Ouro

As paredes eram douradas. Douradas de ouro. Havia homens de picareta a esburacar as paredes. As paredes do quarto. Ela estava sentada na poltrona a olhar. Zangada. Não estava zangada por os homens andarem ali a retirar o ouro das paredes. Estava zangada porque lhe estavam a dar cabo das paredes e a incomodar-lhe o descanso. Principalmente depois de almoço quando gostava de fazer a sua sesta retemperadora. Do ouro nem queria saber, Não é meu!, dizia. Mas o estardalhaço que lhe faziam no quarto, isso sim, incomodava-a.
Ela olhava para os homens em tronco nu, transpirados, de cigarro ao canto da boca a mandarem as picaretas contra as paredes douradas e dizia Vão-se embora! Estão a dar-me cabo das paredes! O que é que o senhorio vai dizer? E depois telefonou-me e disse-me Não consigo respirar com o fumo dos cigarros destes homens. E eu disse-lhe Eu já aí vou para os pôr na ordem.
E fui.
Mandei-os todos embora. E eles foram. Era obedientes. Antes isso.
Ela mostrou-me as paredes esburacadas. As paredes ainda douradas, ainda cheias de ouro, todas esburacadas. Já lá faltava algum ouro, mas não muito porque, afinal, os homens das picaretas eram uns nabos e não tinham muito jeito para aquilo. Abriu as janelas para deixar sair o fumo dos cigarros e aquele cheiro a homem transpirado. E disse-me Amanhã vais avisar o senhorio! Se não, vou lá eu! E eu respondi Está bem!
Deixei a casa arejar. Antes de me ir embora fechei as janelas. Dei-lhe dois beijos e disse-lhe Até amanhã. Ela acenou a cabeça. Ainda estava zangada. Não estava zangada comigo, mas estava zangada.
De manhã ligou-me. Para me avisar que os jornalistas estavam lá. Foi avisar o senhorio. Já sabia que eu não ia dizer nada. Foi avisar o senhorio que lhe estavam a dar cabo da casa. Depois avisou os jornalistas das paredes douradas cheias de ouro. E depois telefonou-me. Para me avisar que os jornalistas tinham lá ido fotografar as paredes douradas. Para me avisar que o senhorio foi lá buscar o ouro que ainda restava. Para me avisar que os homens das picaretas já não regressaram mais porque já não havia mais ouro nas paredes para roubar. O senhorio tinha levado tudo. E eu respirei de alívio.
Ela estava contente. Já não havia cheiro a transpiração de homem. Nem cheiro a tabaco. E o senhorio mandara arranjar as paredes e agora o quarto estava como novo. E isto era ela a dizer-me que tinha resolvido o assunto sozinha porque já sabia que eu não iria resolver nada. E eu fiquei calado. Não lhe disse nada. E ela ainda me pediu Amanhã quando cá vieres traz as revistas. A noticia vai sair nas revistas. Com fotografias minhas, do quarto e do ouro. E eu disse Está bem!
No dia seguinte entrei em casa dela e perguntou-me As revistas? E eu tive de lhe dizer Esgotaram! Já não havia nem uma para amostra!
Depois foi até ao sofá e, com o comando, ligou a televisão. E pôs-se a ver o Programa da Cristina. Eu sentei-me ao lado dela. A ver o Programa da Cristina. Com ela. A olhar para a parede da sala e a pensar E se estas paredes também fossem de ouro?
Mas as paredes agora já não era douradas. Eram de um branco ovo.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/27]

Anúncios

Passar pelo Tempo

Fui cortar o cabelo. É uma coisa que faço muitas vezes quando as coisas não me correm bem, quando ando nervoso, quando não sei o que fazer.
Ultimamente tenho cortado bastantes vezes o cabelo. Cortei-o tanto que já não o consigo agarrar. Passo-lhe a mão, os dedos tentam agarrar os cabelos mas não conseguem. Acabam por ser uma massagem. O que até sabe bem. Gosto de uma boa massagem.
Quando tomo banho nem tenho que me preocupar a secá-lo. Passo a toalha uma vez, e já está.
Descobri que até tenho um crânio bonito, redondo, circular, não muito perfeito. No meio de toda a beleza do meu crânio, descobri-lhe três altos. Não sei o que são. Não são acumulação de caspa. Não são feridas. Não são furúnculos nem quistos. Não me doem. São rijos. É como se o crânio tivesse três cornos. Talvez sejam uns cornos. Para defender o crânio. Ou talvez seja uma inovação estética. Ou o passo seguinte e natural na evolução do Homo Sapiens. Uma mutação. Talvez seja o factor X. Como o dos X-Men. Tenho de tentar perceber qual o meu poder. Talvez… Hei! O que é que estou para aqui a dizer?
Já não sei o que digo. Ando nervoso. E quando ando nervoso falo muito. Sobre tudo. Acerca de nada. Acho que não consigo estar calado. Se me calo começo a pensar no que me incomoda e deprimo. Quando falo, esqueço a depressão. As conversas são o meu Alprazolam.
Não sei porque é que estou nervoso.
Sinto um aperto no peito. Quero respirar, mas é difícil. É como se tivesse o peito cheio de ar e ele não quisesse sair. Tenho que o ir tirando aos poucos. E insistir. Forçar.
Com o cabelo curto respiro com mais facilidade. É como se ao cortar o cabelo abrisse uma passagem de ar directa aos pulmões. Isto não faz muito sentido mas é o mais próximo do que sinto.
Sentei-me numa esplanada a aproveitar os últimos restos do Verão e acendi um cigarro.
Bebi um café. Comi um croissant folhado. Simples. Fumei, bebi e comi, tudo ao mesmo tempo.
Reparei que andava a fazer as coisas todas ao mesmo tempo. Como se não houvesse mais tempo à minha disposição. Como se as horas fossem minutos. Os dias, horas. As semanas, dias. Os meses, semanas. Eu estava a envelhecer e o tempo comigo. Íamos acabar.
Estava na esplanada a fumar um cigarro, a beber um café e a comer um croissant folhado e começou a nevar. As senhoras passavam de casacos compridos e quentes. Os homens de guarda-chuva na mão. Uma música de Natal entrou-me pelos ouvidos. As lojas luziam às cores. As pessoas passavam com sacos de presentes. As crianças corriam contentes. Um cão cheirava o rabo da um gato. O meu cabelo estava outra vez comprido. Só o cigarro era o mesmo e estava do mesmo tamanho. E como me sabia bem, cuspir fora o fumo e sentir o cheiro a invadir-me as narinas. E a beata presa nos dedos. Sim, gostava de sentir o cigarro preso nos dedos da mão. Agarrava-me à realidade. À vida. Morro quando largar o cigarro.