Um Mergulho na Piscina

A miúda chegou. Foi ter com os outros miúdos. Mandou os chinelos a voar. Tirou logo as calças. A blusa. Largou tudo no chão. Depois fez pose para mostrar o fato-de-banho novo. Reduzido. Fluorescente.
Eu estava no meu canto. Sentado na cadeira. À sombra de um chapéu-de-sol. Quantos anos teria a miúda?, pensei. Dezasseis? Dezassete? Não, definitivamente não. Dezoito anos. Decidi que tinha dezoito anos para não ser atormentado pela culpa. E continuei a olhar para a miúda à beira da piscina, em pose para o grupo de amigos, a mostrar o corpo, o fato-de-banho, aquele conjunto que tapa-e-revela.
E, no fim de tudo, eu ainda gostava de olhar para as miúdas.
Ela virou costas ao grupo e mandou um salto para a piscina, e mergulhou, com as mãos à frente do corpo.
Eu senti um tremor. Imaginei que senti um tremor quando a vi mergulhar na água da piscina. Mantive o olhar ansioso sobre as águas. Sentia umas gotas de transpiração a escorrer-me pelas frontes.
Vi-me há trinta anos atrás. Vi-me assim, num estúpido ritual de acasalamento qualquer. Numa brincadeira animalesca para gáudio dos meus amigos. Para brilhar aos olhos das miúdas. Corri. Corri ao longo da relva da piscina, uma correria elegante, o corpo direito, os braços a cortarem o ar, os cabelos a esvoaçarem sobre os olhos, cheguei à zona das lajes, senti um ligeiro escorregar dos pés, mas percebi-os suficientemente seguros para ganhar impulso, saltar para o ar, sobrevoar a água cheia de cloro, sentir-me o super-herói da piscina, as miúdas de boca aberta, espantadas com a elegância do meu salto, o mergulho na água como uma agulha, a escapar ao atrito, a furar o espelho de água como se fosse uma vara e ir fundo dentro da piscina e esqueci-me que ali, daquele lado, a piscina era baixa, e já ia tarde quando me lembrei, e foi nesse preciso momento em que me lembrei que senti a cabeça a bater no fundo da piscina e senti a dor, um choque eléctrico, e desapareci de mim, deixei de me recordar do que quer que fosse, que já não era eu, pelo menos não era eu acordado, consciente, e só voltei a tomar-me por conta numa cama de lençóis brancos e impecavelmente esticados, e algumas pessoas ao meu lado, reconheci nelas a minha mãe, o meu pai e vi-os a chorar e percebi o que lembrava de ter percebido logo no momento imediatamente antes de apagar e ficar tudo negro Estou fodido! E estava. Estava fodido. E o mundo acabou ali. Naquela cama de hospital.
Nunca chorei.
Passaram muitos anos. E agora estava ansioso por causa do mergulho da miúda. Não devia ter vindo aqui, à piscina.
Revirei os olhos para o lado e disse à rapariga que estava sentada, não muito longe de mim, a ler um livro, não consegui ver a capa, não sei que livro era, e disse-lhe Leva-me daqui. Ela pousou o livro no chão. Vestiu-se. Arrumou as suas coisas e colocou as mãos sobre a cadeira, destravou-a e começou a girá-la . Eu ainda tive tempo de ver a miúda a subir as escadas para sair da piscina e ir, molhada, ter com o grupo de amigos que a esperava deitado sobre a relva.
Eu suspirei aliviado. Mas ainda sentia umas gotas de transpiração a correrem-me pelo pescoço abaixo. A rapariga, baixou-se enquanto empurrava a cadeira e disse-me Foi uma boa manhã. Temos de cá voltar.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/05]

Estou Nu

Era tarde. Fui dormir. Deitei-me na minha cama. Estava em casa. Num apartamento na cidade.
Quando acordei, descobri-me numa cama que não conhecia. Numa casa no campo.
Acordei. Abri os olhos e vi. Vi onde não estava. Não reconheci o sítio. Levantei-me. Estava nu. Abri a janela e fui inundado pelo cheiro a terra molhada. Tinha estado a chover. Lá fora era o verde. O verde molhado. Ao fundo, no horizonte, as montanhas.
Saí do quarto e fui corredor fora até chegar a uma cozinha grande. Senti o cheiro a café acabado de fazer. Peguei numa chávena e enchi-a. Vi, na mesa da cozinha, um maço de cigarros e um isqueiro por cima. Acendi um cigarro. Abri a porta da rua e descobri um alpendre.
Saí de casa.
Aproximei-me do parapeito da varanda do alpendre. Fui bebendo pequenos goles de café. Não tinha açúcar. Não o vi à frente dos olhos e achei por bem não me pôr a meter o nariz em casa alheia. Fumei o cigarro e lancei a beata fora. E então reparei numa miúda que estava parada, lá fora, a olhar para mim.
Olhámos um para o outro e ela disse Estás nu. E eu percebi que estava realmente despido. Fiquei envergonhado e entrei em casa. Larguei a chávena de café na mesa da cozinha e refiz o corredor em sentido contrário de volta ao quarto.
Entrei no quarto e enfiei-me outra vez na cama. Puxei o edredão para cima da cabeça e deixei-me envolver por ele.
Mas não consegui adormecer.
Dei voltas.
E mais voltas.
Ergui-me. Sentei-me na cama. E descobri-me numa cama de hospital.
De um lado, uma cama vazia. Do outro, também.
Tirei as pernas para fora, para sair da cama, e percebi que estava nu. Voltei a entrar na cama. Deitei-me e tapei-me com o lençol. Deixei a cabeça de fora. Para ver. Perceber.
Apareceu uma enfermeira. Mediu-me a temperatura. Confirmou se o soro estava a correr normalmente.
Perguntei-lhe O que é que me aconteceu?
Ela disse-me Desmaiou.
Onde?, insisti.
Mas a enfermeira já tinha saído.
Olhei pela janela, para a rua e vi que estava a chover. Ao fundo, no horizonte, via umas montanhas.
Apetecia-me uma chávena de café acabado de fazer. E um cigarro.