15 Segundos de Fama

Alguém diz Boa-tarde, dona!… e a dona, uma velhota toda jeitosa, casaquinho preto, um lenço colorido enrolado ao pescoço, o cabelo arranjado mas não de cabeleireiro, porque não sabia que ia ser filmada, mas mesmo assim arranjado, que ela gosta de ir à rua arranjada, dá-lhe com a escova e depois espalha a laca para manter os cabelos no sítio, responde Olha! Como quem diz Então, por aqui senhora agente? e a senhora agente continua Está boa? E ela responde, sorridente Olhe, vamos indo!. Sim, mãe, vamos indo. Aos poucos, devagar, com calma, mas vamos indo. Que remédio, não é? É o nosso destino, irmos indo.
A velhota toda jeitosa é a minha mãe e está a ser interpelada por uma agente da polícia, uma agente do serviço de proximidade aos velhotes que vivem sozinhos, que estão mais isolados. Eu tinha ido mais à frente despejar o lixo e, quando me viro para trás, para olhar para ela, vejo-a em frente a uma câmara a conversar com a agente da polícia, a dizer coisas, coisas que não ouço de onde estou, estou à distância, mas percebo que há uma conversa, uma conversa bem disposta. Ouviria semanas mais tarde na televisão, numa reportagem televisiva. Mas vejo-a bem disposta ali, à distância, vejo-a com grande disponibilidade perante a câmara, quem diria? sem vergonhas, até me pareceu maior e mais nova, o sorriso rasgado, os olhos vivos. De repente percebo que está sem a máscara. Que raio, mãe! Tu esqueces-te e eu esqueço-me contigo.
Vejo-as despedirem-se, a agente da polícia e a minha mãe. A agente da polícia continua com o operador da câmara e a minha mãe avança para mim, os olhos a brilharem e, quando chega à minha beira diz, Tantos anos e tantos filmes e teve de ser alguém que não conheço a filmar-me. É verdade mãe, tantos anos de estudo, tantos anos de cinema, tantos filmes feitos e consumidos, tantas câmaras nas mãos e nunca te filmei, tiveste de ser filmada por um estranho. A vida é muito estranha, não é?
Continuamos os dois o passeio habitual e eu ainda me viro para ela e digo-lhe E no meio de tudo isto, eu é que faço cinema e nunca apareci na televisão e tu, tu que não queres saber disto para nada vais ter os teus quinze segundos de fama. Quinze segundos? Só? Oh, mãe, quinze segundos é muito tempo. Às vezes é uma vida. E quando é que vai passar? Um dia destes, mãe. Um dia destes. Talvez. Se tu te portares bem.

[escrito directamente no facebook em 2021/03/18]

Fotografa-me!

E ela pediu-me Fotografa-me! e pediu com tanta insistência que me levantei da cama, vesti as cuecas e fui buscar a câmara e o tripé. Mexi nas janelas. Nas persianas das janelas. Nas cortinas da janelas. Moldei a luz que entrava pelo quarto. Ela afastou o edredão de cima de si e mostrou-se nua Fotografa-me! dizia.
Olhei através da câmara. Vi-a. Mexi nela. Mexi no corpo dela. Puxei. Encolhi. Alonguei. Lancei o lençol sobre parte do corpo nu. Afastei-lhe no cabelo. Moldei-a. Disparei umas vezes com a câmara nas mãos. Fui ajeitando a câmara. Fui ajeitando-a a ela. Fui aprendendo. Fui aprendendo-a. Subi para cima da cama, para cima dela e disparei. Disparei várias vezes. Muitas vezes. Ela ia fazendo poses. Muitas poses diferentes. Como se fosse muitas. Muitas elas diferentes.
Disparei a câmara de vários ângulos. Sobre ela em várias posições. Umas mais pornográficas, outras mais eróticas, outras mais tímidas, algumas mais púdicas.
Depois coloquei a câmara no tripé. Cortei mais a luz do quarto. Baixei os estores. Puxei as cortinas. Provoquei sombras. Zonas escuras. Pontos de fuga. Contraste.
Olhei pela câmara. Disparei. Voltei a disparar. Mudei o tripé. Disparei. Disparei outra vez. Modifiquei-a a ela, de novo. Transformei-a para a câmara. Para o olhar da câmara. Para o meu olhar através da câmara.
A câmara gostava dela. Era fotogénica. A primeira vez que a fotografei, não a reconheci. A câmara via-a diferente de mim. Mais bonita. Mais explosiva. Muito carnal. Uma imagem de desejo.
Preparei o temporizador. Despi as cuecas e fui juntar-me a ela na cama. Entre os lençóis e o edredão. Já imaginava as fotografias a preto e branco. Cheias de contraste. Com os negros muito cerrados. Silhuetas. E os contornos. Os contornos dos dois corpos que eram um e se amavam ali, em directo, em directo para a câmara. E tudo ficou registado. Registado para a posteridade. Todo o confronto na cama. Desde os primeiros beijos no pescoço, no corpo, as mãos, os músculos retesados, e a reacção dela, as reacções dela, até ao cansaço final, quando caímos, cada um para seu lado, na cama, cansados, gastos. Satisfeitos.
Ela acabou por se levantar. Afastou as cortinas de uma das janelas. Puxou os estores. Abriu mais o vidro da janela e disse, com um sorriso que, pensei na altura, me parecia triste, Agora vais-me ter sempre na nuvem. Vou estar sempre na nuvem, para ti. E ergueu-se para a janela, os dois pés descalços no parapeito, eu gritei Não! ela ainda olhou para trás, em jeito de despedida, um olhar meigo, e saltou, nua, nua como tinha estado na cama, para a rua.
Eu levantei-me a correr da cama, estiquei-me na janela, tarde, tarde demais, sempre tarde demais e ainda a vi em queda livre, e entrei rápido para dentro do quarto, para dentro de casa, entrei para dentro antes que ela chegasse ao chão lá em baixo, na rua, e se transformasse pela última vez.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/30]

James Dean em Times Square

Hoje cruzei-me com uma fotografia icónica de Dennis Stock. Uma fotografia que já conhecia mas que há muito tempo não tinha a oportunidade de a olhar. É uma fotografia que serviu de base para muitas outras fotografias, imagens, criação de ambientes e estados de espírito. Talvez o mais bem conseguido tenha sido a recriação de Rick Deckard por Harrison Ford ao caminhar nas ruas sombrias e chuvosas de uma Los Angeles futurista, muito neo-tóquio pós-apocalíptico, sob o olhar competente de Ridley Scott em Blade Runner.
A fotografia, esta fotografia, retrata James Dean a caminhar por Times Square, em Nova Iorque. Está a chover. James Dean está enfiado no seu sobretudo comprido e as mãos enfiadas nos bolsos. Ao canto da boca, um cigarro. Talvez um Chesterfield. O cabelo, levantado e desgrenhado, dá-lhe um ar blasé. O olhar foge-lhe para a esquerda, para a direita da câmara, e não sabemos para onde está a olhar. Talvez uma troca de olhares cúmplices, uma troca de olhares com alguém que sabe porque é que ele está ali a fazer uma sessão de fotografias para a revista Life e logo naquele dia cinzento e chuvoso. Há uma espécie de sorriso que retira, por momentos, a indiferença daquela cara. É por isso que falo em cumplicidade. Cumplicidade com alguém, fora de campo, talvez alguém com um guarda-chuva que espera o final da sessão de fotografias para resguardar, finalmente, aquele que era a estrela do cinema americano do futuro, ao qual acabaria por não chegar. Mas talvez seja só um olhar ao espelho de uma montra e a resposta ao seu reflexo. Será a criatura vaidosa? Talvez, não sei. Mas é um quase-sorriso quase-final. Ele ainda não sabe, mas sabemos nós, que James Dean está a meses de morrer, ao volante do seu Porsche 550 Spyder Little Bastard, depois de bater contra um Ford Tudor e ter voado pela estrada fora e ter ficado dentro do carro, encarcerado, até morrer, diz-se de morte rápida, talvez instantânea, mas morte terrível e desfigurada.
Aqui, nesta fotografia, meses antes da sua morte, James Dean caminha à chuva por Times Square e a sua sombra, a sombra de uma estrela, antecipa-o. À sua volta as pequenas circunferências dos pingos de chuva. O tempo cinzento. As marcas da cultura, da arte, do capitalismo americano dos anos cinquenta. No cinema Astor passava a versão de Richard Fleischer das Vinte Mil Léguas Submarinas em cinemascope, que também acabaria por passar em Portugal no mesmo ano de 1955. Pouco tempo depois, seria aqui, neste mesmo cinema, que estrearia o filme Fúria de Viver de Nicholas Ray, estrelado precisamente por este mesmo James Dean que, até à sua morte, faria, ao todo, três filmes. Atrás, como pano de fundo, Chesterfield, já não só no canto da boca mas em letras garrafais de néon, a Budweiser, as televisões Admiral e outras placas, enorme quantidade de placas, que já não consigo ler, é o desfoque da objectiva e a idade da minha vista, já cansada, mesmo suportada pelo óculos de apoio.
Entusiasmado, larguei a fotografia, o livro onde contemplei a fotografia de Dennis Stock, agarrei na minha câmara, no tripé e saí de casa. Fiz a pé os quase cinco quilómetros que me separam do adro da igreja. Instalei o tripé. Coloquei-lhe a câmara. Espreitei. Fiz o enquadramento do espaço, A igreja, a torre sineira e, ao fundo, o coreto a servir de pano de fundo, o adro estendido à minha frente, resolvi esperar. Alguém haveria de entrar. Ou sair. O padre. Alguma beata. Talvez alguma bela moça da terra, carregada de melancolia no rosto ou uma velha friorenta a puxar as abas do casaquinho de malha sobre o peito, púdica, e eu poderia click fazer o meu instantâneo click e tornar o adro da igreja da aldeia que me acolheu click no meu Time Square possível click onde poderia ter a sorte click de encontrar o meu James Dean click não se desse o caso de eu não ser click nenhum Dennis Stock click.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/11]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

Naquele Tempo Não Havia…

Andava à procura da razão e abri a Crítica de Kant. Há quanto tempo não pegava naquele pequeno volume? Caiu uma fotografia. Caiu ao chão. Vi-a à distância do meu mais que um metro e oitenta. Reconheci-a. A fotografia. Já tinha uns anos. Uns valentes anos. Era uma fotografia a preto e branco.
Naquele tempo não havia fotografias a cores.
Baixei-me e apanhei a fotografia. Sim, reconhecia-a. Reconhecia-me. Eu e ela. Eu e ela numa mesa de restaurante. Eu tinha a carta na mão e lia a ementa. Ela olhava para o fotógrafo. Eu ainda tinha cabelo. Bastante cabelo. Ela ainda tinha vida e sorria.
Naquele tempo havia fotógrafos nos restaurantes.
Ela olhava para a câmara do fotógrafo quando o fotógrafo disparou. Depois o fotógrafo disse No fim do jantar a fotografia estará revelada. E estava. E trouxemo-la connosco, para casa.
Não me lembro como é que foi parar dentro da Crítica da Razão Pura.
Lembro-me que depois do fotógrafo tirar a fotografia ela virou-se para mim e perguntou-me És feliz? E eu ouvi a pergunta e senti a pergunta entrar por mim dentro a semear questões e procurar respostas.
Se eu era feliz?
O que era a felicidade? Se fosse acertar no Euromilhões em dia de acumulado gordo, não, provavelmente não era uma pessoa feliz.
Se fosse poder fazer o que gostava de fazer, talvez fosse mais-ou-menos feliz. Se fosse levar uma vida sem preocupações financeiras e ter uma saúde de ferro e um emprego compensador financeira e filosoficamente falando, não, se calhar não era uma pessoa feliz. Se me sentia amado e amante, se gostava de mim e do que era, mesmo que às vezes não fosse grande merda, talvez fosse um bocadinho feliz. Sim, talvez fosse um bocadinho feliz.
Naquele tempo não havia ninguém que fosse muito feliz.
Onde estava a comparação? Se eu era feliz comparado com quê? Com quem? Se me comparasse com o meu vizinho do lado, vítima de doença ruim que o consumiu durante anos antes que, finalmente, pudesse morrer, sim, sentia-me uma pessoa quase feliz. Se me comparasse com a vizinha de baixo que tinha acabado de ter gémeos e recuperou logo a boa forma física de um corpo que era extremamente desejável, não, se calhar, e olhando para a barriga que já tombava sobre a cintura das calças e obrigava os botões da camisa a ficarem em tensão, se calhar não, não era feliz.
Naquele tempo, se não se pensasse muito, talvez se fosse um bocadinho feliz.
Na verdade lembro-me de não saber exactamente que resposta dar.
O fotógrafo já nos tinha deixado para podermos usufruir, descansados, de um jantar a dois.
Naquele tempo não se jantava muitas vezes fora.
Não havia muitas oportunidades para se jantar fora. Era caro jantar fora de casa. Não só nós os dois. Quase toda a gente. Quase toda a gente almoçava e jantava em casa. Era muito mais barato. Às vezes levava-se o almoço para o trabalho numa marmita. Os jantares fora de casa eram só em dias de festa. Uma comemoração. Um aniversário. Uma promessa.
Naquele tempo não havia Dia dos Namorados.
Também não haviam assim tantos restaurantes como há agora que parece que nascem debaixo das pedras da calçada e há restaurantes para tudo, temáticos, típicos de países, tipos de comida, de comer em pé ou sentado, em cadeiras ou no chão, lights, gourmet, paleo, sem glúten, só peixe, só carne maturada, eu sei lá. Hoje há restaurantes que não acabam mais e para todo o tipo de carteira.
Naquele tempo não havia muita coisa.
As pessoas iam de vez em quando ao cinema. De vez em quando ao teatro. De vez em quando ao futebol. De vez em quando ao baile. De vez em quando a uma boîte. Passeava-se pelos jardins da cidade de mãos-dadas. Nas margens do rio. Comíamos pevides ao longo do rio, em passeio.
Naquele tempo não havia muitas distracções.
Ao olhar agora para a fotografia lembro-me de estar a ler a carta, ter esbarrado no Magret de Pato, ter olhado para ela e ter dito Sim, sou feliz, e de ela ter sorrido, um sorriso sincero e franco, um sorriso que vi esboçar muitas vezes enquanto viveu ao meu lado. Lembro-me do último sorriso que me ofereceu, momentos antes de parar de respirar pela última vez.
Sim, era feliz.
Como é que esta fotografia veio parar dentro da Crítica da Razão Pura? E porque raio andava eu à procura de razão?

O Coronavírus

Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já era demasiado tarde. O vírus já se tinha espalhado por todo o lado.
A resposta das autoridades à epidemia do Coronavirus foi muito lenta e tardia. As poucas decisões, titubeantes, esbarraram sempre na impossibilidade política: não se podiam fechar os aeroportos; não se podiam parar os comboios; não se podiam fechar as estações de Metro e de autocarros. Havia sempre algo em jogo. Nomeadamente dinheiro. Havia sempre demasiado dinheiro em jogo para impedir as pessoas de circular e, eventualmente, espalhar o vírus. Que importa algumas mortes se o dinheiro continuar a circular, junto com as pessoas e a economia. Nada pode parar. Parar é morrer. O objectivo é sempre o crescimento. Parar a circulação de pessoas e bens materiais é parar o crescimento. E isso é impossível.
Lembrei-me do Tubarão, o filme-marco da inauguração dos blockbusters de Steven Spielberg. Quando um grande tubarão aparece numa praia americana a trincar pessoas, o governador não permite que se feche a praia porque as pessoas dependem do Verão para viver o resto do ano – a economia, percebem? E assim vamos indo. O primado da finança sobre a humanidade. Onde é que isso nos levou? Para já, e segundo parece, ao fim-do-mundo. É onde estamos.
Eu estou melhor aqui em casa que as pessoas que estão em Lisboa ou, pior ainda, em Hong Kong. Tenho mantimentos no meu quintal. Comecei a produzir outros mal percebi que as coisas iam descarrilar, como descarrilaram.
Quando finalmente resolveram fechar os aeroportos, já tinham morrido alguns milhões de pessoas em todo o mundo. Como foi possível esperar tanto tempo?
Tenho seguido as notícias através da internet. A internet continua a funcionar. Algumas estações de televisão e rádio também.
Aqui no meu canto, numa aldeia perdida no sopé das Serras de Aire e dos Candeeiros, não tinha a noção de como as coisas estavam. Estão. Agora, nos grandes centros urbanos, ninguém pode sair de casa. O exército patrulha as ruas. Quem for encontrado na rua, é morto a tiro, esteja contaminado, ou não. Quando decretaram o recolher obrigatório total, quem estava em casa ficou em casa, quem estava no trabalho, ficou no trabalho. Algumas dessas pessoas puderam continuar a fazer o seu trabalho, como os que estavam na televisão, um trabalho limitado, claro, mas que mesmo assim, ia tentando pôr alguma ordem na informação que circulava pelas redes sociais.
Houve alguns movimentos de revolta que quiseram desafiar as autoridades e saíram para a rua. Um grupo de pessoas, em Lisboa, arrancou para a cidade em cima de uma camioneta, munida com colunas e música techno. Uma festa ambulante. Foram apanhados por um pelotão da Cavalaria e foram mortos a meio da Avenida de Roma. Alguém filmou do interior de um dos apartamentos. As imagens circularam rápidas pelas redes sociais. A indignação subiu de tom. Havia sempre dois grupos em confronto: os que achavam que a Cavalaria tinha feito o que lhe competia; e os que achavam que as pessoas deviam ter opção de escolha. Eu? O que é que eu acho? Onde estou é diferente. Aqui as pessoas circulam entre as casa de uns e outros. Os militares passam por cá, de vez em quando, mas não ficam. Há pouca gente. Numa cidade grande é diferente. De qualquer forma, eu não costumo sair de casa. Já antes não saía. Mas faço algumas trocas com os meus vizinhos. Ajudamo-nos dentro do possível.
A primeira coisa que fiz quando senti que o caos se estava a instalar foi colocar arame-farpado à volta do quintal. Tenho de proteger a minha horta, o meu pomar. As galinhas e os patos. Anda muita gente por aí no saque. Já disparei sobre dois indivíduos que tentaram saltar o arame-farpado. O cão começou a ladrar e eu disparei a espingarda sobre eles. Acho que lhes acertei, mas não tenho a certeza. Havia sangue sobre o muro, mas podia ter sido das feridas motivadas pelo arame-farpado.
Não sei como é que tudo isto vai terminar. As expectativas não são boas. As últimas notícias davam conta da impossibilidade de controle da epidemia do Coronavírus.
Estão-se-me a acabar os cigarros. Ainda tenho algumas garrafas de vinho na adega. Tenho algumas caixas de balas. Limpo a espingarda todos os dias. O cão e os gatos patrulham o quintal. Arranjei a câmara, que não funcionava, do portão de entrada. Tenho pena de não ter outra para o muro das traseiras.
O céu promete chuva.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/24]

Deitado no Chão do Corredor

Abro-lhe a porta da rua. Ela entra em casa. Estica o pescoço para o beijo da praxe. Eu agarro nela e encosto-a à parede do corredor. Ela deixa-se prender. A porta da rua aberta. Beijo-a nos lábios e deixo a minha língua percorrer-lhe o pescoço. Sinto-a ficar arrepiada. Mando-a ao chão. Puxo-lhe as calças para baixo. Ponho-me em cima dela. Estou ofegante. Ela também. Há um respirar roufenho. É tudo muito rápido. Tudo muito intenso. E como começa, acaba.
Eu ainda estou dentro dela quando ela diz A miúda precisa de dinheiro para uma visita de estudo. Eu saio de dentro dela e deixo-me escorregar para o lado, para o chão.
Ela levanta-se. Está sobre mim. Puxa as calças para cima e continua A mensalidade do carro não foi paga. Eu olho-a de baixo e vejo-a grande, gigante. Ela vai fechar a porta da rua. Faz o corredor até ao fim e entra na cozinha.
Eu fico ali deitado a pensar na vida de merda que temos. Salários baixos. Ela com trabalho certo mas um salário pouco mais que o salário mínimo e eu, eu recebo um pouco mais, com os trabalhos avulso que faço, mas nem sempre tenho trabalho. Muita ginástica para chegarmos ao fim do mês.
Ela aparece ao fundo do corredor. Vem a fumar um cigarro. Senta-se em cima do meu peito. Coloca-me o cigarro na boca, olha-me nos olhos, séria, e diz Precisamos de dinheiro para a miúda. Não lhe vou dizer que não vai. Dá-me um beijo na face, levanta-se e diz Puxa as calças para cima! e desaparece de novo ao fundo do corredor. Talvez de novo na cozinha. Talvez na casa-de-banho. Não vi para onde entrou.
Onde vou arranjar dinheiro para a miúda?
Levanto o corpo em arco e puxo as calças para cima. Mas deixo-me lá ficar deitado, no chão. Fumo o cigarro. E penso onde posso ir arranjar dinheiro.
Acabo de fumar o cigarro. Coloco a beata em pé no soalho de madeira até morrer. Tomo cuidado para não a deitar abaixo. Posso sempre vender a câmara. Sempre é uma Canon 7D. Mas quem é que vai dar o que ela vale? O que ela vale para mim?
Ela aparece outra vez do fundo do corredor com um telemóvel a tocar. É o meu. Ela passa-mo para a mão. Eu atendo. Ela vê a beata caída no chão. Faz-me má cara. Baixa-se e apanha a beata que já estava a queimar a madeira do soalho. Eu respondo Sim, está bem! para o telemóvel. Ela levanta-se e dá-me um pontapé nas pernas. Um pontapé fraco. Só para me chatear. E eu volto a dizer Sim, está bem! para o telemóvel. E desligo.
Digo-lhe Já tenho dinheiro para a miúda. E para a mensalidade do carro. E para uma garrafa de vinho. E sorrio-lhe. E ela responde Boa!, mas sem grande alegria. E eu continuo Um texto. Dois, três dias. Ela acena a cabeça ali, sobre mim.
Eu continuo deitado no chão do corredor a olhar para ela e digo-lhe Merecia um copo de vinho tinto. Ela sorri. Vai corredor fora com a beata na mão e diz Vem buscar.
Eu olho para o tecto e penso Tenho uma vida de merda mas é a minha! Levanto-me e vou atrás dela.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/13]

Obrigado, 25 de Abril!

Avisaram-me.
Cabeça baixa. Olhos nos pés. Aproveita e vê se os sapatos estão bem engraxados. Ninguém gosta de gente desmazelada.
Não levantes a voz. Agradece. Diz Sim, senhor! Obrigado, senhor! Pois não, senhor! Tem razão, senhor!
Junta as mãos. Uma na outra. Não as deixes abandonadas. Vagabundas. Especialmente, não as deixes nos bolsos. Ninguém gosta de gente demasiado descontraída. E vê se não agarras nada que não seja teu.
Não olhes nos olhos. Ninguém gosta de gente insolente.
Não refiles. Não refutes. Não contradigas.
Quando fores ao Banco, quando fores à Caixa, quando fores à Câmara, quando fores ao Centro de Saúde, mesmo quando fores ao Hospital ou à Cadeia, leva a melhor roupa. Apresenta-te bem. Cose as meias. Cose as cuecas. Cose os fundilhos. Lava os sovacos. Lava as orelhas. Os olhos. Os dentes. Põe brilhantina no cabelo. Apresenta-te bem. Essas instituições representam o país. O teu país. Respeita-as.
Quando passares por uma imagem do chefe, curva-te. Em respeito. Quando passares por uma imagem de Deus, curva-te e benze-te. Em respeito. Quando te cruzares com alguém mais importante que tu, e há dez milhões de gente mais importante que tu neste país, dá passagem.
Quando vires a bandeira, glorifica-a. Quando ouvires o hino, emociona-te.
Sê humilde. Generoso. Poupado.
Não faças o que não deves. Não ambiciones o que não podes. Não desejes o impossível.
Não discutas.
Não peças.
Aceita.
Quarenta e cinco anos depois ainda caminho curvado sobre os meus pés enfiados numas sapatilhas rotas que arrastam o meu corpo inchado e flácido.
Quarenta e cinco anos depois recebo um salário de 600 euros. E não é o que levo para casa.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a prestação da casa. Do carro. Do telemóvel.
Quarenta e cinco anos depois não tenho dinheiro para pagar a conta da luz. Da água. Da televisão. Do cabo. Da Internet.
Quarenta e cinco anos depois não morro de fome porque me ajudam. Quarenta e cinco anos depois tenho o que vestir porque há lojas chinesas.
Mas quarenta e cinco anos depois trago debaixo do braço um livro, vários livros, muitos livros. E ninguém diz que não os posso ler. Ninguém me proíbe de os ler.
Quarenta e cinco anos depois posso olhar-te nos olhos e mandar-te para o caralho!
Obrigado, 25 de Abril.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/23]

O Autocarro que Já Não Fazia Carreiras

Era um autocarro. Um autocarro daqueles da carreira. Um autocarro daqueles que faziam a ligação da cidade com os seus lugares e aldeias.
Era um autocarro parado em fim de vida e começo de outra. Em cima, no tejadilho, uma calha curva, em rebordo, como um algeroz. As rodas, agora sem pneus, estavam cravadas na terra como se não quisessem mais sair dali para lugar nenhum. As janelas enormes, em todo o redor, estavam agora fechadas com uns cortinados coloridos, manta de retalhos como um puzzle gigante feito à dimensão do homem. Também ele fazia parte da composição? Do puzzle?
Ao lado, um pau esticava uma corda onde estava pendurada roupa a secar ao sol, batida pelo vento.
Era um autocarro parado e a única porta aberta era a porta que antigamente franqueava a entrada aos passageiros. O autocarro parava. Ouvia-se o bufar do sistema hidráulico de travagem. A porta abria-se. Como um fole. Os passageiros entravam. Uns tinham Passe Social. Outros bilhete que tinham de validar na máquina à entrada, que a cobrança já era feita pelo motorista tendo dispensado o cobrador, um operário a menos que o capitalismo tinha de pagar. Outros pediam um bilhete ao motorista. Estendiam uma nota. O motorista refilava quando não havia trocos. O passageiro era um terrorista pronto a foder a vida ao motorista. Raio de vida. E agora?, o que é que faço agora? Agora não tenho troco! Agora já não havia motorista. Nem passageiro. Agora já não havia motorista para conduzir o autocarro para lado nenhum. Agora já não havia passageiro para querer ir para algum lugar. Agora o autocarro estava ali parado e dali não fazia tenção de sair. Talvez para o ferro-velho. Talvez um dia. Talvez. Vendido à peça. Desmembrado. Como a vítima de um assassino. Peça-a-peça. Membro-a-membro.
O autocarro tinha a porta aberta mas um homem flanqueava a entrada. O homem, de barrete de lã roto na cabeça, barba comprida e desgrenhada, camisola grande, grande demais para ele já de si enorme, todo ele a ocupar a passagem da porta aberta em fole, calças mijadas à frente das misérias e chinelos enfiados nos pés, de unhas sujas, olhava-me. Com desdém. Quem és tu?, percebia eu.
Eu estava com a câmara apontada ao autocarro. À entrada. Ao homem. Eu a querer apertar o botão sensível ao toque para registar aquele momento do homem na sua propriedade. Eu senti aquele olhar que me entrou pela objectiva dentro e vi-o de fato e casaco atrás de uma grande janela. Uma janela tão grande que era maior que ele. Uma janela sobre os telhados da cidade. Perto das nuvens. E vi quando o homem despiu o casaco e as calças de alfaiate fino. Quando descalçou os sapatos de corte italiano. Largou o relógio analógico. Os óculos de sol. As chaves do carro. E da casa. Tudo no chão da sua sala sobre a cidade, e saltou, nu, sobre ela.
Eu vi tudo o que vi naquele olhar que o homem me lançou através da objectiva com que eu o olhava. O meu dedo não pressionou o botão. Baixei a câmara. O homem continuou à entrada do autocarro que já fizera carreiras. E agora estava ali. E o homem puxou de um cigarro e acendeu-o. E ficou ali parado a fumar. Coçou os testículos por cima das calças mijadas. E eu arrumei a câmara e fui-me embora. E enquanto ia, virei a cabeça duas ou três vezes para trás. E o homem continuava lá. À entrada do autocarro. A fumar. À entrada de um autocarro que já não fazia carreiras.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/08]