Lembro-me, Sim Eu Lembro-me

Lembro-me. Sim, lembro-me.
Lembro-me de quando o Outono era Outono e chegava depois do Verão. Lembro-me que largava os calções e regressavam as calças, as botas, as camisolas e os casacos. Lembro-me que, pouco-a-pouco, chegava o frio e dizia ao calor para se ir embora, mas devagarinho.
Lembro-me de regressar às aulas, do cheiro dos livros novos, do reencontro com os amigos, da descoberta dos recreios com gente nova.
Lembro-me que os dias ficavam mais pequenos porque tinham medo da noite.
Lembro-me que ainda se estava longe do Natal, mas que este prometia coisas boas e não a angústia de hoje. Lembro-me das idas à praia nas férias grandes ser uma memória viva que se contava e recontava com o prazer na ponta da língua. O Pedrogão, a Vieira, São Pedro de Moel e a Nazaré. Dos piqueniques no Pinhal do Rei. Das sestas depois de almoço. Das sardinhadas aos fins-de-semana.
Lembro-me de devorar os livros dos Cinco e dos Sete e das Gémeas e da minha mãe me fazer parar de ler e mandar para a rua brincar.
Lembro-me dos primeiros namoros. Da mão-na-mão, do primeiro beijo quase roubado e que foi um bilhete de ida-e-volta à Lua.
Lembro-me do centro da vida ter passado dos meus pais para os meus amigos e depois para as minhas paixões e depois para a minha família e depois… E depois…
Lembro-me de quando a vida era muito mais simples. De quando a responsabilidade não era minha. De quando ninguém esperava nada de mim. De quando podia ser o que era e não o que deveria ser.
Lembro-me de quando a criança era criança…
Lembro-me de quando a criança queria crescer para ter aquilo que já não quer ter. Quando queria ser aquilo que já não quer ser.
Lembro-me de quando a criança cresceu e não queria. Queria ser o miúdo d’O Tambor.
Mas agora, que lembro tudo o que fui, e vejo o que sou, sei que não quero voltar atrás. Mas quero lembrar. E deixar-me embriagar.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/21]

Foi Num Final de Verão

O Verão caminhava para o seu fim. As aulas aí estavam, mesmo ao virar da esquina.
O miúdo estava em casa, frente à televisão, a jogar. A jogar um qualquer jogo violento. Olhou lá para fora e sentiu a vida a chamá-lo.
Desligou a consola e saiu de casa. Foi até ao fim da rua e entrou no pinhal. Caminhou pelo seu interior, subiu um pequeno monte e acabou a descer uma ribanceira que levava até às margens do rio. Aí, tirou as sapatilhas dos pés, atou-as uma à outra, e entrou com os pés nus dentro do rio. Depois acompanhou a corrente até chegar ao açude. Alçou-se para um ramo forte tombado sobre a água e sentou-se lá com os pés a baloiçar. Jogava os pés para a frente e para trás, levantando água e molhando-se a si próprio. Riu-se com satisfação.
O canto de um pássaro chamou a sua atenção e inclinou-se para o ver.
Levantou-se e foi até à margem do açude. Despiu-se e colocou as roupas numa pilha, debaixo de uma pedra, para o vento, ou outros miúdos, não a levarem. Voltou para o braço da árvore que se espraiava pela água. Manteve-se por lá, nu, a olhar a água do rio, os pássaros a chilrear e o vento a agitar as folhas das árvores.
Depois mergulhou nas águas do açude.

Já era de noite e a mãe do miúdo estava preocupada com a sua ausência. Já o tinha chamado várias vezes da janela, da porta de entrada, do muro da casa. Já tinha gritado o seu nome muitas vezes, cada vez num tom mais alto, mas sem sucesso. Já telefonara aos seus amigos, mas sem sucesso.
A mãe sentia o nervosismo aumentar.

O pai chegou a casa, trocou meia dúzia de palavras com a mãe e voltou a sair de carro, rápido, sonoro.
Pouco tempo depois voltou a entrar. Pegou no telefone e telefonou.

O som e as luzes dos carros da polícia anteciparam a sua chegada. Dois polícias saíram dos carros e dirigiram-se para a casa do miúdo. À entrada de casa conversaram com os pais e, pouco depois, fizeram um gesto de giro com a mão e os outros polícias saíram pelas redondezas à procura do miúdo.

Chegou o Outono, que cedeu lugar ao frio do Inverno e se transformou na esperança da Primavera até ser, de novo, Verão. O miúdo nunca mais apareceu.

[escrito directamente no facebook em 2017/08/30]