Os empregados do café estavam todos a olhar a chuva a cair e ignoraram os clientes acabados de entrar, clientes assim como eu, fruto do acaso, clientes que se refugiaram ali da chuva e dos relâmpagos, mas que não deixavam de ser clientes. Eu queria qualquer coisa. Um chá, um café, uma cerveja, um bagaço. O que quer que fosse que saísse primeiro da boca no momento de fazer o pedido.
E foi então que um raio caiu no prédio em frente à esplanada. O prédio rebentou como se tivesse sido bombardeado e a deslocação de ar fez rebentar as janelas da esplanada e soprou toda a gente para o fundo do café.
O prédio em frente começou a arder. O café também. Houve máquinas a rebentar. O ar condicionado explodiu. Eu levantei-me. Corri para a rua. Estava a chover torrencialmente. Mas corri feito louco. Descobri que tinha perdido os chinelos e corria descalço. Cruzei de novo a ponte. Nem olhei para a água. Procurei a entrada de um prédio aberta. Não via nenhuma. As lojas estavam fechadas. Outras rebentadas. Os vidros partidos. Havia gente a roubar embalagens, camisas, calças de ganga, t-shirts, cintos dos prontos-a-vestir de montras escancaradas. E vi uma entrada de Multibanco com gente lá dentro. Corri para lá. Abriram-me a porta. Entrei.
Percebi que estava cansado. Com bronquite. Encharcado. Descalço. Com os braços cheios de sangue. Os pés pretos, sujos. Tinha perdido a minha pequena mochila.
Encostei-me a um bocado de parede livre e deixei-me escorregar para o chão. Sentei-me. Lá fora continuava a chover torrencialmente. Continuavam a cair relâmpagos que estavam a deixar a cidade a ferro e fogo. Os trovões não se calavam. E eu não sabia se ali estaríamos em segurança. Mas estava cansado. E senti-me a adormecer.
Sinto-me a adormecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/12]

No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

Doença Ruim

A Doença Ruim é talvez a mais democrática das doenças. Doença terrível. Doença terminal. Na maior parte dos casos, sem cura. Algum paliativo.
Às vezes há quem escape. Porque é benigno. Ou, pelo menos, não é maligno. Ou porque a estirpe não é mortal. Ou porque sim. Às vezes assim, por acaso. Consegue-se explicar? Talvez. Talvez porque detectada cedo. Talvez porque atacada com ferocidade. Talvez por milagre.
Mas é democrática. Não escolhe sexo. Embora morram mais homens que mulheres. E mais no Mundo Ocidental que no Oriental. E mais no Hemisfério Norte que no Sul, embora a Austrália baralhe um pouco esta estatística. E com maior incidência nos pulmões que noutras partes do corpo. Por isso se diaboliza tanto o tabaco. Mas não está sozinho neste caminho. Acompanham-no o álcool. O excesso de peso. A inactividade física.
Não consta que seja uma doença hereditária. Mas há maior probabilidade de a contrair por quem tem historial familiar.
O meu pai morreu da Doença Ruim. A minha mãe também. A probabilidade de eu a contrair é, assim, bastante elevada.
Estou sentado na varanda. Está um pouco frio. Nada de mais. Acho que dantes, há alguns anos, esta altura do ano, início de Dezembro, era mais fria. Hoje está frio. Mas não muito. Um bocadinho. Nada que me impeça de vir para a varanda. Gosto de estar cá em cima a olhar a vida a correr lá em baixo.
Quantas destas pessoas levam consigo a Doença Ruim? E quais as que não sabem? Nem sonham? Que preferem nem saber?
Estou sentado na varanda. Ao meu lado uma garrafa de vinho tinto. Sem rótulo. Uma garrafa sobrevivente da colecção do meu pai. Vinho do produtor. A maior parte não vale uma merda. Mas às vezes, encontram-se algumas preciosidades. Este que estou a beber é mesmo carrascão. Mas marcha. Não desperdiço. Nunca desperdiço. E no fundo ajuda-me a fugir mais depressa. Bebo um copo de uma só vez. Volto a enchê-lo.
Abro a caixinha do McDonald’s. Agarro na embalagem do McRoyal Cheese. Abro-a. Coloco-a em cima dos joelhos. Não me preocupo com a gordura nas calças. Hei!, quero lá saber! Despejo as batatas fritas na parte vazia. Espalho ketchup por cima delas. Agarro no hambúrguer e começo a comer. Gosto disto. Gosto mesmo disto, de vez em quando. Hoje estava mesmo a apetecer-me. Como as batatas sofregamente. Estão estaladiças. Lambo o sal e o ketchup dos dedos. Engulo o último pedaço do hambúrguer. Parece que tenho uma bola no estômago. Mas soube-me bem. Bebo mais um gole de vinho. Amarga. Sorrio.
Acendo um cigarro. Encosto-me na cadeira. Olho a rua. Ouço o barulho das pessoas. Há uma certa agitação no ar. São as festividades.
E volto a pensar na Doença Ruim. Penso na grande possibilidade de a ter. Por exemplo, nos pulmões. E olho o cigarro entre os meus dedos. O cigarro a fumegar entre os meus dedos. E dou mais uma passa.
Por exemplo, nos testículos. Olho à volta e encontro o canivete-suíço. Baixo as calças. Agarro os testículos e corto-os. Lanço-os para a rua. Ouço um grito lá em baixo.
Não estou a sentir-me bem.
Sento-me.
Vejo o sangue a espalhar-se à minha volta na cadeira, nas pernas, nos pés, nas calças presas lá em baixo, sobre as sapatilhas a tingir.
Começo a sentir tonturas. Bebo mais um gole de vinho. Olho para o copo e bebo tudo o que lá está. Acendo outro cigarro. Agora tenho dois cigarros na mão. Sinto-me desfalecer. Mas não será da Doença Ruim. Fode-te, pá!, em mim não há democracia. Em mim mando eu! Comia outro McRoyal Cheese!

[escrito directamente no facebook em 2018/12/01]

Uma Carraça Agarrada às Virilhas

Estava no banho quando a vi. Primeiro senti-a. Senti-a quando passei a mão. Senti um corpo estranho. Um pequeno alto. Quase um abcesso. Num sítio onde não devia estar.
Debrucei-me sobre mim próprio, puxei a pele e consegui vê-la. Grande. Preta. Quieta. A filha-da-puta a querer passar despercebida. Mas eu vi-a. Senti-a e depois vi-a.
Tentei puxá-la. Não consegui. Era redonda, sem arestas onde agarrar. E estava bem agarrada a mim. Presa. A chupar-me.
Estava nas virilhas. A chupar-me o sangue.
Desde o dia anterior que andava com febre. Já descobrira porquê.
Pensei em queimá-la com a ponta incandescente de um cigarro. Mas não era grande ideia. A carraça podia entrar em stress e largar mais veneno do que aquele que largava.
Uma pinça. Era de uma pinça que precisava.
Saí da banheira nu, nu e molhado, e fui ao quarto procurar o canivete-suíço. Molhei a casa-de-banho, o corredor e o quarto. Sujei os pés. Encontrei o canivete-suíço. E tinha uma pinça.
Voltei para a banheira. Sentei-me na borda. Abri as pernas. Agarrei a maldita carraça com a pinça e, devagar, aos poucos, decidido, insistindo, com força, fui puxando-a com cuidado para que não deixasse lá nenhum pedaço.
Fiz sangue. Um bocado de sangue que começou a escorrer, num pequeno fio encarnado-escuro a deslizar pela perna abaixo. Caiu um pingo no tapete da casa-de-banho. Dois pingos.
Finalmente consegui retirá-la toda. Levei-a com cuidado até à retrete e deixei-a cair. Puxei o autoclismo. Duas vezes. Três vezes.
Voltei para dentro da banheira e acabei de tomar banho. Lavei especialmente e com afinco, as virilhas.
Já estava na cozinha a beber um café e a fumar um cigarro quando ela chegou. Disse-me A casa está toda molhada. Eu disse-lhe Tinha uma carraça. Onde?, perguntou-me. Nas virilhas, respondi. Que nojo!, disse ela já em andamento a sair cozinha fora, a pegar na carteira e a fechar a porta da rua com estrondo nas suas costas.
Isto aconteceu há três dias. Já não tenho febre. Tenho uma ligeira vermelhidão nas virilhas. Ela ainda não regressou. Eu tenho cigarros e vou continuar a fumar. Já não tenho café, mas ainda tenho umas garrafas de vinho tinto. Não sei de onde é o vinho. Vou bebê-lo de qualquer maneira. Fumar cigarros. E procurar mais carraças pelo corpo.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/06]

Ri-te Agora, Cabrão!

Já jantei.
Ninguém sabe onde eu estou. E, então, agora que já passou Maio, o belo mês de Maio, mês da Feira e da cidade do Lis, agora que os feirantes já foram embora, agora que a polícia começou a preparar-se para a chegada dos emigrantes e não tem tempo para outras estórias, agora que já passou tempo e não houve consequências, e agora que já estou de barriga cheia (comi um T-Bone a esguichar sangue bem regado com um Quinta do Mouro tinto 2010), já posso contar o que aconteceu.
Estava na fila do Penim para comprar duas farturas (uma para mim e outra para a minha mãe – ela gosta muito das farturas do Penim). Estava calor. Um sol diabólico num dia de um azul forte e sem nuvens. Transpirava. Sentia o meu cheiro e o dos tipos na fila, à frente e atrás de mim. Todos a transpirar. A transpirar que nem cães.
Chegou-se um velhote de bengala e foi lá à frente, à rulote, e pediu uma dúzia de farturas. Lá à frente as pessoas começaram a refilar. Vai para a bicha, velho, diziam. Bicha és tu, pá, eu sou um ancião e tenho prioridade, respondeu.
Tinha razão. Tinha prioridade. É um privilégio da idade, poder fintar a fila do Penim em dia de muito calor e sol abrasador.
Toda a gente se calou. Olharam uns para os outros constrangidos.
O velhote foi atendido. Pegou nas suas farturas e foi embora. Com um sorriso cínico nos lábios.
A fila retomou a sua marcha lenta.
Foi preciso esperar que se fizessem mais farturas.
O odor da transpiração aumentava. Eu derretia debaixo do sol. Tinha sede. Queria um chapéu. Um gelado. Mergulhar nas águas geladas de São Pedro de Moel. Um cigarro. Ah, o que eu dava por um cigarro! Mas não tinha nenhum. E atrás e à frente só gente verde. Estupidamente verde.
Finalmente, ao fim de quase uma hora de pára-arranca debaixo do sol, chegou a minha vez. E então, ou esperava mais um bocado por novas farturas que ainda estavam a fritar ou levava dois cus de fartura, mal feitos, tortos e já frios. Depois de tanto tempo decidi levar as duas farturas frias e mal feitas – as pontas. Ora porra!
Ia eu com o meu saquinho a dizer Farturas Penim pela mão, a dar-a-dar, quando me cruzei com o velhote que estava a distribuir as farturas pelos dealers da cidade – sim, eu conheço-os todos. Estavam a rir, os cabrões. A mamar cerveja de litrosa, que passavam de mão-em-mão, e a devorar as belas farturas. Uma verdadeira festa.
Eu parei. Eu parei a olhar para eles. Senti-me cansado. Saturado. Senti-me enganado. Começou a despertar-me um nervoso miudinho. Fui acometido por uma fúria que me fez rebentar borbulhas pelo corpo, pelos braços e pelas pernas. A minha cara, vermelha do calor e do sol apanhados na fila, ficou púrpura.
Respirei fundo. Larguei o saquinho das farturas no chão. Agarrei o canivete suíço. Abri-o. Aproximei-me dos dealers e em movimentos de bailado, rápidos e seguros, cortei-lhes as gargantas a uma velocidade mentirosa – daquelas que ninguém que não tenha visto pode acreditar. Eram cinco e, quando cortei o quinto, já o primeiro jazia sem respirar e os outros deitavam golfadas de sangue do pescoço, sem conseguir gritar.
Deixei o velhote para o fim.
Era mesmo velhote. Não conseguia correr. Tentava fugir agarrado à bengala. Aproximei-me dele. Estava mijado. Olhei-o nos olhos. Senti-lhe o medo. E perguntei-lhe Agora não te ris?
Tirei-lhe a bengala da mão e parti-a.
Agarrei o saquinho das farturas.
E fugi.
Fugi da cidade.
Escondi-me.
Ninguém sabe de mim.
Quando me esquecerem, quando já não souberem quem eu sou, regresso à cidade para ver a minha mãe. E talvez levar-lhe outra fartura do Penim.

[escrito directamente no facebook em 2018/06/05]