A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?

O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamos-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Deitado no Chão do Corredor

Abro-lhe a porta da rua. Ela entra em casa. Estica o pescoço para o beijo da praxe. Eu agarro nela e encosto-a à parede do corredor. Ela deixa-se prender. A porta da rua aberta. Beijo-a nos lábios e deixo a minha língua percorrer-lhe o pescoço. Sinto-a ficar arrepiada. Mando-a ao chão. Puxo-lhe as calças para baixo. Ponho-me em cima dela. Estou ofegante. Ela também. Há um respirar roufenho. É tudo muito rápido. Tudo muito intenso. E como começa, acaba.
Eu ainda estou dentro dela quando ela diz A miúda precisa de dinheiro para uma visita de estudo. Eu saio de dentro dela e deixo-me escorregar para o lado, para o chão.
Ela levanta-se. Está sobre mim. Puxa as calças para cima e continua A mensalidade do carro não foi paga. Eu olho-a de baixo e vejo-a grande, gigante. Ela vai fechar a porta da rua. Faz o corredor até ao fim e entra na cozinha.
Eu fico ali deitado a pensar na vida de merda que temos. Salários baixos. Ela com trabalho certo mas um salário pouco mais que o salário mínimo e eu, eu recebo um pouco mais, com os trabalhos avulso que faço, mas nem sempre tenho trabalho. Muita ginástica para chegarmos ao fim do mês.
Ela aparece ao fundo do corredor. Vem a fumar um cigarro. Senta-se em cima do meu peito. Coloca-me o cigarro na boca, olha-me nos olhos, séria, e diz Precisamos de dinheiro para a miúda. Não lhe vou dizer que não vai. Dá-me um beijo na face, levanta-se e diz Puxa as calças para cima! e desaparece de novo ao fundo do corredor. Talvez de novo na cozinha. Talvez na casa-de-banho. Não vi para onde entrou.
Onde vou arranjar dinheiro para a miúda?
Levanto o corpo em arco e puxo as calças para cima. Mas deixo-me lá ficar deitado, no chão. Fumo o cigarro. E penso onde posso ir arranjar dinheiro.
Acabo de fumar o cigarro. Coloco a beata em pé no soalho de madeira até morrer. Tomo cuidado para não a deitar abaixo. Posso sempre vender a câmara. Sempre é uma Canon 7D. Mas quem é que vai dar o que ela vale? O que ela vale para mim?
Ela aparece outra vez do fundo do corredor com um telemóvel a tocar. É o meu. Ela passa-mo para a mão. Eu atendo. Ela vê a beata caída no chão. Faz-me má cara. Baixa-se e apanha a beata que já estava a queimar a madeira do soalho. Eu respondo Sim, está bem! para o telemóvel. Ela levanta-se e dá-me um pontapé nas pernas. Um pontapé fraco. Só para me chatear. E eu volto a dizer Sim, está bem! para o telemóvel. E desligo.
Digo-lhe Já tenho dinheiro para a miúda. E para a mensalidade do carro. E para uma garrafa de vinho. E sorrio-lhe. E ela responde Boa!, mas sem grande alegria. E eu continuo Um texto. Dois, três dias. Ela acena a cabeça ali, sobre mim.
Eu continuo deitado no chão do corredor a olhar para ela e digo-lhe Merecia um copo e vinho tinto. Ela sorri. Vai corredor fora com a beata na mão e diz Vem buscar.
Eu olho para o tecto e penso Tenho uma vida de merda mas é a minha! Levanto-me e vou atrás dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/13]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]

O Autocarro que Já Não Fazia Carreiras

Era um autocarro. Um autocarro daqueles da carreira. Um autocarro daqueles que faziam a ligação da cidade com os seus lugares e aldeias.
Era um autocarro parado em fim de vida e começo de outra. Em cima, no tejadilho, uma calha curva, em rebordo, como um algeroz. As rodas, agora sem pneus, estavam cravadas na terra como se não quisessem mais sair dali para lugar nenhum. As janelas enormes, em todo o redor, estavam agora fechadas com uns cortinados coloridos, manta de retalhos como um puzzle gigante feito à dimensão do homem. Também ele fazia parte da composição? Do puzzle?
Ao lado, um pau esticava uma corda onde estava pendurada roupa a secar ao sol, batida pelo vento.
Era um autocarro parado e a única porta aberta era a porta que antigamente franqueava a entrada aos passageiros. O autocarro parava. Ouvia-se o bufar do sistema hidráulico de travagem. A porta abria-se. Como um fole. Os passageiros entravam. Uns tinham Passe Social. Outros bilhete que tinham de validar na máquina à entrada, que a cobrança já era feita pelo motorista tendo dispensado o cobrador, um operário a menos que o capitalismo tinha de pagar. Outros pediam um bilhete ao motorista. Estendiam uma nota. O motorista refilava quando não havia trocos. O passageiro era um terrorista pronto a foder a vida ao motorista. Raio de vida. E agora?, o que é que faço agora? Agora não tenho troco! Agora já não havia motorista. Nem passageiro. Agora já não havia motorista para conduzir o autocarro para lado nenhum. Agora já não havia passageiro para querer ir para algum lugar. Agora o autocarro estava ali parado e dali não fazia tenção de sair. Talvez para o ferro-velho. Talvez um dia. Talvez. Vendido à peça. Desmembrado. Como a vítima de um assassino. Peça-a-peça. Membro-a-membro.
O autocarro tinha a porta aberta mas um homem flanqueava a entrada. O homem, de barrete de lã roto na cabeça, barba comprida e desgrenhada, camisola grande, grande demais para ele já de si enorme, todo ele a ocupar a passagem da porta aberta em fole, calças mijadas à frente das misérias e chinelos enfiados nos pés, de unhas sujas, olhava-me. Com desdém. Quem és tu?, percebia eu.
Eu estava com a câmara apontada ao autocarro. À entrada. Ao homem. Eu a querer apertar o botão sensível ao toque para registar aquele momento do homem na sua propriedade. Eu senti aquele olhar que me entrou pela objectiva dentro e vi-o de fato e casaco atrás de uma grande janela. Uma janela tão grande que era maior que ele. Uma janela sobre os telhados da cidade. Perto das nuvens. E vi quando o homem despiu o casaco e as calças de alfaiate fino. Quando descalçou os sapatos de corte italiano. Largou o relógio analógico. Os óculos de sol. As chaves do carro. E da casa. Tudo no chão da sua sala sobre a cidade, e saltou, nu, sobre ela.
Eu vi tudo o que vi naquele olhar que o homem me lançou através da objectiva com que eu o olhava. O meu dedo não pressionou o botão. Baixei a câmara. O homem continuou à entrada do autocarro que já fizera carreiras. E agora estava ali. E o homem puxou de um cigarro e acendeu-o. E ficou ali parado a fumar. Coçou os testículos por cima das calças mijadas. E eu arrumei a câmara e fui-me embora. E enquanto ia, virei a cabeça duas ou três vezes para trás. E o homem continuava lá. À entrada do autocarro. A fumar. À entrada de um autocarro que já não fazia carreiras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/08]