Um Tipo Peculiar num Dia de Chuva

Chove.
Corro para a rua. Aproveito para tomar banho. Vou nu com umas havaianas nos pés. Um pedaço de sabão azul nas mãos. Mas é difícil de tirar o sabão azul do corpo e ainda mais do cabelo. A chuva não tem grande pressão.
Esfrego-me.
Entro em casa. Levo a chuva comigo e vou deixando-a pela cozinha, pelo corredor, pelo quarto. Seco-me e deixo a casa tratar de deixar infiltrar para a cave a chuva que entrou comigo.
Visto umas cuecas.
Preciso de um cigarro. Procuro em todo o lado e não encontro.
Saio para a rua. Desço à estrada. Caminho ao longo da estrada à procura de alguém que me arranje um cigarro.
Um carro. Passa ao lado e acelera.
Outro. Ponho-me à frente do carro. No meio da estrada. Forço-o a parar. Ele pára. Peço um cigarro, assim Olhe, se faz favor, não me arranja um cigarro?, enquanto levo dois dedos à boca num gesto de fumar. O tipo olha-me. Dá-me um maço para as mãos e diz Vai-te vestir, pá. E percebo que estou em cuecas e de havaianas. Agradeço o maço de cigarros. O carro arranca. Aceno um adeus. Levo um cigarro à boca e percebo que não tenho lume.
Ouço uma buzina atrás de mim. Viro-me. É uma camioneta. Uma camioneta de carreira. Afasto-me. A camioneta avança até ao pé de mim. Abre-se a porta. Ouço o sistema hidráulico da porta a abrir. O motorista pergunta se preciso de alguma coisa. Mostro o cigarro apagado na boca. Ele leva a mão ao bolso das calças. Agarra num isqueiro Bic vermelho e manda-mo. Sorri para mim. Agradeço com outro sorriso. Fecham-se as portas da camioneta. Ela arranca. Fico aqui a acenar um adeus e vejo, dentro da camioneta, as caras que passam por mim a rir. Vão felizes, os petizes.
Estou parado. Sozinho. Na estrada. Não passam carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem pessoas a pé. Há silêncio. Um pouco de vento. Estou com frio.
O que é que estou a fazer aqui?, pergunto-me em silêncio enquanto fumo o cigarro.
Volto a perceber que estou em cuecas e de havaianas no meio da estrada. Olho em volta e não há ninguém. Tenho um maço de cigarros e um isqueiro na mão. Subo a casa.
Começa a chover outra vez.
Corro. Não me quero molhar.
Entro em casa.
Tenho fome. Apetece-me panquecas. Descubro o cigarro aceso na mão. Largo-o no chão. Piso-o com as havaianas. O que é que eu preciso? Talvez leite. Farinha. Ovos. Uma frigideira. Acho que tenho tudo.
Largo o maço de cigarros e o isqueiro na mesa da cozinha e páro. O que é que eu ia fazer?
Estou com fome. E frio. Vou vestir-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/23]

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Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

Ir a Lisboa Comprar o Concert dos Cure

Apanhámos a camioneta para Lisboa. Os dois. Eu e ela.
Era Sábado. Almoçámos e apanhámos a camioneta. Na Rodoviária. Ali na Heróis de Angola. Demorámos várias horas a chegar a Lisboa. A camioneta passou por Rio Maior. Parou no Pôr do Sol 2. Bebemos uma cerveja. Comprámos outras para a viagem. Fumámos uns cigarros. Em Aveiras entrámos na auto-estrada. Na camioneta continuámos a fumar. Bebemos as cervejas. Largámos as latas no chão da camioneta. Ficámos a ouvi-las a dançar pelo chão até chegarmos a Lisboa. Saímos na Casal Ribeiro. Subimos ao Saldanha. Apanhámos o metro para os Restauradores. Entrámos na Bimotor. Comprei o Concert dos Cure. Era chato andar com o saco do disco. Mas valia a pena.
Ainda era cedo. Fomos ao Pirata beber um. Um Pirata. Ir a Lisboa e não beber um Pirata no Pirata, não era ir a Lisboa. Acabámos por beber dois. Fomos até ao Rossio. Passeámos pela baixa. Vimos as montras na Rua Augusta.
Anoiteceu. Fomos às Portas de Santo Antão comer um bitoque. Comemos o bitoque. Molhámos bocados de pão na gema do ovo. Bebemos umas cervejas. Comemos as batatas fritas todas. Eu comi as minhas e as dela. O resto das dela. Fumámos uns cigarros. Bebemos café. Partilhámos uma Ponte de Amarante. Eu bebi. Ela ajudou.
Cruzámos os Restauradores. Subimos a Calçada da Glória a pé. Eu com o saco na mão. Fomos ultrapassados pelo Elevador. Chegámos lá cima cansados. A deitar os bofes pela boca. Ela sentou-se nos degraus da escada. Eu encostei-me à parede. Fumámos um cigarro. Eu e ela. Cada um de nós fumou um cigarro. Depois fomos ao Gingão. Íamos encontrar um amigo que nos dava guarida para a noite.
Entrámos no Gingão. Estava gente mas ainda não estava cheio de gente. O tipo que eu conhecia estava sentado a uma mesa. Caído sobre a mesa. Os braços na mesa e a cabeça tombada sobre os braços. Ela sentou-se na mesa dele. Eu fui ao balcão buscar três minis. Acabei por beber a dele que o tipo não despertava. Mas estava a respirar. Continuou a dormir. Eu e ela olhámos um para o outro. Ela encolheu os ombros. Eu levantei-me. Dei-lhe a mão e disse Vamos dar uma volta. Passamos aqui mais tarde. E fomos. Fomos dar uma volta. Fomos ao Estádio. Depois ao Esteves. Passámos pelas Primas. E ainda fomos às Catacumbas.
E eu com o saco do disco sempre atrás.
Foi nas Primas que nos cruzámos com o tipo. Tinha despertado e tinha ido dar uma volta. Demos de caras um com o outro. Lembrou-se de mim. De nós. Deu-me as chaves de casa. Da casa do quintal. Na Estrela. Eu lembrava-me onde era. Ele ficou nas Primas. Nós fomos às Catacumbas.
Já era madrugada quando passámos na Juke Box. Estava cheia de skins. Acabámos por ir embora e terminámos no Ocarina. Dançámos. Ficámos lá até fechar. Fechou. Saímos. Subimos a Rua da Rosa. Fomos a pé até à Estrela.
Estávamos cansados.
Chegámos a casa do tipo, galgámos o muro e nas traseiras da casa, lá estava o barracão. Abri a porta. Entrámos. Cheirava a mofo. Abrimos a janela. Fumámos uns cigarros. Depois ela começou a ficar com frio. Fechei a janela. Deitei-me na cama. Com ela. Encostei-me. Ela encostou-se. Eu toquei-lhe. Toquei-lhe no corpo nu. Ela adormeceu.
Que merda!
Eu não consegui dormir. Andei sempre às voltas na cama. Ouvi todos os barulhos da Estrela. De Lisboa. Vi alguém a espreitar pela janela. Pareceu-me. Senti umas patinhas pequeninas a caminhar pelo chão do barracão. Talvez ratos. Talvez baratas. Talvez outra coisa qualquer.
Deitei-me e levantei-me sem ter pregado olho. Ela dormiu que nem um anjinho.
Fumámos o primeiro cigarro da manhã. Vesti-me. Ela perguntou-me Onde é a casa-de-banho? Eu fiquei a olhar para ela. E disse Ali fora! Ela ficou a olhar para mim. Desatou a rir. Ri com ela. Rimos com vontade. Fomos os dois à rua mijar. Estávamos nas traseiras das casas de uma rua na Estrela. Ela baixou-se junto a umas couves. Eu mijei para as rodas de uma bicicleta. Deixámos as chaves dentro do barracão e fomos embora.
Descemos até ao Rato. Depois apanhámos um autocarro até à Casal Ribeiro. Esperámos umas horas até termos uma camioneta de regresso a Leiria. Quando entrámos, adormecemos. Eu e ela. De mãos dadas. Eu com a cabeça no vidro da camioneta. Ela com a cabeça no meu ombro. E fomos o caminho todo a dormir.
Quando acordámos já tínhamos passado o nosso destino. Estávamos em Coimbra. Porra! Agora tínhamos de voltar para trás. Mas só havia camionetas mais tarde. Bem mais tarde. Passeámos um pouco por Coimbra e acabámos no jardim da Sereia. Eu adormeci. Ela não. Eu constipei-me. Ela só ficou irritada por eu ter adormecido no jardim. E eu sempre com o saco com o disco dos Cure na mão.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/27]

Estação Terminal

Precisava de partir. Precisava de ir embora. Sair. Precisava de respirar ar fresco.
Desci à cidade para apanhar uma camioneta que me levasse para qualquer lado longe dali.
Entrei na Estação Terminal e descobri-me noutra dimensão.
O espaço era escuro. A luz do dia não conseguia furar a sujidade acumulada de anos nos vidros das portas da rua. Para nos conseguirmos ver uns aos outros, estavam acesas umas luzes fluorescentes brancas penduradas no tecto. Mal entrei senti o barulho das lâmpadas. Um som constante, fininho, mas agressivo, que parecia escavar os ouvidos até chegar ao cérebro. Não era um som muito alto mas era persistente.
Coloquei-me numa fila que andava devagar por um caminho imaginário criado por fitas extensivas que aumentava ou diminuía o caminho consoante estava, ou não, muita gente para a bilheteira. A mim parecia-me muita gente num caminho enorme numa fila que se movia em câmara lenta.
Chegado ao guichet, fui avisado que o terminal de Multibanco não estava a funcionar. Tive de sair da fila, voltar às ruas da cidade e procurar uma caixa Multibanco em funcionamento. Perdi vários horários, mas como não tinha destino, não achei grave.
Lá encontrei uma caixa em funcionamento, levantei dinheiro, voltei ao espaço lúgubre da Estação Terminal e voltei a aguardar a minha vez num falso corredor feito com fitas extensivas, atrás de um grupo de gente que se movia muito lentamente.
De novo no guichet pedi um bilhete para a próxima camioneta a sair da cidade e para o destino mais longínquo dessa mesma camioneta. Queria o destino final.
E assim aconteceu.
Antes de entrar na camioneta fui urinar, mas não consegui entrar na casa-de-banho. O cheiro barrou-me a passagem. Tentei olhar lá para dentro mas uma luz intermitente, não me deixava ver. Desisti de urinar e mentalizei-me para aguentar até a camioneta parar numa Estação de Serviço a meio da viagem.
Fui beber um café e comer um Bolo de Arroz mas, mal coloquei o pé no pequeno bar de apoio à Estação Terminal, senti a sapatilha a esmagar qualquer coisa que deixou pendurada uma massa viscosa e colorida que me provocou vómitos.
Ponderei sair da Estação Terminal e deixar-me ficar na cidade. Mas a necessidade de partir era enorme.
Acabei sentado a um canto da garagem, a olhar para os televisores de informação desligados, de mão na boca para tentar impedir-me de respirar os gazes tóxicos que fluíam pela garagem, e a olhar as camionetas que chegavam para ver se alguma delas era a minha.

Estou aqui há três horas. Já chegaram e partiram várias camionetas e ainda não vi a minha que era suposto ser a primeira. Mas não consigo levantar-me para ir saber o que se passa. Está uma barata ali ao fundo, a olhar para mim, há já duas horas, pelo menos. Tenho medo.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/24]