O que o Gato Pensa de Mim

Hoje já acendi a lareira. Está frio. Já sinto frio.
Estou à janela de casaco de malha vestido. Fumo um cigarro e olho lá para fora. Vejo as chaminés da fábrica lá ao fundo. As chaminés deitam um fumo branco. Não sei o que é que aquela fábrica produz. Já lá passei tantas vezes e nunca lá vi muito movimento. Mas a fábrica está quase sempre a laborar. Deve ser automatizada. Não sei o que produz.
Está a chover, lá fora.
Há alguma neblina. Não consigo ver os cumes das montanhas lá à frente, depois da fábrica.
Um dos gatos vem para junto de mim. Roça-se nas pernas num movimento infinito a fazer oitos entre uma perna e outra. Depois dá um pulo e vem para o parapeito da janela. Fica ali a olhar para mim. Como se estivesse à espera que eu lhe dissesse alguma coisa. O que é que queres, gato? Mas o gato não quer nada. Vira-se para a rua e fica ali, como eu, a olhar a chuva a cair e à procura das montanhas escondidas entre a neblina que se instalou lá ao fundo.
Ouço o barulho da lenha a crepitar na lareira. Viro-me para trás. Gosto de ver as chamas a queimar.
Penso na semana que passou. O mundo todo condensado em meia-dúzia de linhas. Trump a caminho da destituição. A criança encontrada no caixote do lixo. A casa oferecida ao sem-tecto que encontrou a criança. A condenação generalizada da jovem mãe que deixou a criança no caixote do lixo. A derrota, mais uma, do Benfica na Liga dos Campeões. A libertação de Lula no Brasil. O silêncio ensurdecedor de Bolsonaro. A troca de palavras azedas entre Joacine e Daniel Oliveira. O Sérgio Conceição que se está a cagar. Assim, com estas letras todas Estou-me a cagar! Diz ele em directo e em conferência de imprensa. O mundo está doente. Eu também estou a cagar para muitas destas coisas. Mas eu estou aqui em casa e ninguém me paga para fazer outras coisas que não seja dizer que se está a cagar.
Viro-me de novo para a rua. O gato continua sentado no mesmo sítio a olhar a chuva lá fora. Agora chove mais. E com mais força. Agora não vejo as chaminés da fábrica. A chuva é muita. Mas vejo uma luz vermelha a piscar. A avisar que existe altura. Que as chaminés estão lá. Mesmo que eu não as veja.
Penso que vivemos tempos muito peculiares. Mas penso logo de seguida que sempre foi assim. Os tempos são sempre muito peculiares. Difíceis. Complicados. Mas é sempre assim. Todo o tempo. Nós é que tendemos a achar que é no agora que as coisas se complicam. Às vezes é.
O cão está lá fora à chuva a olhar para mim. Para mim e para o gato. Deve querer entrar. Mas agora está molhado. Chamei-o antes da chuva começar a cair. Para vir para dentro de casa. Os gatos vieram. Ele preferiu andar a laurear-a-pevide. Se calhar com alguma cadela da vizinhança distante. É um cabrão, este cão. Agora não te abro a porta, digo-lhe através do vidro duplo da janela. Ele não ouve o que digo. Mas percebe. Ele percebe que está molhado e não o vou deixar entrar. Não tarda vai deitar-se no chão, à chuva, a rebolar, de olhos tristes, para me fazer condoer. Mas eu não vou cair nessas brincadeiras emotivas, estás a ouvir, cão?
Viro-lhe as costas. Volto a olhar a lareira. Lanço para lá o resto do cigarro. E digo para mim, Vou abrir-lhe a porta. Ele vai querer vir deitar-se junto à lareira. E olho de relance o gato e percebo que me está a chamar Conas! Sim, eu sei o que é que o gato pensa de mim. Aquele gato em especial.
Continua a chover.
E já faz frio.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/09]

Redes Mosquiteiras

Andei a pôr redes mosquiteiras nas janelas de casa.
A ideia era mandar fazer uns caixilhos em alumínio com uma rede fina de arame. Tudo pintado com as cores das molduras das janelas para passar despercebido.
Mandei fazer um orçamento. Fizeram-no. Mandaram-mo. Recebi-o. E resolvi esperar que me saísse o Euromilhões.
Estava farto das moscas, melgas e mosquitos. A cidade é de todos, bem sei, mas há alguns que acham que são mais que os outros, entram pelas casas dentro e desatam a chatear toda a gente. A morder. A picar. A transmitir doenças. A zumbir. Um horror. E então com a chegada do Verão, a bicheza anda toda doida. O calor em casa é diabólico. Não se pode pagar ar condicionado que é caro e, além do mais, fica sempre bem dizer que é em defesa do ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque defendo o ambiente. Eu não tenho ar condicionado em casa porque não o posso pagar.
Bom, estava farto das moscas, melgas e mosquitos. E cansado de morrer de calor dentro de uma casa de janelas fechadas para manter a bicheza na rua. Nem dos cheiros que se acumulam entre-portas me conseguia livrar. Os cheiros a comida, a transpiração, a sexo, a vinho azedo quando vomito, a tabaco frio quando as beatas se acumulam em vários cinzeiros perdidos pela casa. Então, estava com um copo de vinho na mão e um cigarro entre os dedos quando decidi Vou pôr mãos à obra. E assim fiz. Tirei medidas às janelas. Todas iguais. Boa.
Saí de casa com o cartão multibanco e a esperança que o dinheiro acumulado na conta chegasse para as necessidades. Comprei umas ripas de madeira. Uns metros de rede em plástico, de cor verde. Tinta para pintar a madeira da cor das janelas. Agrafador. Agrafos. Um martelo. Uma serra. Uns cantos em metal e parafusos pequenos. Um chave de fendas. Um pincel.  O total. Enfiei o cartão de plástico do Multibanco. Apareceu a conta. Nem olhei para não desanimar. Rezei três Avé-Marias em dois segundos. Carreguei em Verde. Código. Verde. E a transacção foi aceite.
Corri para casa. Fui para a cozinha. Um belo sítio para fazer este tipo de coisas. Cortei as ripas de madeira com as medidas das janelas. Juntei-as com os cantos em metal por dentro. Fiz umas belas molduras. Pintei-as. Enquanto secavam, abri uma garrafa de Real Lavrador, da Adega do Redondo. Era o que havia cá por casa. Acendi um cigarro. Esperei.
Cortei a rede plástica ao tamanho das molduras e agrafei-a à madeira. Depois coloquei-as do lado de fora das janelas e puxei-as para dentro, para ficarem o mais coladas possível à janela.
As redes não ficaram muito bem esticadas. Estão enfoladas. E eu agora já não posso enfiar a cabeça pelas janelas para espreitar para a rua. Agora quando quero dar fé do que se passa tenho mesmo de ir à varanda. Mas a varanda só dá para um lado. Paciência.
Agora estou só à espera que o calor regresse para poder ter as janelas abertas e livre de bichos. Mas o frio, o cabrão do frio, parece que retornou. Raios o partam.

[escrito directamente no facebook em 2019/06/15]

Cães e Gatos e uma Moca de Rio Maior

A gata teve uma ninhada. Quatro crias. Duas amarelo-creme, daquele amarelo-creme dos labradores. Um branco-persa. Um preto-ninja. Três gatos e uma gata. A gata é um dos amarelo-creme labrador. Pelo menos é o que me parece. Posso estar enganado quanto ao sexo. Mas o sexo também já não é o que era. Afinal, podem ser outra coisa qualquer. As cores são aquelas. Mas também podem mudar com a idade. A sujidade. A comida. O tempo. O sangue dos coelhos, ratos e pássaros que irão caçar. O sangue das feridas infligidas pelos cães da vizinhança.
A gata teve a ninhada num caixote de cartão que eu coloquei no telheiro nas traseiras da casa. Enfiei lá dentro uma camisola antiga minha. Uma camisola de algodão, daquelas com capuz, marca de street wear, que eu usava quando ainda achava que era jovem. Desde que eles nasceram que a gata tem estado dentro do caixote com as crias. Sai para ir miar para a porta da cozinha, logo de manhãzinha, para me dizer que tem fome e precisa de leite. Não pára de miar enquanto não lhe fôr dar um pires com leite meio-gordo. Depois regressa ao caixote. As crias atacam-lhe logo as tetas. Esfomeadas. Às vezes até parecem engasgarem-se, tal a sofreguidão.
Embora seja muito protectora das crias, e estar sempre a afugentar os outros gatos, mostra-lhes os dentes, faz Ffffff, e fica com o pêlo eriçado, a mim deixa-me aproximar. Já mexi nas crias para ver o sexo. Ela não me disse nada. Andou só por ali, à minha volta, a roçar-se nas minhas pernas, atenta ao que eu estava a fazer.
Ontem à noite, no entanto, houve um acontecimento que perturbou a gata. E a mim.
O cão conseguiu furar a rede do quintal da frente da casa e entrar para as traseiras. As traseiras onde está o telheiro, o caixote, a gata e as crias.
Eu acordei com o cão a ganir à beira da janela do meu quarto. Fui acordado. Fui acordado com o cão a ganir. Eram quatro da manhã. Parecia mesmo que estava ali, à beira da minha cabeceira. A ladrar-me dentro da cabeça.
Primeiro ainda pensei que andava alguém lá fora a querer assaltar a casa. Levantei-me da cama. Agarrei na moca de Rio Maior que tenho ali ao pé da cama e fui nu para a rua, pronto para o que desse e viesse. Acendi a luz do quintal. Abri a porta. Pus os pés na rua e vi o cão. O cão que não devia estar ali, mas estava. E estava preso. Tinha entalado uma pata entre as lajes que circundam a casa. Um pouco mais à frente estava a gata, corpo encolhido numa curva ascendente, com o pêlo eriçado, a mostrar os dentes ao cão e a fazer Ffffff para o avisar que estava ali para proteger as crias e que ele não se aproximasse e que voltasse para o seu lado da casa. Como se ela, antes das crias, também não andasse sempre a azucrinar a vida ao cão. Mais ao longe, os outros gatos estavam sentados em cima do pequeno muro a assistir a todo este teatro. E depois cheguei eu. Nu. Descalço. De moca de Rio Maior na mão. Com cara de sono. A refilar com todos eles.
Consegui retirar a pata do cão presa nas lajes. Não estava ferida. Mas o cabrão do cão, contente, fartou-se de pular à minha volta e para cima de mim e acabou por me arranhar e sujar todo. Depois olhou para o gato e percebeu que não devia estar ali. Pôs o rabo entre as pernas, deu meia-volta e voltou para a frente da casa. E eu vi por onde é que passou. Pensei que no dia seguinte tinha de arranjar aquela rede. Ainda não arranjei. A gata miou-me, a refilar comigo, como se eu tivesse alguma culpa, e acabou por regressar, mais descansada, para o caixote e para o pé das suas crias. Os outros gatos continuaram em cima do pequeno muro a ver tudo. A olhar para mim, ali, nu, com a pila a abanar e uma moca de Rio Maior na mão. Antes de entrar em casa ainda vi, em cima da relva, um melro morto. Algumas penas a voar. Olhei para os gatos. Eles fingiram que não tinham nada a ver com aquilo. Mas eu não acreditei.
Entrei em casa. Fui tomar um duche. Voltei a deitar-me. Vi passar as cinco. As seis. As sete horas. E eu sem voltar a pregar olho. Cabrão do cão. Cabrões do gatos. Todos os gatos. E o melro, também. Não dormi nada. Depois comecei a rir. A rir que nem um desalmado. E disse alto O melhor é levantar-me! Cabrões!
E fui para a cozinha fazer café fresco. E ainda ia a rir. A pensar na noite anterior. E a rir.

[escrito directamente do facebook em 2019/05/07]

De Regresso

Regresso da minha ausência.
Os gatos correm para mim a refilar. Não param de miar. Parecem dizer-me Oh meu cabrão! Por onde é que andaste? Onde está o jantar?
O cão também se manifesta. Mas está contente. Abana o rabo e salta à minha volta. Lambe-me as mãos. Eu tento afastá-lo mas ele insiste. Os gatos zangam-se com ele. Os gatos zangam-se com toda a gente. Mas dura pouco. Não tarda ignoram-me. A mim e ao cão. Voltam para o alpendre e deitam-se sobre o muro a dormitar.
Ainda há um resto de luz do dia. Muitas nuvens. Nuvens coloridas. Em tons de cinza rosados. Ou tons de rosa acinzentado. Parece um céu roubado ao quadro de algum anónimo renascentista encontrado à venda nas feiras de rua.
Entro em casa. Sinto o cheiro a mofo da casa fechada. Mas gosto de sentir o cheiro da casa no meio do mofo. Gosto de regressar. Vou olhar as prateleiras onde estão os livros. Confirmo que estão cá todos. Que nenhum deles fugiu.
Abro as janelas. Não as vou ter abertas por muito tempo porque o dia está a cair. Mas vai ser o suficiente para arejar a casa e fazer desaparecer a maior parte do cheiro da humidade que paira por aqui.
Dou comida aos gatos para se entreterem e não entrarem em casa pelas janelas abertas. Tenho de fazer redes mosquiteiras para as janelas. Para mantê-las abertas e deixar os gatos, o sardão e toda aquela população alada do lado de fora. Há três anos que me prometo o mesmo. Fazer as redes mosquiteiras. Não me levo muito a sério. Mas um dia destes…
Gosto do silêncio que recupero. Por aqui não há muito barulho. Vou para ligar o leitor de cd’s e desisto. Ligo a televisão. Num canal noticioso. Quero ouvir as notícias. Anda tudo em polvorosa. Parece que se fotografou um Buraco Negro pela primeira vez na vida. Ouço dizer que esta fotografia vem comprovar a Teoria da Relatividade da Einstein. Não entendo como. Nem porquê. Quero tomar atenção ao noticiário para ver se percebo. Acabo a ouvir sobre a nova vitória eleitoral de Benjamin Netanyahu em Israel. Penso que as pessoas continuam a ser o elo mais fraco da democracia. Penso que as pessoas não pensam, são dirigidas por quem lhes diz o que acham que querem ouvir. Penso que as pessoas são um desastre à mercê delas próprias. Penso que os mesmos que conseguem fotografar um Buraco Negro à distância de milhões de anos-luz são também os mesmos que escolhem ser dirigidos por gente menor. Penso que as pessoas procuram sempre um paizinho-idiota que lhes pague as bebedeiras em Benidorm e se ocupe das questões que não querem compreender.
Ainda agora cheguei a casa e já sinto crescer uma pequena depressão.
Mas gosto de estar em casa.
Desligo a televisão. Desligo-me do noticiário.
Abro uma garrafa de vinho. Volto ao alentejano. Tinto.
Sirvo-me de um copo e vou para o alpendre. Acendo um cigarro e sento-me a olhar as montanhas lá ao fundo à espera que a noite caia.
E penso Depois deste copo tenho de ir fechar as janelas. Está a arrefecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/10]

Alojamento Local

Meti a chave à porta e abri-a. Fiquei cá fora a olhar para dentro do apartamento. Um quarto. Um mísero quarto dividido ao meio. À frente da porta, a cama. Do lado direito, um arco separava a cama da sala. A sala era um cubículo dentro do cubículo. A largura de um sofá IKEA de dois lugares. Em frente a televisão, demasiado grande para se ver na distância do sofá. Por baixo uma mesa que se abria e ganhava o dobro, o que roubava os espaços laterais. Alguém podia sentar-se com o telejornal sobre a cabeça, outro alguém com a cabeça enfiada nos seios da Clara de Sousa. A casa-de-banho ficava à cabeceira da cama. Uma retrete. Um duche. O lavatório servia de mesa-de-cabeceira. À entrada, ao lado da porta, um pequeno frigorífico. Por cima um pequeno fogão. Ao lado um pequeno lavatório. Onde estão as janelas?, pensei. Ninguém me respondeu. Não havia ninguém para me responder. Não havia janelas! Só quatro paredes caiadas e sem o cheiro ao alecrim. Entrei. Fechei a porta nas minhas costas e deixei cair a mochila que tinha às costas. Depois ainda pensei Porra! O computador! Podia ter partido o computador! Mandei-me para cima da cama, enfiei a cabeça na almofada fofinha e pensei É isto o capitalismo!… E depois deixei-me adormecer.
Acordei com o fim do mundo. O quarto-apartamento estava a vir abaixo. Um som ensurdecedor entrava-me pela cabeça. Uma mulher gritava-me aos ouvidos. Dizia Dá-me! Dá-me, cabrão! E lembro-me de ainda ter pensado Dou, o quê? quando percebi que não era para mim, nem era comigo. Passava-se no quarto ao lado. Uma mulher gemia. Pedia para alguém lhe dar alguma coisa. Esse alguém grunhia. Asneirava. A cama batia na parede. Ritmicamente. Por vezes com mais violência. Galopava. Depois retomava aquele ritmo de trote. Mas parecia que estavam mesmo os dois ali, comigo, num ménàge para o qual não havia sido convidado. E depois ela mandou um berro, expulsou todos os demónios e disse uma lista de palavrões, alguns eu nem conhecia nem descobri no Priberam.
Eu estava acordado. As mãos cruzadas atrás da cabeça a olhar para a porta de entrada. Parecia satisfeito. Só me faltava fumar um cigarro. Foi tão bom para ti como foi para mim? E gargalhei. Ri-me tanto que me ia engasgando. Tossi.
Olhei de novo em frente e reparei que, afinal, ainda havia uma máquina de lavar roupa. Perguntei-me com que improbabilidade é que aquilo ali tinha ido parar. E depois ainda pensei para que é que me ia servir. Foi a última coisa que pensei. Voltei a adormecer. Estava cansado. Não entrava luz da rua em casa. Não sabia se era dia ou noite. Só que estava cansado. Fechei os olhos e esperei voltar a adormecer e não ir parar nas sessões de sexo dos outros.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/05]

Alergias

Tenho a casa cheia de pó amarelo.
Já aspirei. Varri. Limpei com um pano húmido. Mas o pó acaba sempre por regressar. Eu vejo-o a voar pelos feixes de luz que passam pelos buracos das persianas. Vêm lá de fora. Das árvores. Das malditas árvores.
Odeio árvores.
Chega a esta altura do ano e o pó amarelo invade-me a casa. Preâmbulo para me invadir os pulmões. E depois, só à cacetada. Xoterna. Brisomax. Ventilan. Zyrtec. Aerius. Chá Erva de Príncipe. Aguardente aquecida e bochechada antes de engolir. Tudo o que vagamente me afaste destas árvores da morte.
Odeio árvores.
Houve uma época em que alguém disse aos meus pais que respirar merda de vaca fazia bem à bronquite. Passei a frequentar, todas as Terças e Quintas-feiras, o estábulo da dona Albertina, a senhora que nos vendia o leite. Ia para lá depois das aulas. Levava um livro e sentava-me lá, ao lado das vacas, no meio do estrume, a respirar aquela mistura de merda com feno, na companhia das moscas e do rabo da vaca que por vezes me abanava o cabelo. Li muito Júlio Verne na companhia das vacas leiteiras da dona Albertina. Não resolveu os meus ataques de bronquite. A falta de ar. O vício da postura. O polegar preso na presilha das calças para aguentar o corpo cansado de tanto respirar. Mas conseguiu fazer-me ler bastante.
Tenho a casa cheia deste pó amarelo.
Abro as janelas. Vejo o sol a brilhar lá em cima. Em frente à janela do quarto o campo está verde, pontilhado de amarelo das azedas. Gosto de chupar as azedas. Gosto de como fica o interior da minha boca depois de chupar uma azeda. Vejo o cabrão do gato da vizinha que vem, sorrateiro, por entre as ervas, tentar saltar para cima da minha gata. Vem cá, vem!que te despejo um balde de água em cima!, digo, mais para mim que para ele.
No outro dia apanhei-o debaixo do alpendre a fazer olhinhos à gata. Levou com uma tigela de água em cima. Fugiu. Fugiu que parecia um foguete. Esteve um tempo sem voltar. Agora está aí outra vez. Vem atrás da Primavera, o cabrão.
Odeio os gatos que me querem comer a gata.
Também odeio as árvores que largam este pó amarelo.
E algumas pessoas.
Tenho saudades do Óscar. Ele costuma aparecer por esta altura. Talvez tratasse da saúde ao gato da vizinha. E já agora da vizinha, chata do caralho que não prende o gato, tantas vezes que a avisei.
Começo a coçar o corpo. Começo a ficar com umas borbulhas que aprecem bolhas de água. Dão-me comichão. Tomo outro Zyrtec. Sinto dificuldade em respirar. Como se não houvesse oxigénio suficiente no mundo. Mando duas bombadas de Ventilan. Sinto-me inchar. Maldita cortisona.
Odeio a cortisona. Odeio o gato da vizinha e a vizinha. Odeio as árvores. E algumas pessoas.
Fecho as janelas. Baixo os estores. Puxo as cortinas. Deixo a casa na penumbra. Se não vir o pó amarelo, ele não existe.
Prendo a respiração. Conto até trinta. É difícil. Depois deixo sair o ar. E volto a engolir ar de novo. Um ar renovado.
Vou sobrevivendo. Às árvores. Ao pó. A Deus.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/22]

O Monstro do Outro Lado da Janela

O dia acordou enublado. Eu acordei com o despertador, que a luz no quarto, muito difusa, não era suficiente para me fazer abrir os olhos e despertar para a vida.
Olhei para o tecto. Estava lá. Inteiro. Tentei ver rachas, pontos negros. Moscas. Mosquitos. Aranhas. Não havia por lá nada a pontilhar o branco do tecto. Mas podia haver. E eu não ver. A luz não era muita. Eu estava a acordar. Os óculos que usava era só para ler. Mas não sei se não devia começar a usar óculos para ver mais que as letras que fugiam das páginas dos livros que continuava a roubar nas mesmas livrarias de sempre. Coloquei os óculos. Olhei para o tecto. Um borrão. Era só o que via. Um borrão sem forma. Tirei os óculos e larguei-os na mesa-de-cabeceira.
Empurrei o edredão para trás. Senti o frio da manhã pelo corpo. Estremeci. Levantei-me. Agarrei nas calças de fato-de-treino e vesti-as. Enfiei uma t-shirt. Saí do quarto. Entrei na cozinha. Liguei a máquina do café. Fui à casa-de-banho. Regressei à cozinha. Enchi uma caneca de café. Fui beber para a janela. Mas não via nada das árvores. Não via os pinheiros. Não vi as laranjeiras cheias de laranjas. Não via o muro do quintal nem a estrada lá ao fundo. Não via as montanhas naquele que era o meu horizonte habitual. Não via nada. Só um borrão difuso. Um nevoeiro tão cerrado e próximo que não via nada.
E, de repente, um monstro. Um monstro saltou à minha frente. Um monstro saído do nevoeiro saltou à minha frente. Dei um salto para trás. Assustei-me. Dei um salto para trás. A caneca de café na mão. A caneca de café saltou comigo. O café também saltou, por sua vez. E tombou sobre mim. Foda-se! disse alto. Foda-se! repeti. O café caiu-me em cima. Em cima de mim. Pela t-shirt. Pelas calças de fato-de-treino. Pelos pés descalços. Pelo chão limpo. Foda-se! disse outra vez ao sentir-me queimado pelo café. O monstro continuava aos saltos frente à janela. O monstro era o cão. O cão veio do nevoeiro. Escondido pelo nevoeiro. E saltou à minha frente. Do outro lado do vidro. Apanhou-me desprevenido. Assustei-me. Cabrão! disse, a pensar no cão. E via-o lá do outro lado do vidro aos saltos.
Larguei a caneca no lava-louça. Fui à dispensa buscar um balde e a esfregona. Despejei lá dentro uma medida de tampa de Sonasol Verde. Abri a torneira de água quente no lava-louça e enchi o balde. Depois fui lavar o chão da cozinha. Lavei o chão todo. Não ia deixar manchas. Não ia só lavar aquele pedaço sujo de café. Foi tudo. A cozinha toda. Lá fora o cão continuava a ladrar e a saltar em frente à janela. Queria comer, claro. O cabrão queria comer. Agora esperas!, disse-lhe através da janela fechada à espera que ele ouvisse e compreendesse.
Depois fui tomar banho.
Um duche quente.
Vesti-me. Quando regressei à cozinha, já não havia nevoeiro na rua. O cão já não estava a ladrar lá fora.
Saí à rua. Acendi um cigarro. Já via os pinheiros. Já via as laranjeiras cheias de laranjas. Pensei que mais tarde iria fazer um sumo de laranjas. Gosto de sumos de laranja. De laranjas a sério. Olhei mais lá para o fundo e já tinha de regresso o meu horizonte habitual. As montanhas. As montanhas verdes.
Ouvi vozes. Olhei a estrada, ao fundo do quintal. Ao portão. Duas mulheres. Duas mulheres com livros nas mãos. Duas mulheres, de calça e casaco. Mala a tira-colo e uns livros, ou revistas, presos pelos braços junto ao peito.
Testemunhas de Jeová, pensei.
Fiquei em silêncio. Deitei o cigarro fora. Voltei para casa. Ouvi a campainha a tocar. Mas não havia ninguém em casa. Só o cão. O cão que foi ladrar para o portão. Foi ladrar às Testemunhas de Jeová.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/15]