Eu Sei!

Estou no carro. Vou a descer a estrada em direcção à Batalha. Ao fundo, sobre a montanha o céu está negro.
Estou a descer a estrada e sinto cair-me em cima uma enorme opressão sobre o peito. Não sei de onde veio. Caiu assim. Sobre mim. Entristeço. Largo por momentos o volante.
Esqueço-me que estou na estrada.
Pareço ter uma ninhada de ratos a roer-me as entranhas. A furar dentro de mim. A morder-me. A moer-me.
Ponho as mãos na barriga. Dói-me lá dentro. Mas não sinto nada. Não me dói nada físico. É só qualquer coisa lá dentro. Uma impressão. Que sobe até ao pulmões e os aperta. Dificulta-me a respiração. Respiro devagar. Respiro.
Tenho a cabeça a rebentar. Pende do pescoço. Quer cair e rebolar por mim abaixo.
Não cai. Mas eu queria que caísse. Que a cabeça caísse eu deixasse de pensar nos ratos que me comem cá por dentro.

queria fumar um cigarro beber um copo de vinho tinto ver o carmina burana pelos la fura dels baus o jogo sem interesse da selecção nacional contra a lituânia comer uma língua de vaca uma salada de orelha de porco uma salada de polvo com um molho de vinagrete beber uma cerveja belga blanche ir para a cama com a ana com a bela com carla com a dora com elas todas em separado ou juntas não importa quero mijar tomar um ben-u-ron caff contra a enxaqueca que me cega uma bombada de ventilan para respirar melhor usar preservativos para me proteger das intempéries ouvir o novo disco do devendra banhart ou ver o parasitas de bong joon-ho mas esse afinal já vi já vi e gostei bastante foda-se tanto cinema e análise social lá dentro um filme sobre a luta de classes já transportada para outro nível agora é a sobrevivência a qualquer custo e o salário mínimo é miserável e o médio não é grande merda e o salário do antónio mexia é pornográfico mas que se foda o antónio mexia e a edp e o antónio costa e o antónio saraiva e são todos antónios estes cabrões que já me chateia e agora até uma torrada de pão caseiro e barrada com manteiga milhafre dos açores ou primor meio-sal e um chá já me alegrava e podia levar para longe esta amargura que tenho dentro de mim que não sei de onde veio mas podia para lá voltar e deixar-me em paz de papo para o ar a apanhar banhos de sol na praia de são pedro de moel onde o sol nunca nasce antes do meio-dia e beijar a minha mãe o meu pai a minha filha o meu filho a mim num espelho onde me vejo de barba feita e cabelo penteado num eu que não sou mas que deveria ser dizem-me e beber uma garrafa de vinho branco talvez um verde alvarinho a acompanhar umas pernas de rã que comi uma vez e jurei que voltaria a comer porque gostei tanto mas tanto e nunca mais as vi as pernas de rã em lado nenhum e um pastel de tentúgal e um esquimó que dantes havia em todo o lado e agora em lado nenhum ou uma morcela de arroz que acho que ganhou um prémio qualquer que deve ter sido importante e eu só penso em comida não sei porquê que nem fome tenho mas ia ver o concerto do nick cave que afinal é só em abril e no altice arena que tem uma merda de som nunca lá vi nenhum concerto que me agradasse e agarrava agora na eliete da dulce maria cardoso para ler e porque é que não agarro no livro e o leio porquê porquê porquê porquê

E descubro-me dentro do carro a descer a estrada em direcção à Batalha e o céu está escuro como breu e começa a chover torrencialmente e eu vejo as mãos, as minhas mãos, a tremer por cima do volante que está solto, e baixo-as e agarro o volante e o carro e tomo a vida, a minha vida, nas minhas próprias mãos.
Sinto uma angústia enorme a consumir-me. Cá dentro. Cá dentro do peito. Do meu peito. Quero gritar mas não consigo. Tenho o volante nas mãos.
Vejo um camião TIR a vir no sentido contrário. Vem depressa. Eles andam sempre depressa nestas estradas. Eu conduzo na minha faixa. E, no último segundo, viro o volante do carro. E quero mesmo que seja o último segundo. E nesse último segundo ainda penso Eu sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/14]

A Carta de Condução Caducada

Eu soube, mal saí da cama e pus o pé no chão, que aquele dia não ia ser um grande dia.
Acordei. Mandei o edredão para o fundo da cama. Senti a pila a encolher com o fresco da manhã. Levantei o corpo. Tirei os pés para fora da cama e senti, quando estavam a tocar no chão, umas cócegas, uma picada e, logo depois, uma ligeira impressão a alastrar pela planta do pé.
Abri bem os olhos. Olhei para baixo. Para os pés. E vi uma centopeia a escapar-se por entre os dedos dos meus pés e enfiar-se debaixo da cama. Vi as suas dezenas de patas a marcharem para a fuga.
Antes de ir à casa-de-banho passei pela internet e pesquisei Centopeias para perceber o que é que me tinha acontecido. Nada de grave. Mas não consegui afastar um certo nojo. Fui para o duche.
Mais tarde, numa recta que cruza uma pequena aldeia a caminho da cidade, recta de traço contínuo, duplo traço contínuo, vejo um camião TIR vir em sentido contrário a mim, vejo-o vir todo do lado de cá do traço contínuo duplo e vejo-o levar com ele o meu espelho retrovisor exterior. O estrondo do espelho a partir parecia uma bomba atómica a rebentar-me dentro da cabeça. O carro ia-me fugindo. Agarrei-o nos limites. Assustado. Maldisse os motoristas de camiões. Todos os cabrões de motoristas de camião. Pagou o justo pelo pecador. Filhos-da-Puta!, gritei com a cabeça fora da janela do meu lado, a oferecer-me em sacrifício a um outro qualquer camião. Mas não apareceu mais nenhum. Ainda bem para mim e para a minha cabeça. Olhei o camião TIR pelo espelho retrovisor interior. Olhei para o camião TIR que me rebentou com o espelho, e vi-o entrar na rotunda. Uma rotunda que tinha cinco saídas e uma entrada para a auto-estrada. Desisti da vingança. Do reparo.
Parei mais à frente. Num café. Num café à borda-da-estrada. À borda da N1. Pedi uma Amêndoa Amarga. Bebi duas. Fiquei cheio de sede com o adocicado da Amêndoa e tive de pedir uma cerveja. Bebi três. Ainda não eram dez da manhã.
Fui à casa-de-banho despejá-las.
Uma miúda entrou comigo lá dentro. Levantou a saia. Disse-me que estava fresca. Eu disse que era muito cedo para mim. E saí da casa-de-banho. À saída estava um gajo que era dois de mim. Estava de mão estendida. Dei-lhe uma nota de vinte. Não disse nada. Os olhos fixos em mim. A mão estendida. Dei-lhe mais vinte euros. Sorriu-me e disse Obrigado, pá!
Sai do café à borda-da-estrada. Entrei no carro. E voltei à Nacional.
Não tinha ainda feito dez quilómetros quando encontrei uma operação stop. Com a minha sorte, sou um dos eleitos, pensei. E fui. Um elemento da Brigada de Trânsito, no meio da estrada, fez-me sinal para parar na berma-da-estrada. Fui para a berma-da-estrada. Parei o carro. Um guarda pediu-me os documentos. Meus e da viatura. Dei-lhos para as mãos. Dei-lhe tudo o que tinha. Ele desapareceu. E ainda não voltou.
E eu estou aqui à espera. Tenho a perna a tremer. O pé a bater no pedal. Estou nervoso. Desde manhã que sei que a sorte não me deseja e o azar é o meu destino.
O guarda regressa de lá. Para onde tinha ido. Pára ao pé de mim. Dá-me os documentos do carro. Vai olhar o selo, do outro lado. Depois volta à minha janela e, com a minha Carta de Condução na mão diz-me A Carta está caducada.
Foda-se!, pensei. Estou fodido!

[escrito directamente do facebook em 2019/05/31]

A Conversadeira de Eduardo Souto de Moura

Porto de Mós.
Sexta-feira. Fim-de-tarde.
Sento-me na Conversadeira de Eduardo Souto de Moura. A Conversadeira é uma poltrona dupla com assentos em oposição, feito em Mármore Rosa com Veios Verdes, e com 1220 x 650 x 850 mm de dimensões. Visto de cima forma um S.
Sento-me num dos lados e olho. Vejo um prédio. Um prédio sem nada de particular que o distinga dos outros prédios à volta.
Estando Porto de Mós rodeado de montanhas, esperava poder ver uma montanha, umas árvores, até o castelo apalaçado de estilo francês que domina a vila. Mas não. Nada. Um cruzamento. Estou num cruzamento.
Levanto-me e vou sentar-me do outro lado. Espero outra vista. Mas, porra. Um prédio. Outro prédio.
A Conversadeira de Souto de Moura está num cruzamento rodeado de prédios na vila de Porto de Mós.
Sinto-me desiludido.
Olho em frente. Um fila de carros. Um tractor. O cheiro a gasolina. Buzinas. Uma motorizada que ultrapassa a fila e entra na estrada com a facilidade da mobilidade. No passeio que circunda o prédio, uma rapariga empurra um carrinho de bebé. Ela pára. Olha para mim. Leva a mão à boca.
Eu ouço. Ouço atrás de mim uma sinfonia urbana. Travagem. Apitos. Buzinas. Derrapagem. Gritos. Chapa. Trambolhões. Explosões. Mais gritos. Choro.
A cara da rapariga vai mudando. Eu vou vendo o que se passa atrás de mim reflectido nas expressões da rapariga e nos sons que me vão chegando.
Acendo um cigarro e recosto-me na Conversadeira.
Percebo, na cara da rapariga. O tractor que passa no cruzamento e entra na outra estrada. Um carro que trava. Um polícia que apita. Um outro carro que buzina enquanto derrapa no asfalto. Uma mulher que grita. A motorizada que bate no carro que derrapa. O rapaz da motorizada que é projectado, passa por cima do tractor e vai aos trambolhões estrada fora. O motor de um carro que rebenta. Gente que grita. Em vários tons. Em vários momentos. Desencontrados. Uma criança que chora.
A rapariga leva agora as duas mãos à cara. Está assustada. Assustadíssima. Com medo. O carrinho começa a deslizar pelo passeio. Eu continuo na Conversadeira a ver tudo na cara da rapariga. A ouvir tudo atrás de mim.
Vêm mais carros que se enfaixam uns nos outros. Ouço a chapa a bater. O polícia é atropelado por um dos carros. O tractor passa por cima do corpo do rapaz da motorizada que está caído no chão. Chega um camião TIR, e eu ouço o barulho dos travões pneumáticos, aquilo parece que sopra, sopra chateado, e o camião leva tudo de arrasto até ao rio. Um dos carros cai.
O carrinho de bebé chega ao fim do passeio e começa a cair para a estrada. Eu levanto-me rápido da Conversadeira, corro, atravesso a estrada num ápice e agarro o carrinho de bebé antes dele cair do passeio. Levo o carrinho à rapariga que está em estado de choque a olhar para a confusão no cruzamento. Não liga nenhuma para o carrinho que tento entregar-lhe.
Ouço o barulho de uma ambulância a chegar e, finalmente, olho para trás. Para tudo aquilo. Mas tudo o que vejo é a Conversadeira do Eduardo Souto de Moura.
Porque é que se chama Conversadeira se naquele cruzamento ninguém ouve os próprios pensamentos?
Porque é que está ali, naquele cruzamento, rodeado de prédios banais?
É já noite.
O que é feito do meu cigarro?
Que raio faço eu em Porto de Mós?

[escrito directamente no facebook em 2018/09/07]