O Miúdo a Tocar Guitarra Eléctrica na Varanda do Prédio em Frente

As pessoas gostam disto. Das borlas. Da gratuitidade cultural. A arte tem de ser grátis que o tipo que a faz fá-lo por gosto e quem corre por gosto não cansa. E se for a pagar, ninguém vai.
Estou à janela a fumar um cigarro. E vejo, lá mais à frente, naquela casa antiga, mais pequena, rés-do-chão e primeiro andar, e um pequeno quintal à frente com o projecto de jardim mas onde existe, efectivamente, uns verdes e não são couves portuguesas, na varanda, um miúdo com a guitarra eléctrica. Começa a tocar uns acordes sónicos, distorção, coloca uma voz por cima mas não é uma letra, são uns sons vocais que acompanham a sonoridade ácida da guitarra. Estranho. Estranho, mas interessante. E bonito. Em frente, no passeio, a olhar para o miúdo, outros miúdos e miúdas como ele. Não muitos. O sítio é um bocado escondido. O miúdo não tem nome. A sua música não é para todos. E foi empurrado para ali. Para o sítio escondido onde só ocorrem os amigos. As massas ficam-se pelo centro. Onde tocam os nomes com nome. Os que contam. Mas eu agradeço ter o miúdo ali em frente. A tocar um som que me agrada. Aos amigos dele e a mim.
A cidade está em polvorosa. A música, a dança, a performance, a ginástica saíram das paredes das salas de ensaio, das salas de espectáculo e vieram para a rua. Para as ruas. Para o público. À borla para um público que não gosta de pagar para ver arte. Mas o resto paga-se. Os PAs. As cervejas. O comércio que vive ali à volta e não vai ter mãos a medir a servir cervejas, torradas, hambúrgueres, tostas mistas, cafés, águas em garrafas de plástico, Coca-Colas, Pastéis de Natas, Brisas do Liz, oh, as famigeradas Brisas do Liz. Tudo se paga. Tudo, menos a arte. O artista é um sujeito que vive do ar e das palmas do público. Não precisa de dinheiro. Nem para a droga. Um músico tem sempre droga e ela cai-lhe do céu ou é patrocínio do dealer.
Entro em casa e apago o cigarro.
Estou indeciso entre ir à rua e ficar em casa. Ainda agarro no casaco, que os fins-de-dia já tendem a ficar frescos. Mas acabo por decidir que fico em casa. Não quero ir meter-me na confusão.
Arranjo um copo de vinho. Acendo outro cigarro. Volto para a janela. O miúdo continua lá a tocar. Gosto do que faz. Talvez um dia regresse à cidade e dessa vez lhe paguem. Depois ainda podem dizer que foram eles os primeiros que lhes deram a oportunidade. E o prestígio de tocar neste evento à borla, para gáudio de burgueses forretas que deixam sempre a carteira em casa e só têm cartões de plástico.
A noite aproxima-se. O miúdo continua lá a tocar. Se calhar não há mais ninguém para tocar no mesmo sítio. Se calhar esqueceram-se do miúdo. Olha, pá! Continua a tocar que estou a gostar de te ouvir.
O que é que eu vou jantar, hoje? Não me está a apetecer cozinhar. Acho que vou fazer umas torradas. Umas torradas com manteiga.
E depois vou reflectir. Amanhã é dia de eleições. E vota-se de graça, também. Pelo menos, até ver.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/05]

O Contribuinte

Houve um tempo em que os bancos ocuparam os centros das cidades.
A Caixa Geral de Depósitos, por exemplo, tomou o lugar das igrejas e passou a ser o edifício com mais impacto na malha arquitectónica da zona histórica das cidades. Construiu edifícios enormes, por vezes demasiado grandes para os centros mirrados das cidades da média dimensão. Uma arquitectura a lembrar a Roma imperial. Edifícios de linhas direitas. Utilização de pedra clara. Nalguns casos, vidro. Eram um símbolo de poder. Edifícios criados para causar impressão. Um certo esmagamento. Respeito. Medo.
Os outros bancos, numa lógica de crescimento constante, começaram a invadir os centros históricos, a invadir a baixa das cidades, como se a cidade fosse só deles. Abriram agências em todo o lado. Umas em cima das outras. Fecharam cafés. Pastelarias. Lojas históricas. Memórias. Memórias das próprias cidades. Memórias da história das cidades. Os bancos ajudaram a encarecer o metro quadrado nestas zonas. Alguns deles transformaram tanto os edifícios para onde se deslocaram que os edifícios tornaram-se outros. Houve grandes transformações urbanas motivadas pela proliferação das agências bancárias. Mataram edifícios intemporais por troca por uma modernidade parola que está envelhecida antes mesmo de começar a funcionar.
Os anos passaram. As novas tecnologias mudaram a relação dos bancos com os seus clientes. Os clientes deixaram de ser clientes para passarem a ser fonte de rendimento. Tudo é pago. Tudo é pago para uma classe que vive da utilização do dinheiro alheio. Tudo é pago e tudo é feito para ser o próprio cliente a ter todo o trabalho. E como se não bastasse, agora começaram a abandonar os centros das cidades. Depois de ajudarem e esvaziar os centros das cidades, agora deixam-nas ao Deus-dará. Mudam-se para centros-comerciais. Mudam-se para centros-financeiros. Para zonas de escritórios. Locais de maior agrupamento de clientes, esquecendo-se do funcionamento real das cidades.
Penso nisto ao olhar para o banco fechado à minha frente. Não é só a porta que está fechada. É mesmo o banco. Encerrou. Leio o papel colado no vidro da porta. Mudámos para outro sítio, dizem. Desde ontem. Nem o Multibanco funciona. E esse sítio para onde mudaram é outro sítio mesmo. É noutra localidade. E agora? Não pensam em mim? Afinal têm lá o meu dinheiro.
Estou parado frente à porta fechada do banco. Sinto-me deprimido. Os ombros tombam. Ouço um barulho atrás de mim. Um barulho que me assusta. Um barulho grave e muito alto. Viro-me para trás e vejo um carro com o chassis quebrado. Um carro que quebrou o chassis na lomba da passadeira camuflada. Atrás de mim há uma passadeira em lomba. Mas o tempo comeu a pintura da passadeira. E não há manutenção. É um dos grandes problemas destas tempos. A manutenção. O motorista não viu a lomba. Nem vinha muito depressa. Mas o suficiente para ser bloqueado pela lomba. Não é a primeira vez que vejo coisas assim acontecer. Mas nunca como hoje. Um chassis quebrado. Numa lomba em passadeira cega, surda e muda.
Sinto que deixei de ser uma pessoa. Sinto que passei a ser um número numa qualquer folha Excel. Sou o número que paga. E é só isso que sou. Um contribuinte.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/02]

A Minha Mãe

Fui a casa da minha mãe. Fui dar-lhe banho. Aspirar a casa. Repôr frescos no frigorífico. Fornecer a despensa. Regar as plantas. Fazer a cama de lavado. Ligar a máquina de lavar roupa. Lavar uma ou outra peça de louça mais difícil de ser lavada à mão. Como um tacho. Uma panela. Uma frigideira.
Ela é autónoma. Mas precisa de alguma ajuda. Principalmente com coisas mais difíceis. Principalmente com coisas mais pesadas. Principalmente com coisas mais complicadas e minuciosas. Às vezes vou lá mesmo só para dizer que estou ali. Não só no outro lado do telefone, mas também ali, em casa. Ao vivo em casa dela. Ao lado dela. Para a ajudar. Para a ajudar quando for preciso.
Cheguei. Toquei a campainha e abri a porta com a minha chave. Toco sempre à campainha para ela não se assustar com a minha entrada de rompante em casa. Para não ser uma surpresa. Para não olhar para o lado e descobrir-me lá, feito parvo.
Estava sentada na mesa da cozinha a comer um iogurte. Viu-me e disse Olha! Estás aqui? e eu acenei a cabeça. Percebi que já me tinha esquecido. Às vezes esquece-me. Baralha os dias. Acha que vou no dia seguinte que é sempre o seguinte. Às vezes até eu me baralho.
Continuou a comer o iogurte. Eu arrumei no frigorífico os legumes que levei. Arrumei as mercearias na despensa. Por ordem. Mostrei-lhe umas conservas novas que lhe trouxe. Perguntou do que era. Filetes de cavala com tomate. Ela gosta de petiscar estas conservas. Às vezes acompanha com espinafres. Com rúcula. Às vezes até usa maionese. E eu pergunto-lhe Maionese, mãe? e ela responde Que é que queres? Sabe-me bem!
Acabou de comer o iogurte. Levantou-se e foi para a casa-de-banho. Eu dei-lhe tempo para se despir e segui-a. Molhei-lhe o corpo. A cabeça. Depois passei-lhe o chuveiro para as mãos e abri o champô. Saltou-me todo para cima. O que restava. Eu devia ter percebido que o frasco parecia muito leve. A embalagem estava no fim. Ela meteu água lá para dentro, para aproveitar tudo ao máximo. Quando abri a embalagem, estava à espera de uma massa pastosa e saiu um esguicho colorido para cima da minha camisola, das minhas calças e sobre as minhas sapatilhas. Que porra, pá!
Lavei-a. Sequei-a. Esfreguei-lhe o cabelo como uma toalha e ela disse que lhe estava a pôr a cabeça tonta. Depois fartou-se de rir com as cócegas que lhe fiz ao limpar-lhe os pés. Oh, mãe! Tantos anos e ainda tens cócegas nos pés? O que é que queres? Não mas tiraram! E riu-se mais ainda. Deixei-a na casa-de-banho a acabar de se arranjar sozinha e fui aspirar a casa.
Não é muito grande, a casa. Aspiro-a num instante. Mas frente ao sofá, tenho de aspirar com cuidado e atenção. Há por lá muitas migalhas. Às vezes come sentada no sofá enquanto vê televisão. Especialmente o pão. Ela que lhe ralhava a mim quando, em criança, me esquecia de levar um prato para comer uma sanduíche na sala, hoje diz que não precisa de prato. Que não faz migalhas. Não as vê! Não vê as que lhe mostro. Zanga-se comigo quando insisto. Às vezes preciso de muita paciência.
Fiz a cama de lavado. Pus a máquina a lavar.
Coloquei os comprimidos na caixinha. Pela ordem. Não anda a tomar os da manhã. Diz que lhe fazem fazer muito chichi e quando vai sair de manhã não os toma para não andar a correr para as casas-de-banho dos cafés. Algumas são muito porcas! As pessoas são muito porcas e sujam tudo! diz-me para me fazer entender porque deixa os comprimidos na caixinha.
Ela saiu da casa-de-banho e foi para o quarto vestir-se. Eu aproveitei para arrumar a casa-de-banho. Depois fui à varanda e fumei um cigarro. Ela foi lá ter comigo e perguntou-me Queres ir beber um café?
E eu sei que ela gosta de ir ao café comigo. Gosta que as pessoas me vejam com ela. Diz às raparigas do café que eu sou o namorado dela. Enfia a mão no meu braço e entra assim comigo no café.
Ela pede uma meia-de-leite com café, Mas mesmo café! Café de uma bica! Um pão-de-leite com fiambre e Um bocadinho de manteiga, mas mesmo manteiga, não margarina, e só um bocadinho, se faz favor, senão faz-me mal ao estômago, mas eu gosto muito de manteiga, mas tem de ser mesmo manteiga. Eu peço um café. Ela refila comigo. Que estou magro. Que não como. Só um café? pergunta. E eu acabo por pedir um rissol, como quase sempre.
Depois levanto-me para ir pagar. E vejo-a, pelo espelho, a dizer às miúdas do café para não receberem o meu dinheiro que é ela que vai pagar.
Volto à mesa. Dou-lhe dois beijos e digo Tenho de me ir embora. E ela responde Vai lá! Vai lá! Tens de ir trabalhar!
E eu vou embora, mas vou sempre com a sensação que devia ter ficado lá mais tempo. Que todo o tempo que estou com ela é pouco para ela. Mesmo que seja muito para mim. E penso no dia em que já não possa ficar mais tempo nenhum com ela. E sinto um nó na garganta. Acendo um cigarro. Abano a cabeça e tento esquecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/14]

Quando Ganhei a Caméra d’Or no Festival de Cannes

Era assim à Quinta-feira. Todas as Quintas-feiras. Todas as semanas. Desde o início das aulas.
Saía a correr da sala de aula. Às vezes ainda deixava o professor a gritar qualquer coisa para o ar, para se fazer ouvir por cima do toque de saída das aulas. Mas já não ouvia nada. Já lá não estava. Já estava noutro lado. Em antecipação. Eu e os outros.
Saía a correr da sala de aula. Saía a correr da escola. Do edifício da escola. Entrava no labirinto de ruas esconsas do bairro. Eu e os outros. Todas as Quintas-feiras. A correr até à Adega.
Às Quintas-feiras íamos almoçar à Adega. Eu e eles. Os outros. Íamos à Adega. Uma taberna no coração do bairro. Uma taberna de mesas compridas com toalhas de linóleo sobre ripas carcomidas pelo bicho da madeira. Bancos de madeira, alguns já mancos. Pratos de várias colecções já desaparecidas. Eram os sobreviventes. Sobreviventes com mazelas. Pequenas rachas. Lascas. Os copos era igual. Não havia dois iguais. Mas eram de vidro. Alguns já tinham sido lavados tanta vez que já não se via nada à transparência. Mas eram de vidro. Os talheres era o que havia. Cheguei a usar uma colher como faca. Era o que havia. Mas para o que era, servia.
À Quinta-feira era dia de carapaus fritos com arroz de tomate. Acompanhava com vinho branco da casa servido em jarro de vidro que, esse sim, não era lavado e mantinha sempre o aroma do vinhos servidos, acumulados, uns atrás dos outros, ao longo dos anos. E que importava? Era Quinta-feira. Dia de ir, eu e os outros, almoçar ali, à Adega, apanhar uma cabra e ir para a aula da tarde passar pelas brasas que não havia paciência para aquele professor. Não que fosse um mau professor, que não!, não era. Era até um professor bastante bom. Mas era uma matéria chata, de uma cadeira chata de uma parte chata do curso. Daquelas que ninguém queria saber. Mesmo que fosse importante para o que estávamos a estudar. Para o que queríamos continuar a estudar. Mas ninguém queria estudar aquilo. Só os alunos com pior média. Porque não tinham outro remédio. Eram os últimos a escolher. E já não podiam escolher. Eram escolhidos.
Naquele dia eu ainda não sabia mas, aquela Quinta-feira, havia de ser a última Quinta-feira em que iríamos almoçar à Adega.
Comemos os carapaus fritos com arroz de tomate. Ainda havia salada de alface com tomate e cebola que regámos com bastante vinagre. Bebemos sei-lá-quantos jarros de vinho branco. Um vinho que me deixava com azia. Nos deixava a todos com azia. Ainda não tinha acabado de beber e já sentia o inferno a subir pelo esófago acima. Mas o vinho não se desperdiça. É pecado desperdiçar vinho, mesmo que não seja o sangue de Cristo, é só vinho branco, caramba!, mas não deixa de ser vinho. Não ficava nenhuma gota para amostra e nesse dia manteve-se a tradição. Nem uma gota no jarro. Nem uma gota nos copos.
Bebemos cafés. Bagaços. Fumámos cigarros. Muitos cigarros. Uns atrás dos outros. Alguns durante o almoço. O cigarro preso entre os dedos enquanto a mão levava um carapau inteiro, cabeça à frente, à boca. Uma nojice pré-ASAE. Uma nojice saborosa.
Pagámos ao balcão. Cada um o seu almoço. Mas contas simples. O total a dividir por cada um de nós. Naquela altura ainda não havia muitos cartões de plástico, só uma estranha Chave 24 que servia para levantar dinheiro que a minha mãe depositava lá na terra e eu levantava na capital. Modernices.
As contas feitas na toalha de papel que cobria o linóleo. Fomos pagando. Um-a-um. E fomos saindo. Um-a-um. Para a rua. Para uma das ruas esconsas do bairro. Ruas onde passavam poucos carros. Mas não naquele dia.
Saímos da Adega na brincadeira. A brincar uns com os outros. Bebidos. Fomos esperando uns pelos outros. Já estávamos atrasados, mas esperávamos. Vínhamos juntos. Íamos juntos. E então ouvimos. O barulho. O barulho do motor. O barulho do motor de um carro. Dois. Dois carros a subir pela rua esconsa do bairro. Um à frente do outro porque não havia espaço para ultrapassar. Mas em aceleração. Ambos. A rua era estreita. Nós estávamos na rua. E vinham os carros a subir. A acelerar. Ouvia-se o barulho espremido dos motores. E falta alguém. Quem? Lá vinha ele. O que faltava. Quem faltava. A sair da Adega. A colocar o pé na rua no preciso momento em que o primeiro carro passa. E logo depois o segundo. E eu já só vejo o corpo jogado para cima pelo primeiro carro. E lançado para a parede da Adega pelo segundo. O som das pancadas. A primeira. A segunda. Um som obsceno. Violento. Mortal. Eu vi. Nós vimos. Eu estava cheio de azia. E vomitei logo ali. Vomitei ainda antes dos carros pararem lá mais acima. Mas pararam. Deram assistência. Vieram ver o que tinham feito. Não fugiram. Mas era tarde. Já nada restava dele. Eu continuava a vomitar dobrado sobre mim. A mão na parede.

Anos mais tarde fiz um filme sobre ele. Sobre nós. Sobre as Quintas-feiras e a Adega. Sobre aquelas ruas esconsas do bairro. Sobre os carros a acelerar. Sobre o acidente. Sobre a morte. Sobre o fim de uma época.
O filme foi a Cannes e ganhou o Caméra d’Or.
Nunca mais realizei nenhum filme. Depois da minha história com ele, com ele e com os outros, e de tudo o que tinha para dizer e que disse nesse filme, deixei de ter o que dizer.
Calei-me. Até hoje. Não sei porquê.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/18]

Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Onde Estás?

Como fazer para sair do comboio em andamento?
Como fazer para sair de onde não devia ter entrado?
Como fazer para voltar atrás? E escolher diferente?
Saio do quarto de hotel. Saio atrás dela. Não. Saio à procura dela.
Eu devia ter percebido. Não hoje. Não agora. Não há minutos atrás quando aconteceu. Mas há muito tempo. Quando a conheci. Quando percebi.
Os olhos. Os olhos vítreos. Os nervos. A impossibilidade de estar parada. Quieta.
Saio do hotel. Direita ou esquerda? Estou numa cidade que não conheço. Que não conhecemos. Viro à direita? Viro à esquerda?
Viro para um lado qualquer. Sigo as pessoas. Vou na direcção do vento. Olho para todo o lado. Olho para todas as pessoas. Tento vê-la. Tento vê-la nos outros.
Onde estás?
É fim-de-dia. Hora de ponta. Confusão nas ruas. As esplanadas cheias de gente que bebe. As lojas cheias de gente que compra. Turistas. Gente como eu. Como nós. Como encontrá-la aqui, no meio desta confusão de gente toda igual? Mas ela não é igual. Não, não é.
Entro e saio de cafés. De bares. Salas de jogo. Lojas. Geladarias. Passo ao lado de um Cinema. Um multiplex. Mas não vale a pena. Ela não conseguia estar dentro de uma sala de cinema, às escuras, sossegada.
Passo na zona das putas. Olho-as sem as olhar. Tento vê-la lá. Nas outras. Mas com a esperança de não a encontrar ali. Não estar ali. Mas quero encontrá-la.
Onde estás, porra?
Ao lado das putas, os dealers. Não vale a pena procurar ao pé deles. Não precisa de drogas. Não destas. Não usa destas. Tem as suas. Legais. Compradas às caixas. Em lamelas. Não precisa destas.
Aventuro-me um pouco mais longe. Vou a sítios onde ainda não tínhamos ido. Mas começo eu a ficar nervoso. Não a encontro. Mas tenho de encontrar. Não a posso perder. Não a posso deixar perder. É minha responsabilidade. É da minha responsabilidade.
Mas não quero. Não quero mais essa responsabilidade.
Foda-se! digo alto. Mas ninguém me percebe.
Páro. Estou sem forças. Sinto-me desfalecer. Encosto-me a uma parede. A uma parede de uma loja. Numa rua de lojas. Lojas de sapatilhas. De perfumes. De óculos. De roupa de mulher. De jovem senhora. De criança. Onde estou? Onde estou eu, agora? Não reconheço nada. Sim, percebo. Nunca tinha estado aqui. Nem eu, nem ela.
Tento concentrar-me. Foco o meu olhar nas montras. Nas portas. Nos letreiros que começam a acender. Néons. Cores. Muitas cores vivas. Olho as pessoas. Sigo-as. Passo o olhar de uma para outra. Recupero a calma. Acendo um cigarro.
E se ela voltou para o hotel? pergunto-me.
Olho em volta. Tento perceber onde estou. Não é fácil. Não é fácil, para ninguém. Percebo o caminho. Começo a andar de regresso ao hotel. À espera que ela esteja lá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/25]

A Avenida

Vista daqui, esta zona da cidade continua igual. Há cinquenta anos que as formas são as mesmas. Mudam alguns conteúdos, poucas formas, e, no fim, está tudo praticamente na mesma.
Estou aqui na Avenida da cidade. A Avenida. Toda a gente sabe qual é. Mesmo que, na realidade, seja a única que não é. Já foi importante. Já mandou na cidade. Hoje definha. Os homens matam a cidade por ausência e desinteresse. E acumulação de erros que teimam em continuar a cometer.
Já houve por aqui vários cafés. Bastantes até. Muito frequentados. Com charme. Uns modernos, à época. Outros clássicos. Desapareceram todos. Vieram as agências bancárias. Ocuparam tudo. Agora foram-se embora. As agências. Acabaram com o pouco que restava depois de já terem morto a Avenida.
Às vezes penso que esta gente não merece a cidade que tem. Teve.
Lembro-me de vir para aqui, para esta mesma varanda, aqui neste terceiro andar, e sentir que estava no tecto do mundo. As pessoas pareciam-me formigas a correr lá em baixo. Às vezes deixava cair balões com água sobre a cabeça das pessoas. Às vezes cuspia. Empoleirava-me no muro da varanda e deixava cair uma bola de cuspo, para ver o tempo que demorava a cair cá de cima até lá baixo, e se acertava em alguém. Na cabeça de alguém. Às vezes fazia concursos com os meus amigos, habitantes de outras portas, também habitantes da Avenida. Bateram à porta muitas vezes. Pelos balões. Pelos balões de água. Pelas cuspidelas. Pelas pedrinhas de brita mandadas cá de cima. Pelos papelinhos dobrados, lançados em fundas de elástico presos aos dedos. Uma vez veio cá a polícia. Tinha andado a rasgar cartazes políticos na rua. Foi depois do 25 de Abril de 1974. Andava tudo louco com as eleições. Comícios na Praça, aqui ao lado. A sede do Partido Comunista atacada ali em frente. A enorme fila à volta do cinema para ver Chove em Santiago de Helvio Soto. Os tiros. As manifestações. As bandeiras. As tarjas. Eu andava aí pela rua, eu e os meus amigos aqui das portas vizinhas, a brincar. A cabriolar. Fazíamos muita merda. Na rua. A maior parte dela não chegava a casa. Aos ouvidos dos nossos pais. Roubávamos flores no jardim, que também definha hoje, para darmos às nossas mães. As mães que vinham gritar à janela por nós. Em diminutivo, estava tudo bem. O nome composto estava tudo mal. E lá voltávamos a casa. Para almoçar. Ou jantar. Ou para fazer os trabalhos de casa. Jogávamos à bola nos passeios. No largo. Partíamos montras. Rasgávamos cartazes dos partidos, porque sim. As pontas estavam soltas, a esvoaçar ao vento e, bastava um puxão. Um pequeno puxão. Vinha tudo atrás. Até o cimento das paredes. E a polícia veio cá a casa. O meu pai prometeu um sermão. Mas nunca chegou.
Estou aqui agora, a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro. A vista não é maravilhosa. Nem desafogada. Esbate com o prédio mal tratado ali de frente. E depois? Continuo a ouvir a voz grave saída dos altifalantes fanhosos da Rodoviária. Uma companhia de anos. Saía, não saía. A Rodoviária. Passam os anos e continua aqui. Tomar uma decisão é difícil. Se sai daqui, é mais uma facada nesta artéria que já perdeu toda a importância para o Shopping feito nas margens da cidade (nem perto nem longe, ali, onde ajuda mais à morte urbana). Se fica, é mais um cancro a apodrecer a cidade. Já apanharam algum autocarro para onde quer que fosse? Para Fátima, por exemplo? Já tiveram de frequentar as casa-de-banho? Pois…
Cinquenta anos a frequentar esta varanda. Os mesmos pombos. As mesmas camionetas. Os mesmos bandos de adolescentes que desaguam para as escolas da cidade, de manga curta em pleno Fevereiro. Que raiva já não ser assim. Já não ser adolescente. Já não ter o sangue quente. Já não ter essa tesão furiosa que afasta o frio e o mau tempo.
Agora bebo vinho. Comecei com a mama da minha mãe que me dava de mamar aqui à janela. Um pouco recuada da varanda por pudor. Passei às canecas de leite. Às garrafas de leite achocolatado. Aos sumos da Superfresco. À RC Cola. Às garrafas de cerveja. Ao vodka. Ao whiskey. Muita bebedeira curada aqui à janela. De Verão. De Inverno. A apanhar o fresco da noite. Da madrugada. Das manhãs soalheiras. Acordar, vomitado, com o som roufenho a avisar que a carreira para o Janardo estava na linha seis e ia partir. E eu rebolava na varanda, sobre o vomitado que teria de lavar.
Olho agora daqui e a única coisa que se mantém é o Teatro. Que já foi cinema. O cinema fugiu-lhe. O teatro é quando calha. Agora são os espectáculos de variedades como eram há cem anos.
Às vezes sinto-me aqui sozinho na Avenida. Não há ninguém. Está vazia. Em silêncio. Gosto quando está em silêncio. Mas entristecem-me as ausências. O deserto de gente. A falta de cidade. Uma artéria estrangulada nas más decisões políticas, ano-após-ano.
Ao longo dos anos pensei várias vezes em lançar-me da varanda. Quando novo, desistia por cobardia. Não me sentia com coragem para um tão grande acto de desespero. Quando cresci, porque percebia que, afinal, a altura não era assim tanta e que a probabilidade de ficar aleijado era bastante grande. Agora porque já não consigo passar as pernas para o outro lado da varanda.
Deixo-me ficar aqui sentado. Um copo de vinho tinto numa mão. Um cigarro na outra. Fico a olhar a pouca vida que ainda corre lá em baixo. E volto para dentro quando arrefece. Sento-me frente à televisão e vejo o programa do Hernâni Carvalho. E já não sei qual de nós está mais doente.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/06]