Destilar Ódio

Agora ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Uns têm a razão pelo seu lado. Os outros são sempre umas bestas. Uns são comunistas. Os outros, uns fascistas. E há quem berre. Uns porque sim, porque assim fazem-se ler com mais acuidade. Outros só porque não perceberam que estão com o caps lock. Ainda há quem se ria sarcasticamente com kapa (kkkkk), que é afinal uma forma brasileira de rir (mas não sei porquê). Uns defendem o indefensável. Outros atacam o inatacável. Todos cheios de certezas e razões. De repente, não há meios termos nem espaço para dúvida.
Um tédio, é o que é. Bocejo enquanto faço scroll.
As redes sociais parecem-me infrequentáveis. Mas o problema não são as redes sociais. São as pessoas. São sempre as pessoas.
Há sempre um Tulius Detritus ao virar de uma esquina, num comentário a um post, numa pequena opinião sensaborona e sem grandes veleidades. E, depois…
Um tédio, é o que é.
Não fosse o copo de vinho que seguro na mão esquerda nem o cigarro preso nos dedos da mão direita, a mesma com que faço scroll, e já tinha atirado o iPad contra a cabeça do gato. Está ali à frente a lamber o cu e depois pára a olhar para mim. Eu olho-o de soslaio para que não perceba que estou a olhar para ele, mas o cabrão olha para mim e depois continua a lamber o cu.
Faço mais um scroll e canso-me. Não se passa nada mais para além do ódio, e das palavras amargas cuspidas por uns e por outros.
Toda a gente cheia de razão e ninguém com dúvidas.
Um tédio, as redes sociais, as pessoas, a vida.
Toca o telemóvel. Olho para ele em cima da mesa de apoio. Sem identificação de número de chamada. Agora é uma constante. Os call center das telecomunicações a quererem vender-me nada. Um nada como se fosse tudo. Quando peço fibra óptica dizem que não é possível. Não é rentável. Satélite. Tem de ser por satélite. Que está sempre a falhar, digo eu. Esmifra-se para me dar três ou quatro mega, sublinho. E o silêncio do outro lado. Mas pago o mesmo. Pago o mesmo que os que têm fibra óptica.
Um tédio, este capitalismo.
E ainda acham que está tudo bem. Concorrência, dizem. A concorrência favorece o cliente, dizem. Mas não há concorrência. Há concertação. Mesmo que camuflada. Lembro-me dos anos em que percorria as auto-estradas para norte e para sul. O mesmo preço de combustível nas diferentes estações de serviço. Concorrência?
E, de repente, percebo que também eu sou um tipo maldisposto. Também estou azedo.
Ora, porra!
Por enquanto ainda nos insultamos pelas redes sociais. Só pelas redes sociais. Quanto falta para começarmos a colocar a mão na cara do outro? Quanto tempo para agarrarmos num martelo, numa faca, num revólver e dispararmos sobre o outro?
Um tédio, esta vida cheia de razão.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/08]

Em Estágio

Entrei em estágio. Estou a vinte e quatro horas do último jogo do campeonato e entrei em estágio. Estou preparado para o que aí vem.
Sentei-me no sofá. Estou em frente à televisão. Agora está desligada porque não quero desconcentrar-me. Estou focado no jogo. No último jogo do campeonato. No jogo que pode definir o título.
Fui à Nazaré comprar tremoços. Subi a São Pedro de Moel para comprar pevides. Fui ainda um pouco mais acima, à Figueira da Foz, para comprar uns camarõezinhos. No regresso a casa passei pelo Modelo-Continente e comprei uma grade de minis Sagres. Um volume de Marlboro Soft Pack. E gasolina para o Zippo.
Vesti a minha camisola imitação dos anos ’60. Encarnada. Debruada, na gola e nas mangas, a branco. De algodão. Com o emblema cosido à esquerda, sobre o coração.
Estou sentado no sofá. A televisão desligada à minha frente. Bebo um copo de vinho. A cerveja é para amanhã. Fumo um cigarro.
Penso que ainda faltam vinte e três horas para o jogo. Queria ligar a televisão, para ver o que se passa. Mas não quero condicionar a vontade. Não quero ouvir as especulações. Não quero perceber o nojo. Mas estou a ficar cansado de estar aqui fechado dentro de casa. A olhar para nada. Penso em ir até à rua, mas tenho medo que me aconteça alguma coisa. Pode cair-me um raio em cima. Uma marquise pode despenhar-se sobre mim. Um cão pode morder-me. E pode estar com raiva. Pode chegar uma nave extraterrestre e levar-me para fazerem experiências.
Não!
Fico aqui. Se calhar ainda faço uma cafeteira de café. Para ajudar a passar a noite. É isso! Vou fazer café! Não posso adormecer. Posso não acordar. Não posso correr o risco de não acordar. Pode dar-me o badagaio durante o sono. Um ataque cardíaco. Um AVC. Não posso correr o risco. Tenho de estar acordado. Para chamar um médico. Ou o INEM. Se fôr caso disso. Espero que não. Mas tenho de estar atento. Acordado.
Desligo o telemóvel para não me interromperem. Se liga alguém de um Call Center? Para mudar a rede do telemóvel? Para mudar o cabo? Não, o cabo não que não tenho cabo. Para mudar a rede de internet? A internet! Tenho de desligar a internet para não me pôr a interagir no Facebook, no Twitter, no Intagram, no Tinder. Não quero desconcentrar-me. Quero estar atento. Quero estar atento ao último jogo do campeonato.
Faltam pouco mais de vinte e duas horas. Estou em pulgas. Estou nervoso.
Porra! Não posso desligar a internet. A minha televisão só funciona com internet. Não tenho cabo. Só internet. Vou voltar a ligar.
Estes dias são muito complicados. Demasiadas exigências.
Bebo outro copo de vinho. Fumo outro cigarro.
Apetecia-me ler um livro. Mas não consigo. Estou demasiado excitado. Não conseguia focar-me nas letras. Abro a boca. Bocejo. Mau! Estou com sono. Ora bolas!…

Abro um olho. Depois o outro. Lá fora é dia. Foda-se! Deixei-me adormecer. Que horas são? Olho para o telemóvel. Está desligado. Olho para a televisão. Não tem horas. Levanto-me. O corpo estala. Parece que os ossos se desmontam. Vou à cozinha. Olho para a porta do forno. Faltam pouco mais de dez horas. Aproveito para beber um café. Ponho uma caneca a aquecer no micro-ondas. Levo a caneca de regresso para a sala. Sento-me de novo frente à televisão desligada. Tenho de decidir a que horas a ligo. Mas ainda há tempo. Ainda é cedo. Acendo um cigarro. Levanto-me a abro a janela da sala. Olho para a rua. É incrível como as pessoas continuam nas suas vidas sem se aperceber da importância deste dia. Sem se aperceberem que o último jogo do campeonato está quase a começar. Com o podem ser tão alheadas?
Mando a beata do cigarro para a rua. Regresso ao sofá. Olho as pevides e os tremoços na mesa de apoio. Pergunto E os camarõezinhos da Figueira? E de repente lembro-me Ah! Estão no frigorífico. Com as minis. A minha perna começa a bater no chão. Com um ritmo rápido. Estou nervoso. O estágio deixa-me nervoso.
Nunca mais começa o jogo?

[escrito directamente no facebook em 2019/05/17]