Dez de Junho

Sinto-me preso. É o dez de Junho, o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o Dia das Comunidades Portuguesas pelo mundo e eu sinto-me preso.
Estou num pântano. À minha volta charcos de água choca, mal-cheirosa. Pedaços de árvores caídas, partidas. Folhas a voarem. E lixo. Sacos de plástico. Sacos de plástico com motivos de supermercados. Sacos de plástico que custam dez cêntimos a unidade a voar, entre as folhas, como as folhas, de charco para charco, à procura de pouso.
Puxo um pé enterrado no lodo. Custa puxar o pé. Tirá-lo cá para fora. Tirá-lo cá para fora com botas e meias. Mas consigo. E mal o tiro, volto a enterrá-lo todo de volta nesta lama viscosa que me tenta engolir.
Não ouço um pássaro. Não vejo um animal. Não há um peixe aos meus pés. Nem um crocodilo que me queira puxar para as profundezas do charco e deixar-me apodrecer até querer ferrar-me o dente.
Estou preso e estou sozinho.
É o dez de Junho.
É o Dia de Portugal e estou sozinho neste país. Já ouvi muita gente falar. Agora está tudo em silêncio. Não há ninguém para dizer o que quer que seja. Não há ninguém que tenha qualquer coisa para dizer. Já se disse muito. As palavras perderam sentido. Nada queria alguma coisa. E tudo desapareceu. O país desintegrou-se. Entre as elites corruptas e a população desinteressada, foram todos atrás do flautista e lançaram-se ao mar no Canhão da Nazaré. Fiquei cá eu. Sozinho. Porque estava preso na lama. Com os dois pés presos. E sempre que conseguia tirar um, voltava a enterrá-lo. O caminho foi duro e cheguei tarde ao mergulho no Atlântico. Fiquei sozinho, não porque era mais inteligente que os outros, mas porque mais lento, mais parvo, mais idiota.
É o dez de Junho.
É o Dia de Camões e só me recordo da Taprobana, das ninfas do canto nono que não quiseram que eu lesse na escola e na pála negra no olho morto que recordo do filme de Leitão de Barros. Valha-me a memória do cinema tão mal-amado para me recordar uma vida morta e esquecida em compêndios que ninguém quer ler.
Que interessa o Luís Vaz de Camões e Os Lusíadas a uma terra queimada deserta de gente, de povo, de ideias?
Onde se enfiou toda a gente?
É o dez de Junho.
É o Dia das Comunidades que estão todas por aí, espalhadas pelo mundo. São estes os que foram à procura de mundo porque não encontraram cá nada para eles. Este mundo expulsou-os lá para fora como enteados.
Este é um país que não é pai. Este é um país que já não existe.
Ou sou eu que não o compreendo?
Estou sozinho.
Estou sozinho neste dez de Junho a tentar não sucumbir ao que vejo. E o que vejo eu? Um litoral a tombar no mar. Precipícios, penhascos, florestas, apartamentos, hotéis, campos de golfe à beira-mar que se separam do continente, se desfazem e caiem à água. Provocam ondas gigantes e levam um tsunami à América de Donald Trump.
Estou sozinho neste pântano mal-cheiroso. Estou sozinho e preso. Preso na lama que resta. Preso na lama que restou deste jardim à beira-mar plantado.
E para onde foi toda a gente? Para onde foram as pessoas? Caíram realmente todas no Canhão da Nazaré?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/10]

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The White Album dos Beatles

Este ano, 2018, faz 50 anos que os Beatles lançaram o álbum The Beatles, imortalizado com o seu título alternativo The White Album.
Não, eu não sabia isso. Não sabia isso de cor. Não fazia parte do meu conhecimento inútil. Eu nem sou grande apreciador de Beatles.
Simplesmente ia a passar por uma das ruas do Shopping Center, aproveitando que toda a gente tinha rumado à Nazaré para ver os surfistas no canhão da Praia do Norte quando vi, na montra de uma loja, um grande cartaz branco com as fotografias dos quatro músicos e o 50th Anniversary Super Deluxe Edition escrito por baixo.
Depois de ter dado umas voltas pelo Shopping e ter concluído que não havia nada de importante nem interessante que me pudesse motivar, dei de caras com o disco. Nem pensei. Entrei na loja e comprei a Super Deluxe Edition. Seis discos. Nem sei o que fazer com tantos discos. São todos sobres as mesmas músicas? Takes várias? Versões alternativas? Outtakes? Ainda não sabia. Mas ia saber. Provavelmente.
Com a caixinha na mão voltei para casa e regressei ao meu buraco no sofá. Liguei a televisão, sem som, para o boneco. Gosto da companhia. Mata-me o medo da solidão. Afasta os fantasmas que nascem nas sombras que pintam o interior da casa.
Coloquei o primeiro CD na aparelhagem. Gosto da música em objectos físicos. Gostos de lhes mexer. Nos CD’s ou nos Vinis. Gosto de ter a música nas mãos enquanto a ouço. Leio os encartes. Bebo toda a informação que comportam. Todas aquelas inutilidades. Não é informação relevante, mas equilibra-me. Acalma-me a fome de saber, estas merdas que não interessam a ninguém, só mesmo a mim.
Acho que nunca tinha ouvido este disco todo com muita atenção.
É um disco do caralho.
Abri uma garrafa de vinho tinto. Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. E deixei-me ir atrás do disco. Deixei-me ser puxado. E fui.
Dezassete músicas. As primeiras dezassete músicas. Os lados um e dois do primeiro disco na edição de vinil. Quando chegou ao fim, reiniciei-o.
Back in the U.S.S.R. O Dear Prudence de que só me lembrava na versão de Siouxsie and The Banshees. A parolice do Ob-La-Di, Ob-La-Da. A beleza extrema de While My Guitar Gently Weeps, a música do George Harrison. Do George Harrison! Não do Paul McCartney nem do John Lennon. Do George Harrison!
Entusiasmado, abri uma segunda garrafa de vinho tinto. Uma qualquer que tinha lá na despensa. Um alentejano. Ainda lá tinha outra garrafa. Não ficou lá sozinha por muito tempo. Também marchou ao som dos Beatles.
I’m so Tired. Blackbird. Foda-se! Blackbird.
Acabei com o maço de cigarros. Lembrei-me que tinha tabaco de enrolar. E mortalhas. E filtros. E fui buscar.
Blackbird.
Pus o Blackbird em repeat.
Não percebi como nunca tinha ouvido aquele disco com atenção. Aquele disco é grande. Enorme. E aquela capa a branco? Não fazia parte da minha vida e, de repente, abalroou-me. E o Blackbird. Again & again & again.
Quando acabei a terceira garrafa de vinho já não sabia muito bem quem era nem onde estava nem o que estava a fazer. Os cigarros passaram a ser mais difíceis de enrolar. Tive pena de não ter por ali droga. Teria fumado um charro à memória dos Beatles.
E o Blackbird sempre a tocar. Sei disso porque, de manhã, no dia seguinte, quando despertei, ainda estava a tocar. As minha memórias da noite anterior eram difusas. Mas o Blackbird ainda estava a tocar.
Acho que chorei. Antes de adormecer, chorei. E vomitei. Mas acho que foi por causa do vinho.
Não cheguei a ouvir os outros cinco discos da caixinha. Mas um dia destes vou lá voltar. Tenho de arranjar erva para me acompanhar nesse dia. Haverá lá melhor companhia para ouvir os Beatles do The White Album?

[escrito directamente no facebook em 2018/11/17]