No Rio Lena

Desço a Serra dos Candeeiros. Tirei boas fotografias. A Serra é bonita na sua austeridade. Vegetação rasteira. Pedras. Pedregulhos. Uma certa aridez. Depois, uns tufos de árvores muito verdes. Assim muito juntas. Como um ramo. Uma casa ou outra à distância. E a omnipresença da torres eólicas. Gosto da sua dimensão majestosa. Mas é difícil fugir-lhes.
Lá pelo meio, umas cabras. Umas ovelhas. Encontrei uns namorados. Estavam nus. Encostados ao carro. Fotografei-os. Não deram por mim.
Estou a descer a Serra. Cruzo-me com uns vendedores de fruta. Estão num cruzamento. Páro o carro. Compro umas cerejas. Mas estão um pouco esbranquiçadas. Compro também uma melancia. Cheira bem. É pesada. Mas as pontas estão macias. Pago. Volto a arrancar.
Na rádio, percebo que está a começar o jogo da final da Taça de Portugal entre o Sporting e o Porto. Estou perto de Porto de Mós. Estou nas margens do rio Lena. Volto a parar o carro. Estou no pinhal. Saio. Ouço a água do rio a correr suavemente. Este rio é pouco caudaloso. Às vezes seca. Mas agora ainda leva água. Refresca o ambiente. Tiro uma manta do porta-bagagens. Olho para as cerejas, mas vejo-as tão pouco convidativas que as ignoro. Agarro na melancia. E no canivete-suíço que anda sempre no porta-luvas do carro. Deixo a porta aberta para ouvir o relato no rádio do carro. Sento-me na manta. Começo a cortar a melancia. A tarefa não é fácil porque a lâmina é curta e não chega ao fim da melancia. Corto pedaços pequenos. Vou comendo-a aos poucos. Devagar. E ouço o relato.
Sabe-me bem a melancia. Não está muito fresca. Mas está saborosa.
Acendo um cigarro. Deixo-me cair na manta. Olho para o céu. Não há nuvens. Não posso imaginar caras, bonecos, animais nas nuvens brancas do céu porque não estão lá. Olho o céu azul limpo. Um azul chroma. Vejo o fumo do cigarro a subir. Ouço o Lena a correr ali ao lado. O Sporting a medir forças com o Porto. Gosto desta calma. Gosto desta solidão.
Levanto-me da manta e vou até ao rio que mais parece um pequeno ribeiro. As margens estão verdes. Há uma mulher a molhar os pés nas águas frescas do rio que mais parece um ribeiro. Levanta ligeiramente o vestido, com as mãos, para não o molhar. Ela vira-se para trás. Olha para mim. É belíssima. A mulher mais bonita que vi na vida. Ela sorri. Eu vou até ela. Entro com as sapatilhas e as calças dentro de água. Aproximo-me dela. Vou para falar mas não sai nada. Estou mudo perante a sua beleza. Ela levanta uma mão à minha cara. Afaga-a. Puxa-me. Abraça-me. Envolve-me. Beija-me. E eu deixo-me ir. Beijo-a. Abraço-a. Sinto uma força electrificada a percorrer-me o corpo. Sinto que caímos abraçados. Caímos no rio. Caímos mas flutuamos. Abraçados um ao outro. Num beijo longo e molhado. As mãos percorrem os corpos. As minhas e as dela. No meu e no dela. E parece que temos quatro. Oito. Doze mãos. Mãos que libertam os corpo e os levam para fora da realidade. Para lá do rio. Para lá do céu azul.
E depois ouço Grandes penalidades. E não entendo. Grandes penalidades. Um bruá geral. Gritos. Palmas. E está tudo azul. Um azul menos forte. Mas ainda azul. É o céu que está azul. Um céu sem nuvens. Tenho uma beata apagada entre os dedos. Há cinza na manta. Uma melancia quase inteira. Ouço a água a correr no Lena, ali ao lado.
E alguém muito histérico grita Sporting, Sporting, Sporting!
E percebo que estava a sonhar. Não existe a mulher mais bonita que já tinha visto. Ouço o final da Taça de Portugal. Percebo que o Sporting venceu o Porto nas grandes penalidades. Depois de noventa minutos empatados. Depois de mais um prolongamento empatado. Venceu nas grandes penalidades.
Levanto-me. Arrumo a melancia. A manta. Desço ao rio para lavar as mãos. E vejo uma mulher no rio. A mulher mais bonita que vi na vida. Está a molhar os pés nas águas frescas do rio. Com as mãos, levanta ligeiramente o vestido para não o molhar. Olha para mim. Olha para mim e sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/25]

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Algo Estava a Acontecer

Eu estava sentado a uma grande mesa. Estava a jantar. Estava rodeado de muitas pessoas a jantar. Acho que não conhecia ninguém. Mas não tenho certeza. Alguém estava a falar comigo. Alguém estava com um pedaço de carne assada espetado num garfo a olhar para mim. A boca mexia. A boca mexia e não era a mastigar. A carne assada continuava espetada no garfo. Presumo que estivesse a falar comigo. Eu não conseguia ouvir. Esforçava-me para ouvir. Tentava abstrair-me do bruá geral de gente em conversas cada vez mais galopantes. Senti o corpo tombar ligeiramente sobre o tipo que parecia estar a falar comigo. Queria ouvir. Mas não conseguia. Eu tinha um copo de vinho tinto na mão e ia bebericando sem desviar o olhar do olhar do tipo como dando a entender o meu maior interesse no que ele estava a dizer. Mas a verdade é que não ouvia nada do que lhe saía da boca. De vez em quando olhava para o meu prato e via a carne assada com creme de maçã e batatas assadas à minha espera, e eu à espera de ouvir o tipo, ou que o tipo desse por finda a conversa.
Enquanto o tipo ao meu lado continuava naquela ladainha silenciada pelas conversas colaterais dos outros convivas da mesa, uma mão colocou um tigela com grelos. E eu fiquei com vontade de comer logo um bocado, mas só pensava que a carne assada estava a ficar fria, que as batatas assadas estavam a ficar frias e que o creme de maçã, esse não estava a ficar frio porque era frio. Ou assim parecia. O bocado de carne assada que o tipo tinha espetado no garfo caiu no prato. Ele deu conta. Parou de falar para mim por momentos. Desviou o seu interesse para o bocado de carne assada caído no prato. Eu aproveitei para beber o resto de vinho que ainda tinha no copo, voltar a enchê-lo, apanhar um bocado de grelos da tigela, e meter na boca uma garfada de grelos logo seguindo de uma batata com um pedaço de carne assada molhado no creme de maçã a tempo de voltar a olhar para o tipo que, engolindo, finalmente, o bocado de carne assada, e eu vi a maçã-de-adão a mover-se para cima e para baixo no ritual de engolir, estava, de novo, a falar para mim.
No meio da conversa comecei a ouvir um batuque. Como se alguém estivesse a bater na mesa. Como às vezes se faz nos casamentos para exigir um beijo de língua aos noivos. Tum-Tum-Tum. Um som insistente. Olhei à volta. Tentei perceber de onde vinha o barulho. Aquele bater ritmado. Ritmado e insistente.
E acordei.
Abri os olhos e olhei para cima, para o tecto. Um raio de sol rasgava o branco do tecto. E o batuque continuava. Tum-Tum-Tum.
Eu estava deitado na cama. Estava nu. Debaixo do edredão. As janelas abertas. O sol a invadir o quarto. E eu de olhos abertos a olhar o tecto e a tentar perceber que barulho era aquele.
E percebi. A porta. Alguém estava a bater à porta.
Levantei-me. Levantei-me como um autómato. Mandei o edredão para trás e levantei-me da cama. Senti-me a arrastar até à porta da rua. Abri-a. Do outro lado da porta, três homens. Dois deles fardados de polícia. Perguntaram-me se eu era eu. Se tinha saído. Saído de casa. Saído de casa com o carro. Se podiam ver o carro. Se os acompanhava ao carro. Para eles verem o carro. Comigo. E se eu podia ir vestir uns boxers antes de sair à rua. E foi nessa altura que percebi que estava nu frente à polícia à entrada de minha casa. E se podiam esperar por mim dentro de casa. Se me importava que um dos polícias fardados me acompanhasse ao quarto enquanto vestia uns boxers. Se calhar podia calçar uns chinelos.
Abri a porta para trás. Senti-os entrar nas minhas costas. A porta a fechar. Um deles a seguir-me pela casa. Eu entrei no quarto. Olhei à volta a tentar perceber onde tinha largado a roupa. Vi os boxers no chão. Baixei-me. Apanhei-os. Sacudi-os. Vesti-os. E voltei descalço para a porta da rua. Abri a porta e saí com os três homens atrás de mim. Lembro-me de dizer alto, porque me ouvi e achei estranho ouvir-me e sentir a minha voz entaramelada, Precisava de um café!
Fui até ao telheiro onde costumo parar o carro. Parei em frente. Estiquei a mão a dizer que o carro estava ali. Um polícia fardado ficou ao pé de mim. Os outros dois foram olhar o carro. Baixaram-se. Aproximaram-se. Não demoraram muito tempo. Depois o homem que não estava fardado perguntou Quando é que bateu? E aquele vermelho é sangue? E eu tentei processar as perguntas, tentei focar o pensamento e disse-me, em silêncio, Bati? Sangue?
E respondi, sincero, Não sei!
O homem que não estava fardado disse Tem de vir connosco.
E eu não percebi muito bem o que é que estava acontecer.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/24]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]

Na Stereogun

Fui convidado para ler uns textos na Stereogun.
A princípio nem queria acreditar. Estórias na discoteca! Para quem?
Conversaram comigo. Tentaram convencer-me. Explicaram as razões.
Pensei.
Pensei.
Aceitei.
Seleccionei uns textos. Preparei-os. Li-os. Reli-os. Alterei alguns para serem lidos em voz alta. Para serem percebidos por quem ouve a minha voz. Para não matar de tédio o paciente habitual de uma casa de música.
Chegou o dia.
Estava nervoso. Escolhi a roupa com dificuldade. Tomei banho. Despenteei o cabelo. Vesti-me. Despi-me. Vesti outra roupa. Mudei de t-shirt. Tomei uma Cecrisina. Usei o Ventilan. Tudo na prevenção. Não consegui jantar. Tinha o estômago às voltas. Como se estivesse a preparar-me para um exame. Fui à casa-de-banho. Várias vezes.
Fui mais cedo para a Stereogun. Tive de esperar à porta que chegasse alguém. Estava tudo fechado. Era muito cedo. Chegara demasiado cedo. E precisava de ir, de novo, à casa-de-banho. Os nervos.
Chegou alguém. Abriu a porta. Deixou-me entrar. Fui directo à casa-de-banho. Mas que estava eu ali a fazer? Não conseguia frequentar casas-de-banho públicas! Lavei a cara. Esfreguei-a. Esfreguei os olhos. Olhei no espelho. Puxei de um cigarro. Acendi-o. Fiquei ali, na casa-de-banho, a fumar o cigarro, a olhar-me no espelho e a dizer-me Caga nisso! Não é nada! Nada de especial!
Quando saí da casa-de-banho, já a discoteca estava aberta ao público. Já havia algumas pessoas por lá. Fui para o balcão. Uma mini, pedi. E um Bushmills. Sem gelo. Despejei-o de um trago. Fiquei a brincar com a mini. Repeti a dose. E perdi-me nas contas.
Fui despertado por alguém que me agarrou pelo braço e me levou para o palco. Estava lá um banco alto. Encostei-me. Alguém colocou os meus textos num suporte à minha frente. Ao lado do microfone. Deu umas pancadas no microfone. Ouvi o pum-pum nas colunas. Deu-me também uma pancada nas costas e sussurrou-me Muita merda, pá! E por instantes não percebi. O que é que o gajo queria dizer com aquilo? Quis segui-lo com o olhar, mas o olhar embaciou e depois perdi-o na escuridão.
Eu estava debaixo de um foco de luz. Não via nada à minha frente. Esqueci onde estava. Esqueci tudo. Esqueci-me de mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer qualquer coisa, mas não percebi o quê. Um tipo aproximou-se de mim e tirou-me o cigarro. E disse Então, pá? Começa a ler a merda dos textos! E eu respondi Vai para o caralho!, mas acho que ele não ouviu. Ou não ligou. Ou cagou em mim.
Acendi um cigarro. Ouvi alguém dizer, aos berros pareceu-me, Apaga essa merda! Mas não tenho a certeza. Um tipo aproximou-se de mim, tirou-me o cigarro da mão e deixou-me um copo de whiskey. Acho que era whiskey porque bebi-o num gole e era amargo. Devia ser whiskey.
Acendi um cigarro. Comecei a sentir-me mal. A luz que tinha nos olhos estava a fazer-me confusão. Estava a ficar com calor. Tirei a t-shirt. Queimei-a no cigarro. Doía-me a barriga. Desculpem, o estômago – parece que é esta a expressão correcta. Continuei a fumar. Coloquei a mão em pala sobre os olhos para ver onde estava. Para ver quem é que ali estava. O que havia para além do projector, do foco de luz.
Ouvia barulho. Barulhos. Vozes. Um bruá de vozes. Não percebia o que as vozes diziam. Mas ouvia-as. Vertigens. Estava com vertigens. A cabeça começou a andar à roda. Segurei-me mais ao banco, mas o corpo não queria obedecer. Senti-me rodopiar. O projector de luz cegou-me. O corpo bailava. A cabeça parecia explodir. O estômago refilava comigo. Estava sozinho. Estava ali sozinho e não sabia onde estava. O cigarro caiu-me dos dedos para o chão. O estômago revoltou-se e rebentou. Senti uma massa amarga subir por mim acima. E da minha boca saiu um esguicho de coisas. De várias texturas. De inúmeras densidades. Vomitei. Vomitei para a minha frente. Vomitei tudo o que tinha dentro de mim para a minha frente. Ouvi gritos. Berros. Alguém gritou Filho-da-puta! Não sei se foi para mim. Senti-me cair. Senti dor. Dores. Senti-me magoar. Acho que vi sangue. Podia ser vomitado. E depois…
E depois tudo desapareceu. E eu desintegrei-me.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/20]

Um Acidente no Sítio da Nazaré

O Instituto Português do Mar e da Atmosfera avisou-me. Vinha aí a Beatriz. Uma depressão. Vento forte e chuva. O mar agitado.
Peguei na câmara e fui até à Nazaré. Ao sítio da Nazaré. Ao farol. Mas não fui o único. Acho que toda a gente teve a mesma ideia que eu. Locais. Passeantes. Estrangeiros. Estava tudo de braço no ar a fotografar. Câmaras. Tablets. Telemóveis. Tudo servia a objectiva. As gaivotas. As ondas. A espuma das ondas. O Forte. O veado de pedra. A areia. Estava toda a gente à procura do melhor ângulo para o melhor objecto com a melhor objectiva.
Eu encostei-me a uma rocha e fiquei por ali um bocado a ver a agitação. A do mar e a das pessoas.
Acendi um cigarro. Com dificuldade. O vento já era muito. Mas eu tinha um Zippo.
Os carros continuavam a insistir a ir até ao Forte. Era uma fila compacta. Num pára-arranca mais parada que a andar. Já não havia lugares vagos nas bermas. Já não havia lugares vazios em lado nenhum. Mesmo para as selfies os auto-fotografados tinham que fazer palhaçadas para se destacarem dos demais. Estava tudo ao monte. Gente, gente, gente. Tudo à espera da Beatriz.
Mas a Beatriz não chegou. Pelo menos não enquanto eu lá estive. E eu estive lá algum tempo. Até ao acidente.
O acidente aconteceu enquanto eu estava sentado na rocha a fumar um cigarro. Outro cigarro. Não o primeiro.
Uma miúda estava a tentar tirar uma selfie com o mar de fundo. À frente dela, um rapaz que estava a tentar tirar uma fotografia da miúda a fotografar-se. Eram estrangeiros de um estrangeiro que não reconheci mas cuja língua arranhava bastante, mas não aquele arranhar alemão ou holandês. Talvez fossem nórdicos. Ou eslavos. Não percebi nada do que arranhavam um para o outro.
A miúda ia procurando o melhor fundo, o melhor ângulo, a melhor luz, quando passou uma rajada de vento forte, ela escorregou no lodo da rocha onde estava, desequilibrou-se à beira do penhasco, e caiu no vazio. Eu não estava a olhar para ela no momento. Mas senti-a fugir pelo canto do olho. E ouvi o grito do rapaz.
Virei-me. Vi o rapaz chegar-se à beira do penhasco e olhar lá para baixo, aos berros. Eu também olhei lá para baixo. Só vi as ondas a baterem nas rochas. A baterem com violência nas rochas.
As pessoas começaram a aproximar-se do rapaz. A aproximar-se do penhasco. A aproximar-se do vazio. Todos queriam ver. Quase todos tiravam fotografias do rapaz em pânico. Alguém do Forte, acho que um segurança, foi ver o que se passava. Pegou no telemóvel e fez uma chamada. Acumulou-se lá tanta gente à volta que já era difícil passar. Mas havia gente a rir. Gente a conversar aos berros. Gente a fotografar. Gente a filmar. Gente e espreitar do penhasco para baixo. Para ver as ondas a baterem nas rochas.
Saltei do sítio onde estava e fui abrindo passagem à bruta entre todos aqueles mirones em festa. Furava literalmente entre câmaras e telemóveis. Fiz cair dois ou três. Alguém gritou para mim mas nem me virei. Segui em frente.
Sentia-os a aproximarem-se demasiado da beira do precipício. Queriam selfies com o sítio onde a miúda caíra.
Tinha de sair dali. Tinha mesmo de me ir embora. Demasiada gente junta. Demasiada gente junta à beira de um precipício. E com vontade de conseguirem fotografias extremas, radicais, populares. Gente louca.
Eu já vinha cá em cima quando ouvi um bruá. Vários gritos histéricos. Desesperados. Provavelmente tinha caído mais alguém ao mar.
Já estava a chegar ao Sítio quando passou por mim a ambulância e um carro da polícia. As luzes ligadas, a girar, a girar. As sirenes a apitar.
Cheguei ao carro. Arranquei para casa e maldizer a Beatriz e o Instituto Português do Mar e da Atmosfera que prometem muito e não acontece nada. Ou acontece, mas outras coisas. Outras coisas terríveis.
E a única depressão que apareceu por lá acabou por ser a minha.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/10]

Um Grito de Dor

Estava na esplanada a ler o jornal. A ler o jornal e a beber um café. Podia também estar a fumar um cigarro, mas não, já não fumo. Mas sinto saudades de agarrar no cigarro fumegante. De ver aquilo a queimar quando os meus pulmões puxavam o fumo. Mas não sinto falta dos dedos amarelos nem dos dentes escuros e muito menos ainda da pieira com que os meus pulmões se expressavam.
Estava a ler o jornal quando vi uma série de pessoas a levantarem-se e correrem para o outro lado da esplanada. Olhei na direcção. Também sou curioso. Mas não vi nada. E voltei à leitura.
As pessoas, contudo, não arredavam pé e, cada vez mais, chegava mais gente. Lá ao fundo, nos limites da esplanada, aglomeravam-se outras pessoas, muitas pessoas, de diferentes idades, vestidas de muitas cores, algumas de fato-de-treino, outras ainda de bicicleta, todas a olharem para o mesmo sítio.
E, então, ouvi. Ouvi barulho. Barulho de confusão. Alguém gritava. Alguém gritava muito alto e sobrepunha-se ao bruá das pessoas atentas da esplanada. Não consegui perceber o que a voz gritava. Mas era um grito lancinante. Um grito de dor.
Levantei-me e aproximei-me da confusão. E de repente vi. Um homem curvado para baixo, com um braço preso na boca de um pitbull estático, que estava preso ao chão, não mexia um músculo e não largava o que tinha na boca.
O homem estava parado frente ao cão a tentar falar com ele. Mas as palavras não eram perceptíveis. Ele balbuciava consoantes. Onomatopeias. E babava-se. Mas o cão continuava ali, fixo, sem mexer um músculo.
Olhei em volta e vi uma quantidade de gente a olhar o espectáculo. Alguns telemóveis em riste registavam o acontecimento. Alguém disse Chamem a polícia. Outro alguém também disse Chamem os bombeiros.
À volta disto tudo, crianças, crianças pequenas. Crianças pequenas a brincar alheadas disto tudo. Crianças pequenas paradas a olhar para o confronto. Crianças pequenas que os pais lá foram resgatar ao momento.
Eu larguei uma moeda em cima da mesa. Deixei lá o jornal e fui-me embora. Tinha o coração acelerado. Estava assustado. Ansioso. Pensava E se o cão larga o braço do homem e investe sobre toda aquela gente curiosa? Sobre todas aquelas crianças inocentes?
Eu fui-me embora mas fui lançando o olhar para trás. O cão continuava a morder o braço do homem. Ele continuava a gritar. As pessoas continuavam a olhar. As crianças continuavam a brincar. E depois ainda pensei Não vi sangue.
A nossa inconsciência manifesta-se assim. Não sei de quem era o cão. Não sei quem era o homem. Mas um estava a guerrear o outro e o resto do mundo olhava hipnotizado, fascinado, mas aliviado, porque não era com eles.
Ao fundo ouvi uma sirene.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/25]