Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Vestir uma Camisola Grossa

Finalmente, chegou o frio.
Ainda não é Inverno, mas o Outono a conseguir sê-lo. Pelo menos, à noite.
Em passeio pela cidade percebe-se o cheiro das lareiras em funcionamento. De quem as utiliza. De quem tem lenha, ou sítio para guardar a lenha. Podem ser poucas, as lareiras em funcionamento, mas o seu cheiro invade a cidade.
Aqui em casa percebi a chegada do frio. E fui vestir mais uma camisola. Daquelas grossas, de lã, daquelas que julgava nunca mais vir a vestir.
De camisola vestida, sentei-me frente ao computador para escrever. Mas não surgiu nada. Nada de nada. Não deixava de pensar no frio que estava, no facto de estar de camisolão em casa e na louça por lavar que olhava para mim, do alto do lava-louça.
Levantei-me e deixei, no desktop do computador, a página em branco no word. E fui lavar louça. Com água quente e corrente.
No final, e com dores nas costas, fui para a varanda fumar um cigarro. O mais estranho é que sentia mais frio em casa que na rua. Há casas assim, mal feitas.
Acabado de fumar o cigarro, ia mandar fora a beata quando me lembrei que uma pessoa conhecida, no outro dia, me deu um raspanete por mandar beatas janela fora. E sorri. Peguei na beata e levei-a à torneira do lava-loiça e molhei-a. E despejei-a no caixote do lixo.
Sentei-me no sofá e liguei a televisão. Percebi que era Domingo. E um Domingo sem futebol. E o pior dia da semana para ver televisão.
Voltei ao computador e, subitamente, e sem perceber porquê nem como, pensei no Seinfeld e na sua estória de falar sobre nada. E voltei a sorrir. Pela segunda vez no mesmo dia, voltei a sorrir. Um dia em que não ia morrer ninguém.
E na página em branco do word escrevi:
Finalmente, chegou o frio.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/19]