O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas históricas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

A Terra Gira a Grande Velocidade

Estava caído ali, junto à Fonte Luminosa. A Terra pôs-se a girar muito depressa no seu eixo, a correr à volta do sol e o chão fugiu-me debaixo dos pés. Caí. E não consegui levantar-me.
Tive sorte. Podia ter caído dentro da fonte. Podia ter morrido afogado. Mas tombei na laje. A boca bateu no lancil e parti dois dentes. Vi-os sair disparados da boca. Na altura nem percebi o que era. Depois reparei nos fios de sangue que me escorriam da boca.
Virei-me sobre mim próprio e olhei o sol frio da manhã. Fechei os olhos. Tentei erguer-me, mas todo eu era peso.
Passaram dois miúdos adolescentes, com mochilas da escola, na galhofa, e ao cruzarem-se comigo apontaram e desataram a rir. Já não há respeito pelos mais velhos, pensei. Mas depois reparei para onde é que tinham apontado. Tinha-me mijado. Mas não me lembrava de isso ter acontecido.
Estava uma lástima.
Tentei rebolar outra vez, sobre mim próprio, para me erguer, mas não tinha força. E então desatei a rir. A rir de mim. Da minha condição. Era um palhaço. Sem dignidade. De rasto perante os outros. Ainda não era hora de almoço e já estava bêbado.
E porque é que bebo? Nem sei…
Arrastei-me ao longo das lajes da Fonte Luminosa até às escadas da Caixa. Um miúdo que vinha a andar de skate, parou ao pé de mim e deu-me uma mão. Ajudou-me a levantar e carregou comigo até às escadas da Caixa Geral de Depósitos, onde ainda estou.
A velocidade da Terra começou a diminuir. Já consigo focar. Mais ou menos.
Vejo passar as pessoas nas suas vidinhas muito importantes e nem olham para mim. Elas querem olhar, há algo dentro delas que as quer fazer olhar e sentirem-se bem por não serem elas ali, mas o pudor impede-as de olhar. Ignoram-me. Tornei-me invisível. Desapareci.
Também não quero saber delas. De nenhuma delas. Nem dessas nem das outras. Ainda bem que me deixam em paz. Antes isso que as lengalengas do costume. Antes ignorarem-me que as suas preces puritanas e falsas.
Sinto-me mal disposto. Precisava de um copo. Outro.
Mas já não tenho dinheiro. E ainda não consigo pedir na rua. Sei que esse dia vai chegar. Mas ainda não será hoje. Hoje só consigo pedir um cigarro.
Aquela miúda vem a fumar… Olha, se faz favor, arranjas-me um cigarro?… Simpática. E bonita. Vai destruir muitos corações. O meu já não. Mas uns que ainda funcionem.
Está a saber-me bem, este cigarro.
Mas estou a ficar tonto. Devo estar fraco. Acho que ainda não comi nada hoje. O cigarro está a deixar-me tonto, mas não o posso deitar fora.
Bebia outro copo… Porque é que bebo? Porque sim… A culpa é minha, claro. Mas há culpas, nisto? Claro que sim. E a culpa é minha. Se aqui estou foi porque para aqui vim.
Estou mal-disposto. Acho que vou vomitar… Não consigo aguentar… Vou vomitar…
…tenho de ir mais para aquele lado que as escadas daqui estão já todas vomitadas. Ainda vem aí alguém para me chatear.
Tenho este restinho de cigarro para acabar. Já não estou tonto.
Se eu me conseguir levantar, posso ir beber mais um copo para ganhar coragem e ir almoçar… Talvez me fiem um copo. Eu venho cá pagar amanhã.
Vou tentar mais daqui a um bocado. Antes, preciso de descansar um pouco.
E este sangue? Ah… é meu!…
E os dentes? Onde é que ficaram os dentes?… Os meus dentes?… Não os vejo…
Mas eles não me vão deixar entrar assim, todo mijado, no bar… Mas posso ficar na esplanada…
Mas antes vou descansar um pouco. Estou cansado. Estou muito cansado.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/11]