De Regresso a Lisboa

Há muito que não descia a Lisboa. Desci. Sinto-me perdido. Onde está a cidade?
Descubro-me num parque de diversões em jeito do Mundo Disney. Papás e mamãs de calções e sapatilhas leves, super-leves, de rede respiratória para aguentar sem chulé todos os quilómetros acima e abaixo à procura da nova sensação-oferta criada por mais um destes empreendedores que transformam a cidade, carregam as mochilas com garrafas de água e sanduíches feitas nas kitchenettes porque a cidade está cara mesmo para quem a visita vindo de países mais ricos que este, enquanto empurram carrinhos-de-bebé e se passeiam de mãos dadas com crianças pequenas. Lisboa é uma cidade familiar. Uma feira. Uma diversão.
Pareço-me velho e rezingão. A culpa é minha por não acompanhar os tempos? Ou tenho de aceitar tudo o que é novo?
Não tenho direito a gostar do que gostava? Ou do que gosto? Não tenho direito a ter opinião negativa sobre o sucesso turístico de uma cidade que também era, foi, minha?
Ora porra!
Passo no Martim Moniz. Não reconheço a Praça. Ainda lá estão os indestrutíveis centros comerciais multi-étnicos. Mas não é isso que chama a minha atenção. O que me chama a atenção é a fila, filas?, tenho dificuldade em distinguir, enorme de gente para apanhar o 28, o Eléctrico dos carteiristas. De repente Lisboa parece Madrid, o Martim Moniz parece o Paseo do Prado e o 28 o Museu do dito com a exposição do Bosch. Cada um dá a cultura que consegue.
Lisboa está uma feira.
Há uma Padaria Portuguesa a cada esquina. Refugio-me na Mouraria. Como um velho e saboroso kebab. Nada como reencontrar velhos amigos. Sei que vou arrotar azia. Mas sei já com o que conto. Sei como a tratar. Passo na farmácia e compro uma embalagem de Kompensan. Não vá o Diabo tecê-las. Estou prevenido.
Ponho-me a subir a rua. Vou atrás dos cheiros. As especiarias. Cruzo-me com gente a carregar malas e malinhas com rodinhas. O barulho característico prolonga-se ao longo da Mouraria. Vêm de Alojamentos Locais. Vão para Alojamentos Locais. Vêem-se placas se acrílico um pouco por todo o lado. É epidémico. Entre indianos e vizinhos asiáticos, e turistas de mala com rodinhas, câmara fotográfica pendurada ao peito, camisas havaianas, calções, sapatilhas, mas também chinelos, pergunto Onde estão os portugueses?
Viro à direita. Perco-me por ruas pequenas. Vazias. Alguns restaurantes étnicos às moscas. Não há turistas por aqui. O circuito turístico tem os seus próprios mapas. Há silêncio. Ouço os meus passos. A minha respiração. Subo. Depois desço. Aqui ainda resiste uma pequena Lisboa-cidade-do-mundo. Regresso ao Martim Moniz pelo outro lado.
Vejo um monte de gente. Estrangeiros. Trabalhadores das redondezas. Gritam. Aproximo-me. Sou curioso. Vejo um homem sentado no chão. Três polícias municipais em volta dele. Respiram com dificuldade. Percebo que estiveram a correr atrás do homem. As pessoas que observam gritam. Gritam para o homem. O homem está algemado. Tem um casaco caído pelas costas abaixo. Está descomposto. Dois polícias agarram nele e levantam-no. O povo grita. Um burburinho que vai crescendo. Os turistas olham, curiosos. Como eu. Sinto-me um turista. O homem diz qualquer coisa a um dos polícias. Ele leva a mão atrás e dispara uma estalada na cara do homem algemado. Rebenta-lhe o sangue do nariz. E dos lábios. O povo exulta. Está na arena. Vejo-lhes as bocas a espumar. Raiva. Ódio.
A polícia leva o homem para a estrada, junto ao carro da polícia municipal. Sentam o homem no chão. Algemado.
Eu viro costas. Penso que Lisboa, afinal, não mudou assim tanto. Não é uma cidade perigosa. Nunca foi. Mas é uma cidade grande. Uma cidade grande como todas as cidades grandes. Um cidade pulsante. Às vezes também precisa de respirar. Respirar fundo. E fazer asneiras. Para aliviar.
Vejo chegar um carro da PSP. Vem à ocorrência. Vem buscar o homem algemado. Vão levá-lo para alguma esquadra. Depois apresentado a um juiz. Depois eu já não olho para trás. Sigo em frente. Tento encontrar um cantinho em Lisboa livre de turistas. Tento encontrar um cantinho em Lisboa que me recorde a Lisboa que conheci. Mas acho que não tenho sorte.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/27]

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Andar às Voltas, de Carro, em Silêncio

Íamos os dois em silêncio. Íamos os dois no carro. Eu a conduzir. Ela no banco do lado. Íamos em silêncio. Não estávamos chateados. Estávamos só em silêncio. Estamos muita vez em silêncio. Não precisamos de falar para nos compreendermos. Às vezes bastava olharmos um para o outro. E percebíamos. Tínhamos conversas enormes em silêncio. Eram conversas tranquilas. Mas cheias.
Íamos em silêncio no carro. Ouvíamos o rádio. Ou não ouvíamos. O rádio ia ligado. Mas acho que nenhum de nós estava a ligar ao que o rádio transmitia. Eu passava de estória em estória. A minha cabeça voava. Viajava. Constantemente. Como não sonho, no sono, sonho quando estou acordado. Sonhos estúpidos e muitas vezes incoerentes. Saltito de um para outro, sem me aperceber disso. Por vezes agarro-me a pequenas notícias de jornal. Outra vezes, em vidas alternativas. Se…
Ela não sei. Talvez saltite de estória em estória, como eu. Ou não. Talvez pense em coisas sérias. Talvez pense nos problemas. Todos temos problemas. Alguns de nós ignoram-nos. Outros tentam resolvê-los. Mas não sei. Nunca lhe perguntei.
Entrámos por uma pequena aldeia dentro. A estrada cruzava a aldeia. Um semáforo a meio para desencorajar a velocidade. Estava vermelho. Parei. O carro a trabalhar. O pé na embraiagem. A primeira engatada. A mão na alavanca das velocidades. E, depois, a mão dela sobre a minha. Acontecia muito. A mão dela sobre a minha sobre a alavanca das velocidades. A mão dela quente. Sobre a minha mão fria. Aquela mão dava-me conforto.
O semáforo passava a verde. Eu largava a embraiagem. Carregava levemente o acelerador, o carro arrancava e, antes de engatar a segunda, agarrava com os dedos da minha mão a mão dela, que estava sobre a minha, para que não se perdesse quando eu puxasse a alavanca para trás, ao engatar a segunda.
Saímos da aldeia. Já não sei para onde íamos. Andávamos muitas vezes assim. Ao deus-dará. De carro. Às voltas. A passear. A olhar o mundo que nos rodeava. Depois parávamos o carro e deixávamos que o mundo nos engolisse. Eu sentava-me num sítio qualquer e fumava um cigarro. Ela dava uma volta e tirava fotografias. Algumas vezes com o telemóvel. Para alimentar as redes sociais. Outras vezes com a câmara. Nessas alturas era mais cuidadosa com o que fotografava. Espaços. Objectos. Arquitectura. Pedaços de arquitectura. Memórias. Sobretudo memórias. Às vezes fotografava-me a mim. Mas eu não gostava de ser fotografado. São as minhas melhores fotografias.
Às vezes dava grandes voltas, enquanto eu fumava cigarro atrás de cigarro, e depois aparecia com uma garrafa de vinho. Com um queijinho seco. Um pão caseiro. Às vezes ainda quente. Eu deitava fora o cigarro e bebíamos e comíamos e, às vezes, muitas várias vezes, acabávamos enrolados um no outro. Chegámos a fazer amor assim, debaixo do sol, numa qualquer ruína, num qualquer miradouro, à sombra de uma árvore velha e frondosa.
Tudo em silêncio. Sempre em silêncio. Não precisávamos de falar para nos compreendermos. Não precisávamos de falar para dizer tudo o que queríamos.
Ainda hoje é assim. Ela continua aqui ao lado. Eu estou a conduzir. O rádio ligado. E os meus pensamentos andam assim, de um lado para o outro, numa roda-viva, a pensar em coisas simples e sem jeito nenhum.
Ela não sei. Nunca lhe perguntei. Mas tem um ar feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/27]

Um Acidente no Sítio da Nazaré

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera avisou-me. Vinha aí a Beatriz. Uma depressão. Vento forte e chuva. O mar agitado.
Peguei na câmara e fui até à Nazaré. Ao sítio da Nazaré. Ao farol. Mas não fui o único. Acho que toda a gente teve a mesma ideia que eu. Locais. Passeantes. Estrangeiros. Estava tudo de braço no ar a fotografar. Câmaras. Tablets. Telemóveis. Tudo servia a objectiva. As gaivotas. As ondas. A espuma das ondas. O Forte. O veado de pedra. A areia. Estava toda a gente à procura do melhor ângulo para o melhor objecto com a melhor objectiva.
Eu encostei-me a uma rocha e fiquei por ali um bocado a ver a agitação. A do mar e a das pessoas.
Acendi um cigarro. Com dificuldade. O vento já era muito. Mas eu tinha um Zippo.
Os carros continuavam a insistir a ir até ao Forte. Era uma fila compacta. Num pára-arranca mais parada que a andar. Já não havia lugares vagos nas bermas. Já não havia lugares vazios em lado nenhum. Mesmo para as selfies os auto-fotografados tinham que fazer palhaçadas para se destacarem dos demais. Estava tudo ao monte. Gente, gente, gente. Tudo à espera da Beatriz.
Mas a Beatriz não chegou. Pelo menos não enquanto eu lá estive. E eu estive lá algum tempo. Até ao acidente.
O acidente aconteceu enquanto eu estava sentado na rocha a fumar um cigarro. Outro cigarro. Não o primeiro.
Uma miúda estava a tentar tirar uma selfie com o mar de fundo. À frente dela, um rapaz que estava a tentar tirar uma fotografia da miúda a fotografar-se. Eram estrangeiros de um estrangeiro que não reconheci mas cuja língua arranhava bastante, mas não aquele arranhar alemão ou holandês. Talvez fossem nórdicos. Ou eslavos. Não percebi nada do que arranhavam um para o outro.
A miúda ia procurando o melhor fundo, o melhor ângulo, a melhor luz, quando passou uma rajada de vento forte, ela escorregou no lodo da rocha onde estava, desequilibrou-se à beira do penhasco, e caiu no vazio. Eu não estava a olhar para ela no momento. Mas senti-a fugir pelo canto do olho. E ouvi o grito do rapaz.
Virei-me. Vi o rapaz chegar-se à beira do penhasco e olhar lá para baixo, aos berros. Eu também olhei lá para baixo. Só vi as ondas a baterem nas rochas. A baterem com violência nas rochas.
As pessoas começaram a aproximar-se do rapaz. A aproximar-se do penhasco. A aproximar-se do vazio. Todos queriam ver. Quase todos tiravam fotografias do rapaz em pânico. Alguém do Forte, acho que um segurança, foi ver o que se passava. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Acumulou-se lá tanta gente à volta que já era difícil passar. Mas havia gente a rir. Gente a conversar aos berros. Gente a fotografar. Gente a filmar. Gente e espreitar do penhasco para baixo. Para ver as ondas a baterem nas rochas.
Saltei do sítio onde estava e fui abrindo passagem à bruta entre todos aqueles mirones em festa. Furava literalmente entre câmaras e telemóveis. Fiz cair dois ou três. Alguém gritou para mim mas nem me virei. Segui em frente.
Sentia-os a aproximarem-se demasiado da beira do precipício. Queriam selfies com o sítio onde a miúda caíra.
Tinha de sair dali. Tinha mesmo de me ir embora. Demasiada gente junta. Demasiada gente junta à beira de um precipício. E com vontade de conseguirem fotografias extremas, radicais, populares. Gente louca.
Eu já vinha cá em cima quando ouvi um bruá. Vários gritos histéricos. Desesperados. Provavelmente tinha caído mais alguém ao mar.
Já estava a chegar ao Sítio quando passou por mim a ambulância e um carro da polícia. As luzes ligadas, a girar, a girar. As sirenes a apitar.
Cheguei ao carro. Arranquei para casa e maldizer a Beatriz e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera que prometem muito e não acontece nada. Ou acontece, mas outras coisas. Outras coisas terríveis.
E a única depressão que apareceu por lá acabou por ser a minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/10]

O Primeiro Dia de Caça

Fui caminhar.
Era Domingo. Estava sol. Não muito calor. Enchi uma garrafa de água, peguei na câmara fotográfica e saí de casa.
Nunca tinha ido por ali, por aqueles lados. Estava no campo. No campo do campo. Fora da aldeia. Caminhos de terra batida. Ou sem caminhos. Mas ervas afastadas a criá-los. Fui. Fui por lá.
Parava para tirar umas fotografias. Árvores. Plantas. Pequenas folhas com formas exóticas. Muros feitos com pedra de xisto.
Lá no alto uma águia. A planar em círculos.
Cruzo-me com um rapaz. Traz uma espingarda com os canos abertos. Diz-me Cuidado! Anda aí mais gente! Eu não sabia, mas fiquei a saber A caça começou hoje. Anda tudo doido. E andava. Mesmo.
Ouvi uns tiros, ao longe. Uns cães a ladrar. Vozes.
Continuei a minha passeata. De vez em quando, falava alto. Gritava asneiras. Afirmava que estava ali. Que tivessem cuidado. Havia gente no meio das perdizes.
Cruzo-me com um cão. Um podengo. Passa por mim e cheira-me. Depois fica parado a olhar. Aproxima-se um homem e diz Tenha cuidado que esse sacana morde!
Ai, sim? Vem cá, vem!, penso eu. Mas não disse nada. Continuei o meu caminho. A câmara pendurada a tira-colo. Fui perdendo a vontade de fotografar. Estava mais atento aos barulhos. Aos cães. Aos homens. Aos tiros.
Desço até uma ribeira. Ribeira escondida. Fechada num tecto de canas. Pensei no José Cid e na Cabana Junto à Praia. Na na na na na …e nos canaviais…
Mijei ali ao pé da ribeira. Contra uma árvore. Contra o troco de uma árvore. Bebi água da garrafa. Comecei a subir. A deixar a ribeira para trás.
E então, a minha perna vai ao chão. Sinto uma picada e a perna dobra-se e vai ao chão. Ouvi o barulho de um tiro. Acho que ouvi o barulho de um tiro. E fui ao chão. A perna foi ao chão e arrastou-me com ela. Caí.
Senti dor. Primeiro senti dor da queda. Magoei-me na mão com que aparei o tombo. Depois comecei a sentir uma dor que principiou ligeira e se tornou violenta. Levei a mão à perna. Sangue. Fiquei com sangue na mão. Tentei levantar-me. Não consegui.
Aproximou-se um cão. Olhou para mim. Começou a ladrar. Mas não estava a ladrar para mim. Estava a avisar alguém que eu estava ali.
Chegaram dois homens com espingardas abertas. Assustaram-se quando me viram ali assim. No chão. Com sangue.
Vejo-os conversarem. Um deles sai dali a correr. O outro tira o cinto da calças, aproxima-se de mim e faz-me uma garrote na perna.
Eu sinto uma tontura. Desmaio.

Acordo. Estou numa carrinha de caixa aberta. Vou na caixa aberta. Vejo lá em cima o céu azul. O sol. O tempo está bom. Está calor, mas não é um calor insuportável. Estou deitado. Tento erguer-me e não consigo. Dói-me a perna. Tenho tonturas.
Uma cara de homem entra-me no campo de visão. Deixe-se estar. Desmaiou. Estamos na carrinha. Vamos a caminho do hospital.
E eu deixo-me estar. Sinto-me uma vítima. A primeira vítima do primeiro dia de caça. Caça feita numa zona de caminhadas. Entre casas. Casa isoladas, é certo. Mas casas. Casas de gente. Lá em cima no céu azul, uma águia. Ou será um abutre?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/07]

O Sexo É Mais Assustador que a Morte

Ela preparou a iluminação. Nada de muito complicado. Um pequeno candeeiro com um véu por cima a filtrar a luz. A janela aberta mas as persianas um pouco fechadas a quebrar as luzes exteriores. Foi à câmara. Espreitou. Dirigiu-se à poltrona e virou-a um pouco. Foi espreitar de novo. E, outra vez, mais um ligeiro toque na poltrona. Apontou o fotómetro para a poltrona. Mediu a luz. Voltou à câmara. Subexpôs. Depois despiu-se e vestiu uma combinação. Voltou à câmara. Espreitou. Carregou no temporizador. Foi sentar-se na poltrona. Deixou descair uma alça. Um seio saltou para fora. Clic. A câmara disparou. A fotografia foi tirada.
Ela pegou na câmara. Ligou-a ao computador. Importou a fotografia. Mirou-a com muita atenção. Passou-a para preto e branco. Escureceu-a ainda um pouco mais. Percebia-se que era ela, mas não se via bem a cara. Por outro lado, o seio chamava atenção. Ela sorriu. Gostava de fotografia. Gostava de si. Gostava de se ver. Por vezes, de se expor um pouco, não demasiado. Mas o suficiente para sentir uma certa adrenalina.
Entrou no Facebook. Fez um post com a sua fotografia. Não demorou muito a receber um Like. Dois. Três. Voltou a sorrir.
Ainda não tinha passado uma hora, já tinha a conta bloqueada por causa da fotografia. Já estava habituada. É por isso que tinha duas contas. Na outra, que só lá ia em caso de bloqueio da primeira, era mais comedida. E foi lá. Queixar-se. Mas não era queixume. Foi só informar. Informar que o sexo continuava a fazer medo a muita gente. Porque nunca sabia. Nunca sabia se era o algoritmo ou denúncia.
Entretanto, no outro lado da cidade, ele olhava-se ao espelho. Fazia caretas. Tentava fazer cara de mau. Experimentava ser agressivo. Ameaçava-se a ele próprio. Depois levou a mão às costas e pegou num revólver. E apontou o revólver a si próprio, reflectido. E riu. Faltava-lhe um dente à frente. Uma briga na semana anterior.
Voltou a colocar a arma presa às calças de ganga, atrás. Saiu de casa. Na rua foi evitando as outras pessoas. Especialmente as raparigas. Olhos no chão. Passada larga e rápida. Cruzou a cidade. Levava uns auscultadores nos ouvidos. Ouvia música do telemóvel. Ignorava a cidade.
Chegou a um prédio. Olhou-o com atenção. Viu umas luzes. Umas persianas fechadas. E viu uma persiana descida, não completamente fechada, e a janela aberta. A janela não ficava longe das escadas exteriores do prédio. O prédio tinha um rebordo. Não muito grande. Mas o suficiente.
Ele tirou os auscultadores dos ouvidos. Desligou a música do telemóvel. Saltou o portão de entrada. Subiu as escadas. No andar certo saltou para o pequeno muro das escadas e agarrou-se à parede exterior e foi andando, devagarinho, com muito cuidado, pelo rebordo, até chegar à janela. Ergueu-se, silencioso, puxou-se para a janela e deixou-se escorregar para dentro de casa.
Começou a vasculhar o quarto. Umas cuecas caídas em cima da cadeira. Agarrou-as. Cheirou-as. Voltou a largá-las no mesmo sítio. Viu uma nota de vinte. Apanhou-a e pô-la no bolso. Viu umas moedas. Apanhou-as. Uma-a-uma. Um tablet. Agarrou nele. Olhou para a entrada do quarto e viu. Ela estava lá parada a olhar para ele. Olhou para o telemóvel. Ele percebeu. Ela saltou, agarrou no telemóvel e saiu do quarto enquanto ia ligando para as emergências. Ele foi atrás dela e, quando ela estava a tentar abrir a porta da rua, levou a mão às costas e puxou o revólver. Disparou. Uma vez. Uma só vez. Acertou nela. Nas costas dela. Uma mancha de sangue começou a formar-se na combinação enquanto ela deslizava para o chão.
Ele ficou quieto. À espera. À espera do que é que podia acontecer de seguida. De algum barulho. De algum movimento. Mas ela não se mexeu mais. Ele virou-se de costas para a porta. Agarrou no seu telemóvel e pôs-se em pose. A mão direita à frente do peito a agarrar o revólver, um pouco elevado. Ao fundo, se se olhasse com atenção, podia perceber-se o que podia ser um corpo caído. Mas não havia luz suficiente para identificar o lugar. Rasgou um sorriso na cara. Tirou uma selfie. Postou-a no seu Facebook. E escreveu Mais um dia no escritório. Depois foi ter com o corpo dela. Não viu se estava viva ou morta. Tirou-lhe o telemóvel. Deu um giro pela casa. Encontrou mais umas notas de vinte euros. Levou a câmara fotográfica presa ao tripé. Abriu a porta da rua e saiu.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/23]