O Futuro Homem da Casa

Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Ainda frequentava o liceu. Não me recordo em que ano estava mas, sei que ainda estava no liceu. Estava numa aula. Não sei de quê, mas estava numa aula. Estava lá dentro mas andava lá por fora. O corpo respondia presente à chamada, mas esquecia a lição no momento do sumário. Para onde ia? Não sei. Perdi essas memórias. Desse tempo há coisas que guardei e outras que perdi. É uma época volátil. O tempo consumia-se de maneiras diferentes conforme fosse manhã, tarde ou noite. Conforme estivesse numa sala de aulas ou em casa de uma namorada. Conforme fizesse um teste a uma disciplina ou uma partida de futebol com os amigos da rua. Algumas coisas permaneceram na memória, viraram estórias que contei aos filhos e aos netos. Outras apaguei-as. Apagaram-se. Esqueci.
Naquele dia, tinha eu então dezasseis ou dezassete anos, talvez menos, estava na sala de aula mas não estava atento à matéria que a professora estava a tentar ensinar. Foi quando vi entrar a directora do liceu na sala e, antes que elas as duas olhassem na minha direcção, desci de lá de onde estava e disse para mim próprio Pronto!…
Percebi o que tinha acontecido. Antes de me dizerem o que quer que fosse, eu percebi. Vi os olhares das duas sobre mim. Um olhar piedoso. Mesmo triste. A directora veio na minha direcção, disse-me para arrumar as minhas coisas e segui-la. Eu arrumei as minhas coisas dentro da mochila. Pus a mochila às costas e saí da sala de aula atrás da directora. Senti os olhos de todos os meus colegas nas minhas costas. Senti o olhar piedoso de todos eles. E queria ter-lhes dito Não olhem assim para mim. Cantem. Dancem. Antes que seja tarde para todos nós… Mas não disse nada. Saí da sala. Senti o silêncio da sala nas minhas costas. Senti a porta a bater quando saí. Ouvi o burburinho que se formou depois de ter saído. E segui a directora até ao gabinete dela.
Depois não me recordo nada do que aconteceu nos momentos seguintes. Talvez tenha entrado no gabinete da directora. Talvez ela tenha tido alguma conversa séria comigo. Talvez ela me tenha oferecido um chá de camomila ou metade de um Xanax (talvez não me tenha oferecido a metade de um Xanax, mas gosto de pensar que, eventualmente, tal podia ter sido possível acontecer).
Desperto já a caminho de casa. Saí da sala de aula e estou a caminho de casa. Há uma elipse temporal que é, na verdade, um buraco negro. Não sei o que aconteceu. Mas vou a subir a rua. A pé. A mochila às costas. Os carros a acelerarem na estrada. Uma estrada longa, larga, arejada, boa para carregar o pé no acelerador. Ouço-os a passar ao meu lado, a espremerem o motor. Acho que vou a chorar. Sim. Acho que vou na rua, a subir a rua e vou a chorar. Não sei o que se passou entre ter saído da sala de aula e descobrir-me ali, na rua, mas sei o que é que aconteceu nesse dia. Sei porque é que a directora do liceu me foi chamar à sala de aula. Sei porque é que saí mais cedo do liceu. E porque é que ia a pé para casa. E ia devagar. Portanto, talvez fosse a chorar. Mesmo que não tivesse chorado na altura. Agora, a esta distância, penso que que tal podia ter muito bem acontecido. Eu ia a chorar enquanto subia a rua até casa.
Cheguei a casa. Parei no passeio para cruzar a estrada para o outro lado. Lembro-me de ter parado para deixar passar o autocarro. O autocarro que ia dar a volta ao outro lado da cidade e, num dia normal, seria o autocarro que eu apanharia no regresso da escola para ir a casa almoçar se não tivesse de ir a pé mais cedo como fui.
O autocarro passou e cruzei a estrada. Mas agora que estava a chegar a casa os pés não me queriam obedecer. Parecia que não me queriam levar para casa. Mais, parecia que eu não queria ir para casa. Protelei a passagem. O outro lado tornou-se a outra margem de uma estrada como um rio caudaloso como um mar. Cheguei ao outro lado. Sentei-me no muro da casa vizinha. A casa vizinha era a casa dos meus vizinhos. Não estaria ninguém em casa. Só os cães que andavam lá de um lado para o outro a ladrar a quem passava do outro lado do muro, do lado de onde eu estava. Sentei-me no muro e acendi um cigarro. Já era tempo de parar de esconder que fumava. Um dos cães chegou-se a mim. Esticou-se até ao cimo do muro para que lhe fizesse uma festa. E eu fiz. Sempre gostei de cães. Dos de marca e dos rafeiros. Mesmo com aqueles que teimam em me arreganhar os dentes ao início, tento sempre dar-lhes a volta com algumas meiguices e umas palmadas no lombo.
Olhei para casa. As persianas estavam corridas. As janelas não estavam fechadas, mas as persianas estavam corridas para baixo, talvez a manter a luz baixa em casa.
Acabei o cigarro. Não havia ninguém na rua. Lembro-me porque achei estranho. Embora fosse uma rua residencial, durante o dia havia sempre gente a passar, a ir à padaria, à mercearia, a ir a casa uns-dos-outros, principalmente as mães, as mães que não trabalhavam fora, as mães domésticas que cuidavam dos filhos e da casa. Mas naquele dia, a rua estava deserta. Não havia ninguém nos passeios, nos jardins, nas varandas das casas. Só os carros continuavam a passar pela rua em direcção ao seus destinos.
As persianas da minha casa estavam corridas. Respirei fundo e fui em direcção a casa.
Eu tinha dezasseis, dezassete anos. Talvez tivesse menos. Naquele dia iria crescer. Naquele dia iria tornar-me no homem da casa.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/07]

Quatro em Cima de uma Sachs

Lembro-me quando chegava o Verão. O tipo lá arranjava um fim-de-semana livre, ou pelo menos o Sábado, e era ele e a mulher, os dois filhos e a tralha toda em cima de uma Sachs K125 a caminho da Praia das Paredes.
Aquilo fazia-me muita impressão. Uma montanha em cima de um triciclo. Primeiro montava ele. Punha a motorizada a trabalhar. Depois montava o filho mais velho, atrás do pai, com um chapéu-de-sol nas mãos. A seguir, a mãe, cheia de sacos, de um lado e do outro. Depois o pai agarrava na mais pequena e sentava-a em cima do depósito de gasolina, à sua frente, presa entre os seus braços.
Se os filhos eram os dois lingrinhas, já os pais, os dois, eram bastante volumosos. Não gordos, gordos. Mas já com alguns quilos a mais. A mãe mais pequena, cada vez mais redonda, o pai a cuidar de uma barriga proeminente regada a cerveja.
Quando a motorizada arrancava lá de casa, a espremer-se toda debaixo daquele peso, os cães das redondezas vinham ladrar às rodas e acompanhavam a motorizada e os seus ocupantes até estes saírem da aldeia. E depois ficavam nos limites da aldeia, junto à placa de cimento com o nome que indicava a quem chegava onde estavam a chegar, a ladrar para o fundo da estrada até deixar de se ouvir o motor arrastado da motorizada.
Gostaria de tê-los visto a subir a estrada antes da recta do pinhal que levava à Praia das Paredes, mas tal nunca aconteceu. Ainda hoje me pergunto como é que a motorizada conseguia subir aquela inclinação com tanta gente lá em cima.
Aqueles dias de Verão eram de enorme festa para os filhos. Nunca iam a lado nenhum e então, naquela altura, iam para a praia. Havia fins-de-semana em que acabavam por ficar por lá, pela praia. Levavam um pano que penduravam à volta do chapéu-de-sol e transformavam-no numa tenda onde se abrigavam durante a noite na praia e, às vezes, o filho mais velho contou-me, tinham de andar a fugir ao mar, que as ondas vinham furiosas, entravam pelo chapéu-de-sol dentro, molhavam tudo e eles tinham de levantar o chapéu-de-sol tornado barraca em peso, e transportá-lo para mais longe, às vezes sonolentos, com a miúda de dedo na boca e a mãe a rezar o terço.
Pelo menos ele tinha sempre história para me contar. Como daquela vez em que o pai ajudou os pescadores a puxarem uma rede e acabaram a noite a assar carapaus numa fogueira, no meio da praia, com um grupo de jovens que apareceram por lá com guitarras e cervejas, comeram dos carapaus assados, cantaram músicas e ainda foram todos ao mar de madrugada tomar banho nus.
Uns anos mais tarde o tipo conseguiu comprar um Mini. E o Mini ainda levava mais gente. Nessa altura iam para a praia com o irmão da mulher e a família dele que também incluía dois miúdos. Iam os dois homens à frente no carro e as duas mulheres atrás. Os dois filhos deles iam atrás, com as mulheres, mais um dos miúdos do irmão. E o outro, o mais novo, ia ao colo do pai, à frente. A tralha ia no tejadilho do Mini, atada com cordas que mais pareciam formar uma teia-de-aranha a qual, às vezes, viam-se gregos para conseguir abrir os nós e tirar as coisas que precisavam e que estavam em caixas de plástico presas no tejadilho.
Nunca foi multado. E nunca teve carta de condução. Nem da motorizada nem do carro.
Quando o tipo morreu, num Inverno chuvoso, foi toda a gente a pé. Toda a gente das pessoas que foram ao funeral, o que não era muita gente, mesmo tendo em conta a pouca quantidade de pessoas que ainda vivia na aldeia. Ele não era uma pessoa muito querida. Eu conhecia-o porque éramos vizinhos. E não tenho nenhuma queixa dele nem da família. Eu e o filho mais velho éramos amigos. Às vezes ainda bebemos um copo juntos. Mas eles eram uma família pobre, era o que eram. Pobres. Não que houvesse gente muito rica na aldeia, mas toda a gente tinha uns terrenos, com umas árvores. Uns pinheiros. Umas laranjeiras. Até umas vinhas. Coisas que davam mais despesa do que lucro, mas eram proprietários. Pequenos proprietários. Eles não. Eles trabalhavam à jorna nos terrenos de todos os outros. Por isso é que ir à praia, que nem era assim tão longe, era dia de festa para os meus vizinhos.
No dia em que o tipo morreu, eu bebi um bagaço com o filho mais velho na taberna da aldeia. Ele não chorou. Eu dei-lhe um abraço.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/01]

Em Alcobaça Há Maçãs, Mercedes, Turistas e um Rei do Toys R Us

Alcobaça. Praça 25 de Abril. Frente ao Mosteiro. Estou na esplanada. Numa das esplanadas viradas para a fachada do Mosteiro. Nas escadas de acesso à entrada, Dom Pedro V, rei de coroa de plástico falsa, espada do Toys R Us e capa de cetim vermelha, estende a mão ao grupo de turistas asiáticos (devem ser de um só país, mas não sei qual) que o fotografam em inúmeras fotografias todas iguais.
É fim-de-dia. Ainda está sol. Está frio. Estou numa esplanada em frente à fachada a beber um café e quando levo a chávena aos lábios, o café está frio. Frio e queimado.
Na Praça 25 de Abril, na praça onde em certos fins-de-semana se vendem velharias como antiguidades, está uma mãe com uma criança pequena. A mãe agarra a pila da criança na mão e aponta para uma árvore. A criança mija como os cães, contra a árvore raquítica e despida como são todas, ou quase, neste Inverno onde começou realmente, agora, a fazer frio.
O sol começa a baixar rápido. As sombras começam a invadir a fachada do Mosteiro. O rei continua de mão estendida. Dois autocarro param no parque de estacionamento ao lado e os asiáticos enfiam-se, rápidos, lá dentro. Vão-se embora. O rei bate com os pés no chão de pedra das escadas. Tem frio, provavelmente. O rei não é um cão. O rei tem frio.
Um Mercedes pára na berma da estrada frente à esplanada. Estaciona onde não pode estacionar. Mas é um Mercedes. Os velhos, que perderam a vista para o Mosteiro, refilam. Mas refilam em voz baixa. Nunca se sabe quem sai de dentro de um Mercedes. E quando a porta se abre, sai lá de dentro o filho do dono do Mercedes. Os filhos são sempre mais desligados destas coisas que os pais. Os filhos já nasceram assim, donos da vida. Da vida deles e da vida dos outros. Que importa que não se possa estacionar ali onde se quer estacionar? Que importa que se tape a vista aos velhos? Não deviam estar no lar? No cemitério?
Estava no meu solilóquio quando estaciona outro Mercedes atrás do primeiro. Agora é uma carrinha. Duas senhoras. Meia-idade. Bem vestidas. Cabelo de cabeleireira. Casacos quentinhos. Carros elegantes. Há muitos Mercedes em Alcobaça.
Alcobaça também é uma zona de muita fruta. A Maçã de Alcobaça é bastante conhecida e apreciada em todo o lado. Mas é impossível de encontrar no Pingo Doce. Santos da casa não fazem milagres.
Já não há sol. O céu ainda está azul, mas já não há sol. Fecho o casaco. O frio está mais forte. O rei foi embora e nem dei por isso. Os asiáticos também. Nem vi os autocarros a partirem. A mãe e o filho que mijava nas árvores do 25 de Abril também desapareceram. Já não há ninguém na praça frente ao Mosteiro de Alcobaça. Há algumas pessoas nas esplanadas, senhoras de casacos-de-pele e homens de sobretudo. Alguns jovens de fato-de-treino e banho por tomar.
Olho à volta e espero que alguém me convide para uma Cornucópia no Alcoa. Não há ninguém. Onde estão todas as pessoas da minha vida?

[escrito directamente no facebook em 2020/01/25]

A Insatisfação

Os dias sucedem-se. Uns a seguir aos outros. Uns iguais aos outros.
A insatisfação.
Agora todos os dias são Domingo.
Mal vejo a claridade do dia a furar os buracos das persianas e entrar pelo quarto nas asas dos grãos de pó que navegam no ar, enfio-me debaixo do edredão. Tapo a cabeça. Fecho os olhos. Mantenho os ouvidos atentos. Não descolo da vida. Só fujo. Não estou cá.
Ouço o silêncio da casa. Não há os passos suaves da amante. Nem a corrida desenfreada dos filhos pelo corredor. Não há as patas impacientes dos cães à espera de ir à rua.
Ouço os sinos da igreja a chamarem os fiéis para a missa das oito. Não é para mim. Mas ouço as vozes em bando dos crentes. Vão em bando, como pardais. Comungam. Cumprimentam. Dizem ámen.
Acho que é imaginação. Estou debaixo do edredão, no quarto, numa casa de vidros duplos. Não posso ouvir as conversas de quem caminha ao fundo da rua, quatro andares abaixo de mim e da minha neura matinal.
E então…
Ouço o galo a cacarejar, como ouvia na aldeia do meu pai, na aldeia ao norte onde ia nas férias de Verão, na aldeia onde mergulhava no pequeno rio de água cristalina, na aldeia onde corria pelos arraiais populares e onde comia o caldo verde com chouriço e azeitonas onde o meu avô despejava um fio de azeite.
Ouço a minha mãe a chamar-me Levanta-te mandrião, enquanto puxava os estores, afastava as cortinas e deixava o dia entrar dentro do meu quarto, e me deixava um tabuleiro com torradas e um copo de leite frio em cima da cama. Vá, levanta-te!, insistia. E eu levantava-me na cama e lia uma banda-desenhada do Buffalo Bill enquanto devorava as torradas barradas com manteiga Primor meio sal.
Ouço o meu irmão gritar Despacha-te, pá! enquanto enfiava uns calções e uma t-shirt, os chinelos nos dedos dos pés, e se preparava para ir ao mar de madrugada antes que os turistas invadissem a praia e deixássemos de ter espaço para as braçadas que gostávamos de dar, livres, numa natação paralela à costa, das rochas até ao porto e regresso.
Ouço a minha amante sussurrar-me ao ouvido Chega-te para cá! Chega-te para mim! e eu chegar-me e colar o meu corpo ao corpo dela. E sentir-lhe o corpo fremir, a reagir ao meu e perceber o que era o desejo, a dimensão do meu desejo.
Sinto os pés do meu filho aos saltos na cama enquanto grita que quer ir andar de bicicleta comigo para a praça e eu desperto e levanto-me e vou para a praça andar de bicicleta.
Oh, a insatisfação.
A casa está em silêncio. Não há nada nem ninguém. Só eu, debaixo do edredão, num dia igual aos outros dias, e sem vontade de sair da cama, do quarto, da casa e pular para a vida de todo os dias.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/19]

O Fim do Mundo e uma Lata de Coca-Cola

Já não sei há quantos dias venho a caminhar. Acho que já passaram algumas semanas. Talvez meses. Já perdi a noção do tempo. Os dias são iguais. Cinzentos. Com esta chuva de cinza, constante, que cai dia e noite. A minha respiração ressente-se. Às vezes falta-me o ar. Preciso de parar. Tenho de parar. Recuperar o fôlego, a respiração. Mas tenho de voltar logo a partir, tenho de continuar em frente. À procura. Tenho de encontrar o grupo.
Ainda não me cruzei com ninguém. Desde que saí lá de cima, da quinta, nunca mais me cruzei com ninguém. Não há pessoas por aqui. Nem cães. Os pássaros, tal como lá em cima, desapareceram todos. Talvez tenham morrido. Talvez tenham ido todos morrer para o mesmo sítio. Não se vê nenhum caído pelo chão. Talvez os comam. As pessoas que eu também não vejo. As pessoas com quem não me cruzo. Devem estar por aí escondidas, talvez. Não morreu toda a gente. Não. Não morreu toda a gente. Mas todos têm medo. E escondem-se.
Estou cansado. Desde há alguns dias que me sinto cansado. Já não é só a respiração pesada por causa desta fuligem que teima em cair dos céus. São as pernas que já se movimentam sozinhas, mantendo o ritmo da caminhada, mas já não as sinto. As botas estão a ficar rotas. Devia arranjar outras, mas não encontro nenhumas. Nem uma loja nem um morto calçado. E pelo caminho que estou a fazer, já foi quase tudo saqueado.
A comida está a acabar-se. Tenho uma garrafa de plástico de 33cl ainda com água. E ando a poupá-la. Não tenho arranjado comida nem bebida. Está tudo vazio. Seco. Pareço que estou no fim do mundo depois do mundo ter acabado.
Tenho parado e entrado em quase todas as casas por onde passo. Procuro coisas. Não sei bem o quê. Coisas que me possam ajudar, que me possam servir. Comida. Roupa. Ferramentas. Coisas.
Hoje de manhã entrei num café à beira da estrada. Deve ter sido um café-restaurante para camionistas. Tinha um enorme terreno em terra batida, vazio, ao lado. Lá dentro, um enorme balcão e dois espaços grandes com mesas e cadeiras, tudo revolvido. Procurei por todo o lado. Abri todas as portas, abri todas as gavetas, procurei em todos os armários, dentro de todas as arcas frigoríficas, de todos os frigoríficos. Nada. Nada de nada. E depois, ao sair de uma das casas-de-banho onde fui à procura de papel-higiénico, que também não havia, vi, atrás de um grande vaso, um vaso que antes de tudo isto deve ter tido flores, mas que agora estava vazio, atrás do vaso, um pouco de lado, um bocado de vermelho que me chamou a atenção, e cheguei-me a ele, e baixei-me e estiquei o braço e a mão e alonguei os dedos e agarrei. Era uma lata. Uma lata de Coca-Cola. Coca-Cola clássica. Lata vermelha. Já fora do prazo, mas que sobrevivera a todos os saques que aquele café sofrera para esperar por mim. E ali estava eu. Com a lata de Coca-Cola na mão. Sem gelo. Sem limão. Sem um copo sequer. Ainda procurei, mas estava tudo partido. Sentei-me ao balcão. Abri a lata. Ouvi o estalito do alumínio a abrir e o fsch que o gás da Coca-Cola fez ao ser libertado. Levantei a mão com a lata e cheguei-a aos lábios e beberiquei um pouco, e senti as borbulhas a explodir na boca e despejei mais pela garganta abaixo e senti a garganta a rebentar com a aspereza do gás e fui seguindo o trajecto da Coca-Cola dentro de mim até chegar ao estômago e então, arrotei. Mas um arroto tão sonoro que me assustei. Não estava habituado ao barulho. Soube-me bem, arrotar. E soube-me muito bem sentir aquele sabor adocicado da Coca-Cola. E foi no momento em que voltei a levar a lata à boca pela segunda vez, que me lembrei d’ A Estrada de Cormac McCarthy e do momento em que o homem dá a provar ao rapaz, pela primeira vez na vida, um bocado de Coca-Cola. E sorri. Como a ficção pode antecipar tão bem a realidade. Naquele momento, senti-me uma personagem da ficção de McCarthy, mas em real. Aquilo não era uma história. Aquilo era a minha vida. E sim, tínhamos dado cabo do mundo. Alguns de nós tinham dado cabo do mundo, mas acabámos todos a sofrer com isso. Não deve haver ilhas isoladas, condomínios fechados ou paraísos fiscais que tenham sobrevivido ao apocalipse. Não há sol. Já há muito tempo que não se vê o sol. Quanto tempo? Talvez anos. Já não sei. E esta fuligem! Esta cinza constante a cair dos céus. Não há terrenos cultivados. Não há rios de água cristalina. Não há culturas nem água potável. Há restos. Restos que sobreviveram ao fim. Há esta chuva de cinza. E frio. Muito frio. Estamos todos na merda a tentar sobreviver, os que sobreviveram, com o que se consegue recuperar, saquear, descobrir nos sítios por onde se passa. Já não há Continente e Pingo Doce com os seus camiões de distribuição a encher os lineares dos supermercados. Já não há nada. Nada de nada. Só meia-dúzia de pessoas que deixei lá para cima há não-sei-quantos-dias para procurar um outro grupo de pessoas que, parece, está cá para baixo, não-sei-bem-onde, e está a tentar organizar o que resta de nós. De nós todos.
Tenho ouvido algumas histórias. Violência. Grupos que percorrem as estradas à caça. Canibalismo. Até agora são só histórias. Já venho a caminhar há tanto tempo e ainda não encontrei vivalma. São essas histórias que me fazem companhia na estrada.
E lá vou eu. A descer, acho. Em direcção a sul se a bússola estiver a funcionar. Às vezes o ponteiro dá umas voltas tontas. Depois pára e mostra-me o norte. Acho. E eu sigo para sul.
Estou cansado. Não sei se vou encontrar alguém. Não sei se as pessoas que deixei lá para cima estão ainda vivas. Eu continuo aqui. A caminhar na estrada. Estou com uma respiração ofegante. Cansado. E com as botas a ficarem rotas.
Mas hoje foi um bom dia. Hoje bebi uma Coca-Cola.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/09]

Uma Vida Simples

Simplicidade. É ao que reduzi a minha vida. À simplicidade.
Mudei de casa. Aluguei um T1. Um quarto, uma sala com uma kitchenette e uma casa-de-banho com polibã. Duas janelas para a rua com vista desafogada. Vejo, ao fundo, a cidade.
Vendi todos os móveis. Os que não consegui vender, ofereci à Remar. Fiquei com o colchão da cama e um estrado com pernas. Dois conjuntos de lençóis. Um edredão e uma manta. Uma mesa e duas cadeira. Uma panela. Dois pratos. Duas tigelas para sopa. Dois conjuntos de talheres. Uma colher-de-pau. Uma faca de serrilha para cortar o pão. Uma faca de corte. Uma tábua de plástico para cortar coisas. Uma saca de pano. A kitchenette já tem um pequeno fogão de placa de indução. Um frigorífico pequeno, com uma gaveta pequena para congelar. Há também um esquentador inteligente mas que só espero usar no Inverno.
Vendi toda a minha roupa. O que não consegui vender, ofereci à Cruz Vermelha. Fiquei com dois pares de calças. Duas t-shirts. Duas sweat-shirts. Uma camisola. Quatro pares de meias. Quatro cuecas. Um casaco de meia-estação e um grande, de Inverno, quente. Fiquei com um par de sapatilhas, umas botas e uns chinelos de borracha, de enfiar entre os dedos.
Fiz um contrato com uma cabeleireira da cidade. Vendo-lhe o meu cabelo, quando o corto, uma vez por ano.
Vendi o carro. A mota. A bicicleta. O skate. A televisão. A alta-fidelidade. A máquina fotográfica. A Lomo. A câmara de filmar. Vendi os livros. Todos os livros, com excepção dos livros do Philip Roth e do Alberto Pimenta que esses vou querer reler para o resto da minha vida. Vendi os discos de vinil. Os CDs. Os DVDs. As bandas-desenhadas. Fiquei só com A Balada do Mar Salgado do Hugo Pratt. Vendi tudo o que não pudesse transportar comigo se tivesse que partir, rápido, com uma mochila às costas.
Deixei de fumar. E se me custou! Deixei de beber álcool. Qualquer tipo de álcool. Mesmo o vinho tinto. O que me custou! Deixei de comer fritos. Passei a comer sopa. Muita sopa. Um frango assado de vez em quando. Pão com manteiga é a minha dieta. E fruta. E legumes.
Fiquei com o computador e o telemóvel.
Deixei de ver futebol. Mesmo os jogos do Benfica. E foi, talvez, o mais difícil de fazer, largar assim os jogos do Benfica. Tenho medo da ressaca.
Deixei de ir ao cinema. Ao teatro. A concertos. Deixei de comprar livros. Discos. Filmes. Descarrego música e filmes ilegalmente em torrents da internet para não morrer estúpido e porque o que quero ver nunca aparece cá pela cidade. A cidade só nos dá aquilo que acha que nós queremos ver, não aquilo que nós queremos realmente ver. Muito menos se forem poucas pessoas a quererem ver. Larguei a televisão. Não vejo mais os telejornais. De nenhuma estação. Nem os comentários do Luís Marques Mendes.
Passeio a pé pela cidade. Procuro os poucos jardins ainda existentes. Tento entrar nas redes sociais mas o sinal de wi-fi da rede pública é miserável.
Deixei de frequentar os centro comerciais. Mesmo os da cidade. Não entro nas lojas dos chineses nem das de 1€. Vou às lojas de rua. Compro o que necessito nas mercearias resistentes. É chato porque é um pouco mais caro. Mas a fruta sabe-me a fruta. E as senhoras que me atendem sabem o meu nome.
Faço todos os trajectos a pé. Só quando tenho de sair da cidade é que vou de autocarro, carreira, camioneta. Tudo isto porque não há comboios na minha cidade. E quem disser o contrário, estará a mentir.
Fui entregar os gatos e os cães ao canil municipal. Não sei se fiz bem ou mal. Se calhar fiz mal. Mas não tinha outra opção.
Agora levo uma vida simples. Tão simples que já me perguntei Que raio é que faço aqui? Mas vou aguentando.
Em dias de chuva ou de sol, chego-me à janela a apreciar as mudanças na cidade visto aqui de cima. E nessa altura sinto falta do cigarro entre os dedos e um copo de vinho tinto nas mãos. Mas resisto. Vou resistindo.
Escolhi o meu caminho. A simplicidade.
Larguei a família os amigos e as amantes para me livrar dos vícios e das necessidades que o contacto com os outros obriga. Agora estou só comigo. Levo uma vida simples. Não sei para o que é que me servirá, mas deverá servir para alguma coisa.
Para já estou mais magro. Já tive de mandar fazer mais dois furos no cinto. Não sei exactamente que peso tenho porque não tenho balança em casa e, quando vou à cidade, não vou propriamente à procura de uma farmácia para me pesar. Na verdade vou à procura de uma banco à sombra de uma árvore para ler umas páginas soltas do Bestiário Lusitano do Alberto Pimenta. E aguentar a passagem do tempo. Um dia a seguir ao outro. E ainda aqui estou. Na terceira rocha a contar do sol.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/11]

Que…

Estou à espera. Estou sempre à espera. Não sei bem de quê. De qualquer coisa. Acho que espero qualquer coisa que aconteça. Que chegue. Que se faça anunciar. Mas não acontece nada. Não se passa nada. Não chega nada. Nada de nada.
E eu continuo. Continuo à espera.
Não sei…
Que a minha mulher deixe de ter dores de cabeça.
Que a minha filha me telefone.
Que o meu filho não me ignore.
Que a minha mãe não morra.
Que o meu pai ressuscite.
Que eu tenha trabalho, dinheiro e saúde.
Que me saia o Euromilhões.
Que consiga escapar à Sida, à Hepatite e ao Cancro.
Que esta ferida no lábio não seja Herpes.
Que o Linic funcione e deu deixe de ter caspa.
Que o vinho nunca se me acabe.
Que a bronquite não me impeça de continuar a fumar.
Que eu não perca a capacidade de dançar.
Que eu não deixe nunca de gostar de música. Fazer filmes. Escrever estórias.
Que não perca nunca a capacidade de me surpreender e de me apaixonar.
Que o Benfica ganhe a Liga dos Campeões.
Que alguém, que não eu, chegue a Marte, não sem antes deixar a Terra em condições de funcionamento para os vindouros.
Que parem de usar combustíveis fósseis.
Que utilizem o calor do sol e a força das ondas.
Que a banana da Madeira continue saborosa.
Que nunca se acabe a Tosta de Galinha da Geliz.
Que Bolsonaro tenha chatos e Trump piolhos.
Que desapareçam as caixas de comentários.
Que tenham urticária todos aqueles que vão destilar ódio para as redes sociais.
Que ninguém gaste um tostão na Black Friday. Nem dê prendas no Natal.
Que toda a gente queira um abraço e toda a gente o consiga dar.
Que Amo-te signifique alguma coisa.
Que humanidade também.
Que os cães e os gatos sejam felizes uns com os outros.
Que acabem as mortes no Mediterrâneo. Que acabem os combates parvos e idiotas que só servem a gente mesquinha e gananciosa.
Que o Corto Maltese continue a ter grandes aventuras. E o Tintim também.
Que eu volte a ter paciência para ler Os Cinco e Os Sete.
Que haja sempre alternativa.
Que eu deixe de estar à espera do que nunca vai chegar, do que nunca vai acontecer.
Que eu seja tudo, a Noite e o Dia a Pergunta e a Resposta o Alfa e o Ómega a Vida e a Morte.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/02]