Sobre uma Crónica do Vasco Pulido Valente

E, de repente, assim quase do nada, passei a ódio de estimação de um país, e saco de pancada de todos os haters que circulam pelas redes sociais.
Era Sábado. Um calor danado. Eu estava no alpendre a beber uma sangria de frutos vermelhos que escorria como um refresco. Um tempo sonolento. Eu era embalado pelo pouco ruído constante das cigarras e da festa de Verão da aldeia mais próxima e que se ouvia lá muito ao fundo, depois das várias camadas de cigarras.
Já tinha sido acordado, de manhã, com o rebentar dos morteiros a anunciar a festa. Uma festa de Agosto dedicada a um santo qualquer e aos emigrantes que vêm de França para arejar as maisons que foram construindo ao longo dos anos de muito trabalho. Depois, chegam cá, e guerreiam-se entre eles para verem qual deles põe mais oferendas no andor. Eu ouvia tudo isto à distância de quilómetros, mas que o calor e o silêncio traziam até mim.
Entre a sonolência e os copos de sangria, ia fazendo scroll no iPad, agarrado à frente dos olhos, aumentados pelos óculos para conseguir ver melhor as letras pequeninas no ecran, quando li a caixa a publicitar a crónica de Vasco Pulido Valente no jornal Público. E rezava assim Não se deve tolerar que um sindicato, ou um conjunto de sindicatos, imponha as suas condições a uma sociedade inteira. É só isso que importa saber sobre a greve dos motoristas de matérias perigosas.
E reli.
E voltei a ler outra vez. Não a crónica de Vasco Pulido Valente, que é de Conteúdo Exclusivo e está fechado ao público geral, mas este excerto retirado para promoção. E pensei O Vasco Pulido Valente está mais tonto que nunca. Ele que já fora contundente, está irrelevante. E comentei o anúncio da caixa de promoção com a seguinte nota Não, não se deve tolerar. Mas deve-se tolerar que uma associação de patrões possa impor as suas condições a um país inteiro, mesmo que daí resultem fugas a tributações.
E mal tinha postado o meu comentário já estavam a chover comentários ao comentário.
Primeiro senti-me uma pessoa muito importante, sentada à sombra do meu alpendre, a beber a minha sangria de frutos vermelhos, longe do reboliço das festas sagradas e das crónicas do Vasco Pulido Valente, mas no meio das preocupações de gente anónima que tinha lido o meu comentário como um excerto do apocalipse relatado pelo próprio Diabo do fundo do seu império de chamas na cave dos Infernos.
Depois comecei a pensar que nem eu era uma pessoa importante nem o que escrevera tinha alguma importância digna de nota maior que o desabafo sobre um artigo de alguém a quem me habituei a ver destilar fel. Foi só o que quis fazer. Fel ao fel. E porque achei que Vasco Pulido Valente estava a ser parvo. Quer dizer, mais parvo que o normal quando está a ser parvo. E que não tinha razão no que estava a dizer.
Afinal, e depois de ler alguns dos comentários ao meu comentário, descobri que Vasco Pulido Valente não era mais que uma caixa de ressonância de um grupo de gente que, afinal, sente mesmo aquilo. Gente com fel no coração e na cabeça. Gente irritada. Gente cheia de ódio. Gente que não consegue pensar para além do seu próprio egoísmo. Nada que fosse novo, não! Já há uns dias tinha assistido a algo parecido numa notícia sobre Salvini e a sua luta contra os refugiados. Salvini teria chão para caminhar em Portugal. Este país não viveu quarenta e oito anos em ditadura porque foi castrado nas suas liberdades por uma polícia de Estado muito eficaz. Este país viveu quarenta e oito anos em ditadura porque uma grande maioria das pessoas deste país foi conivente com a ditadura.
É claro que era fácil para mim pensar estas coisas sentado ali, na sombra do alpendre, com o jarro de sangria de frutos vermelhos vazio ao meu lado. Não amarrado numa cadeira de metal com um foco de luz a incidir sobre os olhos e uns cabos eléctricos a aproximarem-se, perigosamente, dos meus mamilos. Mas acabei por aceitar que os comentários ao meu comentário, provavelmente também teriam saído de personagens de cu no sofá, a barriga proeminente cheia de cerveja e ódio a vidas mais interessantes que as delas próprias.
Eu não era o centro do ódio deles. Na verdade, estas pessoas odiavam-se a si próprias por terem umas vidas tão pequenas e merdosas, solitárias, fechadas em frente aos ecrans das redes sociais.
O número dos comentários ia aumentando. Já não conseguia dar vazão a tudo o que me era destinado. A certa altura, desisti de querer saber o que me queriam todos aqueles anónimos que me prometiam ir ao focinho.
Desliguei o iPad. Acendi um cigarro. As cigarras ainda estavam em cantoria. A festa continuava, lá ao fundo.
E eu pensei Tenho de ir fazer outra sangria de frutos vermelhos.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/17]

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Queria Voltar para a Cama

Senti-me sacudir. Abri os olhos. Era ela. Estava com a mão no meu ombro. Tinha acabado de me sacudir suavemente. Viu-me abrir os olhos e disse Acorda!
Eu acordei. Ela ajudou-me a sentar na cama. Abriu as cortinas das janelas e libertou a luz do sol que me cegou momentaneamente.
Há quanto tempo não via a luz do sol?
Ela aproximou-se de mim e disse Vamos sair. Não sei como é que a minha cara expressou o meu desapontamento, mas ela sorriu e disse E não há discussões!
Ajudou-me a levantar da cama. Primeiro uma perna. Depois a outra. Os pés enfiados nos chinelos. Depois o corpo. Upa! E foi comigo até à casa-de-banho. Eu conseguia caminhar, arrastando um pouco os pés, é claro, mas conseguia caminhar. E levava a mão sobre o ombro dela para me equilibrar.
Mas eu queria era voltar para a cama.
Despiu-me o pijama. Ajudou-me a entrar dentro da banheira. Eu esperei, encostado à parede, enquanto ela colocou o banco dentro da banheira, em cima do tapete. Eu sentei-me. Ela ajudou-me. Ligou a mangueira do duche. Temperou a água. Deu-me o chuveiro para as mãos e saiu da casa-de-banho. Deixou-me sozinho para me conseguir lavar à minha maneira e não me sentir pior do que já sentia.
Quando sentiu o esquentador a desligar, veio buscar-me. Ajudou-me a sair da banheira. Secou-me o corpo com uma toalha de algodão já usada (não gosto de toalhas novas, não aderem). Amparou-me no regresso ao quarto. Perguntou-me o que eu queria vestir. Foi buscar as roupas e ajudou-me a vesti-las.
Depois saímos. Saímos de casa. E eu queria era voltar para a cama.
Entrei no carro com a ajuda dela. Depois entrou ela. Pôs o cinto. Ligou o carro. Perguntou Tens fome? E eu acenei a cabeça, na esperança que ela não notasse a minha concordância. Ligou a rádio e arrancou.
Sorri quando vi os arcos dourados. Já nem me lembrava da última vez que tive o prazer de comer um hambúrguer com as mãos, e os molhos a caírem pelos cantos da boca e o gás da Coca-Cola a fazer-me arrotar. Olhei para a escadaria e pensei que não ia conseguir subir aquilo. Mas ela foi directa ao McDrive. Para mim um McRoyal Cheese. Para ela um McBacon. Batatas fritas com ketchup para os dois. Coca-Cola para os dois também. Ela arrancou o carro mas parou logo ali, no parque de estacionamento, de frente para a estrada. Eu via os carros a passar à minha frente. Sentia-me num Drive In. A estrada era o ecran.
Estava calor. Abrimos os vidros do carro. Passava uma pequena aragem. O cheiro das batatas fritas ia embora. Trincava com prazer o hambúrguer. Lambia os molhos dos dedos. Sorvia a Coca-Cola. Ia olhando para ela. O prazer não era o mesmo que o meu. Mas notava-lhe a alegria de me ver assim, com este ar de satisfação. Quando acabei de comer, amarrotei tudo dentro do saco de papel. Ela também. Saiu do carro e foi depositar os sacos no lixo. Eu estava contente de ter saído de casa. Mas, agora, agora eu queria era voltar para a cama.
Ela arrancou com o carro. Meteu-se na auto-estrada e levou-me até à Nazaré. Fizemos a marginal de carro. Eu ia olhando tudo aquilo que já não via há tanto tempo. Subimos ao Sítio. Depois continuou para norte da Praia do Norte. Parou numa pequena arriba solitária. Não havia lá mais nenhum carro. Abrimos de novo os vidros do carro. Deixei-me inebriar pela maresia. Aquele cheiro da Nazaré é único.
Ela fumou um cigarro. Deixou-me dar uma passa. Depois sorriu para mim e disse Está calor! e sorriu. Saiu do carro, sempre a olhar para mim e a sorrir. Depois começou a correr e a descer a arriba. Deixei de a ver. Endireitei-me no banco para a procurar. Descobri-a já lá ao fundo, na praia, a acenar um adeus, e a despir-se enquanto corria, às vezes de frente, a despir-se, às vezes às arrecuas a dizer-me adeus. As peças de roupa iam ficando lá para trás, no caminho. As calças. A t-shirt. As meias. Não via as sapatilhas. Talvez tenham ficado fora do meu campo de visão. O soutien. As cuecas. Quando tirou as cuecas fê-las rodopiar por cima da cabeça e mandou-as para longe. Virou-se para mim, nua, abriu os braços e riu muito. Depois virou-me costas, foi a correr até ao mar e mergulhou na primeira onda que encontrou.
Vi-a a nadar por momentos, em frente.
Depois pensei E se ela não volta?
Eu queria voltar para a cama.
Não, não queria. Queria vê-la, ali assim, ao pé de mim. Nua. Molhada. Salgada pelo mar. Desejável. Não, eu já não queria voltar para a cama. Mas ainda tinha um longo caminho a percorrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/16]

O que É que Estás a Pensar?

O que é que eu queria, afinal? Saúde? Uma mulher muito bonita? Boa? O Euromilhões? Na verdade o menu é tão extenso que não sei dar prioridade.
Estava sentado. Estava em calções e chinelos. Lembro-me dos chinelos porque me lembro do triângulo de sombra que cortava o pé direito ao meio. Os dedos para um lado. O calcanhar para outro. Às vezes a sombra desaparecia ou ocupava o pé todo conforme o pé ia ou vinha, de uma perna cruzada sobre a outra, num nervosismo que me é constante e que se agrava quando não sei o que quero.
Tentava dar prioridade à saúde. A verdade é que, nos últimos tempos, tenho andado com um saquinho de comprimidos atrás de mim para tentar minimizar as mazelas. Sim, saúde é prioritário. Lembro-me disso cada vez que sinto as dores provocadas pelo nervo ciático. Pelo músculo do pescoço que me bloqueia os movimentos de cabeça e do braço esquerdo e me faz parecer um robot dos anos ’80 a dançar o Fade to Grey dos Visage. Mas já tenho idade suficiente para saber que vou esquecer as mazelas assim que me livrar de todas elas. A saúde só é um problema quando não a temos. Quando estamos bem, estamos bem! Com excepção dos hipocondríacos. E eu não sou um.
E entre uma saúde que pode ser importante e uma mulher, qual deveria ser a prioridade? É que é difícil decidir. Porque uma boa mulher pode fazer esquecer a falta de ar num ataque de bronquite. Eu sei porque já me fizeram esquecer de tomar o Ventilan num ataque de bronquite. E, depois, não há nada melhor para fazer inveja aos invejosos dos amigos que uma mulher bonita. E se for bonita e boa, é ouro sobre azul. Imagino, então, se para além de bonita e boa, é culta e inteligente? Para todas as outras mulheres, será, com certeza um estafermo. Para os outros homens será, de certeza, motivo de guerra. Mas não quero entrar em disputas com ninguém. Está demasiado calor.
O Euromilhões era sem dúvida a melhor aposta na lista das necessidades. Com o Euromilhões viria o resto. A saúde e a mulher boa e bonita e culta e inteligente. A minha mãe sempre me disse que dinheiro chama dinheiro. Por isso é que as pessoas ricas continuam ricas. Com excepção das que fazem cambalachos e acabam por perder tudo. Mais cedo ou mais tarde. Por vezes até nos sentamos a assistir à queda desses ídolos que, afinal, têm pés de barro. Se fosse religioso diria que Deus escreve direito por linhas tortas, mas como não sou, a melhor definição é mesmo cá se fazem, cá se pagam.
Foi nessa altura que entrou na minha linha de visão uma imperial dentro de um copo de fino, gelado, a borbulhar, com um dedo de espuma branca no topo. O copo foi colocado na mesa. Ao lado, um pequeno pires de tremoços, não daqueles bojudos que as senhoras vendem em pequenas bancas nas praças das pequenas localidades, mas aqueles pequeninos e rijos, com umas pedras de sal grosso polvilhadas por cima e ainda molhados por terem acabado de sair do balde onde estão mergulhados à espera de poderem servir os desejos de um bebedor de cerveja.
Descruzo as pernas. Perco o triângulo de luz e sombra sobre o pé e levanto o olhar. Vejo à minha frente o mar a bater na areia. Miúdos e miúdas mergulham e brincam dentro de água. Vejo, perto, o nadador-salvador. Ao fundo, o pau da bandeira. Está verde, a bandeira. Há gaivotas no mar. Gente em colchões-de-ar. Um casal passeia-se num caiaque. Passa uma velha com uma mala térmica a vender bolas de Berlim com creme. Estamos a meio da tarde. Está sol e calor. O povo desfruta deste feriado religioso a banhos. Ela dá-me um toque com o braço dela no meu e diz Acorda! Está aí a imperial!, enquanto vai chupando um Cornetto de morango.
Eu queria tudo aquilo. Eu já tenho tudo aquilo. Tenho a saúde que os meus cinquenta anos aguentam. A mulher dos meus sonhos quando acordo e abro os olhos. E dinheiro suficiente para pagar esta imperial. Que mais poderia querer?
Pego no copo de imperial e bebo um longo gole que me congela a garganta. No fim digo Ah! em jeito de satisfação. Pego em meia-dúzia de tremoços e vou comendo-os, um de cada vez, com casca e tudo, enquanto vejo o mar a refrescar os corpos do povo, ávido de libertação. Ela olha para mim e pergunta O que é que estavas a pensar? E eu olho para ela e já nem sei.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/15]

A Mulher Desaparecida

Íamos a meio da subida da montanha, quando o sol que estava fugiu e o céu escureceu de repente a ameaçar chuva. Ela ia um pouco mais à frente. Eu mais atrás. Não tínhamos roupa para a chuva. Tínhamos trazido um casaco, cada um, porque nos avisaram que Faz frio no alto da montanha!, mas nada para a chuva. Aliás, é Verão, faz sol, calor, quem é que vai pensar na chuva?
Acelerei o passo para a apanhar e não ter de estar para ali a gritar.
Olha, vem aí chuva!, disse-lhe mal consegui colocar-me ao seu lado. Ela não disse nada. Continuou a andar. E eu ainda disse Temos de encontrar um abrigo! Mas ela não me deu resposta. Continuou na sua caminhada imparável.
E foi então que a chuva caiu. Não chegou! Caiu, mesmo. Assim de repente. Com uma força doida.
Olhei em volta à procura de abrigo. Pareceu-me ver uma pequena cabana de pastores ou caçadores, não sei para quem servem estes abrigos. Se calhar a todos eles. Toquei nela a avisá-la. Apontei para o que me parecia uma cabana. Mas ela ignorou-me. A mim e à cabana. E continuou a andar. Eu fui ver se a cabana era mesmo uma cabana ou uma mera ilusão de óptica.
E era mesmo uma cabana. A porta estava aberta. Entrei. Estava quase vazia. Mas tinha algumas coisas para situações de emergência. Uma mesa. Umas cadeiras. Um pequeno fogão ligado a uma pequena bilha de gás. Que tinha gás. Um frasco de café, com café. Uma torneira. Com água corrente, se calhar de algum poço ou de algum veio freático. Pacotes de bolachas de água e sal. Uma pequena edição de bolso do Moby Dick de Herman Melville. Voltei a sair. Fui à procura dela. Chovia que Deus-a-dava. Dei umas voltas. Não a conseguia encontrar. Ainda a chamei Hey! Hey! Mas nem eu próprio me ouvia com aquela chuva, e não conseguia ver quase nada. Voltei para trás, para a cabana. Podia ser que ela a tivesse visto. Ou se lembrasse do que eu tinha dito. Talvez fosse lá ter. Talvez.
Voltei à cabana. Tirei a mochila das costas. Ainda tinha uma sandes na mochila. Cheirei o café. Acendi o fogão. Fiz uma cafeteira de café. Comi a sandes. Bebi o café. Acendi um cigarro. Olhei para a rua pela janela pequena e suja. Continuava a chover muito. Agarrei no Moby Dick. Era uma edição Inglesa. Larguei-a onde estava. Apaguei a beata. Sentei-me à mesa. Pousei a cabeça sobre os braços descansados sobre a mesa.
E devo ter adormecido.
Quando acordei, a chuva já tinha parado. O sol já tinha recuperado o céu. Olhei lá para fora. Nem uma nuvem.
Peguei na mochila e saí da cabana.
Doíam-me as costas de ter estado debruçado sobre a mesa. Mas continuei para cima. Fui à procura dela.
Um pouco mais à frente, o caminho continuava por um penhasco sobre o mar. Espreitei para baixo. As rochas. As rochas e as ondas do mar a bater-lhes com violência. Era uma imagem terrivelmente bonita. Tirei a máquina fotográfica. Fiz umas fotos do penhasco. Das rochas. Das ondas. Do mato por onde eu iria continuar a caminhar para subir a montanha. Antes de voltar a arrancar, bebi um bocado de água. E, então, fui.
Ainda demorei umas boas duas horas a chegar ao cume. Estava deserto. Eu estava lá sozinho. Ninguém ousou subir ao cume naquele dia. Mas nem ela ali estava. Dei uma volta. Olhei todos os lados da ilha. Pensei que gostaria de viver ali. Naquela solidão. Com galinhas para matar a fome e uma garrafa de vinho que nunca ficasse vazia para me matar a sede.
Podia plantar erva. Ninguém iria descobrir. Mas não sabia se o clima era o apropriado para a erva. Na verdade não sei nada destas coisas. Mas podia saber. Era só olhar no Google. Espreitei o telemóvel. Mas não havia rede.
Fumei um cigarro. Bebi mais um bocado de água.
Voltei a dar mais uma volta em torno do cume. Para ver se via alguém. Para ver se a via a ela. Mas não vi. Nem a ela nem ninguém.
E comecei a descida.
Quando regressei ao hotel, a primeira coisa que fiz foi perguntar se ela já tinha chegado.
Depois pensei que devia ir alertar a polícia. Mas foi nessa altura que decidi que, primeiro precisava de tomar um banho. Um banho quente e retemperador. Beber um copo de vinho. Petiscar um queijinho. E só então, alertar a polícia.
E é o que estou aqui agora a fazer, senhor agente. Avisar a polícia que perdi a minha mulher há uns dias, na montanha, quando começou a chover. E que amanhã tenho de me ir embora que no dia seguinte entro ao trabalho.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/08]

Elliott Smith

Acordei bem disposto. Acordei beijado pelo sol que entrava sorrateiro por entre as cortinas mal fechadas da janela. Abri um olho. O outro. Sorri ao sol. Senti o apelo do Verão e pensei É hoje que vou à praia.
Durou pouco esta sensação.
Primeiro porque mal tinha saído do banho, o sol já se tinha escondido atrás de uma nuvem escura como breu a prometer chuva.
Depois porque as redes sociais me recordaram Elliott Smith. Recordaram-me a morte de Elliott Smith pelo seu nascimento. Nasceu a seis de Agosto. Seis de Agosto de Mil Novecentos e Sessenta e Nove. Faria hoje cinquenta anos. Que não chegou a fazer. Já lá vão dezasseis anos. Dezasseis anos de ausência. Morreu em dois mil e três. Em Outubro. Num mês melancólico como convém a quem é melancólico.
Conheci-o com Figure 8. Afinal, o seu último trabalho lançado em vida. Conheci-o no fim. Só depois andei às arrecuas. E fui conhecer o resto. E depois, já depois da morte, conheci o From a Basement on the Hill, o disco em que andava a trabalhar quando morreu. Saiu algum tempo depois. Não sei o que dizer do disco. Claro que gostei. Um disco triste? Melancólico? Ele era sempre melancólico, mesmo quando a música apelava a bater o pé, com ritmo e entusiasmo. Descobrir ali a morte? Algum apelo? Não sei.
Conheci Elliott Smith tarde mas foi logo amor à primeira audição. Ouvi-o por acaso. Acho que gostei da capa do disco. Gostei da figura dele lá na capa. A figura de alguém que estava ali por acaso, porque alguém lhe disse para ficar. Mas sempre vi aquela personagem a querer ir embora para algum buraco com a guitarra na mão. Não o conhecia. Ouvi. Apaixonei-me. Quero mais, pensei.
Fui pôr o CD a tocar. Gosto muito deste disco, o Figure 8. Ainda hoje. Claro que há muito tempo que não o ouvia. Tanta coisa para ouvir nos dias de hoje que acabo por esquecer algumas das melhores coisas que fui colhendo ao longo do tempo.
Fiquei a pensar nisto tudo enquanto ouvia o disco. Fui para a varanda fumar um cigarro quando começou a chover. Não vinha tocada a vento e não me molhou. Estava-se bem na varanda. O som das colunas ainda lá chegava e lutava com o barulho furioso da cidade pela minha atenção. Mas os dois sons foram servindo de embalo. Misturaram-se um no outro. Criaram uma massa de som que servia de banda-sonora ao que não conseguia afastar da cabeça.
O sol incipiente. A chuva no Verão. A música. O prazer da música. O Elliott Smith. O Figure 8. A depressão. A morte.
Eles são sempre assim. Pessoas geniais. Pessoas magníficas. Pessoas capazes de transmitir sol em dias de chuva. Capazes de nos fazer chorar de alegria. Obrigar-nos a guerrear por um pedaço da sua genialidade. Às vezes nem os percebemos. Às vezes não queremos perceber. Às vezes mijamos para cima deles quando os sentimos frágeis. Lembro-me de Amy Winehouse no Rock in Rio Lisboa. A chacota. O riso. O gozo. O prazer de malhar quem está no chão. Eu sei porque também eu fiz o mesmo. E hoje tenho raiva de mim por isso. Por não ter percebido. Porque nunca percebemos. E quando percebemos, geralmente é tarde demais e depois só nos resta lamentar. Que é uma coisa que fazemos muito bem, principalmente em frente dos outros. Olha com eu sofro por ele! Por eles!
Este Verão está uma neura. Eu fui fumando cigarro atrás de cigarro à varanda. A tentar a chuva. Mas a chuva não me chegou a molhar. Mas molhei a cara. A morte é terrível, mas também é um fascínio. O fascínio do abismo.
Depois parou de chover. As nuvens escuras dissiparam-se e o sol regressou. Não tardou muito para estar calor. Mas para mim já era tarde. Entrei para dentro de casa e sentei-me no sofá.
Ainda estou sentado no sofá. Não me apetece ligar a televisão. O disco já chegou ao fim. A casa está em silêncio. Mas a minha cabeça não. Aqui vai uma grande confusão. Uma gritaria. Discussões. Muitos de mim a quererem dar ordens. E eu a perder o controle.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/06]

Dos Fracos Não Reza a História

A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou um fraco. Quebrado. Destruído. Mas eu conto a minha história. Vou contando a minha história. Vou contado a história de um falhado, perdido na voragem gananciosa da cidade, mas que está aqui, vergado, mas está aqui, a dizer que está aqui. Porque, afinal, os vencedores precisam dos vencidos para existirem. E eu estou aqui. Só existem por mim. Porque eu vos garanto existência pela minha derrota.
Acendo um cigarro. Puxo o fumo para os pulmões. Travo o fumo. Mas não aguento muito tempo. Tempo nenhum. Também os meus pulmões estão falhos. Tudo em mim falha. Mas sigo em frente. Continuo a fumar. Indiferente aos gritos da minha fraca respiração. Não importa que eles parem. Não tenho porque continuar a respirar. Eles vão funcionando até deixarem de funcionar. Não é assim com tudo?
Arrasto-me pela rua escura. Os prédios altos não deixam cá chegar a luz do dia. Não deixam cá chegar o calor do sol. Cheira a mofo. A humidade. Cheira a mijo. Vejo passar uns ratos junto à parede. Uma velha mija num canto, abaixada, coberta pelo pano largo da saia rodada. Não a olho e ela agradece. Conhecemos os códigos.
Vejo um puto a cheirar cola. Apetecia-me gritar com ele. Arrancar-lhe o saco de plástico das mãos. Dar-lhe um par de estalos e depois levá-lo a comer um Happy Meal. Mas sigo em frente. Não faço nada do que devia fazer. Baixo a cabeça. Uns rapazes novos, ainda com esperança na vida, descarregam um camião nas traseiras do Centro Comercial. Mais tarde irão lá gastar o dinheiro que ganharam a descarregar o que lá irão consumir. Que mundo de merda.
Olho mais à frente. O tipo está cá fora a fumar um cigarro. Eu deito fora o meu. Aproximo-me dele. Silencioso. O silêncio dos que não existem. O silêncio de quem não tem história. Na mão uma navalha. Levanto a mão. Levanto a navalha. Faço-a deslizar ao longo do pescoço. Abro-lhe um rasgão. Apanhado de surpresa leva a mão ao pescoço mas não lhe serve de nada. Já é tarde. Tarde para tudo. O cigarro cai-lhe da mão. O sangue jorra às golfadas e ele também deixa de existir enquanto desliza para o chão. Eu tiro-lhe o telemóvel do bolso das calças. Coloco-lhe o dedo, que limpo às suas calças, no telemóvel e ligo-o. Aproximo o telemóvel da fechadura electrónica e entro no Banco pelas traseiras. Faço a visita completa a todos os gabinetes do Banco. Sou invisível. Ninguém me vê. Não existo. Vou apanhando todas as poucas notas que vou encontrando. Nas gavetas. Nas carteiras dos funcionários. Nas caixas. Mesmo debaixo do nariz de toda esta gente que não me vê. E saio. Saio com os bolsos forrados com algumas notas que não são muito, mas irão dar para alguma coisa. Para ir vivendo no meu canto.
A história é contada pelos vencedores. Pelos fortes. Dos fracos não reza a história. Os fracos não têm história. Os fracos não existem. Só existem os vencedores. Os fortes.
Eu sou fraco. Mas vou contando a minha história para que a história dos vencedores não seja a única história a ser aprendida. Porque os fracos também têm história. Uma história que quer ser escutada.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/29]

Flávio com F de Folha

Três dias a tomar Nimed não me arrasaram o fígado, mas trouxeram-me de volta a bronquite. O Xoterna já não me defende. O Ventilan já quase não funciona como s.o.s.. Mando várias bombadas na tentativa de abrir os pulmões. Mas parece que estão cada vez mais fechados. Levo cada vez mais, menos ar aos pulmões que parece que estão cheios de outra coisa que não ar. Faço uma grande barulheira a respirar. Parece que tenho um saco de gatos no peito. O coração bate rápido e parece querer saltar para fora. Talvez saia pela boca junto com um vómito. Estou cansado. Parece que acabei de correr a maratona. Tenho de me agarrar à parede enquanto caminho para o carro. Tenho de sair de casa.
Sento-me no carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Doem-me as costas. O Nimed não resolveu o assunto. E tive de parar por causa da bronquite. Hoje tomei um Voltaren. Encosto-me direito no banco. Descanso. Estico as costas. Recupero o ritmo da respiração. Mas continua muito acelerada. Tento não virar nem dobrar as costas. Ligo o rádio.
Na rádio informam que há um grande incêndio activo em São Bartolomeu de Messines. Cada vez que ouço falar em São Bartolomeu de Messines lembro-me dos Flávio com F de Folha (mais tarde Supernova) o melhor nome de banda que alguma vez existiu.
Ali para os lados das serras d’Aire e dos Candeeiros também se vêem umas colunas de fumo. Há fogo, provavelmente. O país é para queimar. Burn bitch, burn!
Tenho de ir a casa da minha mãe. Prometi aspirar-lhe a casa. Provavelmente não devia lá ir. Não devia mexer com pó. Não devia agarrar no aspirador. Não devia baixar-me. Mas prometi.
Agarro o volante e espero. Espero estar em condições para arrancar com o carro. Olho para o braço. Está cheio de borbulhas. Parecem bolhas de água, mas não são. Isto é alergia ao calor. Tenho de tomar um Zyrtec. Quando voltar. Tenho os comprimidos em casa. Ainda posso voltar atrás. Vou voltar atrás. Preciso só de descansar um pouco.
Na rádio ouço alguém dizer que o Kit de Incêndio distribuído às populações das Aldeias Seguras é afinal um brinquedo para ajudar na prevenção. Acho que anda alguém a brincar com isto tudo.
Acabo por sair do carro. Regresso a casa. Tomo um Zyrtec. Abro o frigorífico e empurro o comprimido com água directamente de uma garrafa. Gosto de água fria. Gelada. Mesmo de Inverno. Sinto o corpo estranho. Doem-me os olhos. Acho que me dói tudo. Ultimamente dói-me tudo. Devo estar a chocar alguma. Agarro na caixa de Antigrippine e tomo dois comprimidos. Bebo mais um gole de água. Vou a sair de casa. Abro a porta da rua mas volto a fechá-la. Tenho de me prevenir. Agarro num copo. Verto água fria lá para dentro e mando-lhe com uma Cecrisina. Olho enquanto se desfaz. Vejo as borbulhinhas a explodir para fora do copo. Molha-me a cara com gotas minúsculas. Quando está toda diluída e a água cor-de-laranja, bebo tudo de um gole. Gosto do sabor da Cecrisina.
Agora sim, saio de casa. Vou amparado à parede até ao carro. Sento-me com cuidado. Devagar. Agarro no volante e espero que a respiração acalme. Descanso. Penso que não devia ir a casa da minha mãe. Penso que devia ir para a cama. Enfiar-me debaixo do edredão de Verão e esperar até estar outra vez bem. Sim, porque tudo acaba sempre por passar. Mas não posso. Não posso não ir a casa da minha mãe depois de lhe ter dito que ia lá. Tenho de ir aspirar a casa dela.
Estou cansado. O país está a arder. Os ministros respondem mal às pessoas. Já não sei que comprimidos tomei. Já não sei que mais comprimidos podia tomar para ficar melhor. Se calhar devia fumar um charro. Talvez me acalmasse. E então, volto a pensar de novo nos Flávio com F de Folha e penso Porque raio é que as coisas boas acabam tão depressa? Agarro o volante e espero acalmar. Se melhorar, hoje vou ver um concerto do Zé Café & Guida. Tenho de viver o meu Verão. Enquanto estou vivo.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/26]