Tudo Escuro, Tudo Morto

Acordo assustado. Estou numa aflição. Pareço ter um peso sobre o peito. Sinto-me esmagar. Não consigo respirar.
Abro os olhos e olho o tecto escuro. Uma faixa amarela, do candeeiro da rua, cruza o tecto em diagonal. Vejo uma aranha a caminhar ao longo do feixe de luz.
Quero respirar.
Empurro com os pés, o edredão para o fundo da cama. Tenho peso em cima de mim. Preciso de me libertar.
Levo as mãos ao pescoço e massajo-o. E aperto-o. Para o libertar do que o oprime.
É um pesadelo que se transforma em angústia. Não sonho. Normalmente não sonho. E descubro-me num pesadelo. Não sei o que era. Só que me acordou. E me deixou assim. Assustado. Aflito. Como uma pata de elefante sobre o peito. A esmagar-me. A bloquear-me a respiração.
Ar.
Preciso de ar.
Arranho o pescoço como se arranhasse a garganta. Abrir caminho para o ar entrar nos pulmões. E respirar.
Inspirar.
Expirar.
Olho para o lado. Para a mesa-de-cabeceira. Vejo os contornos do Ventilan, mas não consigo chegar-lhe. Não consigo deitar-lhe os braços. As mãos. Os dedos.
De qualquer forma, não conseguiria fazer entrar o Ventilan nos pulmões. Nos alvéolos. Não tenho força para respirar. Para inspirar. Para expirar. Estou bloqueado.
Sinto o corpo aos saltos na cama. São espasmos. O corpo refila a ausência de ar. A ausência de oxigénio.
Sinto a vida a ir. Não consigo respirar. Sinto as pernas a espernear no ar. As mãos agarradas ao pescoço. Arranham o pescoço. Sinto o sangue a sair pelos rasgos das unhas. Sinto o sangue quente. Sinto-me quente. E sinto-me a rebentar. Sinto que vou explodir como um sapo com um cigarro na boca que não consegue parar de o fumar.
Já não vejo a aranha no tecto. O feixe amarelo que cruzava o tecto na diagonal desapareceu. Ou sou eu que já não o vê. Está tudo escuro.
Já não tenho forças. Já não tenho esperança em conseguir desenrolar o novelo e conseguir respirar. Dói-me. Nem sei bem o quê.
Abro muito a boca. Não entra ar. Não sai nada. Nem voz. Sinto os olhos esbugalhados. Mas já não vejo nada. Só escuridão.
Está tudo escuro. Está tudo morto.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/14]

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As Dores de Nick Cave

Tenho de ter no meu horizonte um jogo do Benfica. Ou o lançamento de um livro de um autor de cabeceira. Ou o novo disco de uma banda do coração. Ou a estreia de um filme que penso poder ser extraordinário.
Tenho de ter um horizonte que me garanta motivo de vida. Vontade de galgar os dias que se seguem, secos. Um motivo para me fazer saltar da cama, largar o conforto do edredão, o cheiro a mim nos lençóis e sair para o frio da casa gelada, solitária e triste.
Há dias em que me agarro ao edredão e o puxo para cima da cabeça. Mergulho, inerte, naquela escura solidão. Não ouço o barulho da rua. Não vejo a luz do dia. Não saio da cama. Nem para comer. Nem para mijar.
Sinto-me afundar no conforto do colchão. Deixo todos os problemas lá fora. Sinto-me seguro. Livre. Quero deixar-me ir. Mas depois penso Quando é que o Benfica joga? E contra quem? Acho que quero ver! Quero ver o Benfica!
E então mando o edredão para trás, decidido. Aguento o frio da casa. Levanto-me. Vou mijar. Beber café. Comer uma torrada. Olhar pela janela para a rua, em dia de sol ou de chuva, suspirar e pensar que vou tomar um banho quente, vestir-me e sair de casa.
Coço o rabo com a mão por dentro do pijama. Ainda não estou convencido, embora já tenha decidido. Massajo os testículos. Cheiro os dedos. Tenho de tomar um banho.
Vou sair. Vou à rua. Mas vou escolher caminhar por ruas esconsas e escuras onde ninguém me veja e onde eu não conheça ninguém.
Não quero ter de vomitar sobre os sapatos de ninguém que pare para me dizer Olá, pá! Quero só dar uma volta pela cidade. Respirar o dióxido de carbono dos carros em fila na avenida de um só sentido. Escarrar para o chão as minhas tripas. E aguentar os dias que se sucedem uns-aos-outros até ao próximo jogo do Benfica e esperar que nenhum fim-de-mês se interponha entre mim e o meu futuro breve.
Desvio o olhar da janela. Acendo um cigarro. Sento-me na mesa da cozinha. Trinco a torrada seca. Bebo um gole do café frio. Sinto um novelo dentro de mim. Não descubro a ponta do novelo. Fumo o cigarro. Fumo-o à pressa enquanto acabo com a torrada seca que enfio toda na boca. Engulo o café frio que amolece a torrada seca. Acabo o cigarro. E corro até à cama. Passo pela aparelhagem. Carrego no Play. E deixo, em Repeat, o Ghosteen do Nick Cave & The Bad Seeds. Uma depressão só se combate com outra, penso. Enfio-me de novo debaixo do edredão. E digo, para me acalmar É só por um bocadinho. Só por mais um bocadinho. E penso Devia ter lavado os dentes. Mas acabo por não fazer nada do que devia. E ouço, lá ao fundo, na sala, as dores do Nick Cave.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Cristina Ferreira

Hoje acordei e era a Cristina Ferreira.
Não me assustei.
A primeira coisa que fiz foi olhar dentro dos lençóis. Costumo dormir nu. Ela também. Toquei-me. Nas mamas. Nas ancas. Nas coxas. Foda-se! Sou mesmo boa.
Senti-me feliz. Pela primeira vez desde há muito tempo, sentia-me feliz. Empurrei os lençóis para os pés da cama. Levantei-me nua da cama. Olhei para o espelho grande. Gostei de me ver. É estranho ver-me no feminino. Mas ao mesmo tempo, não desgostei. É o que eu sou agora. Uma mulher. Uma mulher gira. Boa. Sexy. E cheia de sucesso.
Primeira preocupação. O que fazer? Telefonei para a SIC. Avisei que estava derreada dos Globos de Ouro, afinal a gala tinha sido eu, e que chamassem o Cláudio Ramos para fazer o Programa da Cristina.
Eu tinha um dia para viver.
Tomei um duche morno e gostei de passar gel pelo corpo. Vesti uma roupa simples. Um vestido leve e esvoaçante que uma antiga namorada por cá tinha deixado. Gostei de me sentir dentro do vestido e do fresco que me subia pela pernas acima. Calcei uns chinelos de salto alto. Eu não me saberia equilibrar naquilo. Já ela!… Observei as pernas. As pernas em cima dos saltos. Sou muito bem desenhada.
Saí de casa e fui ao café aqui da rua. Senti em mim o olhar dos homens. E das mulheres. Pela primeira vez na vida não era uma pessoa ignorada. Agora olhavam cada pedaço do meu corpo. Os passos que dava. O esvoaçar do cabelo solto e caído sobre os ombros. Os meus olhos brilhantes. O gloss nos lábios. O sorriso maroto.
Pedi um croissant folhado e uma bica. Pensei se um croissant faria bem a este corpo, mas depois pensei que, na realidade, não era meu. Comi o croissant folhado. Bebi a bica. A rapariga do café não quis receber. Disse que era por conta da casa e sorriu-me muito. Acho que me piscou o olho, mas pode ter sido só um tique.
Passeei-me pela cidade. As buzinas andavam activas. Ouvi algumas travagens bruscas. Chapa a bater em chapa. Oh, boa!, ouvi eu gritar lá do fundo e aposto que era para mim.
Entrei no quiosque onde nunca entro e comprei todas as revistas sociais que encontrei. Não paguei nenhuma. O rapaz pediu-me para referir o quiosque lá no programa. E eu disse Está bem!
Cruzei-me na rua com o presidente da câmara. Há muito tempo que não o via a pé pela cidade. Mirou-me de alto a baixo. Malandro! Parei numa montra e vi toda a gente do outro lado da rua a olhar para mim.
Entrei numa livraria e comprei uma edição de Os Maias. Ofereceram-ma em troca de uma fotografia com as meninas da loja. Mais tarde vi a fotografia na montra. Devia ter trazido mais livros.
Sentei-me numa esplanada da Praça e dei uma vista de olhos pelas revistas. Nada de especial. Mexericos. Deixei-as em cima da mesa.
Apanhei um táxi e fui até São Pedro de Moel. O taxista não quis receber. E esperou que eu quisesse regressar. Estava nevoeiro. Não fui ao mar. Mas tive pena. Gostava de ter mergulhado em São Pedro de Moel só de fio dental. Contentei-me em molhar os pés. Reparei nas unhas pintadas de vermelho-sangue. Gostei de ver os meus pés a enterrarem-se na areia molhada.
Não comprei pevides nem tremoços que a senhora não estava lá. Regressei. Dei mais uma volta a pé pela cidade. Entrei em boutiques mas não comprei nada. Quiseram oferecer-me coisas. Alguns homens vieram ter comigo. Prometeram-me a Lua. Eu ri-me. Conhecia alguns deles. Homens de família. Com filhos. Com responsabilidades na cidade. Com a língua de fora a salivar. Como cães. Cães com cio. Fartei-me de rir. Parvalhões.
No final do dia fui jantar ao Salvador. Chamaram-me Catarina e trataram-me muito bem. Também quiseram uma fotografia. Acedi. Depois voltei para casa. Sentia-me cansada. Não era fácil ser a Cristina Ferreira.
Quando entrei em casa fiquei apreensiva. Depois de dormir como acordaria? Seria eu? Ou seria ela?
Fui para a cama. Por via das dúvidas, despedi-me da Cristina. Masturbei-me, em jeito de adeus. Gozei a pensar em mim, a pensar nela, a pensar em tudo aquilo que me tinha acontecido.
Agora estou à espera que o sono me leve. Amanhã, logo se vê.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/30]

Mundo Binário

Tudo começou quando o mundo ficou de risco ao meio. De um lado ficaram uns. Do outro ficaram os outros. O mundo tornou-se uma espécie de claques de futebol. Um Benfica x Porto. Ou um Real Madrid x Barcelona. Ou os Manchesters. O United de um lado. O City do outro. Ou uns EUA x URSS dos bons e seguros velhos tempos da guerra fria. Velhos x Novos. Homens x Mulheres. Brancos x Pretos. Heterossexuais x Homossexuais. Analógicos x Digitais. Enfim, tudo começou quando o mundo se tornou binário. Os contra e os a favor.
As pessoas barricaram-se. As cidades dividiam-se em duas. Normalmente separadas por rios. O campo voltou ao arame-farpado. A polícia vivia acantonada nas cidades e só saía dos seu quartéis em situações muito particulares. Os militares patrulhavam o campo, mas agiam como milícias. As pessoas do campo passaram a andar armadas para se defenderem uns dos outros e dos militares. Era normal haver picos de mortes violentas aos fins-de-semana e, em especial, nos finais de mês quando era dia de receber e metade do mundo embebedava-se. E acabava ao tiro. A outra metade ficava escondida em casa. Com medo.
Metade do mundo seguia a teoria da evolução. A outra metade era criacionista.
Metade do mundo estudava as profecias de Nostradamus. A outra metade estudava a Bíblia.
Havia ainda outra metade que estudava os livros do Divino Marquês, mas não havia muitas certezas sobre isso porque metades só há duas e esta vinha desestabilizar tudo e, sobre o que cada um faz na sua cama, em privado, não há garantias, se bem que alguns governos tentassem regular a actividade sexual por causa do rendimento produtivo e a poupança de energia. Mas nunca foram bem sucedidos nas suas tentativas. As pessoas, quando querem, são esguias e escapam. Mas só quando querem muito. Quando fazem por isso. Havia ainda quem não quisesse saber de nada e andasse por aí, um dia após o outro, sem se chatear muito.
Metade do mundo só comia carne de vaca e ficou obesa. A outra metade só comia vegetais e andava anémica. Metade do mundo fumava haxixe. A outra metade chutava cavalo. Havia ainda quem lambesse ácidos, mas havia quem dissesse que era só um mito. Um mito urbano.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, já há muito que não voavam aviões, nem circulavam carros, carrinhas, camiões e motocicletas, e o homem movia-se de bicicleta, de skate e trotineta e só voavam alguns, poucos, aviões e só circulavam alguns, poucos, carros quando alguns dos dirigentes precisavam de se encontrar pessoalmente com outros e os telefones e a internet estava em baixo, coisa que acontecia com muita frequência porque a manutenção era muito difícil de executar num mundo sem mobilidade, onde o turista se extinguiu e só aparecia um ou outro viajante de vez em quando, de bicicleta, ou a pé, mas eram ignorados e já me perdi no raciocínio.
Ora, volto atrás e recomeço.
Há poucos anos, quando se percebeu, finalmente, que o mundo estava nas últimas e já não havia nada a fazer para o salvar, decidiu-se que tinha de se deixar a Terra e partir. Ora, com o tempo restante, tinha, toda a gente, de trabalhar em benefício geral para que se pudessem fabricar naves suficientes para levar toda a gente daqui para fora ou, pelo menos, a maior parte das pessoas, pois haveria de haver gente que iria querer ficar na Terra, onde tinha nascido queria morrer, e ficar na Terra não iria significar logo a morte, pelo menos era o que se dizia. Mas nunca se chegou a um acordo. Propôs-se Marte como destino. Mas houve logo quem se opusesse e lançasse a Lua como a única possibilidade real. O mundo voltou a dividir-se de novo, num outro risco ao meio.
E estávamos assim, sem saber o que fazer. Como fazer. Para onde ir. Depois de cinco eleições mundiais as coisas mantinham-se na mesma. Não haviam acordos nem consensos quando, de repente, há seis meses, se descobriu um asteróide, com dois quilómetros de diâmetro, que vinha em trajectória de choque com a Terra.
Pânico!
Durante algum tempo ainda se pensou na hipótese de construir uns mísseis espaciais capazes de interceptar o asteróide mas, nunca se chegou a acordo sobre que tipo de misseis fabricar. Ou eram russos. Ou chineses. Ou americanos. Ou indianos. Mas os países nunca conseguiram entrar em conversas uns com os outros porque não queriam mostrar planos classificados uns aos outros. Tudo era segredo de Estado. E tudo se complicou quando se perguntou quem ia pagar a factura. Ninguém queria pagar.
Estamos, agora, a dois dias do impacto. Não se construiu nenhum míssil. Nem naves espaciais para levar as pessoas para outro lado. É verdade que saíram algumas naves privadas com meia dúzia dos mais ricos dos ricos mas, para onde é que vão? Em que condições?
Metade do mundo acredita que vamos morrer. Outra metade acredita que não. Muitos ainda dizem que Deus nos vai acudir. Outros dizem que Deus está farto de nos aturar.
Eu não sei em que acreditar. Escrevi estas palavras na esperança que me sobrevivam, se acaso eu morrer, e possam contar ao futuro este nosso passado.
Foi um prazer andar por aqui.
Talvez nos encontremos mais tarde se, por acaso, houver, afinal, renascimento como nos prometia a religião católica.
Adeus.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/26]

Dia de Limpezas

Já limpei o quarto. Virei o colchão ao contrário e mudei o edredão que esta noite tive frio. Pensei que me sabia bem ter lençóis de flanela mas pensei logo de seguida Já não tenho dez anos. Limpei o pó das mesas-de-cabeceira. Arrumei os livros. Os que já tinha lido e os que aguardavam vez. Apanhei as meias e as cuecas que jaziam perdidas atrás da poltrona e debaixo da cama. Já tinha dado por falta desta roupa. Aspirei o quarto e continuei por ali fora e já aspirei o corredor.
Apetecia-me sentar e beber um copo de vinho tinto.
Mas vou continuar nas limpezas. Agora ataco a sala. Apanho as revistas. Muitas delas vão para o lixo. Penso no papel que estou a deitar fora. Há conjuntos do Expresso que vão para o lixo sem terem sido abertos. Os folhetos do Pingo Doce, Continente, Lidl, InterMarché e DeBorla que inundam a caixa do correio, viajam até aqui, à sala, e vão como chegaram, sem nunca terem sido vistos. Tanto lixo.
Limpo o cinzeiro. Já não me lembrava que o cinzeiro tinha este desenho no fundo. Há quanto tempo não via o fundo do cinzeiro?
Apetecia-me ir até à janela e fumar um cigarro.
Mas vou continuar nas limpezas. No sofá não há nada a fazer. Estas nódoas não vão sair. Como é que elas vieram aqui parar? Fui eu? E estes buracos? É dos charros. Das catotas que caem dos charros. Algum dia vou ter de mandar estofar este sofá.
Apanho copos sujos esquecidos um pouco por todo lado. Um deles está partido. Apanho os pedaços de vidro com cuidado.
Encho vários sacos de lixo. Tenho de ir levá-los à rua. Mas ainda tenho a casa-de-banho para limpar. Não gosto de limpar a casa-de-banho. Nem a cozinha. Acho que ficam para amanhã. Talvez venha cá alguém a casa e se compadeça. Quanto custará arranjar alguém para vir cá limpar a casa-de-banho e a cozinha?
Olho para a casa-de-banho e decido que tenho de fazer um esforço. Está nojenta. Há uns anos estive numa república em Coimbra numa casa antiga e a precisar de obras. A casa-de-banho estava como esta. O tecto está negro de bolor. Há mosquitos na parede.
Vou buscar uma vassoura. Molho um pano em água com lixívia e ato o pano à vassoura. Limpo o tecto. O tecto fica branco. A casa-de-banho ganha mais luz. Apanho os tubos de cartão vazios de papel-higiénico. Deito fora todos os restos de sabonete que já não têm cheiro nem limpam. Abro dois sabonetes novos. Deixo um no lavatório e outro na banheira. Deito fora toda uma colecção de frascos de plástico que nem sei o que são. Nem de quem são.
Coloco rolos novos de papel-higiénico. Mudo as toalhas. As que vão para lavar nem se dobram, tal a sujidade.
Como é que consegui viver assim durante tanto tempo?
Estou cansado. Precisava de descansar. Mas aproveito o embalo, ganho coragem, e vou para a cozinha. Limpo o fogão. Tem muita gordura. Uso Mistolin para desengordurar. Esfrego o surro dos azulejos. Nem reconheço a minha cozinha. Não estivesse tão cansado, até me apetecia cozinhar.
Mas telefono para a Telepizza. Mando vir uma pizza. Aproveito para tomar um banho antes da pizza chegar.
Ligo o duche. Dispo-me. Entro na banheira e deixo-me ficar debaixo da água quente que cai violenta sobre o meu corpo. Sinto-me cansado. Muito cansado. Sinto-me adormecer. Mas não posso adormecer. Tenho de tomar banho. Tenho uma pizza a chegar. Estou cansado. Sinto-me desfalecer. Está-se bem debaixo desta água quente que me conforta. Apetece-me dormir. Acho que me vou deixar adormecer. Sinto-me na cama feita de lavado. Gosto do cheiro dos lençóis lavados. Frios. Sinto-me estender ao longo da cama grande. O meu corpo cresce para acompanhar a cama. O barulho do duche embala-me. Estou cansado. Tão cansado!… Acho que vou dormir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/25]

Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Gosto de Cheiro Dela

São duas e meia da manhã.
Acordei com a chuva a cair lá fora e a bater nos vidros da janela. Ouço os gatos a correr à volta da casa à procura de abrigo. A laje aqui ao lado da janela bate cada vez que um dos gatos passa lá por cima. Está solta.
Ela está deitada ao meu lado. Dorme. Não acordou com a chuva. Nem com a luz do candeeiro que acabei por acender. Está nua. Tem uma mama destapada. Puxo o edredão para cima da mama para que não arrefeça. Vejo o braço nu à minha frente. Cheiro-o. Gosto do cheiro dela. Do cheiro dela na cama. Beijo-lhe o braço. Gosto da pele dela. É macia. Suave. Seda.
Trinco o braço. Sinto os dentes a rasgar a pele e a penetrar, suavemente, na carne. Vejo o sangue a cair ao longo do braço. Sinto o sabor metálico do sangue na boca. Puxo um pedaço de carne do braço com os dentes. Ela grita. Eu cuspo o pedaço de braço dela, que tenho na boca, para o chão. Vejo o buraco que lhe deixei no braço. Levanto-me para ir buscar água oxigenada e betadine. Talvez uma gaze. Apanho o pedaço de carne do chão e coloco-o em cima da mesa-de-cabeceira. Lá fora continua a chover. Ouço-a a bater nos vidros da janela.
À porta do quarto viro-me para trás, e digo-lhe, Desculpa.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/10]