Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Em Berlim com o Tiago Baptista

Um gajo escolhe não ter família. Um gajo escolhe não ter mulher nem filhos nem pais, que já morreram e foram enterrados em sítios que não recordo, não volto lá, nunca voltei lá, mas pago para que limpem as campas todos os meses e coloquem flores frescas em dias festivos, escolho não ter amigos nem amantes, só sexo bruto e furtivo de vez em quando, quando a necessidade grita as suas vontades, e depois tem de levar com as famílias dos outros? Com os filhos mal-educados dos outros, as mulheres histéricas dos outros, os maridos carrancudos das outras?
Tudo começou quando quis sair de casa. Eu já sabia que não devia sair de casa. Sair de casa é sempre um problema. Coloco-me nas mãos dos outros. Em convivência com os outros. Uma chatice. Um problema. Vários problemas. As pessoas carregam problemas para cima dos outros. Para cima de mim.
Estou a chegar ao Festival de Banda-Desenhada da Amadora. Há um tipo que se lança passadeira fora, de auscultadores nos ouvidos, a mexer no telemóvel e nem olha para a estrada. Aquele conselho Olhar para a Esquerda, Olhar para a Direita, está em desuso. O tipo não olhou para lado nenhum. Mas eu vinha a andar na estrada, devagar mas fluído, numa estrada que estava livre e a passadeira não era entrave e tive de travar a fundo para não passar por cima dele. Chamei-lhe Cabrão do caralho! mas ele não me ouviu. Não era para ouvir. Era mais para me libertar da raiva que me subia do estômago à boca e depositava um sabor ácido na língua. Ia a carregar no acelerador, a primeira metida, quando se lança uma moça, com carrinho de bebé, à passadeira, o carrinho à frente para lançar o medo e voltei a travar. O carro foi abaixo. Bati com as mãos no volante. Espumei. Gritei impropérios mas em silêncio. Não saltaram da boca para fora. Ficaram lá. Na cabeça. As pessoas têm a mania. Acham que a passadeira as defende da chapa dos carros em aceleração. Talvez um dia tenham azar.
Estaciono. Entro na exposição. Começo lento. Com calma. A absorver os desenhos. As pranchas originais. Descubro a exposição Berlim – Cidade sem Sombras de Tiago Baptista e fico contente. Gosto muito dos desenhos do Tiago. Gosto muito das pinturas do Tiago mas, as banda-desenhadas, são simplesmente geniais na sua simplicidade aparente de traço simples e estórias banais, mas que refletem a vida dele, a minha, a de todos nós, tomando posições políticas, tendo opinião, mostrando como a vida pode ser espectacular e uma grande merda. Tudo ao mesmo tempo. Yin e Yang. O dia e a noite. O belo e o feio. O frio e o quente. O génio e o burro. A vida é dual. Foda-se! O Tiago é grande. Obrigado pelo que me dás.
E estava eu nesta oração de agradecimento à magia de Tiago Baptista, quando chegaram as famílias. Criancinhas a correr por cima de tudo e de todos. Aos berros em altos decibéis e os papás idiotas, que tudo deixam e permitem, porque as crianças são filhos preferidos de Deus, a sorrirem perante a petulância infantil.
Mais à frente vejo umas crianças mexer nos cenários. Em elementos dos cenários. Perante a passividade dos papás. Benevolentes. Há uma exposição com dinossáurios. Uns ovos gigantes. Ovos de dinossáurios. As criancinhas pegam nos ovos e partem-nos. Olham para os pais. Que sorriem perante as brincadeiras dos rebentos, olham para mim e fazem um sorriso amarelo. Elas são assim, parecem dizer. Que podemos fazer? Eu viro costas e vou-me embora.
As pessoas são mesmo uma merda.
Ainda tento ver mais umas exposições. Mas não consigo. As famílias tiraram o dia para me azucrinar a vida. Estão aos magotes em todo o lado. Gritam. Tiram fotografias. Jogam a apanhada. Às escondidas. Berram. Choram. Comem batatas-fritas. Comem algodão doce. Comem pipocas javardamente. Deixam cair pipocas no chão. Sinto os pés a pisarem as pipocas e a fazer barulho crac-crac. Estou irritado. Não me consigo concentrar. Não consigo apreciar. Não consigo olhar.
Vou-me embora. Regresso a casa.
Em casa pego no livro Berlim do Tiago e viajo. Viajo com ele. Sem que me chateiem. Gosto do Tiago. Tem um traço maravilhoso e conta estórias de uma simplicidade desarmante. E apaixonada. E deixo-me ir com ele.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]

A Pequena Manifestação dos Miúdos pelo Pouco Futuro que Me Resta

Eu estava à janela quando os vi passar. Vinham em grupo. Um pequeno grupo caótico. Um grupo de muitos pequenos grupos mais pequeninos. Mas vinham todos ao mesmo. Pequenos grupos a formar um pequeno mas maior grupo a apelar ao mesmo. Andavam aí pelos doze, treze, quatorze anos, talvez quinze. Mais raparigas que rapazes. Deve ser aquele amadurecimento precoce, diz-se. Os rapazes levam a meninice mais longe. As raparigas crescem mais cedo. Ainda vão dominar o mundo. Só ainda não o fizeram por pena. Pena de nós. De sermos ultrapassados sem apelo nem agravo. E depois ainda vão ter de nos dar mimo enquanto choramos agarrados à saia da mãe. Elas são mais na escola. Tiram melhores notas. São mais aplicadas. Quer dizer, é o que eu acho numa análise empírica feita aqui assim à minha volta. Não fui à Pordata. Estou à janela a fumar um cigarro enquanto vejo os miúdos a caminho da sua manifestação, não vou agora lá dentro, ao computador, à internet, para conferir algo que acredito ser verdadeiro. Se estivesse a escrever para um jornal lá teria de ir confirmar se a afirmação é verdadeira ou não para não me acusarem de Fake News. Mas isto é a minha cabeça a debitar ideias para mim mesmo. Ninguém está a controlar a minha cabeça, pá. Posso dizer o que quiser. Ca-ra-lho-Fo-da-se! Pronto! Estás a ouvir-me, mãe? Não, claro que não! Por isso posso dizer tudo o que me apetecer. Mas não vou muito mais longe porque o que me apetece dizer é mesmo isto que vejo e confirmo: esta geração, esta geração muito novinha é muito mais aguerrida que as que a precederam. A minha, então?! A minha ajudou a foder o mundo. Eu, se calhar, também, não sei. Mas não sou ninguém. Nunca fui. Não sou líder. Nem chefe. Não sou responsável por nada nem ninguém. Sempre cumpri ordens. Era essa a minha função. Cumpridor de ordens. Talvez também seja culpado pela minha inacção. Talvez. Olha, processem-me! Mas agora, agora gosto de olhar pela janela e ver estes miúdos a agitar as coisas. A exigir. A exigir o que é deles.
Ia mandar a beata pela janela e parei a tempo. Mesmo a tempo com a beata ainda presa entre dois dedos. Desatei a rir. Lembrei-me de uma amiga que se irrita comigo por estar sempre a mandar as beatas pela janela fora, para a rua. Depois, lembrei-me das multas. Agora pagam-se multas por deitar beatas para a rua. Em boa altura parei o que ia fazer.
Fui à cozinha. Apaguei a beata no cinzeiro. Acendi outro cigarro. Gosto de fumar. Faz-te mal, rapaz, ouvia a minha mãe dizer. Não fumes. Mas gosto desta companhia. O cigarro conversa comigo. Dá-me colo. Ajuda-me a criar. A desenrolar raciocínios. E então, na companhia de um copo de vinho tinto, temos uma orgia em casa. Fui ver o que havia no armário. Uma garrafa já encetada de Segredos de São Miguel. Bom, era alentejano. Mau, não seria. E não foi. Pelo menos enquanto resistiu às minhas investidas.
Voltei à janela com o copo de vinho. Acendi outro cigarro. A rua estava calma. A manifestação já tinha passado. Parecia que tinha levado a cidade de arrasto. Não se via ninguém. Parecia Domingo à hora da missa. É assim que imagino a cidade ao Domingo à hora da missa. Nunca confirmo. A essa hora estou deitado, a dormir. A dormir e a sonhar como será a cidade aquela hora, à hora da missa. E era isto que eu via. O vazio. O abandono. O silêncio.
Mas decidi ficar por ali à janela à espera que regressassem de lá para onde tinham ido. Os regressos são, normalmente melhores. As pessoas vêm mais soltas. Mais alegres. Satisfeitas com o que fizeram, especialmente se fizeram algo em que acreditam. E se fizeram bem. E eu acho que fizeram.
Fui buscar o cinzeiro para ao pé de mim.
Ainda aqui estou. Eles ainda não passaram, mas hã-de passar. E eu vou bater-lhes palmas e dizer-lhes que o mundo é deles. Que o agarrem. Mas eles vão achar que estou bêbado. E vão dizer O raio do velho está bêbado. Não! Vou ficar calado mas a gritar por eles cá dentro. Afinal são eles que estão a lutar pelo pouco futuro que ainda me resta.

[escrito directamente do facebook em 2019/09/27]

Respirar

Ar. Preciso de ar. Preciso de respirar.
Acordo com falta de ar. Sinto os pulmões cheios e não consigo fazê-los funcionar. Preciso de respirar. Inspirar. Expirar.
Está escuro. Não vejo nada.
Tento acalmar. Olho em volta. Foco. Procuro um tom mais claro. Tento encontrar uma janela.
Ar. Ar.
Descubro uma pequena claridade. Caminho até lá. É uma janela. Tento abri-la, mas não consigo. Parece fechada. Bloqueada.
Olho para fora e vejo que não há luz na rua. Não há luz na cidade. Não há luar. Há uma tonalidade um pouco mais clara.
Preciso de ar. Preciso de respirar.
Começo a entrar em pânico. Arranho o pescoço. O peito. Preciso de ar.
Fecho as mãos. Formo punhos. Soco o vidro das janelas. Tento partir o vidro das janelas. Magoo-me. Mas insisto. Soco o vidro. Insisto. Outra vez. E outra. Um murro. Com força. Outra vez. E sinto o vidro a partir-se. E ouço. Ouço os estilhaços. E sinto. Sinto as garras a rasgarem-me a pele. A rasgarem-me a carne. Os dedos feridos. Os dedos partidos.
Deixo entrar o ar pelo vidro partido. Aproximo a boca. Tento respirar mas não consigo. Continuo a não conseguir respirar. Sinto o fresco da rua a bafejar-me a cara mas não consigo respirar.
Levo de novo as mãos ao pescoço. Arranho-me. Tento encontrar abertura para o ar. Tento abrir caminho até aos pulmões. Mas não consigo. Bato no peito. No meu peito. Bato com força.
Levo os dedos à boca. Mordo-me. Aparo as unhas com os dentes. Arranjo navalhas. Agulhas.
Rasgo o pescoço. Rasgo o peito, mas nada funciona. Não consigo respirar. Começo a sentir a cabeça a fugir de mim.
Sinto que me estou a perder.
Rasgo os pulsos com as unhas afiadas pelos dentes. Rápido, mais rápido. Não consigo respirar. Não consigo pensar. Não consigo raciocinar.
Rasgo os pulsos com os dentes. Preciso de qualquer coisa. Qualquer coisa que me livre desta prisão. Rasgo. Rasgo com os dentes. Rasgo com as unhas.
Sinto o sangue a sair de mim. A sair em golfadas.
E sinto o ar a entrar. Finalmente sinto o ar a começar a entrar. O peito a esvaziar. A desinchar. A permitir começar a respirar. Sinto o ar. Ar. Sinto o ar a entrar. A entrar lá dentro. Dos pulmões. Devagar. Aos poucos. Ar.
Sinto-me a ir. Sinto a cabeça a perder-me. Sinto-me desfalecer.
Sinto o sangue a correr para fora de mim. Sinto o ar a entrar dentro dos meus pulmões. Sinto-me acalmar.
Estou a desfalecer, mas estou calmo.
Sinto-me ir. Deixo-me ir.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/20]

Gente Doida

Já estava há duas semanas a viver naquela casa perto da aldeia, a casa que um amigo me emprestou por uns tempos, tempos indefinidos, para eu escrever, esquecer mágoas e poupar o pouco dinheiro que me restava, quando eles bateram as palmas no portão ao fundo do quintal. A casa não tinha campainha. E eu não estava à espera de visitas então, não estava muito preocupado com a falta de sinalização para alguém que chegasse se pudesse fazer anunciar pois, com certeza, não seria para me visitar. Afinal, o casal bateu palmas, eram muito expeditos e sim, vinham visitar-me. Mais concretamente, vinham convidar-me para ir jantar a casa deles. Eu e a minha senhora Há uma senhora, não há?, perguntou ela sorridente. E eu disse que não. Era só eu. E era o suficiente para me chatear. Eles fizeram um sorriso amarelo. E ela continuou Os miúdos foram para um Festival de Verão, temos dois filhos, não é? um casalinho, nem sabemos já qual foi o Festival, há tantos, não é?, enquanto punha a mão sobre o meu braço, o marido a olhar, nós os três à entrada, no portão, que não os mandei subir até ao alpendre, e depois continuou E como somos vizinhos resolvemos vir dar-lhe as boas-vindas e convidá-lo para jantar. Amanhã. Não precisa de levar nada. Nem sobremesa. Nem o vinho. Basta aparecer.
Eu não estava com muita vontade de relacionamentos com a vizinhança. Também foi por isso que fui para ali, para aquele Ku de Judas, longe de tudo e de todos. Apetecia-me declinar o convite. Dizer não. Mas o olhar da mulher não mo deixou dizer. E acabei por murmurar Sim… assim, em suspenso, como se ao aceitar daquela forma tão sumida não me estivesse a comprometer. Mas estava. E sabia que estava.
E no dia seguinte, lá acabarei por descer o quintal até ao portão, fiz a estrada até casa deles, mais ou menos dois quilómetros, nos quais acabei por fumar quatro cigarros, numa média de um cigarro por cada quinhentos metros, e toquei à campainha. A casa deles tinha campainha. Apareceu um cão a ladrar ao ouvir a campainha. Não reconhecia a raça do cão. Mas não era daqueles muito amigáveis. O dono acabou por descer até à porta para agarrar na trela do cão e me fazer entrar.
Entrei.
Acabei por levar um saco de plástico com fisális que apanhei lá no quintal e que nascem assim, de natureza espontânea, aos molhos, mais do que lhes consigo dar andamento. Ela agradeceu. Disse que os ia juntar à salada. Colocou-me um copo de vinho branco nas mãos, deixou-me com o marido e voltou para dentro de casa.
Eu acabei por ficar no jardim com o marido. A beber um copo de vinho branco. Ele também. Também tinha um copo de vinho branco nas mãos. E conversámos. Ele conversou. Empregado bancário. Tinha ido para a delegação da aldeia nos anos noventa. Acabaram por comprar aquela casa ali. Tiveram os filhos. Dois. Um casalinho. Estavam num Festival de Verão qualquer. Ela dava aulas ao secundário. Geografia. Deixou de dar e dedicou-se ao fabrico de compotas que vendia na aldeia e pela internet. Gostavam da calma da aldeia. Às vezes sentiam falta de gente com quem conversar. Gente da mesma idade. Com os mesmo gostos. Entretanto o Banco resolveu encerrar a delegação da aldeia. Ele tinha de voltar para a cidade. Ao fim de vinte anos tinha de regressar à cidade. Ou pedia a reforma. Não sabia o que fazer. A mulher também não estava a ser de muita ajuda. Aliás as coisas entre eles já não eram as mesmas. Ele sentia-se cansado dela. Imaginava que ela também estivesse saturada dele. Foi por isso que me foram convidar para jantar. Para mudar rotinas. Fazer algo de diferente.
E eu senti-me estranho. Um estranho no meio de estranhos já com informação que não queria ter. Não queria saber nada daquilo. Não queria aquela intimidade. Não queria ser puxado para dentro de uma vida que não era a minha.
Mas já era tarde. Já estava ali. De copo na mão. De ouvidos abertos à lamúria alheia.
Bebemos aqueles copos. Bebemos mais dois. Ela juntou-se a nós. E depois fomos até ao alpendre onde estava a mesa de jantar.
Comemos um lombo assado no forno com alecrim. Um puré de maçã. Uma salada com rúcula, tomate, requeijão esfarelado e os fisális. E esvaziámos várias garrafas. Agora de vinho tinto.
Já tínhamos jantado. Estávamos os três um pouco alterados com o vinho. Lembro-me de me descobrir a falar muito depressa e muito alto. Não costumo ser assim. Tentei acalmar-me. E foi quando percebi que não era eu que estava alterado. Era ele. E ela. Quando percebi, estavam a discutir um com o outro. Não sei em que altura é que a conversa descambou para aquilo. Acho que se esqueceram de mim. Soltaram os seus problemas. Eu não conseguia seguir a conversa. Só o barulho que faziam. Acendi um cigarro. Voltei a encher o meu copo com o resto de uma garrafa que deixei cair ao chão, e não se partiu, e recostei-me na cadeira a olhar para eles e a pensar se não seria a altura de me ir embora, quando ele pegou no garfo, levantou a mão acima da cabeça e espetou-o com força na mão dela que estava pousada na mesa mesa.
Ela gritou. Eu dei um pulo na cadeira. Ele assustou-se com o próprio gesto. Largou o garfo espetado na mão dela. Começou a chorar. Levantou-se a chorar como um bebé. Ela só dizia asneiras. Maldizia a vida e a ele. Eu deixei cair o cigarro da boca para o chão. E ela disse Vai buscar a chave do carro, caralho! e ele foi. E ela levantou a mão com o garfo espetado e disse Foda-se! Eu reparei que o garfo não tinha espetado na mesa. Já não era mau. Podia ter sido pior. Podia ter preso a mão à mesa.
Ele chegou com a chave do carro. Ela virou-se para mim e disse Desculpa, mas temos de ir ao hospital. E saíram a correr do alpendre para o carro. Ele gritou Quando saíres fecha o portão para o cão não sair. Amanhã telefonamos. E vi o carro arrancar.
Eu acendi outro cigarro. Acabei o copo de vinho. Virei todas as outras garrafas e descobri que estavam todas vazias. Apanhei os fisális que ainda estavam na tigela da salada e comi-os. Voltei a acender outro cigarro e saí de casa deles. Fiz o caminho de regresso a casa devagar. A acender uns cigarros nos outros. A pensar. A pensar nem sei bem em quê. Com músicas dos anos oitenta a tocar na cabeça. Porquê? Porquê músicas dos anos oitenta?
Quando cheguei a casa, arranquei o cabo do telefone fixo da parede. Desliguei o meu telemóvel. Fui à cozinha buscar uma garrafa de vinho e sentei-me no alpendre a fumar outro cigarro. Estava a fumar muito. E de repente percebi o que estava na minha cabeça a fermentar a algum tempo. Era uma frase, uma ideia Esta gente é doida! E lembrei-me porque é que tinha largado a cidade e toda aquela gente que conhecia.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/01]

No Vale Furado

Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.
Cá de cima olhei lá para baixo e suspirei. A praia é muito boa mas, o que tenho de descer e, mais tarde, subir, é um drama. A praia do Vale Furado fica lá em baixo, a meio caminho do Inferno. A descer pequenos degraus feitos na encosta. Alguns em cimento. Passamos por casas construídas, sabe-se lá como, naquelas encostas íngremes que o fogo já beijou há dois anos. Mas ainda por lá se vêm os restos do incêndio. Um verde que não regressou. Árvores carbonizadas nunca cortadas. Mas o que impressiona mais são mesmo as falésias. O Vale Furado fica lá em baixo. Espreito do pequeno e arcaico miradouro para a quantidade de gente que se espalha ao longo de uma praia que é pequena junto às arribas, junto ao caminho vencido ao penhasco para acesso, mas que depois ganha toda a dimensão até à Praia do Norte onde os surfistas arriscam a vida a desafiar Deus.
Suspirei fundo. Suspiro fundo sempre que desço ao Vale Furado ao pensar no que vou ter de subir no regresso. Dou uma olhada ao Mad e penso que, no regresso, irei lá beber uma cerveja, comer uns tremoços e recuperar as forças gastas a subir desde lá do fundo.
Desci. Estendi a toalha. Fui ao mar. Mergulhei. A água estava boa. Fria como sempre. A costa Atlântica nunca me deixa ficar mal. A água do mar está sempre fria. Sinto-a nos ossos, mas gosto. Gosto de a sentir a fustigar-me. Regressei à toalha. Estendi-me ao sol. Primeiro de costas. Depois de frente. E, cada vez que secava, repetia a operação. Mergulho. Duas ou três braçadas. Regresso ao bronze. Por vezes dormito. Ouço as vozes da praia muito ao longe, quase um embalo. Ali nunca há muita confusão. Mesmo quando está cheia, como hoje. Para ali vai gente que procura algum recato. Alguma calma. Alguma tranquilidade. Mas há famílias. Às vezes até cães. Mas não há música. Ali consegue-se ouvir o barulho das ondas a bater na areia. E sinto-as subir, lentamente, até me baterem nos pés e obrigarem-me a chegar um pouco mais para cima na areia.
Era já final de dia. Estava na hora de ir embora. A cerveja estava à minha espera no Mad. Deitado de costas, encolhi o corpo para despir os calções molhados, com que tinha ido ao banho, para vestir uns calções secos. E senti. Quando encolhi as pernas para despir os calções e ficar nu, ali no momento imediatamente antes de conseguir enfiar os calções secos, senti o estalo. Parecia uma pancada seca. Algo acontecera nas minhas costas. Uma dor horrível fez-me gritar Foda-se! em altos berros. Fiquei assim encolhido, nu, com os calções secos na mão, sem me conseguir mexer.
Fui esticando, devagar, as pernas até ficar estendido na toalha. Mas estava cheio de dores. Pedi ajuda, ao lado, para vestir os calções. Voltei a pedir ajuda para me levantar. Foi muito difícil, levantar-me da toalha. Não me consegui baixar para a apanhar e sacudir. Tive de voltar a pedir ajuda. Não conseguia apanhar a toalha nem os chinelos.
Comecei a caminhar devagar ao longo da areia para junto do sopé da encosta. Mas as dores eram imensas. Eu estava vergado sobre mim. Levava uma mão nos ombros dela. O meu peso sobre os ombros frágeis dela. E disse Não posso continuar. E deixei-me cair devagar na areia. Fiquei de joelhos. Dobrado. Não conseguia virar-me. Não conseguia sentar-me.
Ela foi pedir ajuda aos nadadores-salvadores da praia. Eles vieram, solícitos. Tentaram levantar-me. Um de cada lado. Mas eu não conseguia erguer o corpo. Voltaram a deixar-me no chão. De novo de joelhos. Dobrado sobre mim. Os nadadores-salvadores chamaram os bombeiros. Estavam numa praia ali perto e não demoraram a chegar. Mas não conseguiram melhor. Era impossível levarem-me de maca a subir aquele penhasco do Vale Furado. Demasiado íngreme. Demasiado longo. Demasiadas voltas e curvas e curvinhas. Troços muito estreitos.
Os bombeiros sugeriram um helicóptero.
A noite estava a chegar. Eu sentia-me nervoso. Cheio de dores. Queria fumar um cigarro. Queria beber uma cerveja no Mad. Queria ir para casa tomar um banho de água doce e quente. Queria sentar-me no sofá a ver o Trio de Ataque. Queria não estar ali.
A verdade é que não havia grandes soluções. Ainda pensaram fazer-me subir de maca por um guindaste. Um bombeiro sugeriu subir comigo às costas. Mas todas as soluções não eram de facto solução. Era impossível levarem-me lá para cima da maneira como eu estava. E como é que eu estava? Nem sei bem. Estava cheio de dores nas costas, mas ela passava as mãos nas minhas costas e eu não sentia nada. Não conseguia sentir onde é que me doía. Como se fosse uma dor interior. À qual não se conseguia ter acesso. Nem conseguia perceber se era uma dor nos ossos ou nos músculos. Era ali, naquela zona, e doía-me horrores. E eu continuava de joelhos na areia, dobrado sobre mim.
O sol já tinha morrido no horizonte, há já algum tempo, quando, finalmente, se arranjou um helicóptero disponível. Estavam todos a combater os incêndios na zona de Vila do Rei, mas um helicóptero teve de ir a Lisboa e fez um desvio para me acudir.
Fui levantado numa maca para dentro do helicóptero que ficou a pairar lá em cima, por cima da praia do Vale Furado.
Enquanto era puxado só pensava na dor de costas e nem aproveitei para apreciar a paisagem. Mais tarde, depois de tudo passado, iria com certeza ficar irritado comigo por não ter olhado o mar, o horizonte quase a desaparecer na escuridão da noite, o manto das estrelas, as poucas casas nas arribas do Vale Furado e o Mad visto do ar, naquela que seria uma ocasião única. Não, naquele momento só conseguia estar de olhos fechados a pensar no quanto me doíam as costas e que não tinha posição confortável. Até deitado estava desconfortável. E ia amarrado. Detesto sentir-me amarrado. Detesto sentir-me com dores e amarrado e não poder mexer-me e tentar descobrir uma posição mais confortável.
Dentro do helicóptero senti-o a deslocar-se no ar. Ouvi o barulho das hélices a girar com toda a força. Aquilo é uma máquina impressionante.
Fui trazido ao hospital de Santo André.
Lembro-me ainda de ter aterrado no heliporto do hospital de Leiria. Depois devo ter adormecido. Não sei o que se passou. Está tudo em branco.
Acordei horas mais tarde.
Estou deitado numa cama especial de barriga para baixo. Há um buraco onde tenho enfiada a cara. A cabeça está presa. Não me mexo. Ao fundo, à frente da minha cara, tenho o iPad. Falo com a SIRI. E começo a ditar-lhe uma história para publicar no Facebook e, mais tarde, no blog Estórias da Violência. E começo assim Desci ao Vale Furado. Era Domingo. Dia de descanso. Estava calor. Fui à praia. Ao Vale Furado.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/21]

Pressa

Tinha pressa em sair de casa. Tenho sempre pressa. Ela estava à minha espera e estava ansiosa. Mas quanto mais depressa mais devagar. Olhei em volta e pensei que não conseguia sair e deixar a casa assim.
Comecei a correr. Fiz a cama. Na verdade puxei as orelhas ao edredão. Tirei a louça da máquina e arrumei-a. Pus lá dentro a louça suja que estava no lava-louça. Nem a passei por água. Aqueci, no micro-ondas, uns bocados de carne para o cão. Quando a fui levar, os gatos foram atrás de mim a queixarem-se que também queriam comer. Depois fui abrir duas latas de atum e fui dá-las aos gatos. Apanhei a roupa que estava no estendal. Larguei-a em cima da cama. Passei pela casa-de-banho para lavar os dentes e vi a toalha no chão. Apanhei a toalha. Tirei os cabelos do ralo. Lavei os dentes.
Saí de casa. Entrei no carro. Olhei-me no espelho retrovisor. Foda-se. Estava em tronco nu. Saí do carro. Voltei a casa. Reparei que estava no trinco. Porra! Vesti uma camisola. Saí. Fechei a porta à chave. Entrei no carro. Arranquei. Um sinal sonoro. O carro estava na reserva. Tinha de ir à Estação de Serviço. Fui. Agarrei na agulheta. Parei. Olhei para o depósito. Parei a tempo. Era gasolina. Queria gasóleo. Tinha de ter mais calma. Tinha de pensar no que estava a fazer. Mudei de agulheta.
Enchi o depósito. Paguei. Fui embora.
Entrei na auto-estrada. Voei pela estrada deserta. Quando saí, a máquina de pagamento electrónico acendeu a luz amarela. Devo ter algum problema com a Via Verde. Ou a conta sem dinheiro.
Cheguei a casa dela. Parei o carro. Fui até ao café. Ela estava lá sentada. Bebia uma meia-de-leite e uma torrada em pão de forma. Beijei-a. Perguntei-lhe Então? e ela respondeu-me A quadrilha está lá em cima, em casa. Querem roubar-me o ouro. Que ouro? perguntei. O que acham que eu tenho, respondeu.
Levantei-me e disse-lhe Vou lá acima. Ela olhou para mim assustada e disse-me Tem cuidado. Eu mostrei-lhe a mão no bolso das calças e disse-lhe Tenho aqui uma pistola. Vê lá o que fazes. Não te desgraces.
Eu saí do café. Subi a casa dela. Estava tudo tranquilo. Voltei a descer.
Então?, perguntou-me. E eu disse-lhe Já podes voltar para casa. Dei dois tiros para o ar e eles fugiram. Não ouviste os tiros? Ela olhou-me admirada e abanou a cabeça.
Depois pedi uma torrada para mim. E um sumo de laranja natural. Perguntei-lhe se ainda tinha Xanax. E Zolpidem. Disse-me que sim. Acenei com a cabeça.
O tempo estava bom e acabámos por ficar um bocado ali no café.
Mais tarde ela disse-me Vai-te embora que eu agora vou para casa descansar um bocado. Ela pagou o pequeno-almoço. O dela e o meu. Deu-me um beijo. Disse Obrigada por vires cá. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/07/07]