Maria É Nome de Mulher

Ela acorda todos os dias às sete da manhã.
Levanta-se. Toma um duche rápido. Veste-se na casa-de-banho uma roupa escolhida de véspera sem grande prazer. Come uma torrada. Bebe uma caneca de café. Deixa comida aos gatos. Vai deitar milho às galinhas. Põe uma máquina de roupa a lavar. O pequeno-almoço pronto para os filhos. Deixa as coisas preparadas para um almoço rápido que virá fazer a casa.
Às oito menos dez está a sair. De carro.
Das oito à uma da tarde anda para cima e para baixo. Limpezas num lado. Passar a ferro e cozinhar noutro. Às vezes uns pontos de costura. Mas o normal é o aspirador na mão. A vassoura. O ferro de engomar. O tacho. A frigideira.
À uma da tarde regressa a casa. Prepara qualquer coisa rápido que já deixou adiantado de manhã. Uns ovo mexidos com espargos. Umas coxas de frango assadas. Umas cavalas em lata. Acompanha com uns brócolos. Alface. Tomate. Senta-se sozinha à mesa da cozinha. Come. Bebe um copo de vinho. Vê as notícias na televisão pequena, em cima da bancada. Aquece uma caneca de café no micro-ondas e vai bebê-lo para a entrada de casa enquanto fuma um cigarro e vê as galinhas de um lado para o outro, tontas, a debicar no milho que lhes deixou de manhã.
Acaba o cigarro e são duas menos dez. Deixa a louça por lavar no lava-louça. Arranca de carro. Às duas horas está noutro lado. Muda as roupas de cama. De muitas camas. Põe roupa a lavar. Limpa o pó. Aspira os tapetes. Faz pequenos arranjos. Às cinco horas sai. Ou devia sair. Às vezes ainda dá mais uma ajuda. Aqui. Ali. Onde for preciso. Na cozinha. Nos quartos. Às vezes lavar um carro urgente. Regar a relva porque o sistema de rega está avariado. E avaria muitas vezes. Uma ida à farmácia Por favor! buscar qualquer coisa de muito urgente para alguém muito necessitado mas sem tempo.
Chega a casa às cinco e meia. Às seis. Ou às sete. Põe a louça do almoço na máquina. Prepara o jantar. Para ela e para os filhos. Jantam. Verifica os trabalhos de casa. Dos dois. Ouve as queixas. De um. De outro. As sapatilhas que estão rotas. As calças que estão curtas. A camisola que está pequena. As meias novas para o ballet que as velhas estão rotas. O livro do Plano de Leitura que não se vai ler mas tem de se comprar. O fato para a ginástica. As senhas de almoço para a próxima semana. A amiga que amuou. O amigo que já não é. As dores de crescimento dos filhos enquanto, ao mesmo tempo, os vê afastarem-se de si. Mas, para já um ombro. Outro. Limpa umas lágrimas. E quem lhe seca as dela?
Arruma a mesa de jantar. Põe a louça na máquina, a lavar. Tira a roupa da máquina e estende-a à espera que não chova.
Senta-se frente à televisão.
Olha para qualquer coisa que está a dar. Não liga muito. Mas ajuda a espairecer. Dantes ainda via umas novelas. Mas começaram todas a parecerem-lhe iguais. E já não lhe chega as vidas dos outros para animar a sua.
Vai fechando os olhos enquanto olha para a televisão. Entretanto são onze horas. Levanta-se. Prepara a roupa para o dia seguinte. Prepara a roupa para os filhos, mesmo sabendo que eles vão acabar por vestir o que querem.
Na casa-de-banho, enquanto lava os dentes, olha em frente, para si reflectida, e pensa que tem de limpar o espelho. Os vidros das janelas. De aspirar a casa. Limpar o pó. Mudar a roupa das camas. Pelo menos das camas dos miúdos. E tem de comprar pasta dos dentes. Mudar a escova que aquela já tem, o quê?, quase um ano? Pensa que tem de fazer uma lista de coisas que precisa de comprar. E depois precisa de ver se tem dinheiro para tudo e escolher as prioridades.
Enquanto vai pelo corredor, e passa pelos quartos dos filhos para dar o beijo de boas-noites sem que tirem os olhos do telemóvel, pensa que é melhor, no dia seguinte, passar em casa dos pais. Talvez traga umas couves. Um coelho já esfolado. Talvez uma sopa de feijão. Dava bastante jeito uma sopa de feijão seco, pensa.
Deita-se nua na cama fria e solitária e pensa que já passou mais um fim-de-semana e nem deu por isso. Os dias são sempre iguais. Banais. Solitários. Cansativos. E entre um pensamento e outro há um interlúdio e são outra vez sete da manhã. O telemóvel toca a despertar e tudo recomeça da mesma maneira.
Tudo se alterou quando chegaram as primeiras dores de cabeça. Depois as dificuldades em adormecer. Por fim as dificuldades em levantar-se de manhã.
Vai ao médico de família. Análises. Testes. Nada. Não tem nada. Não tem nenhum problema. É só cansaço, ouve. É o stress do dia-a-dia, dizem-lhe. E começam os comprimidos.
Os comprimidos para as dores de cabeça cada vez mais frequentes e intensas.
Os comprimidos para adormecer e esquecer todos os pensamentos que lhe invadem a cabeça enquanto se lança para a cama à procura de um pouco de repouso.
Os comprimidos para acordar e forçar a levantar-se para retomar o seu dia-a-dia de contribuidora para o bem comum.
Foi num fim-de-dia que lá fui para lhe comprar uns ovos. Ovos a sério. Ovos de galinhas do campo. Galinhas que andam a passear dentro do galinheiro a debicar milho e que todos os dias põem ovos frescos com que se equilibram as contas da casa. Foi nesse dia que lá fui aos ovos e a vi caída no chão. Alguma roupa pendurada no estendal. Outra caída. Umas peças tinham voado para cima da figueira.
Não tinha pulso. Chamei o INEM. Mas já foi tarde. Os filhos agora estão a viver com os avós.

Abriram uma vagas de emprego.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/16]

Um Casal no Aeroporto

08:00’
Estou no aeroporto. Vim esperar alguém. Alguém que tenho de levar a um sítio.
Embora a cidade estivesse deserta, as chegadas do aeroporto estão cheias de gente. Gente que espera. Gente que desespera. Há alguns voos atrasados. Mas há gente que chega. Encontros. Abraços. Choro. Muita alegria. Alegria carregada de malas de todas as cores e feitios.
Eu espero.
Vejo um rapaz, novo, com uma rosa amarela na mão. Vejo o rapaz olhar para uma rapariga que chega. A rapariga sorri, envergonhada. Ele vai ao encontro dela. Ela caminha para ele. Encontram-se. Abraçam-se.
Eu sorrio.
Ela coloca as mãos nos cabelos dele. Ele beija-lhe o pescoço. Prolongam a saudade. Aguentam o desejo. Agarram-se. Olham-se. Aproximam os lábios. Beijam-se. Beijam-se com sofreguidão.
Eu sinto um pingo de inveja.
Ele agarra nela e fá-la rodopiar ali no meio das chegadas do aeroporto. A rosa amarela cai no chão. Nenhum deles se apercebe. Já se esqueceram da rosa. Já só têm olhos um para o outro.
Param o beijo. Olham-se. Os olhos dançam. Os lábios, húmidos, sorriem. Ela cruza as mãos no pescoço dele. Levanta o pé direito enquanto lhe beija a cara em formato bilhete-postal. Ele agarra na mala dela. Estão de mãos-dadas. E partem a flutuar pelo pé-direito alto da nave das chegadas do aeroporto.
Ninguém os viu. Eu vi.

13:00’
Estou a almoçar à beira-rio. Levei quem fui buscar a comer um peixinho assado. Partilho o gosto. A mesma vontade. Peixe-assado para dois. Na companhia de uns brócolos. Um vinho branco. Da casa. Nem sei de onde é. É da casa e a casa escolhi eu. Ali à beira-rio. Junto ao fresco da maré.
Enquanto a fome devasta umas azeitonas embebidas em azeite e alho e umas fatias de pão alentejano, vejo-os chegar. O casal do aeroporto. Estão com a mesma roupa. Um e outro. Sem a mala dela. Sem a rosa deixada caída lá no aeroporto. Esquecida.
Não têm mesa reservada. Esperam. Esperam em pé. À entrada da esplanada. Junto ao rio. À beira-rio. Ao sol quente deste início de Primavera que promete ser um pequeno Verão.
Ele acende um cigarro e põe-se a olhar os barcos no rio. Ela está próxima dele. Ela passa-lhe a mão pelo braço. Afaga-o. Longamente. Depois vira-se para a esplanada. Vira-se para mim. E eu vejo. Vejo-lhe o olho negro. O olho negro que ela não tinha negro de manhã.
Eu sinto pena. Primeiro sinto pena. Depois sinto raiva.
E despejo um copo de branco de uma só vez.

O Pacote de Bechamel

Foi quando cheguei a casa que reparei que o pacote de bechamel estava rasgado. Deitei a mão ao saco de plástico. Uma garrafa de vinho. Brócolos. Cogumelos. Umas cenouras. O pacote de bechamel. Fiquei com a mão peganhenta. O pacote estava a deitar fora. Mirei-o. Um corte longitudinal. Talvez feito com um x-acto. Talvez feito ao abrir as embalagens de plástico onde vêm os pacotes. Aproximei-o para ver melhor. Cheirava mal. Cheirava mesmo muito mal. Cheirava a podre. Devia estar aberto há muito tempo. Sim, ainda estava dentro do prazo, mas lá de dentro saía um fedor a podridão.
Tinha de voltar ao Intermarché. E estava a chover.
Olhei à minha volta. As mãos na ancas. Podia esquecer. Mandar o pacote para o lixo. Aquilo custa o quê? Quanto? O problema é que assim teria de comer os legumes só cozidos. Com o resto do frango assado da véspera. Uma coisa desenxabida, portanto.
Agarrei no pacote. Pu-lo dentro do saco de plástico. Vesti o casaco. Agarrei no chapéu-de-chuva. Ia a sair de casa e lembrei-me. O talão! Abri o saco de plástico. Aproximei-o da cara. Veio-me o cheiro a podre do bechamel. E não vi lá nenhum papel. Procurei nos bolsos das calças. Nos bolsos do casaco. Em cima da mesa da cozinha. No chão. No frigorífico. No caixote do lixo. Nada! Deve ter ficado no supermercado.
Saí de casa.
Encharquei os pés mal os pus na rua. Caí numa poça de água. As botas estavam velhas. Não eram para a chuva. Não eram Gortex.
Pus-me a caminho. Consegui ir evitando os carros e a água que lançavam sobre os peões ao passar nos buracos da estrada.
Passei por um Pingo Doce. Por um Minipreço. Por um Aldi.
A chuva caía agora com mais violência. E vinha tocada a vento. Tinha-se levantado um pequeno vendaval. O chapéu já se tinha virado algumas vezes. O cabelo estava molhado. Os óculos cheios de pingos de água e embaciados. Não via nada. Ia assim por tentativa. A seguir a mancha escura da calçada à portuguesa.
Cheguei ao Intermarché. Fui ao balcão das reclamações. O pacote cortado. O cheiro. Não tinha o talão. Foi há pouco tempo. Naquela caixa ali, e apontei. Tudo tranquilo. Podia ir buscar outro pacote. Nem precisava de passar nas caixas. Era passar por ali. E lá fui. Fui buscar um pacote de bechamel. Procurei onde tinha encontrado o outro. E à volta. Nos lineares adjacentes. Nos corredores ao lado. Perguntei a uma menina com o fato da casa. Desculpe, mas já não há. Esgotou! Esgotou? Esgotou! Porra!
Deixei lá o pacote rasgado e com cheiro a podre. Nem quis trazer um vale com o valor do pacote de bechamel.
Sai para a rua.
Chapéu-de-chuva aberto. Pés encharcados. Cabelo molhado. Óculos embaciados. Frio. Fiz o caminho de regresso no automático. Não pensava em nada. Já não me preocupava com os carros e as poças de água nas bermas. Estava melancólico. Triste. Com vontade de me mandar para a frente de um autocarro.
Passei pelo Aldi. Pelo Minipreço. Entrei no Pingo Doce já perto de casa. Comprei um pacote de bechamel. Estava intacto.
Cheguei a casa. Cozi os legumes que já tinha comprado. Desfiei o resto de frango assado.
Coloquei os legumes cozidos numa travessa de pirex. Espalhei o frango desfiado. Larguei umas gotas de piri-piri. Cobri tudo com o bechamel. Levei ao forno. E enquanto gratinava, fui tomar um duche quente que estava todo molhado e cheio de frio. Mas antes ainda abri a garrafa de vinho, um Monte dos Pegos (o vinho barato não é nada mau) e bebi um copo de um só trago. Para aquecer o coração. E ainda fiz, Ah!

[escrito directamente no facebook em 2019/01/30]

A Mulher Triste

Estava a jantar no restaurante da rua. Era Natal e, como quase sempre nestes últimos anos, janto sozinho por aqui. O Natal é, para mim, uma noite igual às outras. Quase igual às outras. É difícil arranjar um restaurante aberto. E os que estão abertos oferecem orgias gastronómicas. Eu só preciso de um bife. Mal passado, se possível. Umas batatas fritas. Uns legumes. De preferência, brócolos. Mas também pode ser umas couves.
No restaurante aqui da rua já me conhecem. Fico numa mesa um pouco mais arredada para o canto para fugir à fúria natalícia familiar. E não fico ao balcão para não estar no meio do furacão. O sítio onde fico permite-me olhar para a televisão e liberta-me o telemóvel. E dali também consigo ver a sala. Observá-la.
Há sempre umas criancinhas cheias de energia aos berros por todo o lado. Uma vez uma delas veio comer um chupa-chupa para ao pé de mim. Acho que foi o ano passado. Sentou-se à minha frente. A olhar para mim. Entre lambidelas perguntou-me o nome. Hambúrguer McDonalds, respondi. Ela arregalou os olhos e disse Não és nada! Mas por via das dúvidas, e ficando ali a encarar-me, perguntou, esticando a mão com o chupa-chupa Queres? E eu acenei a cabeça. Ela esticou-se mais. Eu agarrei no chupa-chupa. Pu-lo na boca. Trinquei-o. Mastiguei-o. Ouvi o barulho dos meus dentes a triturar o chupa-chupa. Ela também. Tirei o pauzinho e devolvi-lho. Ela agarrou no pauzinho sem o chupa e começou a fazer beicinho. Começaram a cair umas lágrimas pela face abaixo. Ia começar a chorar. Ia começar aos berros. Rápido, pedi ao empregado do restaurante para me dar um chupa-chupa. Ele trouxe-o. Eu agarrei-o e estendi-o à criancinha. Ela olhou-o na minha mão. Novinho em folha. Inteiro. Ainda embrulhado. Agarrou nele. Desembrulhou-o. Colocou-o na boca. Fungou. Limpou as lágrimas e o ranho com as costas da mão. Levantou-se da minha mesa. E foi embora, sempre a olhar para trás. Para mim. Depois encontrou outras criancinhas e esqueceu-me. Nunca mais veio ter comigo. Nem ela nem outra.
Tenho jantado em sossego. Bebo uma garrafa de vinho tinto. Como um queijinho fresco com sal e pimenta. Às vezes um rissol ou um croquete, quando há. E depois o bife. Umas vezes na frigideira, com um ovo a cavalo e molho. Outras vezes no prato. Mais seco. Normalmente termino com uma salada de frutas ou uma fatia de pudim. Bebo um café e uma aguardente velha. Depois vou para casa. Vou para casa fumar um cigarro à janela e ver o nevoeiro a tombar sobre as luzes da cidade e a torná-la feérica, mágica.
Mas desta vez chamou-me a atenção uma mesa, não muito grande, só de mulheres. Cinco mulheres. Várias gerações. Pelo menos três. Não descobri as relações. Mas eram familiares. Talvez um casal. Talvez uma avó. Uma neta. As diferenças de idade entre a mais velha e a mais nova levava-me para aí. Estavam a usufruir do jantar de Natal. O menu especial do restaurante para aquela noite. As farripas de presunto de entrada. As azeitonas com alho. A manteiga caseira. O polvo. O bacalhau cozido. As filhoses. O Bolo Rei. Só o vinho não era o do menu. Era um vinho bom. Era gente de posses. Via-se pelas roupas. Pelos objectos discretos que ornamentavam. Trocaram presentes entre si. Percebi alguns deles. Coisas com gosto. Requintadas. Caras.
Uma das mulheres, contudo, estava ausente. Estava ali, mas não estava. Sorria quando era o centro das atenções, mas depressa tentava fugir. Tentava que não reparassem nela. Tinha uns olhos tristes. A boca descaída. A cabeça sempre pendente. Era bonita. Todas elas eram bonitas. Esta, talvez um pouco mais. Mas estava triste. As outras não. Havia sempre conversa na mesa. Ela às vezes respondia. Parecia que não podia não responder. Era educada. Eram todas educadas. Ela era única que não bebia vinho. Ela e a criança. Levantou-se várias vezes para ir à casa-de-banho. Da primeira vez ia distraída e acabou a entrar na cozinha. Ficou corada de vergonha. Pediu muitas desculpas. Os olhos no chão.
Às vezes eu ouvia algumas frases. Nada completo. As vozes. Palavras sem sentido. A ela não conseguia ouvir a voz. Falava muito baixinho. Como se pedisse desculpa. Acho que se anulava. Acho que queria desaparecer. Acho que gostava de estar ali mas ao mesmo tempo gostava de não estar. Estar ali talvez fosse uma obrigação.
Ela comeu pouco. Depenicou mais do que comeu. Remexeu muito a comida no prato. Talvez para dar ideia de estar a comer. Eu via. Via-a a remexer a comida no prato. Mas quase não a vi levar o garfo à boca. A meio do jantar percebi que tirou discretamente um comprimido da bolsa e enfiou-o na boca. Parecia em sofrimento.
Eu, entretanto, acabei o café e a aguardente velha. Levantei-me e fui ao balcão pagar para facilitar as coisas no meio da confusão em que os empregados estavam. Ao sair, passei ao lado da mesa das mulheres. Passei mesmo ao lado daquela que tinha estado a observar e me parecia triste. E ao passar ao pé dela, cheguei-me um pouco mais, baixei-me ao seu lado e dei-lhe um beijo na cara. Ela assustou-se com a acção e o meu atrevimento. Por instantes pareceu-me mesmo ver um certo pânico nos olhos dela. Coloquei-lhe a mão no ombro e disse-lhe Peço desculpa se a assustei. Só lhe queria desejar um Feliz Natal. Pareceu-me triste. Pareceu-me precisar de um beijo, e ergui-me e segui o meu caminho até à porta da rua. Ao sair ainda olhei para trás e vi que ela tinha a mão na cara, onde a beijei, e acho que lhe vi um pequeno, suave e imperceptível sorriso a nascer entre os lábios e os olhos que, e isso eu tinha a certeza, estavam brilhantes.

[escrito directamente no facebook em 2018/12/19]

Qual a Velocidade do Meu Corpo em Queda?

A mesa era grande. Grande e comprida. Tão comprida que eu estava numa ponta e não conseguia ver quem estava na outra.
Era um daqueles jantares de época. Com todos os amigos em volta da mesa. A comer. A beber. A conversar. A lembrar o passado. A discutir o presente, o passado próximo, o futuro até ao fim-de-semana seguinte.
Eu devia ser um amigo. Estava lá. Ali. No jantar. Mas não conhecia ninguém dos que estavam ao pé de mim. E também não sou de sair por ali fora, ver os outros comensais e encetar dois dedos de conversa. Gosto de estar quieto no meu canto.
O jantar era no restaurante no último piso do Hotel Eurosol. Se fosse em Lisboa, era no rooftop. Mas como é em Leiria, é no último andar.
Do meu lugar conseguia ver a Avenida Marquês de Pombal descer até ao fundo, até à Tasca da Ti Gracinda. E foi essa a minha companhia enquanto enfardava umas fatias de carne assada com puré de batata e uns brócolos. Despejei uns copos de vinho tinto. Ouvi algumas palavras de circunstância debitadas por alguém que se levantava e falava para o grupo. Vários alguém.. Acho que me lembrava de um ou outro. Mas não muito. Nem muito bem.
Não sabia o que estava ali a fazer.
Ia comendo. E bebendo. E olhando a avenida a descer. Devia ter ido à Ti Gracinda.
De sobremesa havia sericaia. Mamei duas tigelas. Com ameixa.
Depois distribuíram uns copos de whiskey.
Precisava de um cigarro.
Levantei-me e fui até ao telhado que ficava por cima do restaurante.
Dali via a cidade toda. Uma cidade cheia de luzinhas. Algumas luzinhas mexiam-se. A cidade não era grande, mas parecia. E era bonita. Sim, a cidade era bonita. E ali de cima muito mais, ainda.
Estava lá alguém a fumar. Acendi o meu cigarro e aproximei-me dele. Reconheci-o. Era um amigo. Um amigo daqueles desde sempre. Não o vi na mesa, ao jantar. Mas estava ali, agora, a fumar um cigarro.
Sorriu ao ver-me e perguntou Qual a velocidade de um corpo ao cair aqui de cima? Eu disse Não sei, mas terá a ver com a massa do corpo, presumo. Mas a mecânica não é o meu forte.
Ele sorriu-me de novo. Mandou fora o cigarro. Deu-me uma palmadinha no ombro enquanto se ia embora, em jeito de despedida.
Eu fiquei ali a fumar o cigarro e a olhar a estrada, lá no fundo do hotel.
Ainda cá estou. Já vou no terceiro cigarro. E não consigo deixar de pensar na pergunta dele. Qual a velocidade de um corpo a cair aqui de cima?
Qual será, afinal, a velocidade de um corpo como o meu?
Não consigo sair daqui. Não consigo sair daqui sem saber a resposta. É daquelas coisas que moem. Está a incomodar-me não saber a resposta.
Vejo a Avenida Marquês de Pombal toda iluminada. Cheia de luzinhas amarelas.
Qual será a velocidade do meu corpo em queda daqui de cima?
Será mais rápida que este cigarro? Mando o cigarro e vejo-o cair lentamente, como se estivesse em câmara-lenta. Vejo as voltas que dá no ar, o desvio que uma aragem quente lhe provoca na queda.
O castelo iluminado. O castelo de Leiria é bonito. Aldrabado, mas bonito. Todo iluminado.
Qual será a velocidade do meu corpo?

[escrito directamente no facebook em 2018/08/26]

Os Homens Compram a Cerveja, as Mulheres o Resto

Eles passam invariavelmente sozinhos.
Vem agora ali um. Traz uma caixa de 15 garrafas de Sagres Mini. Lá atrás vem outro. Traz uma caixa mais pesada. Deve ter 25 garrafas de Sagres Média. São caixas de cartão. Já não há grades de plástico.
Agora vem uma mulher. O que é que ela…? Ah, um volume de 10 embalagens de leite. E mais uns pacotes de arroz no regaço. Vem carregada. E vem lá outra. Outra mulher. Esta vem com frescos. Tem vários saquinhos de plástico transparentes. 2 curgetes. 3 pepinos. Acho. São parecidos. Mas deve ser isso. Mais umas cenouras. Não consigo perceber quantas. 3 tomates. 1 caixa de tomate cherry. Mais uns brócolos. Também não consigo perceber quantos. São um monte. Um volume considerável. Tenta abri o porta-bagagens de um Renault Clio. Porra. Deixou cair as cenouras. Já apanhou.
Agora vem ali um tipo com 2 garrafas de vinho. Uma em cada mão.
Um casal. Ele traz uma embalagem de cerveja. É artesanal. Não consigo perceber a marca. Ela traz fruta e umas embalagens de arroz e esparguete.
Estou aqui no parque de estacionamento do Lidl, aqui no final da Avenida 25 de Abril, em Leiria, e reparo que os homens vêm ao Lidl para comprar cerveja. Vá lá, às vezes também compram vinho. Tinto.
As mulheres diversificam mais as suas compras. Leite, verduras, frescos, sumos, massas. Fruta. Detergentes. Sim, ali vem uma com uns garrafões grandes de detergentes. É o quê? Amaciador de roupa, detergente de louça, champô.
As mulheres vêm ao Lidl comprar coisas para a casa. Para elas. Para eles. Para os filhos. Produtos de alimentação. De higiene. Produtos de limpeza.
Os homens vêm comprar cerveja. Às vezes vinho. Muito esporadicamente uns amendoins com casca ou uma embalagem de tremoços.
Eu não.
Eu estou aqui à espera dela.
Estou aqui parado a ver as caixas. Ver as caixas através da vitrine grande. As filas nas caixas. As pessoas a pagarem pelos produtos que compram.
Vem ali mais uma. Aquela traz uma data de embalagens, não-sei-de-quê, nos braços. Olha, olha, deixou cair tudo. E vem ali um carro. Cabrão. O gajo desviou-se para não parar e não ajudou a senhora. Filho da puta. Vou lá eu ajudar… Não, não vale a pena. Ela já está ali na caixa. Estou a vê-la ali na caixa. Está a comprar, o quê? queijos, manteiga, um pão de Rio Maior, vinho tinto, não consigo ver de onde… Também traz uns frescos. Distingo uns brócolos. Umas beringelas. Uma embalagem de cerveja. Uma embalagem de 6 Super Bock Médias. Foda-se! Queijos e vinho? É uma festa?
É agora. Foda-se é agora.
Ligo o carro.
Tenho carro travado e faço aceleração.
O barulho do meu carro ecoa pelo parque de estacionamento do Lidl. Os pneus pintam o asfalto de preto.
Destravo-o.
Vou a direito. Rasgo o parque. Sempre em frente. Passo por uma mulher que carrega um saco grande do Continente e que se assusta com a minha passagem acelerada. Aproximo-me da grande vitrine. Lá dentro ainda ninguém me viu. Estou quase quase lá.
Ela olha para fora. Vê o carro. Vê-me ao volante do carro. Abre a boca de espanto. O carro bate contra o vidro da grande montra. Galga para o interior do Lidl. Sinto os vidros a caírem em cima do carro. Do capô. Do tejadilho. O som do vidro a quebrar é ensurdecedor e ainda ecoa quando o carro entra por ali dentro e rebenta com a caixa e leva à frente a empregada da caixa e ela, ela vai de arrasto, ela e outras como ela que estão na fila. Uns homens conseguem saltar para os lados e fugir. E eu vejo tudo em câmara lenta. Vejo o carro a entrar pelo Lidl dentro e levá-la a ela, a ela e a toda a gente que lá está, menos os homens que se puseram ao fresco, levá-los a todos à frente do carro, enquanto os vidros da montra continuam a cair sobre o carro, a fazer um barulho ensurdecedor e então tudo fica branco, o carro parece parado no vazio, eu olho, olho e não vejo nada, nada nem ninguém, só ouço o barulho dos estilhaços dos vidros a caírem sobre o carro e começo a sentir as dores como se eu fosse o carro, e fosse sobre mim que tudo cai e o meu corpo começa a sangrar, abrem-se buracos, rasgos, feridas nos meus braços, nas minhas pernas, na cabeça, no peito, e é só sangue e já não vejo ninguém e não sei o que é feito do Lidl nem dela nem dos outros todos nem de mim…
Silêncio…
E depois… Depois começo a ouvir o Nessum Dorma. Pavarotti. Que porra…?

[escrito directamente no facebook em 2018/07/05]

A Multa

Saí do mercado com dois robalos para o almoço. Trouxe também uns brócolos para acompanhar.
Fiz a rua toda nas calmas. Olhei as montras. Há algum tempo que não ia ali ao mercado. Aquilo estava um bocado diferente. Não tanto o mercado, mas à volta. Aquele bairro estava a transformar-se. Havia lojas novas. Com ofertas diferentes. Uma das lojas, onde parei com mais gosto a apreciar a montra, vendia fumeiro de Vinhais. E pensei logo numa favas guisadas. Mas olhei para o saco onde levava o peixe e sorri. Também ia bem servido. Ia almoçar robalo recheado com bacon. Sim, era o que me estava a apetecer.
Estava a aproximar-me do carro quando o vi lá à volta.
O polícia.
Ia olhando os talões de estacionamento das viaturas estacionadas. Eu não tinha talão. Não ia demorar. Não tinha moedas. Não vi nenhum polícia por ali. Gaita, logo agora, pensei.
O polícia aproximou-se do meu carro. Procurou e não encontrou nada. Abriu um caderno e começou a escrever. Eu parei a meio da rua. E fiquei a olhar para o polícia.
Estava a passar-me uma multa.
Depois de preenchida a multa, colocou-a no vidro, presa na escova limpa-vidros. Endireitou o corpo e olhou para um lado e para o outro, a ver se alguém se aproximava do carro.
Eu aguardava que ele se afastasse.
Mas o polícia teimava em ficar por ali.
Eu sabia que se fosse para o carro, o polícia pedia-me os documentos, preencheria os espaços em branco, e eu já não conseguia fugir ao pagamento da multa. Essa era uma certeza.
Vi um banco de jardim e fui lá sentar-me.
Olhei as horas no relógio e as horas do almoço aproximavam-se, mas ainda não era tarde.
O polícia deu um giro ali à volta, a olhar os tabliers dos outros carros, mas o meu foi o único a ser multado. Voltou a parar lá ao pé a olhar à volta, à minha espera.
Mas era eu que esperava.
Passou uma rapariga nova, bonita, por mim, e eu olhei-a. Segui-a com o olhar enquanto ela se afastava. O polícia também a viu. E olhou para ela. Por momentos, os nossos olhares cruzaram-se. Mas não houve mais que isso, um cruzamento de olhares.
Acabámos os dois a olhar a rapariga a afastar-se até desaparecer ao fundo da rua, perdida no meio da cidade.
Depois o polícia começou a afastar-se do local, andando pela rua, devagarinho, olhando para trás, para o meu carro.
Eu puxei de um cigarro e acendi-o. Comecei a fumar. Com calma. O polícia acabou por desaparecer dali, engolido pela voragem da cidade. Acabei de fumar o cigarro. Deitei a beata fora e fui, finalmente, até ao carro.
Tirei o papel da multa do vidro, amassei-o e deitei-o fora, para o chão. Entrei no carro, liguei-o e arranquei. Ainda ia bem a tempo de ir fazer os robalos. E não ia pagar aquela multa. Bom, pelo menos, para já.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/17]