Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

05:38′

05:38’
Ando às voltas na cama. Estou com calor. Ponho os braços fora da cama para endireitar a dobra do lençol sobre o edredão e sinto o frio. Pareço um profiterole invertido.
Ando às voltas na cama. Estou com sede. Queria levantar-me e beber água. Mas não consigo. Está muito frio fora do edredão. Aqui debaixo estou quentinho.
Ouço um zumbido nos ouvidos. Como um rádio antigo, daqueles de válvulas, a funcionar. A minha mãe tinha um rádio desses. Não sei onde foi parar. Quem é que ficou com ele?
05:39’
Mais uma volta. O tempo parece que não anda. Os números no relógio digital, pousado na mesa-de-cabeceira, são sempre os mesmos. E quando se alteram parece que se passou uma eternidade e eu ainda aqui à voltas, cheio de calor. Estou muito desperto. Quando tiver que me levantar, vou querer dormir.
Passam-me muitas ideias pela cabeça. Estas ideias vêm acompanhadas do zumbido. Algumas destas ideias, nem parecem minhas. É estranho pensar nelas. E quanto mais alto o zumbido, mais estranho me é a ideia que passa, galopante, pela minha cabeça. Costumo ser bastante racional. Costumo ter pensamentos racionais.
05:40’
Sinto vontade de me levantar e ir escrever tudo o que me está a passar pela cabeça. Mas sinto preguiça. Digo que vou escrever quando me levantar, mas já sei que não vou me lembrar em que é que estou a pensar. A minha memória já não funciona muito bem. E percebo que afinal estou a conversar comigo como se fosse dois e discuto duas posições. Penso novamente na hipótese disto, disto tudo, da vida, ser um jogo, e tento perceber se a morte, a morte física das personagens, é uma mudança de nível ou um game over. E não consigo perceber onde quero chegar com esta conversa. Sinto abater-se sobre mim uma ligeira angústia.
Preciso de dormir. Deixar de pensar em coisas assim.
05:38’
Como são cinco e trinta e oito? Ainda agora eram cinco e quarenta. Ou não eram? Voltei atrás no tempo? Estou a ficar maluco? Ou estou a dormir? O jogo terá algum defeito? Será que vou hibernado a caminho de um qualquer destino a milhões de anos-luz e estas merdas foi o que a minha cabeça encontrou para me entreter durante a viagem? Sou eu a personagem principal desta história? E isto é tudo o que tenho para contar? Que raio de história é esta? Onde está o princípio? E o fim? Onde está o problema que a história tem de resolver? Ou nunca há problemas para resolver que a IA resolve-os todos?
05:38’
Oh, porra…
[acabei por ir beber água, tenho a boca e a garganta molhadas, mas não me lembro de me ter levantado da cama]

[escrito directamente no facebook em 2020/01/13]

Seis Dias

Não demorei muito a perder todas as esperanças depositadas na novidade. Seis dias, foi quando durou o Ano novo, vida Nova! o Agora é que é! Este é o meu ano! Desta vez vou cumprir todas as minhas resoluções! Sinto que este ano é que é o meu ano! Sou outro, o mesmo mas em novo!
Seis dias.
Entrou o Dia de Reis e foi tudo por água abaixo.
Estava com bastante esperança. Estava confiante. Até parecia maior, de corpo erguido, peito feito para enfrentar o futuro. Sentia-me bem, muito bem, grande, enorme. Era o sol, o calor, o mar, estes dias brilhantes de Primavera em pleno Inverno que me colocaram no caminho da boa disposição e de conquista do mundo. Os trevos no jardim lá em baixo. As azedas à borda da estrada. O chilrear dos pássaros logo pela madrugada.
Seis dias.
Hoje de manhã já me fora difícil levantar da cama. Sentia frio e qualquer coisa esquisita cá dentro, uma certa angústia de que não sei a origem. E alguma vez se sabe? Sim, às vezes sei a origem das minhas angústias, o final do mês, a falta de dinheiro, a chegada de contas para pagar, uma ida não programada ao dentista, a falta de trabalho. As ausências. As fugas ou a impossibilidade de as executar.
Levantei-me já com alguma dificuldade. Mandei o edredão para os pés da cama mas tive de me levantar logo de seguida que não aguentava o frio. Fui fazer café, mas tive de tomar banho enquanto esperava pela primeira chávena do dia para aquecer o corpo. Tinha as mãos e os pés gelados. E foi enquanto espalhava o champô pelo cabelo, e olhava para a rua através da janela aberta de par-em-par, e via aquele sol amarelado de gema de ovo de aviário que percebi que o dia, que até tinha nascido soleiro, estava sem brilho. Um dia de sol, mas baço. E perguntei-me Que raio estou a fazer aqui? E não queria estar ali. Ali no banho. Não me apetecia ter levantado da cama. Estava frio. O dia estava com sol que não aquecia nem me trazia boa disposição. Queria perceber porquê mas não entendia nada. Um aperto no peito. Uma vontade de chorar. Sem razão. Quer dizer, sem razão aparente, que razões tenho eu muitas, diariamente, mas já me habituei a viver com essas razões. Não havia nada de novo que me fizesse sentir assim, ausente, perdido, destroçado, um desgraçado de merda, que era como me estava a sentir enquanto enxaguava o cabelo.
Seis dias.
Saí do banho. Vesti uma roupa qualquer. Tirei à sorte do roupeiro uma camisola. Vesti as mesmas calças da véspera. Umas sapatilhas. As que estavam ali caídas na marquise, fora da caixa. Tirei uma caneca de café. Um cubo de açúcar. Não, dois. Acendi um cigarro. Olhei para a rua. Senti-me pequeno. Senti-me decrescer. Minguar. Senti falta do meu pai. Da minha mãe. Senti falta de poder dizer Não me sinto bem. E ter-lhes a atenção. E o meu pai dizer Vamos ao médico. E a minha mãe dizer Vou fazer-te uma tisana. E ter colo.
Deixei cair o resto do cigarro na caneca de café e larguei-a ali, no beiral da janela.
Dei duas voltas lentas à cozinha. O que é que vou fazer? O que é que tenho para fazer? O que é que me apetece fazer?
Saí da cozinha. Fui até à sala. Olhei para a televisão desligada. Sentei-me no sofá. Enterrei o cu no fundo do sofá. Acendi um cigarro. Olhei para a gaveta de cima do móvel. Tinha lá uma Glock. Uma sobrevivente do assalto a Tancos.
Já passaram umas horas. Já passou o dia. Já se foi a manhã e a tarde. Já cai a noite. Acendo um cigarro. Ainda estou sentado no sofá. A televisão continua desligada. Tenho uma Glock na gaveta de cima do móvel. São seis de Janeiro e o ano já me parece velho. Velho e cansado. Deixo cair um borrão incandescente do cigarro no chão da sala. Não consigo tirar os olhos da gaveta. Da gaveta de cima do móvel.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/06]

A Miúda que Estava Naquela Curva a Caminho de Pataias

Era naquela curva a caminho de Pataias, depois de passar a cimenteira, mesmo a meio da curva, por fora, no pinhal mas por fora da curva, estava lá uma poltrona onde a miúda se sentava. Estava lá sempre sentada, fizesse chuva ou sol, estivesse calor ou frio e, se não estivesse, é porque estava ocupada com algum cliente lá mais para trás, no meio do mato, atrás de uma moita, em cima de um velho colchão, sujo e fétido, na companhia das pulgas, a foder com algum camonista.
Aquela era a curva dela. Sempre a mesma desde que a vi a primeira vez que lá passei já faz uns bons anos. Chamo-lhe miúda porque foi assim que me pareceu da primeira vez que a vi. E me fez olhar para ela enquanto fazia a curva de carro a caminho da Nazaré. Estava sentada na poltrona, de perna traçada, uma boa perna, pareceu-me, a fumar um cigarro, e a olhar-me directamente nos olhos. Eu senti os olhos dela cravados nos meus e foi ai que a vi miúda. Claro que já não é uma miúda. Hoje já não é uma miúda. Nem sei se alguma vez o terá sido. Foram os anos que passaram por ela, mas também a vida dura que desempenhava ali, naquela curva a caminho de Pataias para quem vem de baixo, da cimenteira ou da Estação de Pataias-Gare.
Às vezes estava lá um carro parado ao pé da poltrona. Sempre o mesmo carro. Suponho que fosse o companheiro dela. O protector. Às vezes era ele que estava sentado na poltrona. Ela estava em pé, junto à estrada, de saia curta, camisa decotada. Ou sentada no capot do carro. Ou num tijolo. Estava sempre a fumar. Estavam sempre a fumar, os dois.
Quando não era aquele carro, eram carrinhas, camiões. Sempre lá vi carrinhas e camiões. Alguns parecidos. Talvez os mesmos. Talvez tivesse clientes certos. Que paravam sempre ao passar por lá. Um dia vi lá uma Lambreta. Tentei recordar-me de quem conhecia que tivesse uma Lambreta, mas não me lembrei de ninguém.
Não sei se, ela e os clientes, conversavam alguma coisa antes de caírem em cima do colchão. Não sei se ela se lavava. Se ela se lavava antes. Se ela se lavava depois. Se eles se lavavam. Os homens. Mas cheguei a ver garrafões de água de cinco litros. Talvez fosse para se lavarem, não sei. Também não sei se fodiam sempre todos em cima do colchão, ou em pé contra uma árvore, ou simplesmente em pé, com ela dobrada, ou se era só manual, bocal, anal. Não sei. Nem sei se fumavam algum cigarro depois. Não sei se trocavam algum beijo. Acho que não há beijos nestes contratos casuais. Acho que é demasiada intimidade. Talvez os beijos estivessem reservados para o namorado, para o companheiro, para o protector. Também não sei qual era o valor do serviço. Não devia ser muito, para o género de clientes que lá via parados. Mas que sei eu do salário dos camionistas?
A última vez que lá passei estava um casal de velhotes a apanhar restos de lenha e pinhocas, precisamente naquela curva, por fora da curva, a caminho de Pataias para quem vem da cimenteira. Não vi lá a poltrona. Não sei se os velhotes levaram a poltrona se a miúda mudou de poiso. Talvez tivesse adoecido. Talvez tivesse morrido. Pensei nisso, que talvez tivesse morrido. Talvez às mãos de um cliente. Talvez às mãos do protector.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/05]

Gosto de Dançar Músicas Bonitas da Minha Infância

Hoje andei cá por casa a dançar.
Acordei cedo, com o sol a bater-me nos olhos e uma fome dos diabos. Liguei o rádio da mesa-de-cabeceira e espalhou-me The Windmills of Your Mind, na versão de Dusty Springfield, por toda a casa. Mandei o edredão para o fundo da cama com os pés e levantei-me de um pulo. Tinha vontade de mijar mas tive de refrear a vontade. Primeiro a dança. E foi a dançar que saí do quarto, percorri o corredor todo até à cozinha, fiz café, uma torrada, fumei o primeiro cigarro do dia enquanto esperava pelo café e pela torrada, no balanço de uma dança muito minha que me punha a bailar como me apetecia bailar ao som da música saída do rádio e que me inundava a casa como um perfume caro de boa disposição.
No fim da música lá fui mijar.
Desliguei o rádio, que não queria saber de noticiários, e acabei a beber a caneca de café e a comer a torrada cheia de manteiga Milhafre, manteiga que me escorria pelo queixo abaixo a cada dentada que lhe desferia.
Aproveitei a boa-disposição para aspirar a casa. Abri todas as janelas de todas as divisões da casa. A corrente-de-ar que sentia percorrer-me o corpo agradava-me. Fui à rua levar o saco do lixo. Só quando lá estava é que me lembrei que estava de cuecas. Na verdade eram boxers e passavam bem por calções. Estava calor e ninguém se sentiu incomodado com as minhas intimidades.
No regresso a casa tudo mudou.
Foi logo ao franquear a porta.
O sol foi coberto por uma nuvem cinzenta. A corrente-de-ar em casa tinha arrefecido e causava-me arrepios. Fechei as janelas todas. Começou a chover. Uma chuva que começou logo por cair violenta. Fiquei à janela da cozinha a ver a chuva a cair forte lá fora. E pensei As coisas boas nunca duram. E acabei a concluir E o Domingo é sempre o Domingo.
Agarrei num cigarro. Não cheguei a acendê-lo. Olhei-o, não senti vontade de o fumar, e acabei a amarfanhá-lo na mão. Lancei-o para o lava-loiça com um desprezo que nem parecia meu. Eu gosto de fumar.
Senti o meu corpo a desfazer-se. Senti o meu corpo a ir por mim abaixo até ao chão que tinha acabado de aspirar e desaparecer entre as frinchas das ripas de madeira.
Regressei ao quarto. Demorei a fazer o corredor. Parecia maior, mais comprido, sem fim, com um horizonte que se projectava para além de si próprio a cada passo que eu dava na tentativa de lá regressar.
Cheguei de novo à cama. Deitei-me. Puxei o edredão sobre mim, sobre a cabeça, e nem os olhos ficaram de fora.
E enquanto tentava adormecer, no quentinho confortável do edredão, pensei como gostava de dançar. Dançar sozinho. Só para mim. Sem ninguém ver. Gostava muito de dançar estas músicas bonitas da minha infância.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/29]

Uma Vez à Varanda da Sede da União Desportiva de Leiria

Era miúdo. Andava a brincar nas salas escuras e cheias de tralha, a subir e a descer as escadas de madeira entre os diferentes andares daquele antigo palacete que servia de Sede à União Desportiva de Leiria. Andava a brincar com outros miúdos, pequenos como eu. Os meus pais estavam na Sede. Numa daquelas inúmeras salas. Jogavam Bingo. Ou cartas. Bebiam café no bar. Uma cerveja. Liam as páginas enormes do jornal A Bola, que naquela altura saía três vezes por semana. Ou discutiam a semana desportiva da equipa de Leiria que militava na Segunda Divisão, anos antes de sonharem em subir à Primeira e poderem jogar contra o Benfica e o Sporting.
Era miúdo e andava a cirandar por entre as salas escuras, fechadas, que nós abríamos, e revirávamos tudo, fascinados com as tralhas que se acumulavam naqueles cantos, como um enorme sótão em casa dos avós que não tínhamos. Nem eu nem os outros. Naquela altura os velhos morriam antes de serem velhos e só raramente se conheciam os avós. Eu só conheci uma avó e ela morava em nossa casa e não tinha sótão para me deixar perder.
Mas ali estava eu. Perdido numa sala na semi-obscuridade, uma luz suave passava entre as portadas de madeira mal fechadas. Estava sozinho. Os outros andavam por lá, noutras salas. Ali havia vários caixotes abertos. Bandeiras. Várias bolas de cautchú muito velhas, já sem cor e vazias. Taças. Todo o tipo de taças. Copos de vidro. Pequenos. Grandes. Um vaso com flores de plástico. Pilhas de jornais A Bola velhos, com as páginas amareladas. Muito pó em todo o lado. Muito pó a voar nos raios de sol que entravam pela janela. Circulava por entre os caixotes cheios de pó. Punha um dedo e fazia um risco. Espirrei. Ouvi vozes. Parei e pus-me à escuta. Alguém falava muito alto. Mais que uma voz. Vinha da rua. Vozes zangadas.
Abri a porta da varanda. Saí. Senti o calor da rua a bater-me na cara quando o sol me atingiu em cheio. A claridade obrigou-me a fechar os olhos. Fui abrindo-os aos poucos. Devagarinho. As vozes mantinham-se lá. Eram vozes alteradas. Vozes de gente alterada. Vozes muito irritadas. Abri os olhos. Cheguei-me às grades da varanda. Agarrei-me às grades e olhei lá para baixo. Olhei para a rua.
Um homem, velho, com uma bengala na mão, ameaçava um outro homem, mais novo, brandindo a bengala no ar enquanto o outro gritava que o ia matar. A ele e à cadela da filha dele. Dou cabo de ti, cadela. De ti e desse velho. Eu mato-te, velho. E uma mulher, nova como o outro homem, tentava agarrar o velho. Impedi-lo de bater com a bengala no outro homem. Acho que a mulher estava a chorar. O homem novo tinha a camisa rasgada. A mulher estava com o cabelo desgrenhado e as meias de vidro rasgadas. O velho continuava de braço em riste a agitar a bengala. Eu agarrei-me com mais força às grades da varanda. E continuei a olhar. O homem mais novo abriu a camisa de rompante. Atirou com os botões fora. Esticou o peito para a frente. Começou a bater no peito enquanto crescia para o velho. Parecia o Tarzan. O cabelo comprido a cair-lhe pescoço atrás, até aos ombros. A mulher chegou-se à frente, colocou-se entre os dois e o homem novo bateu-lhe. Bateu-lhe com força. Deu-lhe um estalo com tanta força que a mulher cambaleou e caiu no chão. O velho carregou com a bengala sobre o homem novo que tropeçou e caiu. O velho, então, bateu com a bengala no homem novo caído até partir a bengala.
Eu estava assustado. Via-se algum sangue no chão da rua. Na estrada. Não passava nenhum carro. O velho, com um bocado da bengala na mão, baixou-se perto da mulher e gritou Filha! Filha! O homem novo conseguiu rastejar dali para fora, até ao passeio, e levantou-se. Olhou para o velho. Olhou para a mulher. Olhou em volta. Olhou em volta até o olhar parar em algo que lhe chamou a atenção. Era uma panela de escape de automóvel que estava abandonada junto ao muro que fazia o passeio até ao cruzamento lá mais à frente. Estava ali caída. O homem agarrou na panela, aproximou-se do velho, levantou a panela de escape acima da cabeça como se procurasse uma força divina e descarregou-a sobre a cabeça do velho debruçado sobre a mulher.
Ouvi um barulho seco. Pof. Acho que vi sangue a ser projectado em frente. O velho caiu sobre a mulher. Ouvi os gritos da mulher. Os gritos assustados da mulher. Vi o homem novo parado sobre o velho, com a panela de escape nas mãos sem saber o que fazer. Olhou de novo em volta. O olhar dele cruzou-se com o meu. Não sei se ele me viu, mas os nossos olhares cruzaram-se. O homem novo largou a panela de escape no chão, ao lado do velho caído sobre a mulher que não parava de gritar, histérica, passou a mão pelos cabelos, limpou as mãos com sangue ao que restava da camisa e foi-se embora. Foi-se embora a correr. Desapareceu.
Quando as primeiras pessoas apareceram na rua, o homem novo já não estava lá. O velho estava tombado sobre a rapariga que continuava a gritar. Vi os meus pais lá em baixo na rua. A minha mãe levou a mão à cara e vi-a vomitar. O meu pai amparou-a e voltaram a entrar na Sede da União Desportiva de Leiria.
Eu resolvi também entrar dentro da casa. E foi então que vi que tinha os dedos das mãos a fazer tanta força nas grades da varanda que tinha feito sangue nos dedos. Não me doía. Mas foi difícil abrir os dedos fechados sobre as grades. Quando finalmente consegui, entrei na sala, fechei a janela e desci as escadas à procura dos meus pais.
Uns anos mais tarde a União de Leiria subia, finalmente, à Primeira Divisão e eu pude ver os jogos com o Benfica e o Sporting ao vivo. A Sede do clube mudou para outro lado e eu, e os outros miúdos, deixámos de ter salas para andar a brincar.
Não sei o que aconteceu ao homem novo e à mulher. O velho, acho que morreu. Pelo menos foi o que percebi numa conversa que ouvi entre os meus pais. Depois, muitos anos ainda mais tarde, a União de Leiria também quase que desapareceu. Como o homem novo que agora já deve ser bem velho. Mais velho que o outro, quando ele o matou.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/18]

A Minha História com F.

Foi a minha primeira paixão. Mas não foi a minha primeira namorada. Nem sei se ela alguma vez soube que eu gostava dela. Nem sei mesmo se ela sabia que éramos da mesma turma. Um ano fomos vizinhos de mesa, mas não sei se ela sabia que eu estava ali, a olhar para ela sempre que podia.
Tudo começou na primeira classe. Era assim a nomenclatura. Primeira classe. E foi na primeira classe que a vi pela primeira vez. Fui atingido pela seta de Cupido. Vi-a e apaixonei-me. Desde esse primeiro momento sempre tive dificuldade em lhe dirigir a palavra. E quando ela, por um qualquer acaso do destino, metia conversa comigo, o gaguejar era a minha única resposta. Ficava vermelho, sentia a cara a ruborescer, e isso ainda ampliava a minha timidez transformada num gaguejar estúpido de onde só saíam grunhidos. Ela acabava por se ir embora, provavelmente a achar que eu era parvo. E era.
Chamava-se F., e é a única coisa que direi dela que não quero que, ao fim de tantos anos, alguém, finalmente, descubra o que eu nunca desvendei. Nem a ela.
Por uma única vez nos cruzámos numa festa. Uma festa de aniversário, claro, que, naquelas idades, não temos autorização para outras festas. E foi nessa festa que ganhei coragem para a convidar a dançar um slow. Mas ninguém dançava naquelas festas. Éramos novos demais. Os meninos andavam em grupo a fazer asneiras, as meninas andavam também em grupo mas aos risinhos. Nunca percebi o que significavam aqueles risinhos.
A certa altura, na única festa em que me cruzei com F., alguém pôs música a tocar. Uma dessas músicas era um slow, um tipo de música que veio a estar na moda na minha adolescência e que os rapazes e as raparigas aproveitavam para mostrar uns aos outros que gostavam de quem gostavam. Ainda me lembro da primeira vez que senti os dedos de uma rapariga a mexer-me nos cabelos, suavemente, como quem não quer nada, e a respiração húmida a tombar sobre o pescoço que começava a ficar rígido, fixo, para não alterar em nada o estado das coisas. E não, não foi, obviamente F. que me mexeu com os dedos no cabelo durante um slow. Até porque nem cheguei a dançar com ela. Mas também não digo quem foi porque toda a gente a conhece e eu não quero causar constrangimentos às raparigas que passaram pela minha vida.
Fui convidar F. para dançar o slow. Eu nunca tinha dançado. Não sabia dançar. Mas arranjei coragem no fundo mais profundo de mim e pensei Seja o que Deus quiser! (na altura andava num colégio de freiras). Para meu terror, ela disse que sim. Ela aceitou o meu convite. Estendeu-me a mão que eu agarrei cheio de vergonha. Lembro-me que, de repente, ficou muito calor. Senti a cara a ficar vermelha. Os meus músculos retesaram-se. Agarrei-lhe na mão e conduzi-a para o meio da sala onde ninguém mais estava a dançar. Vi toda a gente a olhar para mim. Os rapazes a rirem que nem uns perdidos. As raparigas a suspirarem e ansiosamente à espera de também elas serem convidadas. Os meus pés pesavam. As minhas pernas tinham dificuldade em mexerem-se. Sentia o corpo desconjuntado. A transpiração a acumular-se nos sovacos. Então parei. Ela em frente de mim. Estiquei os braços. Ela encaixou em mim. E ao meu primeiro passo pisei-a. Eu estava de sapatos de sola. Ela de sandálias. Magoei-a, claro. Ela deu um berro. Eu assustei-me e larguei-a. Ela saiu dali e foi procurar consolo junto das amigas. Eu fui a chacota dos rapazes.
Durante os quatro anos que durou a primária fui um apaixonado escondido. Nunca olhei para outra rapariga que não a F. e sabia que podia olhar para ela à vontade que o meu olhar nunca se cruzaria com o dela. Eu era invisível. Não existente.
Foi só quando chegámos ao quinto ano, no início do que é hoje o segundo ciclo, é que nos separámos. Fomos para turmas diferentes. Eu ainda a via nos intervalos. Ela continuava a não me ver. A não saber da minha existência. Mas foi só nessa altura que me livrei dessa paixão assolapada que não me permitia olhar para outras raparigas.
E foi então que conheci M. M. era uma colega de turma do quinto ano. M. meteu conversa comigo e, num intervalo, convidou-me para partilhar uma Bola de Berlim com ela. Mas essa é outra história. Essa é a história de M. Esta, de hoje, é a história de F. E a história de F. acaba aqui, no final da primária. Mesmo que, a tempos, me lembre dela. Como hoje. Gostava de me lembrar de um beijo trocado com ela. Mas isso nunca aconteceu.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/15]