Alguém Tem de Fazer Alguma Coisa

Eu vi-as chegar. Chegaram devagar. Foram chegando devagar mas, mal chegaram, instalaram-se e não foram mais embora. Cobriram tudo e trouxeram o medo.
Estava no alpendre a ler, pela enésima vez, O Segredo do Espadão, das Aventuras de Blake e Mortimer, a fabulosa série de banda-desenhada de Edgar P. Jacobs. Bebia um gin. Fumava um cigarro. E, de repente, comecei a perder leitura. A luz a ir embora. Eram três da tarde. Olhei para o céu e, ao fundo, umas nuvens escuras a cobrirem o céu e a taparem o caminho à luz do sol.
Pensei Vem aí temporal.
Pousei o livro. Levantei-me e cheguei-me à frente no alpendre. Olhei com mais atenção. Não pareciam nuvens de tempestade. O ar estava abafado. Sentia-se cheiro a queimado. Como porco no espeto.
Pensei São os chineses. Vêm aí os chineses.
Entrei dentro de casa. Voltei a sair. Agarrei n’ O Segredo do Espadão e levei-o para dentro de casa. Arrumei-o. Fui ao fundo do armário do meu quarto buscar a caçadeira. Agarrei nuns cartuchos e voltei ao alpendre. Liguei o iPad à procura de notícias. Liguei a TSF. Nada. Facebook. Fiz scroll. Comecei a encontrar umas notícias partilhadas de um enorme incêndio a lavrar na Amazónia.
Pensei O que é que isto tem a ver com aquilo?
As nuvens já estavam quase por cima de mim. A cobrir o céu. A cobrir-me a cabeça. Eu estava ali, no alpendre, com a caçadeira nas mãos, à espera dos chineses quando percebi que não eram os chineses.
Pensei São os brasileiros, porra! Como raio é que estas nuvens chegaram aqui?
A luz do dia desaparecera por completo. O dia fez-se noite. O céu coberto por nuvens de fumo pretas. Um cheiro incrível a queimado.
Entrei para dentro de casa. Fechei tudo. Portas e janelas. Liguei a televisão. Nada. A greve às horas-extra. Pedro Pardal no PDR por Lisboa, nas legislativas. Bas Dost e o Sporting. O clássico Benfica – Porto no Sábado. Mais nada. Nada sobre a noite comer o dia. O mundo ter enegrecido. E o Brasil ter ensandecido.
Peguei no iPad. Voltei às redes sociais. Ali, toda a gente comentava. E finalmente percebi. A Amazónia estava toda a arder. Atearam fogo à Amazónia para vender a madeira e aumentar o pasto para o gado. É a economia, estúpido.
Enquanto o mundo corria para o seu apocalipse na mão de idiotas demasiado estúpidos para perceber os erros que estavam a cometer, a outra mão, supostamente mais ponderada e inteligente, não estava a fazer nada. Estava perdida na sua própria inércia, motivada pela ideologia, economia, medo, diplomacia e, acima de tudo, não ingerência num país estrangeiro. Sem perceberem que éramos nós. A Amazónia éramos nós.
Ao fim de três dias de noite escura e cerrada, ninguém parecia ainda ter tomado alguma decisão que fosse para pôr termo ao que parecia a morte da floresta amazónica.
Então, eu peguei na caçadeira. Em várias caixas com cartuchos. Arranjei um farnel. Um naco de pão do Soutocico, Um bocado de queijo da ilha. Um chourição. Três maçãs e quatro laranjas. E uma garrafa da Cooperativa de Reguengos. Enfiei tudo numa mochila. A caçadeira na mão. Peguei no carro e fui até à Nazaré.
Entrei pelo porto dentro. Ninguém me impediu. Encontrei uma traineira. Subi à cabina. Liguei o motor. Saí do porto.
Pensei Em frente é para a América. Para sul, chego ao Brasil. Alguém tem de fazer alguma coisa.
Ando há umas horas no mar. Não vejo grande coisa mas, se continuar a direito, vou lá dar. Alguém tem de fazer alguma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2019/08/21]

As Notícias do Dia Incomodam-me

Vim para o alpendre. Parou de chover. Descobriu o sol. O tempo está quente. Peguei na Catedral de Raymond Carver, que ando a reler, e sentei-me aqui fora. No alpendre.
Ao fundo as montanhas limitam-me o horizonte. Por cima, no céu azul, umas nuvens brancas como algodão doce.
Acendi um cigarro. Estou a fumar. Ainda não abri o livro. Ainda não recomecei a ler. Estou a pensar nas notícias que me acordaram hoje de manhã e que têm andado por aqui a calcar a cabeça. Não sei bem o que é que tudo isto quer dizer, mas não é nada bom, tenho a certeza.
Aquela história no Brasil assusta. A obscuridade. Os estudantes têm de limitar a sua rebeldia. Os estudantes, numa idade de revolta, de busca por identidade, de procura do conhecimento, de experiências e experimentação, têm de se comportar com juizinho. As raparigas e os rapazes não podem usar piercings e, os rapazes, nem brinco, que isso é coisa de maricas e maricas não, senhor! As calças não podem andar arregaçadas. Nenhum deles pode usar boné, boina, chapéu. Agora há militares armados nas instalações escolares a garantir a execução das novas normas de conduta. A filosofia vai desaparecer. A sociologia também. Todas as ciências sociais vão deixar de existir no currículo académico. Todas as disciplinas que possam ajudar a desenvolver a capacidade de raciocínio e ajudar a pensar, vão deixar de ser leccionadas. O Brasil quer ser um enorme curso técnico-profissional. Os alunos vão aprender ofícios que possam ajudar a erguer o novo país alicerçado no Boi, na Igreja Evangélica, na pistola na ponta da mão e na destruição da Amazónia. Amén.
Estou com azia.
Acabo o cigarro. Olho para a capa da Catedral que ainda não abri e pouso o livro na mesa de apoio. Olho para as montanhas lá em frente.
O Presidente americano, que se gaba de ser um excelentíssimo negociador e um notável homem de negócios, acabou por não conseguir levar a bom termo nenhuma das negociações a que se propôs, nomeadamente com a Coreia do Norte de Kim Jong-un. O Irão é o que se sabe. Israel, ainda está para se ver. O New York Times descobriu, por sua vez, que durante anos, Donald Trump não pagou impostos por ter perdido, em poucos anos, mais de mil milhões de euros. Um homem ancorado em mentiras sobre mentiras. Um arrogante construtor de mentiras que lhe abriram o caminho à presidência, a criar um novo género da fazer política. O que nos faz pensar na educação que (não) se dá ao povo. Um certo tipo de povo. Arredado do conhecimento. Da cultura do pensamento. Do raciocínio. Um voto na mão a eleger quem desdenha desse mesmo voto.
Sinto a garganta seca. Um nó no estômago. Uma certa angústia. As notícias deixam-me deprimido. É para isto que aqui chegámos?
Acendo outro cigarro.
Penso nos banqueiros. Penso nos banqueiros que não acham justo que não se paguem os movimentos no Multibanco. Penso nas caixas Multibanco que andam a ser substituídas por caixas ATM. Estas a pagar. E penso que não é justo que o dinheiro que não é deles tenha de lhe passar pelas mãos. Não é justo que os meus poucos euros dêem várias vezes a volta ao mundo a multiplicar os lucros dos banqueiros e eu não veja sequer a cor dele. Não há retorno. Nunca há retorno. Penso que não é justo os banqueiros utilizarem o meu dinheiro e não me pagarem nada por ele e obrigarem-me a pagar por toda e qualquer acção que eu faça com o meu dinheiro. Penso como não é mesmo nada justo que os seus lucros sejam distribuídos pelos accionistas e os seus deficits sejam cobrados aos contribuintes que não têm nada a ver com aquilo. Não, não é mesmo nada justo. Quero deixar de utilizar os bancos. Ou seja…
Ou seja, não! Odeio esta expressão. Repetir as mesmas coisas por outras palavras. Admitir que não me exprimi bem da primeira vez. Não! Que porra!
Sinto-me enterrar na cadeira. Fumo o cigarro. Sinto-me pequeno. Cada vez mais pequeno e enterrado na cadeira. As montanhas continuam lá à frente. Verdes. Um verde-azeitona. O céu azul. Umas nuvens largadas um pouco à sorte sobre o céu, como açúcar largado por cima de uma arrufada.
Os gatos e o cão pressentem a minha tristeza. O caminho aberto à depressão. Os gatos roçam-se nas minhas pernas. Miam. Não sei o que é que querem. Talvez darem-me mimo. O cão lambe-me a mão. Passa a língua pelo cigarro. Queima a língua. Gane. Deita-me o cigarro ao chão. O cigarro apaga-se inundado de saliva. Eu digo, baixinho, És mesmo bruto, pá!
Ela aparece com dois copos de vinho tinto. Dá-me um.
Ficamos ali os dois, mais os gatos e o cão, a olhar as montanhas lá à frente e a pensar no tempo que nos resta. E que tipo de tempo é que nos resta.
Acendo outro cigarro. E penso há quanto tempo é que não vejo o Óscar. O sardão cá de casa.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/08]

Continua a Chover

Desde que cheguei ainda não parou de chover. Passo as manhãs na cama a ouvir o som da chuva a bater nas janelas do quarto. Passo as tardes à janela do quarto a ver a chuva a cair e à espera de uma pequena aberta que me possibilite correr até algum sítio onde possa estar durante o tempo de chuva que não seja o quarto. Já não suporto o quarto.
Deito-me à noite depois de beber uma garrafa de vinho tinto. Os cigarros, fumo-os à janela, mas já por duas vezes disparou o alarme e vieram cá acima, ao quarto, saber o que se passava. Nada!, disse eu. Mas já me olham de lado. Sinto que acham que não sou de confiança. Gente que fuma não é de confiança!
Vim para passear. Para conhecer um pouco deste sítio. Desanuviar dos meus dias tristes e iguais. Mas o que tenho conhecido à exaustão é o quarto onde estou alojado. E é um quarto sem histórias. Cama de corpo e meio. Colchão mole, daqueles que se afundam com o corpo. De manhã acordo sempre com dores nas costas. Também acordo com dores de cabeça. Mas essa é do vinho barato que bebo para adormecer. Adormeço com facilidade, mas acordo sempre com a cabeça a rebentar. A televisão tem muitos canais, mas todos de gente a falar numa língua que não compreendo. Chego a sentir-me sozinho. Já pensei em regressar. Regressar mais cedo. Mas depois pensei Regressar para onde? Para casa? Casa? e nessa altura penso que é melhor continuar à janela à espera que a chuva pare e eu possa passear-me e conhecer um pouco deste sítio que não o meu quarto e dois ou três cafés para onde tenho ido em passe de corrida (descobri que num deles há extracto de absinto!), e o supermercado onde tenho comprado este vinho rasca que me deixa a cabeça a ponto de rebentar.
Trouxe um livro. Cada vez que o abro, cada vez que tento ler uma página, os meus olhos fecham-se. Já o tentei ler várias vezes. De todas as vezes voltei a fechar o livro antes de chegar ao fim da primeira página. Está a tornar-se cada vez mais difícil ler. Não consigo manter a cabeça focada na leitura. Está sempre a fugir-me nem sei bem para onde. Agora vai sempre com a chuva. Conta as gotas que escorrem pelo vidro da janela abaixo. Tenta ver no céu uma pequena aberta que traga o sol. Conta os minutos para poder voltar a beber um copo de vinho tinto. E adormecer. Mas antes de adormecer ainda vê o reflexo das luzes de néon nas poças de água que se formam frente à janela. A noite embala-a. E a mim.
Ontem bateram à porta do quarto. Eu aproximei-me e perguntei Quem é? e uma voz de mulher disse qualquer coisa que não percebi. Eu calei-me. Não fiz mais barulho. Fingi que já não estava no quarto. Ela ainda bateu mais duas vezes. Eu não disse mais nada. Queria que se fosse embora para eu continuar a beber o resto do vinho.
Na televisão apanhei o que devia ser o telejornal. Imagens de um carro passado à bala. Acho que era no Brasil. Acho que foram os militares. Não percebi porquê. Nunca consigo perceber porquê! Porque é que se fura um carro à bala numa cidade de um país que não está em guerra?
Continua a chover e já só penso em regressar. Não tenho propriamente para onde regressar. Mas já estou farto desta janela. Deste vinho que cheira ao chão do antigo Lagoa. Destas casas inteligentes e verdes onde não nos deixam intoxicar. Deste tempo cinzento que tem como grande vantagem lembrar-me como é bom viver onde vivo. Mesmo que seja num sítio sem história. Sem memória. Com um passado esquecido e um futuro incerto.

[escrito directamente no facebook em 2019/04/09]

Uma Noite no Jardim Enquanto a Alemanha Invadia a Polónia

Andava a ver os filmes em corrida para os Prémios da Academia Americana de Cinema. Sim, fica lá longe, mas é o mais perto que chegamos do cinema. A América está aqui. No meio de nós. Entra pela televisão. Pelos canais de cabo. Pela internet. Pelas salas de cinema. Ensinaram-nos a ler os códigos do cinema norte-americano. Levaram-nos a estranhar outras linguagens. Pode bem o Jean-Luc Godard bramar pela linguagem! Em vão! A corrida é sempre à volta do que já se sabe. Mesmo quando já se sabe que acaba mal. Sabemos mas agarramos a amnésia. E entramos na mesma.
Se calhar, por medo. Ou cobardia. Gostamos de estar em número, é o que é!
Portanto, sentei-me no sofá.
Ia ver uma curta-metragem. Uma curta-metragem documental. Uma coisa pequenina. Tinha sete minutos. Feita com imagens de arquivo. A preto e branco. Chamava-se A Night at the Garden e era realizado por Marshall Curry.
Carreguei no Play.
O filme abriu com uma multidão. Uma multidão num pavilhão. Um bruá de excitação. Depois o título A Night at the Garden. E um subtítulo, localizador de espaço e tempo, New York City, February 20, 1939. Estávamos no domínio da memória.
No plano seguinte descubro que o Garden do título é o Madison Square Garden. Em pleno coração do mundo. Um local onde se alberga tudo, do hóquei ao basquetebol, passando, naquela noite, em especial, por um evento chamado Pro American Rally.
Vê-se muita gente nas imediações. Polícia a cavalo. Pessoas que se manifestam. Uns contra. Outros pró.
Ao primeiro minuto voltamos a entrar no Garden e vemos, pela primeira vez, ao que vamos: um fila de jovens a transportar bandeiras americanas e bandeiras nazis cruzam a plateia saudados pelos braços esticados no ar. Em saudação. No palco, um grupo de jovens milicianos de fato militar, fazem rufar os tambores. Agora o pavilhão inteiro aplaude. Aplaude a chegada de inúmeros jovens milicianos, meninos e meninas, eles de calções e bivaque, elas de caracóis, camisa branca de manga-curta e gravata, numa espécie de Mocidade Portuguesa formada de jovens e esbeltos americanos, da Land of the Free. À cabeceira de tudo isto, a figura paternal e gigante de George Washington.
Quase a chegar aos dois minutos de filme, o primeiro discurso, onde se promete lealdade incondicional à bandeira dos E.U.A., um país com liberdade e justiça para todos, numa voz alemã vertendo em inglês o discurso da pátria.
Muda o orador. Os braços estendidos a César invadem o Madison Square Garden. Parece que não estamos em Nova Iorque, mas em Berlim.
Ao minuto três chega o apelo aos verdadeiros americanos, aos patriotas, porque são sempre eles os patriotas e representantes do povo e exigem a devolução do país àqueles que são sempre os verdadeiros americanos: O povo! O Povo!. Começam a zurzir nos judeus. A chaga social. A boca da mentira.
Eles? Os verdadeiros americanos de mão esticada? Eles clamam por um país socialmente mais justo, branco e gentio. Eles clamam por sindicatos de trabalhadores gentios livres do domínio judaico e soviético.
Estamos a chegar ao minuto quatro e alguém salta para cima do palco. Alguém que quer parar a besta, ali. Mas é logo apanhado por elementos das milícias que o sovam ali mesmo, em cima do palco, à frente da plateia que ulula em êxtase. Chega a polícia e encarrega-se do intruso. Leva-o para fora do palco. O orador, impávido e sereno, assiste a tudo com um enorme bocejo e uma calma desarmante, continuando, logo de seguida, o discurso. A juventude miliciana no palco está excitada. Contente. Dá pulinhos. Ri. Gargalha. Enquanto o invasor é levado, pela polícia, para fora do palco com as roupas rasgadas, a multidão brama e o orador ri, bonacheirão, daquele fait divers.
Uma voz de mulher entoa o hino americano na companhia de uma orquestra e o povo, aquele povo que está no Madison Square Garden, está de pé, respeitosamente, a homenagear o país, o hino, a bandeira. Mas e os outros? Os que não cabem debaixo de todo aquele folclore?
No fim do filme, uma informação: Vinte mil americanos estiveram no Madison Square Garden na noite de vinte de Fevereiro de mil novecentos e trinta e nove. Enquanto isso, na Europa, Hitler terminava a construção do seu sexto Campo de Concentração. Sete meses mais tarde, o exército Nazi invadia a Polónia e dava início à guerra mais sangrenta da História.
Passa o genérico. Aperto no Stop.
Agarro num cigarro. Acendo-o. E penso que nada disto é novo. Nada que não soubéssemos já. Nem era preciso saber História. É do senso comum. Já faz parte da cultura ocidental saber o que aconteceu na Europa entre mil novecentos e trinta e nove e mil novecentos e quarenta e cinco. As consequências ainda as sentimos, hoje. Saber que houve um Partido Nazi Americano também não é novidade. Também houve um Partido Comunista, que existe ainda hoje. Uma das bases de A Conspiração Contra a América de Philip Roth está nesta América nazi. Numa América que glorificava Hitler. Na estória, a Alemanha era a vencedora da guerra. Os americanos-arianos cumpriam a sua vingança contra os judeus.
Mas então, o que é que se passa? O que é que se passa hoje que parece que estamos todos esquecidos? O que é que se passa hoje que parece que não se passou nada?
Cortámos a cabeça à serpente. Mas ela deixou ovos. Eles estão aí. Por todo o lado. A nascer. A crescer sob a nossa amnésia. Na Polónia. Na Hungria. Em França. Em Itália. Mesmo em Espanha. No Brasil e nos Estados Unidos. Em nome de falsos profetas e falsas profecias. Em nome da sacrossanta economia. Contra a corrupção. Contra os emigrantes. Contra os outros. Contra! Contra! Contra! Foda-se!…
Apaguei, furioso, o cigarro no cinzeiro. Levantei-me. Fui ao quarto. Ao armário do quarto. Ao fundo do armário do quarto. Agarrei na caçadeira. Carreguei-a. E voltei para a sala. Desliguei as luzes. E pus-me à espreita. A olhar pela janela. E disse baixinho Os filhos-da-puta andam aí. Mas desta vez vou estar à espera deles. E desta vez não vou ser complacente.
Ao fundo vi umas carrinhas de caixa aberta cheias de gente. Jovens cheios de testosterona. À cata de problemas. Eles que venham cá, pensei.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/11]

A Revolução em Marcha

Este é um grande país, afinal. Cheio de gente valorosa. Voluntariosa. Inteligente. Mas nos lugares errados. Com os caminhos tapados.
Estava a ler os comentários às notícias do dia. Os comentários que o povo anónimo escrevia sobre as notícias reluzentes da actualidade. As notícias sobre política, economia e finanças. Também sobre futebol. Sim, eles tinham razão. O povo. As elites estavam erradas. Enredadas nas suas obrigações. Atoladas na corrupção. No compadrio dos pequenos chefes de secção. As elites ajudavam-se entre elas. Construíam o seu próprio condomínio fechado. Porta fechada a sete-chaves. O povo estava a descobrir isso. No início nem ligou. Era lá entre eles. Mas depois começou a pagar a factura. E começou a irritar-se. A ver os outros a irritarem-se noutros lados. Era preciso mudar o estado das coisas. Era preciso saltar das caixas de comentários para a rua. Era preciso colocar a revolução em marcha. Era preciso substituir a velha razão de estado pelo novo pragmatismo social. O que estava em baixo tinha de passar para cima.
Foi o que aconteceu em França. Em Inglaterra. No Brasil.
O um por cento devia ser substituído pelos noventa e nove por cento. As ajudas do estado não podiam mais ser aos bancos, mas às famílias. O risco sistémico não era mais o descalabro das finanças que sobrevivia mal aos erros sucessivos do CEO com mais olhos que barriga. O risco sistémico era o do suicídio em massa de quem não tinha comida para pôr na mesa, para colocar na boca dos filhos.
Eu resolvi fazer a minha parte.
Tomo banho. Um duche quente. A escaldar. Vejo a minha pele a ficar encarnada. Faço a barba. Duas vezes. Corto-me. Faço algum sangue. Estanco-o com pedaços de papel higiénico. Quero ficar limpo. Passo after-shave pela cara. Arde. Dou duas palmadas.
Visto um fato. Um fato azul escuro. É a primeira vez que visto um fato. Camisa branca. Gravata às riscas em vários tons de azul. Uso os botões-de-punho do meu pai. Calço sapatos de sola. Sinto-me elegante.
Pego na pistola e coloco-a à cintura. À frente. Entalada entre o cós das calças e a barriga. Amarrota um pouco a camisa. Mas não faz mal. Aperto um botão do casaco. Estou elegante.
Entro no carro. Vou devagar até à casa dela. Páro o carro a certa distância. Vejo a porta de saída. Aguardo pelo momento certo. Substituir o velho pelo novo. O amante há-de sair por ali. E quando sair, começa a revolução. Um tiro. Quando ele sair pela porta da rua, eu saio do carro. Aproximo-me dele e disparo. Limpo o meu caminho. Recupero o tempo perdido. Começa a revolução.
Vejo a porta a abrir. Vejo o amante a sair pela porta da rua. Coloco a mão na arma, antes de sair do carro. Ouço um som forte. Sinto uma picada… Um murro.
Foda-se!
Olho para baixo. Vejo uma mancha de sangue a alastrar pela camisa branca. E não pára. O vermelho come o branco. Vem em jorro. Porra! A vista começa a ficar turva. Levo a mão à porta. Quero abri-la mas não consigo.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/29]

Foto-Sinto-Me

Está frio.
O sol chama-me lá para fora. Saio. Saio de casa. Passo o alpendre. Vou até ao quintal. Desço a ladeira até à estrada de terra batida.
O sol está quente. A rua é mais quente que a casa. A casa é fria.
Não há carros.
Ouço, ao longe, um cão a ladrar.
Vejo, lá em cima no céu, o chemtrail de um avião. Para onde irá?
Do outro lado da estrada, um casal de velhos está a podar as oliveiras. Lembro-me de os ter visto a apanhar a azeitona. Agora podam as oliveiras. Ouço a velha Vê lá se me cortas o dedo, Velho! Sorrio.
Abro os braços. Deixo o corpo espreguiçar-se. Todo eu tremo. É bom sentir o corpo a espreguiçar-se. Pareço crescer.
O sol está quente. Gosto do sol quente no Inverno. Não gosto do Inverno.
Quero regressar ao Verão.
Quero chegar ao Verão. Mergulhar no mar. No mar da Nazaré. Rever o nevoeiro matinal de São Pedro de Moel. Comer um arroz de marisco no Coelho, na Vieira. Umas navalheiras no Tonico, em Paredes de Vitória. Beber umas imperiais no Casino, no Pedrogão. A ver o Atlântico. Sempre a ver o Atlântico.
O gato veio ter comigo à estrada de terra batida. Roça-se na minha perna. Sobe a uma oliveira. Olha para o casal de velhos. Depois vira-se para mim e mia. Quer leite.
Subo a ladeira. Gosto de sentir o sol a bater-me nas costas. Na cabeça. Sinto-me retemperado.
Entro em casa. Regressa o frio. A casa é fria, já tinha dito. Tremo. Visto um casaco. Um casaco de lã. Abro o frigorífico. Agarro o pacote de leite e vou ao alpendre despejar um pouco num pires para o gato.
Largo o pacote de leite no murete do alpendre. Desço as escadas. Volto ao sol. É aqui que estou bem. É aqui que sinto. Que me sinto. Foto-sinto-me.
Acendo um cigarro. Fecho os olhos. Fumo o cigarro, debaixo do sol, de olhos fechados. A vida às vezes é simples. Bem simples.
Hoje joga o Benfica.
Que me interessa o estado do mundo quando posso estar assim.

Um dia visitei as cataratas de Iguazú. Confluem lá três países. Argentina. Brasil. Paraguai. Eu estava no lado argentino. E via os outros dois lados. Mas o que vi realmente foi o poder de toda aquela água a cair. A fúria. O voo. O som. O princípio e o fim. O princípio e o fim de tudo. Vi a água levar-me. Lavar-me. Abençoar-me. E achei que podia morrer. Depois de ver Iguazú, podia morrer. Feliz.

Abro os braços. Capto o sol. Recebo todo o calor que consigo. Guardo todo o conforto que me dá.
E, depois disto, posso morrer.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/11]

De Prédio em Prédio à Cata de Oposição

As notícias não eram animadoras. Não, as notícias eram assustadoras. Um verdadeiro horror.
O Coiso ia a caminho do Planalto. Já ninguém podia proteger o Brasil. A força, a ignorância e a intolerância estavam, de mãos dadas, às portas do poder.
Mas o Brasil não era o primeiro. Nem seria o último. Era só um dos mais significativos e importantes. Um verdadeiro laboratório.
Uma série de eventos que parecia não terem nada a ligá-los, acabou por se perceber, mais tarde, serem parcelas da mesma equação.
Ao mesmo tempo que o Coiso fazia o seu caminho em glória, uns sauditas esquartejavam um jornalista opositor ao regime de Riade, no interior de um consulado em Istambul, na Turquia, e depois fizeram desaparecer o seu corpo levando-o em várias malas de viagem. Entretanto, um triatleta português era morto pela mulher e o amante dela, em casa, e o seu corpo depositado a mais de cem quilómetros de distância do sítio da morte, tendo, a mulher, nos fins-de-semana seguintes, passeado a luxúria com o seu amante pelo Festival de Paredes de Coura e por Porto Covo. Ao mesmo tempo um antigo Presidente da República Portuguesa editava um livro onde tecia considerações jocosas sobre os actores políticos do momento e o governo italiano fazia ouvidos moucos à Europa sobre o seu Orçamento de Estado. E, no meio de tudo isso, uma série de tempestades tropicais, furacões e vulcões eclodiram um pouco por toda a parte, seguidos de enormes massas polares frias que puseram, em especial a Europa, de sobreaviso. Mas já era tarde.
O que despoletou tudo foi uma série de atentados falhados, na forma de embrulhos armadilhados, enviados a antigos presidentes norte-americanos moderadores, a milionários filantropos e a estações televisivas de noticias. Os embrulhos foram apanhados a tempo pelos serviços de segurança. E foi isto que levantou a suspeita. Mas já era então muito tarde.
Estávamos na antecâmara do terror que vinha instalar-se no Ocidente. O Oriente há muito que estava esmagado, sem o saber. Já desconfiávamos. Mas estávamos embriagados.
Pouco demorou para as milícias começarem a organizarem-se nos vários países da Europa e da América. Através do WhatsApp as forças das trevas organizaram-se e dominaram os países. Primeiro espalharam-se pelo meio do povo. Como Agentes Provocadores. Depois dominaram as várias igrejas, especialmente as evangélicas. Logo de seguida, entraram pela forças policiais e militarizadas, chão fértil. Quando o poder político, o poder burocrático político despertou já era tarde demais.
Eu fui juntando comida. Umas latas. Conservas. Garrafões de água. Armas. Munições. Tentei encontrar-me com outros como eu. Mas não consegui. Estava tudo com medo. Ninguém se manifestava. Ninguém dizia nada com medo de dizer alguma coisa.
O Facebook, o Twitter e o Instagram, outrora tão cheios de revolucionários, estavam vazios de contestação. Voltaram as musiquinhas. Os gatinhos. Os bebés. As frases feitas e erradamente atribuídas a Gandhi e a Einstein.
No fim, acabei por me fechar em casa. Onde estou.
Descobri, finamente, o que todos aqueles eventos tinham a ligá-los. E, se não for apanhado entretanto, vou contar. Vou contar para memória futura. Para perceberem como chegámos aqui.
Agora eles andam de prédio em prédio. À cata de oposição. De gente do contra.
Eu estou aqui em casa. A casa está fechada. A porta da rua está fechada à chave e com os ferrolhos corridos. As janelas têm as persianas corridas, à excepção de uma, um pouco aberta, por onde escuto o que se passa na rua e por onde sai o fumo dos cigarros que me vão fazendo companhia.
Se nada acontecer entretanto, eles vão chegar aqui a casa. Vão abrir a porta da rua e vão descobrir-me. Mas nessa altura levo uma série deles comigo. É por isso que estou aqui no corredor. Barricado. Com as armas que arranjei. À espera. Com medo. Com medo mas decidido. Vou escrevendo tudo o que me lembro dos factos passados. Para que se lembrem. Para que a memória persista. Eu poderei ir, mas vou cá deixar memória. Antes de ir, vão também alguns deles. Antes de ir… Antes de ir mando-os à merda. Mando-os à merda à minha frente.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/24]

A Noite de Cristal

As botas disparavam em força contra mim. Contra o meu corpo enrolado no chão. Vinham de todo o lado. Já não sei quantas eram. As botas. As botas a matraquear-me o corpo. A cara era uma massa de sangue. Os olhos estavam inchados. A língua não conseguia furar a boca. Os lábios estavam grossos. Só via, desfocado, a baloiçar ao pescoço, sobre mim, a cruz de Cristo pendurada num fio. Tombando sobre o meu corpo tombado e massacrado.
Parei de me mexer. Parei de me mexer e eles pararam. Foram-se embora. Ainda houve um que veio dar-me um último pontapé. Uma grande penalidade. Na cara. Na boca. Partiu-me um dente. Mas nem senti. Já não sentia nada. Nem dor. Nem ódio. Nada.
Continuei deitado. Enrolado. Por tempo. Por bastante tempo.
Depois lá tentei levantar-me. A custo. O corpo dorido. Agarrei-me ao banco do jardim para me suster. Para me puxar.
Cuspi. Cuspi para o chão. Uma massa escura. Viscosa. Ficou um fio da massa pendurado à boca. Tirei-o com as mãos. Estavam negras, as mãos. As unhas partidas. Lascadas.
Puxei as calças para cima. Apertei o cinto. Devagar. Olhei à volta. A mochila caída no chão. Aberta. Tudo espalhado. O iPad partido. O Walden do Henry David Thoreau feito em mil pedaços de folhas rasgadas e espalhadas pela relva. A capa baloiçava no rebordo de um caixote do lixo. Acabou por tombar lá para dentro. Deixei-a ir. E aos restos das folhas que o vento espalhava por ali. Deixei-as por lá. Ainda vi uma sweat-shirt pendurada no ramo de uma árvore. Um caderno A4 a boiar no pequeno lago, no meio dos patos. O pequeno Moleskine preto, de capa rija, semi-enterrado na brita do caminho. A tampa da caneta de tinta permanente ainda estava acoplada à capa. O resto da caneta não a vi. Aliás, não via grande coisa. Tinha os olhos inchados. Restava-me uma pequena ranhura. Um fio de imagem. Desfocada.
Doía-me as costas. As pernas. Os braços. A cabeça. O cu. Tinha sangue, mas não sabia de onde vinha. Estava ferido algures, debaixo de todo o sangue que secava pelo corpo. Mas não conseguia perceber de onde vinha.
Cuspi. Não tinha grande força para cuspir. Era mais abrir a boca e deixar cair uma massa de sangue, cuspo e baba para o chão.
Tentei endireitar as costas, mas era um processo doloroso. Continuei curvado. Apanhei a mochila. As coisas a que consegui deitar a mão. Enfiei-as na mochila.
Olhei à volta. Passavam algumas pessoas por ali. Ignoravam-me. Fingiam que não me viam. Por medo. Por nojo.
Pus a mochila às costas e arrastei-me para fora do jardim.
Devia ir a um hospital, pensei.
E pensei melhor.
Vou para casa, decidi.
Tinha medo. Não me sentia seguro em lado nenhum. Uma tareia não me livrava de outra. Tinha de sair da rua. Tinha de ir para casa.
Pensei que estava na Alemanha. Em 1938. A noite de cristal.
Enganei-me. Estava no Brasil. 2018.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/08]

O Candidato Messias

Eu vi. Eu vi as mulheres. Eu vi os milhares de mulheres a manifestarem-se nas ruas e nas praças das cidades brasileiras. Eu vi os milhares de mulheres brasileiras na rua por todo o mundo onde há comunidades brasileiras a gritar #EleNão.
Manifestavam-se contra o candidato presidencial Jair Messias Bolsonaro.
Bolsonaro candidato que, quando votou pela destituição da, então, presidente Dilma Rousseff, dedicou o seu voto ao coronel Brilhante Ustra, que era o líder da polícia política da ditadura militar, que torturou a mesma Dilma Rousseff.
O candidato Messias defende a ditadura militar porque, ali entre 1964 e 1985, os anos de chumbo brasileiros, foi, segundo o Messias, uma época gloriosa, vinte anos de glória e progresso que só pecou por torturar demais e matar de menos.
O candidato Messias declara-se racista porque os pretos não fazem nada, nem servem já para procriar.
O candidato Messias é contra a homossexualidade e afirma que preferia que um filho seu morresse num acidente do que aparecesse com um bigodudo por aí.
O candidato Messias é contra Dilma Rousseff porque não gosta dela, é feia e nem mereceria ser violada por ele.
O candidato Messias é contra a democracia porque é uma porcaria e, se fosse presidente do país, fecharia o Congresso.
O candidato Messias também disse que, se não ganhasse estas eleições, não iria aceitar o resultado.
O candidato Messias promete salários mais baixos para as mulheres porque engravidam.
O candidato Messias tem quatro filhos e uma filha que, disse, foi uma fraquejada que teve.
E eu vi. Eu também vi. No dia seguinte às manifestações contra Jair Messias Bolsonaro, as projecções das sondagens davam-lhe uma grande subida nas intenções de voto, sendo o candidato mais votado na primeira volta e em empate técnico com o candidato Fernando Haddad na segunda.
O que eu não vi foi o candidato Messias afastado da corrida presidencial pelas bárbaras e criminosas afirmações proferidas.
Eu vejo que o Brasil está doente.
A Europa está doente.
O mundo está doente.
Mas eu já vi o que o Homem pode fazer por outro Homem.
Eu já vi o que as mulheres podem fazer.
Eu vi as mulheres na rua.
Eu vi a força das mulheres quando saíram à rua
Eu sei que elas vão tomar o seu destino nas mãos e empurrar o demónio para o seu buraco.
Eu fumo um cigarro. Estou nervoso. Estou a assistir à História ao vivo. Às transformações da História.
Só espero que as transformações sejam para o melhor. Para o melhor da humanidade.
Espero ter cigarros suficientes.

[escrito directamente no facebook em 2018/10/02]

Em Agosto Vi Zé Café & Guida

A festa era na aldeia. Naquela aldeia. Poderia ser noutra que em Agosto há festas todos os dias em diferentes aldeias, vilas, cidades e às vezes até se sobrepõem as festas porque é preciso agradar aos santos e santinhos todos e aos emigrantes filhos da terra que vêm cá construir as suas casas e pagar IMI e mais outros impostos que a Junta está necessitada, mas hoje era ali, naquela aldeia, no sopé da montanha, ao lado da Nacional 1. Pelo menos era o que tinha lido no cartaz publicitário à saída do InterMarché.
À entrada da aldeia fui recebido com decorações luminosas daquelas que se utilizam no Natal ou na Feira de Maio, com curvas, rectas, circunferências em espiral e unicórnios e o nome da terrinha em luzes brilhantes de tom amarelado.
Entrei pela aldeia e não vi nada. Estava deserta. Deserta de festa e de pessoas. Não havia vivalma na rua. Não havia barulho. Não havia luminosidade para além do pórtico de chegada. Um vazio.
Dei uma volta por umas ruas residenciais que se transformavam em estradas industriais. A aldeia confundia-se com a zona industrial. Por vezes com pouca luz. Ou nenhuma. Tornava-se assustador.
Não se passava nada.
Estava num buraco negro.
Dei voltas e mais voltas e descobri que a aldeia era essencialmente uma estrada comprida e segui-a em frente, passei pela igreja silenciosa e, quase no fim, quando a aldeia parecia misturar-se com a escuridão e dar lugar ao pinhal, lá surgiu o clube recreativo e cultural, mais umas luzinhas coloridas, festivas e o som da festa, do baile, do concerto, a dar colorido ao cheiro a bifanas, frango assado e à filhós que acompanhava o café da avó.
Quando cheguei já Zé Café & Guida estavam em cima do palco. Cantavam um dos seus hits que falava de amor, desamor, lágrimas e alegria. O Zé Café agarrado ao órgão eléctrico. A Guida de microfone na mão, às vezes no suporte, ia carregando o dedo no iPad que estava espetado no aparelhómetro do órgão.
Meia dúzia de pares dançava em frente à boca do palco. Ele com ela e ela com ela. Mães e filhas. Irmãs. Não havia muito mais a dar pezinhos de dança. O resto das gentes estava espalhado pelas barracas de repasto, sentados em cadeiras de plástico a comer e a beber.
No fim da música a Guida chamou ao palco a Leonor, a filha pequenina, aí dos seus dez anos, que foi interpretar uma música chamada Mariana e mais tarde uma outra da qual esqueci o nome, mas que era cantada em português do Brasil com um belo sotaque carioca.
Três músicas mais à frente e o baile foi interrompido por dois tipos que apareceram a dar murros um ao outro. Chegaram outras pessoas a tentar separá-los, e alguns acabaram também por se engalfinhar. Havia sangue a voar. A Guida parou de cantar e agarrou na filha ao colo. O Zé Café continuou a tocar um muzak para ver se entretinha a besta do apocalipse. Ouvia-se gritos. Palavras feias. Cheguei-me para um lado. Afastei-me da confusão. Histórias de gajas. Gajas com gajos. Traições, ou nem isso. Simplesmente ciúmes. Há gajos assim. Ciumentos. E gajas também assim, namoradeiras.
O Zé Café parou a música. A confusão agora era total. Homens, mulheres e crianças estavam no meio da barafunda. Alguns dos homens batiam-se a sério. Vi uma navalha. Vi sangue. Vi um nariz partido. Vi uns dentes a rasgar uma orelha. Só não vi a polícia.
Saí dali. Entrei no carro e voltei à Nacional. Pensei em ir ao Bigodes comer uma sopa, mas achei que precisava era de ir para casa, fumar um cigarro e dormir. Amanhã havia outra festa. E eu comecei a tomar-lhe o gosto.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/14]