Eu e Ela e a Índia

Tínhamos passado as férias de Natal daquele ano no alpendre de casa dos meus pais.
Enquanto toda a gente andava atarefada a comprar presentes e a preparar a noite de consoada e a fazer preparativos para a Passagem de Ano, eu e ela passávamos os dias inteiros no alpendre lá de casa a ler, a ouvir música e a conversar. Às vezes apareciam por lá alguns amigos e jogávamos ao Monopólio e ao King. A minha mãe fazia chá de menta que nos mantinha quentes e uns biscoitos de manteiga que nos aconchegavam o estômago. Ao mesmo tempo foram umas férias de provação. Nem eu nem ela fumávamos à frente dos meus pais e, estando toda a gente ali por casa durante aqueles dias, acabámos por estar as férias sem fumar um único cigarro, com excepção da noite de Passagem de Ano, que passámos sozinhos lá em casa, e quando fumámos um cigarro já passava da meia-noite, oficialmente já era outro ano, e foi para selar a primeira noite de sexo do novo ano.
Naquelas férias lemos bastantes livros. Eu andava obcecado com os livros do Harold Robbins e tinha convencido a minha mãe a mandar vir alguns deles através do Circulo de Leitores. Durante esses dias despachei Os Aventureiros, Uma Mulher Só e O Pregador. Ela lia outras coisas. A Campânula de Vidro da Sylvia Plath e O Fio da Navalha do Somerset Maugham. Ouvíamos muito Jam e Durutti Column. Falávamos dos livros que estávamos a ler. Falávamos mais que discutíamos porque só um de nós é que tinha lido o livro. Mas ouvíamos o outro com toda a atenção do mundo.
Às vezes eu parava de ler e olhava para ela, compenetrada na leitura, e via-lhe o cabelo longo, de um castanho escuro e brilhante, e lá no meio, quase escondidas, umas argolas enormes de prata que eu lhe tinha oferecido num aniversário e que lhe ficavam muito bem, davam-lhe um ar de cigana chique, uma espécie de Stevie Nicks, mais nova, mais bonita e muito mais lá de casa. Eu sentia-me um tipo com muita sorte.
Também conversávamos muito sobre as viagens que queríamos fazer num futuro não muito longínquo. Ainda nunca tínhamos ido a lado nenhum assim longe. Íamos muitas vezes ao Pedrogão, a São Pedro de Moel, até já tínhamos ido a Lisboa e uma vez ao Porto, mas nunca tínhamos ido assim para fora, em viagem, a conhecer o que não conhecíamos, a ver coisas novas, a aprender o que nos era novo. Mas tínhamos esse desejo. Então falávamos de quando acabássemos os cursos, quando arranjássemos bons empregos, empregos bem remunerados, e todas as viagens que iríamos fazer com o dinheiro dos nossos salários. Eu queria muito conhecer as Américas. A América do Sul e Central. Ela estava mais virada para a Índia. Queria conhecer o Rajastão. Concordámos que o melhor era irmos aos dois sítios. E era isso que pretendíamos fazer. Nesse final de ano ainda chegamos a comprar um Lonely Planet sobre a América do Sul. Folheávamos o livro à vez. Descobríamos países baratos. E cheios de história.
Depois passou o Natal, passou a Passagem de Ano, fumámos o nosso primeiro cigarro no ano novo depois de termos tido a primeira noite de amor no novo ano e as aulas estavam quase a começar.
E foi no primeiro dia de aulas que tudo aconteceu. Aliás, na manhã do primeiro dia de aulas o que levou a que não houvesse aulas nesse primeiro dia. Nem nos dias seguintes. Pelo menos para nós.
Eu tinha saído de casa a pé. Passei por casa dela. Ela não morava longe de mim, também não morava propriamente ali ao lado, mas ficava a caminho da escola.
Ela já estava à minha espera à entrada de casa. Demos um beijo. Demos as mãos. E fomos para a escola.
Estávamos já perto da escola, estávamos a chegar à passadeira onde cruzávamos a estrada para entrar na escola, ela estava já a parar ao pé da passadeira, estava a preparar-se para olhar para um lado e para o outro e ver se podíamos passar a estrada, naquela altura havia sempre muito trânsito com todos os pais que vinham trazer os filhos à escola, quando ouvimos um barulho, um barulho que se parecia com uma bomba a rebentar ali perto, e parámos, assustados, nervosos, a olhar para todos os lados para perceber o que estava a acontecer, quando surgiu um pneu, um pneu muito grande, um pneu de camião, a rolar sozinho pela estrada, galgou o passeio, voou, veio pelo ar e acabou por atingi-la em cheio na cabeça.
Ela tombou de imediato. Senti a mão dela a despegar-se da minha. Vi logo uma mancha de sangue a escorrer pelas pedras da calçada portuguesa. E o pneu continuava a sua caminhada durante mais algum tempo até acabar por se enfaixar na montra de uma livraria, um pouco mais abaixo, mas isso eu já não vi, foi-me contado depois porque, nesse momento, eu já estava debruçado sobre ela a tentar parar o sangue, a tentar acordá-la a fazê-la lembrar que tínhamos muitas viagens programadas para fazer e não podíamos fugir às nossas próprias combinações.
Acabou por chegar uma ambulância. Eu também fui. Também fui numa maca. Estava com sangue. Acharam que eu também tinha sido ferido. No hospital fui visto. Não tinha nada. Mas estava muito ansioso. Estive com uma psicóloga. Mais tarde soube que ela já tinha chegado sem vida ao hospital. Morrera durante o trajecto. Tinha levado uma grande pancada na cabeça com o pneu do camião.
Cinco anos mais tarde fiz a minha primeira viagem à Índia. Fui sozinho. Bem, sozinho, não. Fui com ela. Passeei pelo Rajastão. Passeei com ela pelo Rajastão. De cinco em cinco anos regresso à Índia. Sozinho. Sozinho com ela.
Hoje lembrei-me dela, e desta pequena história, porque se está a aproximar o dia de mais uma viagem à Índia. E eu nem era grande entusiasta da Índia. Mas passear por lá com ela, é outra história. Ela faz-me reparar em tudo o que eu não iria reparar, nas cores, nos cheiros, nas roupas das mulheres, nas caras marcadas dos homens que vou encontrando pelas ruas, na musicalidade da língua, mesmo quando falam em inglês. É ela que me tem guiado pelos caminhos de uma Índia que sempre quis conhecer. E todos os cinco anos lá vamos. Deixo tudo para trás e abalo. Eu e ela. Eu e ela na Índia.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/12]

Más Memórias de Coimbra

Ir a Coimbra traz-me sempre más memórias.
Nos meus últimos anos, Coimbra tem sido os Covões e o IPO. Com passagens rápidas pelo Fórum para comer junk food.
Nem sempre foi assim. Coimbra já me foi a cena da música, dos festivais de Música Moderna, do States, dos É Mas Foice e dos Tédio Boys. Também já foi do teatro. E dos Caminhos do Cinema Português. Coimbra já me foram as madrugadas a vomitar pelo Quebra Costas e os pequenos-almoços em tascas com história depois de noites loucas no Via Latina. O que Coimbra nunca foi, para mim, foi a cidade dos estudantes e a universidade, se bem que até tenha por lá passado durante uma queima-das-fitas e tenha andado ao murro com uns gajos do rugby por causa de uma gaja.
Esse tempo já lá vai. Envelheci. Deixei de andar ao murro e aprendi a nunca mais me meter com os tipos do rugby. Deixei de ir a discotecas e bares e deixei de vomitar pelas sarjetas nas ruas da cidade. E acho que Coimbra acompanhou este meu envelhecimento. Esta outra Coimbra, pelo menos. A dos médicos e enfermeiras e medicamentos e consultas.
Nestes últimos anos tenho andado a pagar a factura dos anos de irreverência juvenil. Sinto-lhes a culpa.
Começou com os Covões. Ultimamente é o IPO.
Tudo isto seria suportável. O difícil é cá vir. Sair de casa. Sair de casa de manhã, num dia de chuva como o de hoje, fazer a auto-estrada atrás de um camião que mija de chuveiro para cima do pára-brisas. Parar na estação de serviço de Pombal para beber um café queimado e fumar um cigarro, à pressa, como um agarrado necessitado da próxima dose de nicotina, e que me deixa enjoado. Apanhar a hora de ponta de entrada na cidade. Arranjar um lugar, só um!, lugar vago para o carro enquanto vou ao IPO. Procuro em ruas cada vez mais distantes do portão de entrada. Às vezes penso estacionar o carro em Leiria e apanhar o expresso. E depois são as horas de espera em salas fechadas, de janelas seladas, sem ar-condicionado, na companhia de gente tão mais triste que eu. Ouço-lhes as tosses e as respirações pesadas. Vejo-lhes os cabelos rapados. E o cheiro? O cheiro a humidade, mistura de perfumes baratos e transpiração. Em dias como o de hoje é difícil fugir ao cheiro a mofo. No Verão é o chulé de pés enfiados em sandálias de plástico compradas numa loja do chinês onde a grande maioria das pessoas ainda têm carteira. E sempre, sempre, o cheiro a mijo.
Aguardo. Aguardo sentado em cadeiras rijas, impróprias para quem está com problemas de saúde, ao lado de gente a sofrer mais que eu, em frente de gente que tosse e espirra para cima de mim. Estamos todos juntinhos, colados uns aos outros, transpiração colada a transpiração. Quase que ouvimos os pensamentos uns dos outros. As esperanças frustradas. Os futuros hipotecados. A morte no horizonte. A desgraça. A puta da desgraça. A puta da desgraça do outro que é sempre pior que a minha.
Acabo sempre por pensar que, no meio de tudo aquilo, sou um sortudo. Não sou dos piores. Eu ainda tenho futuro. Um futuro de merda quando olho para a conta bancária. Mas um futuro, mesmo assim.
Passam minutos. Que se tornam horas. O rabo fica dormente naquelas cadeiras rijas. Já me coço todo. A cabeça. Os tornozelos. Já não sei como estar. Levo um livro que não leio. O telemóvel que não apanha Wi-Fi. Levanto-me. Dou o lugar porque já não consigo mais estar sentado.
E finalmente lá vou eu. Entro e saio. Temos de controlar, ouço. Tomar atenção, ouço de novo. Olha para uns exames. Analisa. Decifra. Eu não percebo nada do que vejo, do que ele vê. Ouço o que diz e esqueço. Há quem queira saber tudo. Ouça tudo. Tente decifrar. Procurar na net. Eu não. Eu não quero saber. A minha ignorância mata o mal e livra-me da ansiedade. Não quero saber. A minha morte será inesperada. Pelo menos, para mim.
Saio para a rua. Continua a chover. Mas sabe-me bem as gotas de chuva na cara. Sentir aquele frio sobre mim. A água que escorre pelo pescoço abaixo. Vou para o carro com o guarda-chuva fechado. Caminho à chuva. E sinto-me recuperar.
Antes de por o carro a trabalhar penso que é melhor ir comer qualquer coisa antes de ir embora.
É então que vou ao Fórum. Mais uma vez vou comer ao Fórum. Penso que no meio de tanta oferta gastronómica, poderei escolher qualquer coisa de diferente. E acabo, invariavelmente, de cada vez e todas as vezes, a optar por um McRoyal Cheese. Coca-Cola. Batatas fritas. Sozinho numa mesa solitária. Afastado de toda a gente. Grupos de miúdos da escola à galhofa. Rapariguinhas do shopping a contar segredos umas às outras. E eu ali, num canto, solitário, com um hambúrguer na mão, a pensar… Não, não estou a pensar. Naquela altura não estou a pensar em nada. Deixo-me estar em silêncio a enfiar o hambúrguer pelas goelas e a despejar a cola para desembuchar. E vejo a vida dos outros. Se eles soubessem!…
Depois pego na minha solidão e levo-a de novo para casa. Mas volto atrás. Pego no tabuleiro e liberto a mesa.
Faço o caminho de regresso à chuva, outra vez, com a rádio ligada e as notícias do dia em loop. Mas esqueço-me que vou na estrada. Na auto-estrada. A cabeça voa. Vai não sei onde. Perco-me a mim e a ela. Quando desperto, estou parado à porta de casa.
E antes de sair abano a cabeça e tento esquecer Coimbra. Coimbra traz-me más memórias.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/21]

O Camionista de Materiais Perigosos

O tipo era o meu vizinho mais próximo. Morava numa pequena casa com quintal a cerca de quinhentos metros, para sul, da minha casa. Era o Camionista. Nem sei o nome dele. Acho que nunca soube. Aqui, na zona, ele era conhecido assim, por Camionista. Porque era o que ele era. Camionista. Transportava materiais perigosos. Gasolina e assim.
Também era conhecido como o marido da loira. Mas esse nome só era soprado nas suas costas. O Camionista era bastante ciumento. Se sonhasse que o tratavam por uma característica da mulher, haveria sangue, com certeza. Haveria. Agora já é tarde. O Camionista foi-se embora. Não aguentou a vergonha do par de cornos que lhe plantaram na testa.
O Camionista era um filho da terra. Nascido e criado aqui. Nasceu mesmo no meio da localidade. Na loja dos pais. Os pais tinham uma pequena casa de rés-do-chão e primeiro andar, viviam na parte de cima e tinham uma pequena loja na parte de baixo. Uma daquelas lojas que vendia tudo o que era necessário à vida do dia-a-dia de uma casa. Arroz e massa. Carne seca. Velas de cera. Fósforos. Pilhas. Bolachas. Fogareiros. Forquilhas. Coisas assim. A mãe estava sozinha quando ele nasceu. O pai andava embarcado no mar. Estava sempre muitos meses fora de casa. Quando o Camionista nasceu, a mãe estava sozinha a cuidar da loja e foi logo ali, na loja, que abriu as pernas e o deu à luz. No dia seguinte já lá estava outra vez a trabalhar. O Camionista enfiado debaixo de uma prateleira, dentro de uma caixa de fruta. Quando o pai regressou a casa, o Camionista já tinha três anos. O pai deu uma surra à mãe porque achou que o filho não era dele. Teve de lá ir a GNR e tudo mas, naquela tempo, ninguém metia o bedelho em casa alheia. Mas o pai acabou por aceitá-lo. Deu-lhe cama, comida e roupa lavada. Mandou-o para a escola. Para o serviço militar. Deu-lhe a Carta de Pesados e arranjou-lhe um emprego a conduzir camiões de mercadorias pela Europa. Aproveitava para fazer contrabando nos camiões do filho. Não era segredo por aqui.
Quando o pai morreu, o Camionista deixou-se das mercadorias e lançou-se às matérias perigosas, trabalho mais difícil, mas muito mais bem pago. Foi numa dessas viagens que apareceu aí com a loira. Era bielorrussa. Nessa mesma altura construiu a casa ali, abaixo da minha. E deixou a mãe sozinha com a loja. Pelo menos, foi assim que me contaram a história.
Entretanto a mãe morreu. A loja fechou. A casa está para ali a degradar-se.
O Camionista nunca foi muito dado ao social. Bebia, de vez em quando, um copo ao balcão com a malta que lá estivesse quando ele lá ia, ao café, também ia ver os jogos do Benfica, aparecia nas festas da aldeia em Agosto, mas era só. Quando trouxe a loira, começou a fazer uns churrascos lá em casa. No quintal. Convidava alguns tipos da aldeia, os seus antigos colegas de escola, e as suas mulheres, as crianças, e eu nessa altura já estava aqui a viver, éramos vizinhos, e também era convidado. Mas às vezes as coisas corriam mal. A mulher era muito simpática. Outra cultura, não é? Os homens também eram simpáticos para com ela. O Camionista, contudo, não achava grande piada. Várias vezes o churrasco acabava à paulada, com o Camionista bêbado a esmurrar algum dos rapazes da aldeia e a dar um par de tabefes na mulher.
Mas não foi por aí que a corda rompeu.
O Camionista virou-se para a política. Tornou-se um activista do sindicato. Uma altura começou aí a aparecer um dirigente sindical a conduzir um Maserati. Tinham reuniões de trabalho. Reuniões que se prolongavam noite dentro. Discutiam formas de luta. Desenhavam novas acções. O tipo do Maserati continuou a aparecer mesmo quando o Camionista não estava.
Um dia o Camionista chegou a casa e a casa estava vazia. A loira bielorrussa foi embora e levou tudo. O Maserati nunca mais cá regressou.
O Camionista andou aí uns tempos aos caídos. Pôs-se a beber. Armou zaragatas. Chegou a ser detido várias vezes pela GNR. Um dia, depois de sair da cadeia, pegou no camião, arrancou estrada fora e nunca mais cá voltou. Já lá vão uns bons anos. Não sei se chegou a vender a casa. Se chegou a vender a casa e a loja dos pais. Se vendeu, nunca ninguém cá veio tomar conta das coisas. As casas estão para aí a degradar-se. Os miúdos partiram os vidros da casa ali de baixo e vão para lá fumar charros e brincar com as miúdas.
Às vezes penso naqueles churrascos. E na loira. Na verdade eram os únicos motivos de interesse aqui da localidade. Aqui não se passa nada. As pessoas não têm interesse nenhum. Nem eu. Já a loira!…

[escrito directamente no facebook em 2019/08/13]

Trata-a Bem!

Lembro-me que começou tudo quando a conheci e comecei a sair com ela. Nem era ainda namoro. Saía com ela. Íamos a sítios públicos juntos. Encontrava amigos com ela do meu lado. E começou quando alguns dos meus amigos, que também eram amigos dela, me disseram Agora estima-a! Trata-a bem, se não, temos problemas, nós os dois.
Começámos a namorar. Não a trates bem, não! E eu nunca percebi esses avisos. Como era possível não tratar bem alguém de quem gostava?
Casámos. Os amigos continuaram com a história. Agora já não era só os amigos em comum. Agora também eram os meus amigos que se tinham tornado amigos dela. E também eles diziam Trata-a bem!
E eu tratei. Não porque me tinham dito para o fazer. Mas porque sou assim. Gosto de quem gosto e gosto até ao fim. Quando acaba, acaba. Mas gosto de tratar bem a quem quero bem. Aliás, nem penso como pode ser de outra maneira. Não trato mal as outras pessoas.
Mas o casamento começou cedo a azedar. Afinal ela não era como eu pensava que fosse. Eu, provavelmente, também não era o que ela queria que eu fosse.
Não durou muito tempo, o casamento. Quando nos separámos, reparei que estava sozinho. Sem nada nem ninguém. Ela levou tudo o que era nosso, mais algumas coisas que eram minhas (a minha colecção de vinis!) e ainda levou todos os amigos e conhecidos. Não deixou ninguém a quem encostar a cabeça ao ombro e chorar. Ninguém com quem mandar uns copos goela abaixo a maldizê-la, a ela e à minha vida.
E foi a minha sorte.
Sem companhia para os copos de esquecimento, virei-me para a escrita.
Passei as noites a escrever. Escrevi muito. Primeiro umas crónicas que foram publicadas num jornal local. Depois uns pequenos contos que foram publicado numas revistas literárias. Por fim um livro que foi um relativo sucesso para alguém que começou a escrever há tão pouco tempo, mas que mereceu uma segunda edição e um adiantamento considerável para um segundo livro a publicar no prazo de um ano.
E ela?
Ela foi com os amigos. Os dela e os meus. Passavam as noites no Escondidinho. Depois iam para o Lagoa, até aquilo fechar e serem expulsos de lá para fora, e terminavam as noites na Ala dos Namorados. Copos de três. Não sei quando é que começou a beber assim. Enquanto vivemos juntos, bebíamos esporadicamente. Depois, pelo que fui sabendo, era todas as noites. Fui percebendo que os amigos iam tratando dela. Magoou-me imenso, no início. Depois fui esquecendo tudo. A ela. Aos ex-amigos. À relação frustrada que tínhamos tido. Até as aventuras nocturnas dela.
Voltei a saber dela hoje. Por causa do acidente. Parece que andava com uma informação para eu ser o avisado no caso dela sofrer algum acidente. Não sei porquê eu.
Telefonaram-me perto das seis da manhã. Um acidente a caminho da Ala dos Namorados. Um Fiat Punto com seis pessoas lá dentro, espetou-se de frente com um camião cisterna. Morreram todos os ocupantes do Fiat. O motorista do camião sofreu somente algumas escoriações. Por sorte não houve explosões. Nem incêndio. Mas os corpos ficaram muito danificados. Não tinham a certeza, precisavam de confirmação das autópsias, mas parecia que havia demasiado álcool naquele carro.
Não chorei. Fiquei chocado, mas não chorei. Por momentos ainda pensei que a culpa tinha sido minha. Que eu, talvez, não tivesse tratado bem dela. Tratado como me avisaram para tratar. Mas depois percebi que a culpa não era minha. Fiz o que podia fazer. Tentei fazer mais do que o que fiz. Mas tinha sido ela a tratar da sua vida, à sua maneira. Uma maneira que, para mim, era nova. Mas foi uma escolha dela.
Não, a culpa não foi minha.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/12]

Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

Liga, Desliga

A A8 abria-se em três faixas só para mim. Vinha em viagem solitária já não sei há quantos quilómetros. Nem carro nem mota nem camião. Nenhum peão a atravessar a auto-estrada a pé, de um lado ao outro, na mesma freguesia rasgada a meio pelo progresso esfomeado. O mundo é solitário.
Ouvia o A3-30. Na rádio a nova música de Manuel Cruz. Já não sei como se chamava. Era nova. Acompanhava a melodia com os dedos a bater no volante. Gosto deste gajo, pensei. E gostava mesmo.
Como companhia os eucaliptos nas margens. De um lado e do outro da estrada. Passavam pela janela e iam ficando lá para trás. Mas acompanhavam-me. Estavam sempre presentes, mesmo que sempre a ficarem lá para trás. Acendi um cigarro. Abri um pouco a janela. O fumo saía como por uma chaminé em movimento. E se deitasse o cigarro fora? Ri. Ri de mim. Do que dizia. Idiota.
Depois o Manuel Cruz foi-se embora. Chegou a Isaura. Liga, Desliga. E a estrada vazia. Fiz o carro dançar. De uma faixa à outra. Liga, Desliga. Girei o volante à esquerda. Girei o volante à direita. Liga, Desliga. Ia sozinho pela estrada fora. A estrada era minha. A A8 era a minha pista de dança. O meu Dance Floor. Liga, Desliga. E bailava. Às vezes, mexia o volante assim, mais rápido, de um lado para o outro e via-o girar rápido, por momentos parecia que ia entrar em bolandas e despistar-se. Mas conseguia sempre controlá-lo.
À frente, debaixo de um viaduto, uma estrada que atravessa, aérea, a auto-estrada, uma caixa. Uma caixa que não pertencia lá. Não fazia parte do conjunto original. Um furúnculo. Um furúnculo fétido. Um radar. Foda-se!
Olhei para o velocímetro. Cento e oitenta. E a sensação de estar parado. Uma estrada vazia. Um carro potente. Um carro seguro. Uma estrada com três faixas. Vazia. Cento e vinte quilómetros por hora? Estou fodido.
Reduzi a velocidade. Depois do mal feito.
Desliguei a rádio. Liga, Desliga. Desliguei.
Nem o senti chegar. Por trás de mim. Sorrateiro. A que velocidade voou para me encontrar? Uma sirene. Outra. Queria atenção. E falou Saia na próxima Estação de Serviço, se faz favor!
Acendi um cigarro. O fumo voltou a sair pelo vidro um pouco aberto da janela do carro. Estava nervoso. E disse alto Foda-se! Estou fodido!

[escrito directamente no facebook em 2019/07/06]

A Rapariga no Cemitério

Conheci-a no funeral do pai. Na verdade, depois do funeral. Também não a conheci de verdade. Mas estive com ela.
Eu estava no cemitério a limpar a campa da minha mãe. Assisti àquele gigantesco evento ali mesmo ao lado. Um sai-e-entra de gente vestida de preto. Bons cortes. De fatos e cabelo. Óculos escuros. Muito choro. Alguns cigarros acesos. Senhoras de idade, com véus pretos sobre a cara, amparadas por rapazes e raparigas novos, talvez netos, mas vestidos como gente grande. Gente com dinheiro. Devia ser alguém importante. O morto. Alguém querido de muita gente.
Sentei-me na campa da minha mãe e fiquei por ali um bocado. À espera que se fossem embora. À espera de um pouco de calma. Gostava de conversar com a minha mãe. Cada um de nós no seu lado do mundo. Ela tinha paciência para me ouvir. E eu contava-lhe, a ela, o que não contava a mais ninguém. Confiava que a conversa não sairia dali. Também estava à espera de poder mudar as flores e garantir que elas ficavam por lá. Pelo menos naquele dia. E não eram espezinhadas pela multidão. Por aquela enorme multidão. Sentei-me. Acendi um cigarro.
Acendi outro.
Deu-me a moleza.
Fechei os olhos.
Devo ter adormecido. Adormecido sentado na campa da minha mãe. A multidão do lado já se tinha ido embora. Ficaram as inúmeras coroas de flores e o seus cartões sociais. E estava lá uma rapariga. Só. Ela. De preto. Vestido preto. Casaco preto. Sapatos pretos de meio salto. Bem escovados mas com lama a sair debaixo da sola. A lama do cemitério agarrada aos pés.
Ela caiu.
Eu levantei-me e corri. Corri para ela. Saltei entre as coroas de flores. Baixei-me. Pus os meus dedos no pescoço dela. Tinha pulsação. Olhei em volta. Ninguém. Agarrei no telefone e liguei para o Cento e Doze.
Atenderam. Expliquei. Desliguei.
Acendi um cigarro. Olhei para ela ali caída aos meus pés. Pensei Devia pô-la confortável. Pensei É melhor não lhe mexer. Pensei É gira a miúda. Pensei Já não é bem miúda. Já é uma mulher, talvez já mesmo uma senhora. Pensei Que porra de pensamentos.
Ela abriu os olhos. Olhou para mim. Mas não se mexeu.
Eu mandei o cigarro fora. Baixei-me. Disse Desmaiou. Ela não disse nada. Eu tirei a camisola, dobrei-a, fiz uma almofada e coloquei-lhe por baixo da cabeça. Disse Chamei o Cento e Doze. Ela não disse nada. Cheirava bem. Um cheiro de banho tomado. E um perfume suave. Não muito doce.
Levantei-me. Olhei para a porta de entrada. Ninguém. Voltei a baixar-me. Perguntei Quer avisar alguém? Ela não disse nada. Senti um toque. A mão dela agarrou-me no pulso. Mexeu os lábios. Não ouvi. Baixei-me. Encostei o meu ouvido aos seus lábios. Senti um ligeiro sopro. E uma voz muito sumida, vinda lá do fundo e sem sair de lá, disse Obrigada. Afastei-me e vi os lábios dela forçarem um suave e breve sorriso.
Ouvi a sirene dos bombeiros. Chegaram dois paramédicos. Afastei-me. Um deles perguntou-me Como se chama? Eu?, perguntei. Ela!, respondeu. E eu disse Não sei. O outro baixou-se. Auscultou-a. Mediu-lhe a tensão. Olhou-a no olhos. Bem dentro dos olhos. Fundo nos olhos. Acho que lhe procurava a alma.
Colocaram-na numa maca. Prenderam uns cintos à volta dela. Levaram-na para a ambulância. O paramédico perguntou-me Vem? Eu abanei a cabeça.
E a ambulância foi. Fiquei a ouvir a sirene a tocar durante algum tempo. Até se extinguir por completo.
Agarrei na minha camisola e voltei a vesti-la. Fui limpar a campa da minha mãe. Conversar com ela. Contei-lhe o que tinha acontecido.
O tempo passou.
Fumei um cigarro.
Fui embora.
Na estrada cruzei-me com um acidente. A ambulância que tinha ido buscar a rapariga estava, feita acordeão, espetada de frente num camião TIR que transportava Porsches. Alguns dos Porsches tinham caído do camião abaixo. Estavam semi-destruídos no meio da estrada.
No dia seguinte li, no Correio da Manhã, sobre um acidente onde tinha falecido a filha do homem que tinha sido enterrado na véspera. Ela era a filha! Morreu no mesmo dia em que o pai fora a enterrar. Há gente que não tem muita sorte com a vida. Há coincidências que se tornam diabólicas. Há coisas que nos passam pelas mãos e escorrem entre os dedos.
Ainda me lembro do cheiro dela. Cheiro de banho tomado. Um perfume suave e não muito doce. E era gira, a miúda. Miúda não, já era uma mulher.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/18]