Um Cachorro-Quente Vintage

Estava frio. E foi assim que acordei. Com frio.
Eram cinco da tarde. O dia estava a ir embora. Fiquei danado. Fico sempre danado quando perco a luz do dia. Gosto da noite, mas preciso do dia.
Acordei arrepiado de frio debaixo do edredão. Descobri que estava com um edredão de Verão. Não sabia que havia mais que um género de edredão. Ainda fui buscar uns casacos que coloquei por cima de mim, por cima do edredão, mas já estava tão frio que nada me aquecia.
Fui tomar banho. Um duche quente. E tive sorte. A botija ainda tinha gás. Mas acho que se aproxima o dia em que vou ter de tirar o champô com água gelada.
Vesti-me. Olhei pela janela. Tudo escuro, lá fora. Nem o candeeiro público estava a funcionar. Este país está como eu. Nas últimas.
Fui até à sala acender a lareira. Tentei. Tentei bastante. Gastei uma caixa de acendalhas. A porra das acendalhas ecológicas. Podem ser ecológicas, mas não acendem nada. Resolvi o assunto com um livro. Prenda de Natal. Nem sei o que era. Quinta-Feira e Outros Dias, rezava assim na capa. Muitas folhas. Óptimo para a lareira. Que se lixassem as acendalhas ecológicas. Nada como o bom do papel saído directamente do eucalipto.
Lareira acesa. O calor a começar a invadir a sala.
Fome.
Fui para a cozinha. Abri a porta da despensa. Olhei em volta. As prateleiras estavam vazias. Fui ao frigorífico. Não estava melhor. Só garrafas. Cerveja. Vinho branco. Coca-Cola. Abri o congelador. Vodka.
No fundo, admiro-me. Sei que não aguento muito a sede. Tenho de ter sempre uma bebida à mão. E tenho.
Descobri uma lata de salsichas. Um cachorro à antiga. Nada daqueles hot-dogs de salsicha grande e grossa cozida ou aquecida em vapor, deitada num pão com textura de bolo com três dias na companhia de uma horrorosa batata-palha (quem é que inventou esta merda?) e submersa pela trilogia de molhos industriais-chunga maionese-mostarda-ketchup. Não, nada disso! Um cachorro vintage.
Cortei as salsichas ao meio. Um bocado de azeite numa frigideira. Um dente de alho, esmagado. As salsichas lá para dentro. Duas carcaças duras na torradeira. Esperar. Um bocadinho, não muito. Virar as metades das salsichas. Barrar a parte de baixo da carcaça torrada com manteiga Primor. Dispor as metades das salsichas sobre a manteiga, com a parte cortada virada para cima. Despejar um bocado de mostarda Paladin. Sem medo. Apertar bem a embalagem. E mexer a mão, em curvas, sobre as salsichas na carcaça. Colocar a outra metade da carcaça por cima. Estava feito.
Não tinha vinho tinto. Não me apetecia branco. Estava cheio de cerveja da véspera. Fui para o vodka. Há ligações improváveis que acabam em bons casamentos.
A casa já estava quente com a lareira a queimar lenha, roubada no Pinhal do Rei, na sala. Três shots de vodka aqueceram-me ainda mais.
Mas o que me soube mesmo bem, foi aquele cachorro-quente vintage vindo directamente do meu passado. Até me passou a neura pela ausência de luz do dia.
O que fazer com as horas que me restavam até voltar para a cama? Talvez tentar uns números de telefone. Talvez descobrir quem é que gostava de vodka. Ou de vinho branco. Tinha João Pires. As senhoras gostam de João Pires. É frutado. Agarrei no telemóvel. Comecei pelo A.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/30]

A Ouvir Wanderer da Cat Power

Estava em pulgas. Queria ouvir o disco. Sou fã. Não aguentei até comprar o CD. Sabia que tinha de o comprar. Tenho todos os outros. Também vou ter este. Mas não aguentava a espera. Estes últimos tempos com estas canções largadas assim, às mijinhas, de vez em quando, a fazer crescer água-na-boca. Não, não consegui esperar. Fui à internet buscar. Download. Coloquei-o no iTunes. Passei-o para o iPod. Sim, ainda tenho um iPod. Daqueles velhinhos. Um Nano dos antigos. Ainda de linhas direitas. Rijo. Preto. Preto mate.
Coloquei os auscultadores nos ouvidos. Play.
[wanderer]
Abri a porta da rua e saí de casa. Não esperei o elevador. Desci as escadas na companhia da voz de Chan Marshall. Uma voz quase sussurrada. Sussurrada ao ouvido. Para mim. Só para mim “Gave my hand to Jesus when I ran away with you // Oh, wanderer, I’ve been wondering”.
[in your face]
O dia está a terminar. Estamos no lusco-fusco. Aproxima-se a noite mas o dia ainda não foi totalmente embora. Por cima da cidade um capacete que é uma palete de cores. Do vermelho-vivo ao azul-escuro, muito escuro, quase preto. Sinto-me melancólico “And when you wake // It’s all in vain”.
[you get]
Cruzo a cidade. Vejo as luzes a acender ao ritmo da minha passada. A cidade acorda comigo. Acorda para uma realidade crua. A iluminação camufla-me, passo despercebido entre as esplanadas cheias de gente e ninguém me vê. Eu não quero ver ninguém “You cross the street, you got the feeling on me // You never listen to reason, you just tell ‘em to be”.
[woman]
Sento-me na borda da Fonte Luminosa. Acendo um cigarro. Tenho uma ligeira tontura. Vejo, à distância, as pessoas a cruzarem a Praça onde está a Fonte. Sinto um calafrio pelas costas. Elas olham para mim. As pessoas olham para mim. Mas não me vêm. Ninguém me vê “If you know people who know me // You might want them to speak.”
[horizon]
Afasto-me da Fonte Luminosa, da Praça, e das pessoas que a cruzam e olham sem me ver. Largo o resto do cigarro no chão e caminho ao longo do rio. Caminho, só, ao longo das margens do rio. Acompanho-o. E penso na minha mãe. Em como era a minha vida quando a minha mãe era a minha mãe e não uma velhinha que eu tinha de cuidar. Quando era ela que cuidava. E que bom era ser cuidado “Mother, I wanna hold your hand”.
[stay]
As margens do rio estão vazias. Desertas. Está frio. E escuro. Penso em voltar para trás, mas continuo em frente. Vou em frente. Quero ir em frente. Não porque queira ir em frente, mas porque não quero voltar para trás. Nem parar. Nem sei o que quero. Não quero nada “I want you to stay // Want you to stay”.
[black]
Está tudo tão escuro que já não sei onde estou. Já não sei onde acaba o céu e começa o rio. É preto sobre preto e eu não vejo nada, só preto. Não há linhas nem sombras nem texturas. Estou no limbo. Estico as mãos para tocar em alguma coisa e não toco em nada. A vida foge-me. Não a mereço “But when the white light went away I knew death was setting in”.
[robbin hood]
Ouço um grito. Um grito na noite. Mas é imaginação. Estou com os auscultadores nos ouvidos. Não ouço grito algum. Ouço sim, um murmúrio. Um murmúrio da Cat Power. Nos meus ouvidos “Gun to your head, they want solely your money.”
[nothing really matters]
Mas não há arma. Não há ninguém. Nunca há ninguém. Regressa a luz. O rio continua lá em baixo. O céu, lá em cima. E estou aqui. E não sei porquê. Não sei o que faço aqui, sozinho, à beira do rio. Está frio. E escuro. E estou com fome “It’s like nothing really matters”.
[me voy]
Vejo as rulotes ao longe. Aproximo-me. Caminho até lá. Já me sinto em casa. Mas é engano. Está muita gente. Parece dia de festa. Não gosto disto assim. Olho em volta. Começo a transpirar. Estou nervoso. Sinto os pingos a caírem pela testa abaixo. Deixo a bifana, o cachorro-quente, o hambúrguer com cebola frita e as minis. Quero voltar para casa. Quero regressar. E consigo ouvir “I’m leaving // Me voy, me voy”.
[wanderer / exit]
Arrasto-me até casa. Não quero ver gente. Subo de elevador “Wild heart, young man, goddamn, I never wanted to keep // Your goal is ages out for the end of your story”.
Abro a porta de casa. Tiro os auscultadores dos ouvidos. O disco chegou ao fim. Estou a chorar. Nem sei porquê. Sei! Os discos da Cat Power têm esse efeito em mim. Arrastam-me pela melancolia. Entristecem-me mas, ao mesmo tempo, fazem-me sentir bem. Estranhamente, dão-me esperança. Não sei bem em quê. Só esperança.
Deve ser uma coisa boa, não?
Sento-me no sofá e penso no dia em que vi a Cat Power ao vivo. Num aniversário. Um bilhete, como prenda de aniversário. O concerto na companhia de amigos. Uma tristeza esperançosa em grupo. Se calhar era uma forma de terapia, não sei.
Mas sei que gosto desta gaja. Faz-me sentir bem. Mesmo que melancolicamente. É bizarro tudo isto. Mas não é assim que a vida é?

[escrito directamente no facebook em 2018/10/06]

Não És Tu, Sou Eu

Acordei ansioso.
Percebi que o dia se estava a preparar para me dar cabo da vida. E não me enganei.
Mal cheguei ao trabalho fui chamado à gerência. Que gostavam muito do meu trabalho, que era mesmo uma das pessoas mais qualificadas que por ali andava, que sabia fazer, quando fazer e o que fazer. Mas precisavam de controlar despesas. E a maneira mais rápida e eficiente era mandar embora alguns colaboradores. Colaboradores, não empregados. Não era nada de pessoal comigo. Era mesmo um problema deles. Não és tu, sou eu. Downsizing, percebes?
E tiveram de procurar razões para ser uns e não outros. Eu era bom, e eficiente, mas era rebelde, chato, insatisfeito, sempre de mau feitio e a refilar com tudo. E já estava a entrar numa idade avançada. É preciso dar lugar aos novos, aos jovens turcos. E era um alivio verem-se livres de mim.
Final de contrato. Sem direito a indemnização. Arranjei-a bonita. E agora? O que é que iria fazer, agora? Com esta idade?
E podia ir embora. Já não valia a pena fazer o que tinha planeado para fazer. Podia ir tratar da minha vida.
Percebi que era um cancro. Que estava a ser arrancado antes de espalhar metástases por todo o lado.
E percebi que não importava se eras bom, quanto eras bom, se não agradavas a quem tinhas de agradar. No fundo, mesmo na lógica liberal não se abandonam os preceitos da célula. Quem está em cima manda em quem está em baixo. E o respeitinho é uma coisa muito bonita.
Peguei nas minhas poucas coisas e fui embora.
Entrei num snack-bar. Sentei-me ao balcão e pedi uma cerveja. E a manhã foi passando na companhia das cervejas. Ao almoço comi uma sopa e entrei no vinho. A meio da tarde comi um rissol. Era de noite quando pedi um cachorro, daqueles à antiga, duas salsichas Nobre abertas ao meio e fritas na frigideira e colocadas numa carcaça previamente torrada e barrada com um pouco de manteiga. Depois espremi lá para dentro um pouco de mostarda. Acho que continuei na companhia do vinho. Depois bebi um café e uma Macieira. A partir daí, as coisas estão envoltas numa nebulosa.
Acordei na casa-de-banho do snack-bar, caído entre a retrete e a parede. A casa-de-banho estava imunda e acho que eu também. Reparei que tinha vomitado sobre mim. Tentei levantar-me, escorreguei no vomitado e voltei a cair. Quando consegui sair, fiz toda a distância até à porta da rua quase a correr para manter o equilíbrio e não voltar a cair.
Cheguei à rua e vi que a noite tinha caído. O ar fresco despertou-me um pouco.
Cheirava mal. Olhei para mim, de cima a baixo, e vi que estava molhado e sujo. Faltava-me uma sapatilha. Não tinha comigo as coisas que tinha… Que coisas? Já não me lembrava, mas sei que tinha umas coisas.
Não sabia o que fazer. Não sabia para onde ir. Olhei à volta para perceber onde estava e não reconhecia nada.
E, de repente, lembrei-me que tinha sido dispensado do trabalho. Caiu-me um enorme peso em cima. As pernas fraquejaram. Começou a faltar-me o ar. Fiquei com taquicárdia e pensei que o coração me ia saltar peito fora. Comecei a morder os lábios e a arrancar as peles com os dentes e a abrir e fechar as mãos. Os dedos estalavam. Pus-me a atravessar a estrada e, então, só vi um enorme clarão…

…agora estou aqui em cima a olhar para mim, lá em baixo. Há gente à minha volta. Há gente a chorar. Eu estou calmo, tranquilo. Mas penso É por mim que estão a chorar? Agora? Agora que já não estou lá? É por mim?

[escrito directamente no facebook em 2018/01/17]

À Espera que o Tempo Passe

É Sábado. Vésperas de Natal. Há uma espécie de histeria no ar. A cidade é inundada de pessoas. As lojas, de portas abertas, estão cheias de gente que mexe em tudo como se tivessem olhos nas pontas dos dedos. Ir ao Centro Comercial é suicídio e decidir estar uma hora numa fila de trânsito que não anda.
Os restaurantes estão cheios. Alguns já quase só funcionam por marcação como nas grandes metrópoles.
Eu também decidi sair de casa. Estou sem luz. Não paguei a conta a tempo e cortaram-na na Quinta-feira passada, à noite. Agora só posso ir pagar na Segunda-feira. Até lá estou às escuras. Sem televisão. Sem aquecedores. Sem água quente para o banho. Nem a comida posso fazer. Não sei se foi boa política ter tudo eléctrico em casa. Por isso, que é que faço aqui? Saí.
Fui até às rulotes. Vou muito às rulotes. Por vezes até fica mais caro que em alguns restaurantes da cidade, mas fica a impressão de que se poupa. Estar a comer em pé, ao frio, um bocado de pão com uma bifana, e acompanhar com uma mini, parece mesmo uma refeição triste e barata.
Não era o único. Nunca sou. Aliás, as três rulotes que estavam a funcionar estavam à pinha. Havia ali muita gente como eu. Uma bifana, frita ou grelhada, um hamburger, ou um cachorro-quente que mais não é que uma salsicha cozida com batata palha e uma série de molhos. Mas as pessoas gostam. É pena não haver batatas fritas ruffles da Matutano.
Saio da rulote de estômago composto e, antes de me ir enfiar na cama, passeio um pouco pela cidade. E vejo que ela fervilha de gente. Grupos de miúdos, de raparigas. Grupos de capa e batina. Namorados. Casais. Parezinhos. Gente que parece divertida e que se diverte. Gente que sorri. Que ri. Gente que se beija. Passeia de mãos dadas. Gente que conversa. Que discute. Gente que vive e que ama.
Passo por isso tudo e sinto-me emocionado. Tenho pena de não sentir o mesmo. Tenho pena que tudo isto me passe ao lado. Mas não poderia ser de outro modo.
Já em casa, vou até à varanda fumar um cigarro. Parece que amanhã chega a Ana. Um furacão feminino. Não tenho nada em casa para lhe oferecer. Acho que vou ficar deitado na cama o dia inteiro. Acho que não vou ter pachorra para a receber. Vou adormecer e esperar que surja a Segunda-feira para poder tomar um banho de água quente.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/09]