Dói-me a Mão!…

Bato com a cabeça nas paredes. É figurado. Mas estou assim. Estou com a neura. Circulo por casa. Vou de uma divisão a outra. Saio à rua. Dou a volta à casa. Volto a entrar. Sinto-me eléctrico. Enervado. Com a neura. Apetece-me gritar mas não grito. Não há ninguém para ouvir o grito. Estou saturado.
Não consigo estar sentado. Não consigo estar em pé. Caminho. Circulo nas pequenas áreas da casa. Às vezes vou ao quintal. Sim, sou um privilegiado. Tenho quintal. Mas não tenho mais nada. Não tenho trabalho. Não tenho dinheiro. Não tenho companhia. O telefone não toca. O Gmail não traz correio. O correio só traz contas com os prazos de pagamento ultrapassados.
Estou a fumar um cigarro quando dou por mim a pensar no que é que vai acontecer depois? Depois, quando disserem que já podemos retomar a vida normal. Qual vida normal? Há quem não tenha perdido o emprego. Há quem não tenha perdido salário. E os outros? Os que perderam as pequenas empresas? Os que perderam o trabalho? Os que perderam o salário? Os que já não têm direito a subsídios? E os que nunca tiveram? E as rendas de casa que ficaram por pagar? E todas as outras contas atrasadas? A luz. A água. A internet. O telefone não que já foi cortado há muito tempo. Como é que se pode recomeçar a viver se recomeçamos a vida em negativos? Como é que se faz? Onde é que vou arranjar trabalho? Quem é que tem trabalho para mim? Quem é que ainda tem condições para oferecer trabalho a alguém? E os salários? Com tanta gente atrás de um trabalho, os salários virão por aí a descer. Ainda teremos de pagar para trabalhar. E depois o Brasil! Três mil mortos por dia e um presidente que faz churrasquinho e sobre os mortos diz E daí? E a América? Parece que quase todos os dias há alguém a matar alguém. Já não bastava o vírus, as armas não se calam. Sempre aos berros, a derramar sangue por todo o lado.
Oh, foda-se! e desfiro dois murros com a mão esquerda na porta da cozinha que está aqui à mão, e agora sim, agora foi literal, dei mesmo dois murros na porta, fiz um buraco na madeira da porta, fiz sangue nas nozes dos dedos da mão esquerda e acho que parti um dedo. Porque é que não tenho um pouco de calma? Oh, caralho! como é que posso ter calma quando vejo tudo isto aqui à minha volta a desmoronar e os outros que só pensam em Marte? Vão para o caralho com Marte a Lua o Elon Musk a uberização da vida e a vida a empacotar merdas para a Amazon.
Dói-me a mão!
Abano a cabeça. Abano a cabeça para não chorar. Não quero voltar ao normal. O normal estava errado. O normal estava errado, caralho! O normal trouxe-nos aqui. Aqui, onde estamos agora todos desequilibrados. Uns vivem, outros sobrevivem, uma parte morre. Vão começar os suicídios. Gente que já não vai suportar perder o emprego a casa o carro a família os amigos a vida. Há quem vá olhar com nojo para esta gente e isso ainda há-de doer mais, o desprezo e a incompreensão dos outros. Os fortes. Nós somos os fracos. Os que perderam, que perdem, que irão perder tudo. Os que não vão ter capacidade. Os que se vão resignar. Os que baixam os ombros e viram as costas.
Dói-me a mão!
Saio de casa. Entro no carro. Ainda tenho combustível. Não tenho usado o carro. Tenho estado por casa. Trabalhado em casa enquanto tive trabalho. Vivido em casa. Tenho o depósito cheio. Saio de casa, entro na estrada e vou por aí fora. Vou até à montanhas. Passo por pinhais. Campos de eucaliptos. Cabrões dos eucaliptos. Macieiras em flor. Dou por mim em Porto de Mós. Porque raio estou em Porto de Mós? Quero ir às montanhas. Às serras de Aires e dos Candeeiros. Porto de Mós é uma cidade limpa, organizada, bem composta. Mas é feia. Porto de Mós está bem cuidada mas não se livra da sua fealdade. Que porra de terra mais desgraçada! Um castelo de brincar num cabeço e pouco mais. Uma cidade vazia. Vazia e feia.
Subo às montanhas. Circulo depressa. Vou em alta velocidade. Não me cruzo com nenhum outro carro. Sinto as bermas baixas, os penhascos. Subo. Subo. Subo. Subo até lá cima. E quando chego, páro o carro e saio. Respiro fundo. Fumo um cigarro. Sinto-me cansado. Não sei onde enfiar o fumo do cigarro. Tenho os pulmões cheios. Cheios de bronquite. Apago o cigarro no chão. Ainda tenho tempo para pensar que Porto de Mós é feio mas a vista daqui, do alto das montanhas, é lindíssima. E por segundos penso que é por coisas assim que vale a pena continuar vivo. Por estas pequenas maravilhas da natureza. Acho que vejo o Atlântico, daqui. As ondas do Atlântico. Se não vejo, parece.
Entro no carro e começo a descer. Desço. Desço. Desço. Venho lançado que, para baixo, todos os santos ajudam. Fujo de Porto de Mós. Cruzo a Nacional para o outro lado. Percebo que, ao contrário da cidade de Porto de Mós, o resto do concelho está miserável. As estradas rebentadas. Há muitos camiões a circular por aqui. As estradas estão cheias de remendos. Parecem uma manta que a minha avô fez para mim, com restos de vários tecidos de várias roupas aproveitadas até ao fim.
Dói-me a mão!
Descubro-me a acelerar pelas estradas estreitas do concelho. Estradas esburacadas, cheias de remendos que também já saltam à passagem do carro. Sinto a gravilha a voar e a bater no chassis.
Há uma curva à direita, sinto o carro a fugir para a esquerda, vou demasiado depressa. Demasiado depressa para travar. Demasiado depressa para reduzir. Demasiado depressa para puxar mais o volante. Demasiado depressa, pronto. Dói-me a mão. Estou irritado. Estou com a neura. Acho que estamos com as vidas fodidas. E é então que o vejo. O camião. O camião com carga que vem em sentido contrário, a acelerar como eu e na faixa para onde eu fugi. E digo Foda-se!…

[escrito directamente no facebook em 2021/03/23]

Glicínias

As glicínias rebentaram em flor e espalharam-se pela parede ao lado da casota do cão. Já há algum tempo que começou aquela explosão de violeta, roxo, lilás, mas foi só hoje, agora, precisamente agora, que me entraram pelos olhos dentro, percepcionei a sua gloriosa beleza e lavaram-me a alma.
Estava a deprimir. Tinha estado a ler uns textos sobre o Brasil, o presidente do Brasil, a quantidade de mortes que estavam a deitar abaixo o Sistema Único de Saúde brasileiro, e os problemas jurídicos que se acumulam sobre os filhos um, dois, três e agora também o quarto, do presidente do Brasil e sobre o facto de começar a ser gritado, à boca-cheia, por todo o lado, por toda a gente, que o presidente Jair Bolsonaro é genocida, eu perguntava-me Que raio se passa contigo, Brasil? quando, às voltas pelo quintal para aproveitar este belo sol primaveril, embora esteja frio, de cigarro na mão a pensar no inferno em que está tornado aquele imenso país, do qual se cantava não existir pecado ao sul do equador, outros tempos outras percepções, soube entretanto da quantidade de gente a ser processada pelo presidente, processada utilizando os recursos do país, o Ministério da Justiça, a Procuradoria, as polícias federais e estaduais, quando passei pela casota do cão e, ao lado, no muro do quintal, o mesmo muro que passa por trás da casota do cão, tombados por uma rede que se estende por alguns metros ao longo do muro, como um tapete, um mural de glicínias em profunda comunhão de cor, em todas as suas variantes e semelhanças, os cachos tombados, que me esqueci do que me estava a deprimir e me hipnotizou, fascinado fiquei ali parado por momentos, no meio do quintal, quase nas traseiras da casa, ao pé da casota do cão, o cão não estava lá, raramente está lá, passa a maior parte do tempo no alpendre à minha espera, ou a dormir, enrolado sobre si próprio, encostado a um ou a dois gatos, devem aquecer-se uns aos outros, isto quando não desaparece sei lá bem para onde para regressar dois dias depois, e fiquei então ali por momentos, parado, em pé, a olhar aquela beleza, e a pensar que, afinal, também eu gostava de flores mas nunca tinha pensado sobre isso.
Fiquei sem fôlego.
Fui despertado desta fuga pelo cigarro a queimar-me os dedos da mão. Abanei-a para afastar a dor e a beata voou para longe. Levei o dedo à boca e chupei o sítio queimado.
Sentei-me no chão a olhar as glicínias.
Ainda estou sentado no chão a olhar o muro com aquela manta de lianas violeta-roxo-lilás, há algumas abelhas a voarem e a pousarem nas flores. O sol bate no muro e em mim. Já não tenho frio. Sinto o calor do sol na cabeça. Fecho um pouco os olhos perante o excesso de branco brilhante que reflecte a luz do sol nos meus olhos e me cega.
Quero que o presidente do Brasil se foda! O que são os problemas do mundo perante estas pequenas belezas?

[escrito directamente no facebook em 2021/03/20]

Conhecimento Inútil

Que faço a esta acumulação de conhecimento inútil? Que faço a estes terabytes de conhecimento adquirido ao longo de todos estes anos que levo de vida? Que faço a estas necessidades que já não o são?
Estava eu assim, nesta luta de questões que me assolam os dias, irritado com o Google e esse conhecimento imediato que não precisa de o ser, basta ter um pouco de rede, de cigarro na mão, a olhar para a rua, para a rua escura de uma noite fria como costumam ser nestes dias de Fevereiro, e ainda me lembro de ver os desfiles de Carnaval, em Fevereiro, com as moças de pêlo ao léu, como as brasileiras no tropical Brasil, mas esquecendo-se que estão no pouco temperado Portugal no mês de Fevereiro, onde os dias são realmente frios, e as noites mais frias ainda, embora este ano não tenha havido Carnaval por causa da pandemia e assim não vi os corpos branquinhos a bambolearem-se ao som da batucada nacional como se fossem escolas de samba, e algumas delas são, quando me apercebi da Lua, olhei-a compenetrado e saiu-me A Lua das mentiras!
E…
E, o quê?
Que filme era este, o da Lua das Mentiras?
Foda-se!
O que é feito destes terabytes, afinal? Tanta coisa com o conhecimento inútil, tanto conhecimento adquirido e, quando preciso dele, desaparece?
Tenho o filme aqui, debaixo da língua.
E então? Como é que se chama o filme?
Isso é fácil, chama-se A Lua das Mentiras. Talvez seja Liar’s Moon no original, não sei. Mas acho que é.
Ok, boa! Já sei que é provavelmente um filme americano. Ou inglês? Não, é americano. E mais?
Hum…
É com o Matt Dillon. Estou a vê-lo. Ainda puto. Muito novinho. Ainda não tinha feito Os Marginais nem a Juventude Inquieta. Mas já tinha feito O Meu Guarda-Costas, não? Sim, talvez. Princípio dos anos oitenta, portanto. Ainda não tinha dezoito anos.
Porque é que chamo Juventude Inquieta em vez de Rumble Fish?
Ora, porque estou a dizer os títulos dos filmes em português.
Sim mas, os outros são traduções literais, ou quase. Quer dizer, Liar’s Moon seria mais a Lua do Mentiroso, não? Tenho a certeza que o original é Liar’s Moon?
Não sei, talvez. O título português, esse é mesmo A Lua das Mentiras. Mas Rumble Fish seria qualquer coisa como Peixe Barulhento, é certo. Pois, esquece. Rumble Fish é o Rumble Fish. O filme do Motorcicle Boy.
Mas estou a falar do quê, afinal?
Quem é o realizador d’A Lua das Mentiras? Do que é que trata o filme?
Foda-se, pá! Vi o filme quando saiu, talvez em mil novecentos e oitenta e cinco. Nunca mais o voltei a ver. Já não me recordo. Sei que quando o vi já tinha visto os filmes do Coppola. Aliás, deve ter sido distribuído à conta do sucesso d’Os Marginais, não é?
Sim, claro. Mas quem é o realizador d’A Lua das Mentiras? Vá!
Não me lembro, pá!
Vai ao Google.
O quê?
Vai ao Google.
Não. Vou pensar um pouco.
Ui.
Não, não. Acho que é uma história de amor.
Oh, todas as histórias são histórias de amor.
Sim, mas esta é mesmo. Uma história de amor ao jeito de Romeu e Julieta. Acho que ela é rica e ele é pobre. Mas ele é o Matt Dillon.
O sonho americano, portanto.
O sonho americano não existe.
Está bem. E de quem é o filme?
Hum…
Ok, fui ao Google por ti. David Fisher, diz-te alguma coisa?
Não.
Pois. Também não encontrei nada. Dois filmes e o desaparecimento. Olha, descobri que o director de fotografia do filme foi a mãe do Patrick Swayze, que acabaria por entrar n’Os Marginais.
Vês? Já não te vais esquecer disso.
Não tenho tanta certeza assim.
Mas afinal esta conversa toda para quê? Por causa de um realizador obscuro de um filme para adolescentes?
Bom, sempre era um filme com o Matt Dillan. Lembras-me que também fez um filme com o Lars von Trier, não?
Claro que sim.
E então? O conhecimento ainda é inútil?
Claro que não. É uma boa maneira de me manter em diálogo.
Pois. Comigo, não é?
Sim, comigo. E estás a ver, quando vejo esta Lua lembro-me logo d’A Lua das Mentiras. Tenho memória. E história. Tenho um passado e bagagem.
Depois acabou-se o cigarro. Aliás, o cigarro já tinha acabado há bastante tempo. Passei horas nisto. A conversar comigo. E, na verdade, sentia-me bem com esta conversa. Consegui lembrar-me de algumas coisas. Algumas coisas que sabia já há muitos anos.
Sim, é verdade. Mas também fui ao Google.
Sim mas, não é para isso que ele existe? Para dar uma ajuda ao conhecimento que já se tem?

[escrito directamente no facebook em 2021/02/22]

João Alberto Silveira Freitas

Eram dois gajos, talvez três. Também havia uma mulher. A mulher estava de farda e tinha qualquer coisa na mão. Um walkie-talkie ou um telemóvel. Os dois gajos, talvez três, estavam a bater num outro. O outro era preto. Os outros dois gajos, ou três, não sei o que eram, nem é relevante. Relevante é que o outro, o que estava a levar os murros, era preto.
Ouvia-se um som seco, o som dos murros, das mãos fechadas sobre si, a nozes dos dedos salientes, agressivas, a baterem na carne. Era um som quase pornográfico. Depois ouvia-se os gemidos do homem. Os gemidos de dor do homem sublinhavam os sons secos que lhe golpeavam o corpo. Como se fosse um pedaço de carne pendurado num matadouro; como se fosse um saco de batatas; como se fosse nada.
O chão amarelo, de um amarelo vómito, estava salpicado de sangue. Mas não eram pinguinhos. Eram manchas. Manchas grossas de sangue. O sangue do homem preto que se arrastava pelo chão, que se encolhia, enquanto as mãos fechadas lhe tolhiam o corpo, agressivas, esfomeadas.
Não havia música, não havia banda-sonora, não havia ambiente orquestral para nos condicionar as emoções. Não. Ali era tudo real. Seco e real. Cru.
O homem chamava-se João Alberto Silveira Freitas, era preto e, no fim da tareia dada por aqueles dois gajos, talvez três, morreu. Morreu de pancada. Era preto e morreu à pancada por dois ou três gajos falhos de humanidade.
Horas mais tarde houve manifestações. Horas mais tarde, algumas pessoas, indignadas com o acontecimento, foram manifestar-se em frente ao Carrefour de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, no Brasil, onde tinha acontecido aquele acto desumano, e alguns dos indignados partiram uma montra do Carrefour. E logo soltaram-se as vozes indignadas contra a violência dos manifestantes. Não contra a violência que sofrera João Alberto Silveira Freitas, mas a violência que levara a quebrar uma montra do Carrefour. O povo pode manifestar-se, mas não pode recorrer à barbárie. Não contra o património. A carteira de um homem é sagrada. O dinheiro de um homem é sagrado. O capital é Deus.
O homem não era só um homem, não era só um número nas estatísticas obscenas dos assassinatos no Brasil. O homem tinha nome, chamava-se João Alberto Silveira Freitas, era preto, e não sei mais nada sobre ele. E não preciso saber mais nada sobre ele para lhe chorar a morte. Não importa o que ele era ou o que tenha feito. Foi morto ao murro por dois gajos, talvez três, que se acharam no direito de serem Deus. Mas não, não eram. Não são. São só uns bardamerdas, falhos de cérebro e humanidade e empatia pelo próximo.

[escrito directamente no facebook em 2020/11/22]

O Observador

Sou um observador. É o meu estado. Ser um observador. Não sou, na maior parte dos casos, participante. Só observo. Observo para tentar relatar. Para memória futura. Sou demasiado ninguém para ser um construtor, para ser um fazedor. Sou demasiado fraco para reconstruir. Demasiado cobarde para contrariar. O mais que eu consigo fazer é ajudar a criar um caminho quando esse caminho é pedido às multidões e eu sou um entre milhões. Ninguém dá por mim nem pela minha fraqueza. Sou só mais um. No resto do tempo, observo. Observo e relato.
Sento-me no meu alpendre, com as belas serras d’Aire e dos Candeeiros à minha frente, lá ao fundo, com um copo de tinto alentejano, um qualquer, não sou esquisito nem tenho carteira para ser esquisito, numa mão e um cigarro aceso na outra. E olho o mundo. Observo-o.
Observo, com bastante agrado, o plebiscito no Chile e o resultado que daí vem. Sim, sou um observador mas também tenho as minhas vontades e preferências e gosto que o Homem seja Homem e não um carrasco. Gosto de ver os chilenos a agarrarem o seu futuro e o futuro do seu país pelos cornos. Voltarem atrás. Desliberalizarem-se daquele capitalismo absurdo e obsceno.
Observo, com alguma ansiedade, a Europa a tentar sobreviver a um forte ataque da pandemia de coronavírus. Há uma parte da Europa a tentar sobreviver enquanto outra não quer deixar de viver. Ali pelo meio deveria haver um encontro de vontades, mas a Europa são muitas Europas e as contas tornam-se difíceis de fazer.
Observo, com muita tristeza, o desinteresse das elites políticas e económicas do Brasil e dos Estados Unidos pela carnificina que acontece nestes dois países-continentes. E daí? diz o presidente Jair Bolsonaro, do Brasil, quando inquirido sobre os milhares de mortos pelo Covid-19.
Observo as mulheres polacas a manifestarem-se contra o retrocesso civilizacional em que as querem enjaular. Observo as novas restrições à interrupção voluntária da gravidez que querem implementar no pais.
Observo que há uma parte desta Europa, com passado e do futuro, que está no limbo.
Observo as trevas que se abatem sobre uma grande parte do Médio Oriente, sobre Hong Kong, sobre uma parte da Ásia e outra de África.
Observo com medo o conservadorismo fanático religioso das grandes religiões monoteístas, ou de quem se serve das grandes religiões para implementar as suas agendas como se fossem as agendas de Deus.
Observo a morte e a fome nas zonas de conflito. Síria. Arménia. Venezuela. Norte de Moçambique.
Observo a intolerância que cresce pelo mundo, onde uma palavra, um desenho, se torna mais relevante e perigoso que uma acção.
Observo que estamos num caminho tão tecnológico e de tão grandes descobertas científicas, e não deixámos de estar à beira da barbárie.
Por vezes tenho a sensação que não há uma evolução constante, mas uma evolução aos bochechos, porque, de vez em quando, descobrimos que a Terra é plana, as vacinas provocam o autismo, as vacinas introduzem nano-robots no nosso corpo, os chemtrails são para nos mantermos mansos e o George Soros é que está por detrás de tudo o que acontece, ou não acontece mas podia ter acontecido, de mal no mundo.
Bebo o meu copo de vinho. Fumo o meu cigarro. Vou buscar mais uma garrafa. Mais um maço. O dia ainda vai no seu início e a noite promete e há sempre o que observar. O mundo não pára e a História também não. E alguém terá de a contar. Alguém que não participa mas que tem a vista aguçada e está a apreciar tudo de longe. À distância que garante a razão.

[escrito directamente no facebook em 2020/10/29]

Cinquenta

Foi rapidamente que cheguei aos cinquenta anos. Depois de chegar aos cinquenta anos, deixei de contar a idade. Depois dos cinquenta anos sinto que já estou para lá do que seria espectável. Não que já tenha feito tudo o que queria fazer ou que já tenha atingido os objectivos marcados para a minha vida mas, simplesmente, porque é uma idade em que isso deixou de me interessar. Estou vivo. Vou vivendo. Ok.
Há uns anos, lá em cima, no cimo das cataratas do Iguazú, ali na confluência do Brasil, Argentina e Paraguai, ao ver cair no vazio aquela enorme massa de água, e o poder que de lá emanava, lembro-me de ter pensado Agora já posso morrer! Quando vivemos e vemos coisas assim, coisas intensas, parece que se liberta de nós um peso e percebemos que já chegámos onde queríamos chegar ou onde a vida nos poderia levar. Claro que, logo que saí de lá, logo que se quebrou aquela magia poderosa da força da água a cair e o som trovejante que arrasta consigo, percebi que ainda tinha outras coisas mais para ver e sentir antes de poder dizer Agora já posso morrer! Mas já lá vão muitos anos depois disso. Entretanto, já cheguei aos cinquenta anos, já passei dos cinquenta anos, já deixei para trás os cinquenta anos, por vezes já me sinto cansado, muito cansado, demasiado cansado, já vi muito e já vivi muito e não preciso dizer Agora já posso morrer! porque sei que essa é a condição a que estou a chegar, mais dia menos dia.
Passei dos cinquenta anos. Não vi nenhuma luz. Não atingi o nirvana. Simplesmente deixei de me preocupar. Pelo menos, comigo.
Telefonei à minha mãe. Atendeu e disse Agora não posso falar, e desligou. Achei estranho. A minha mãe adora falar. Mesmo ao telemóvel. Esperei que me ligasse. Não ligou. À noite, refiz a chamada. Atendeu. Já tinha jantado. Estava à janela a ver quem passava. E eu perguntei Porque é que não podias falar? e, do outro lado, o silêncio. O silêncio de uma criança apanhada com a boca na botija. Apanhada em flagrante e sem saber como fugir. E o melhor ataque é a defesa. E, finalmente, diz Olha, queres mesmo saber? Estava no Pingo Doce e havia lá gente e não queria estar a falar alto ao telemóvel para toda a gente ouvir a minha conversa e eu precisava de uns morangos e fui lá à procura deles e levei a máscara e não toquei em mais nada juro! juro por Deus! e também não havia morangos e vi-me embora pronto! Ela sabe que não devia ir ao Pingo Doce sozinha.
E fiquei eu em silêncio.
Já cheguei aos cinquenta anos, estou na ladeira da minha vida e a minha preocupação é com uma criança de quase noventa anos que se faz rebelde e arma a revolução.
Acabei a rir. O que é que adianta? Ficar zangado? Triste? Já passei dos cinquenta anos. Acho que temos de viver o resto dos nossos dias como se fôssemos morrer já amanhã. Porque amanhã pode mesmo já ser tarde. E o resto são só estórias que levamos connosco para o túmulo para nos fazer companhia na eternidade. E consta que, por lá, não há vinho nem cerveja nem cigarros nem música nem dança nem sexo, só mesmo a porra de uma eternidade sem sabor.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/26]

A Barbárie

Acabei de vomitar. Ainda tenho a cara enfiada no vómito. Cheira mal. Cheira a azedo. Preciso de me levantar. Preciso de forças para me levantar. Tenho de me levantar.
Estava a ver as notícias do dia no computador quando me saltou um vídeo da última live de Jair Bolsonaro, o presidente do Brasil. Nessa live, o Messias incentivava os seus apoiantes a pegarem nos seus telemóveis e irem até aos hospitais das suas zonas para gravarem imagens das urgências, dos quartos, dos corredores, para ver se os hospitais estavam com as camas ocupadas ou não, se reinava o caos por causa do Covid-19, ou não.
Parei. Fiquei de boca aberta. Aparvalhado.
Puxei o vídeo atrás e ouvi de novo.
“…tem hospital de campanha ao pé de você, tem hospital público, né?… Arranja uma maneira de entrar e filmar. Muita gente está fazendo isso. Mais gente tem de fazer para mostrar se os leitos estão ocupados, ou não, tá? Se os gastos são compatíveis… ou não, tá? Isso nos ajuda. Tudo o que chega para mim, nas redes sociais, a gente faz um filtro, e encaminha p’rá…”
Foda-se!
Aquilo era o presidente do Brasil.
O presidente do Brasil numa live nas redes sociais a apelar às pessoas, às pessoas comuns, para se infiltrarem nos hospitais de campanha, nos hospitais públicos das cidades brasileiras, onde médicos e enfermeiros e auxiliares e outras pessoas lutam contra a morte, muitas vezes em condições muito precárias, muitas vezes com salários miseráveis, durante inúmeras horas, exaustos, a combater o desconhecido, por sítios por onde andam doenças, bactérias, vírus, para registar imagens e denunciarem situações que não fossem as mais correctas. E isto sob que olhar?
Era o presidente do Brasil.
Um sujeito eleito pela população. Eleito pelo voto popular. Eleito em eleições livres pelo povo brasileiro.
Respiro. Tento respirar.
Sublinho.
Era o presidente do Brasil.
Um sujeito eleito pela população. Eleito pelo voto popular. Eleito em eleições livres pelo povo brasileiro.
Não há muito tempo, revi Nuit et Brouillard do Alain Resnais. Um pequeno e angustiante documentário sobre Auschwitz-Birkenau, o campo de concentração onde foram mortos milhões de judeus. Onde, sobre a porta de entrada, à laia de boas-vindas, está escrito O Trabalho Liberta.
A preservação do campo de concentração como museu e memória-viva da barbárie, assim como o filme de Alain Resnais, servem, ou deveriam servir, como alertas para que a barbárie não se repetisse. Para que reconhecêssemos o mal. Para que não o deixássemos medrar.
Mas aqui estamos nós, de novo, à beira da barbárie.
O presidente do Brasil, o presidente que diz, de si próprio A minha especialidade é matar! a apelar ao ódio, à intriga, a deixar morrer milhares de brasileiros ao mesmo tempo que os coloca em confronto, uns com os outros, uns contra os outros. Dividir para reinar.
Levantei-me da cadeira. Fui ao congelador. Agarrei na garrafa de vodka e levei o gargalo à boca. E só parei no fim. Quando já não havia mais nada na garrafa para beber. Queria desaparecer deste mundo.
Pousei a garrafa e senti o mundo a fugir de mim. De repente, estava a dançar uma valsa. Corri, ao trambolhões, até à casa-de-banho. Enfiei a cabeça na retrete e vomitei. Vomitei. Vomitei.
Levantei-me. Lavei a cara. A boca. Bochechei. Arrastei-me para a cama e deixei-me cair lá em cima.
Fiquei novamente com vontade de vomitar e foi o que fiz. Vomitei. Vomitei de novo. Mas não me consegui levantar.
Não me consigo levantar.
Preciso de me levantar. Preciso de respirar. Respirar. Preciso de fugir da barbárie.

[escrito directamente no facebook em 2020/06/12]

Na Twilight Zone

Estava em choque. Acho que estava em choque. Ou então ainda eram resquícios dos cogumelos que comi no Freedom há mais de dez anos. A alternativa era eu ser um episódio perdido da Twilight Zone e isso não me parecia muito verosímil. Por mais que a minha vida seja estranha. Por mais que eu seja um sujeito bizarro. Até porque acho que, mesmo assim, ainda sou uma pessoa e não um episódio de um programa de televisão. Se bem que, o facto de o ter dito não me deixa muito descansado.
A verdade é que estava mesmo em choque.
A televisão não dava nada, como é costume. Uns ecos perdidos no meio da cacofonia, mas uns ecos requentados, já velhos e ultrapassados pelos desenvolvimentos mais recentes. Desenvolvimentos constantes e nada compatíveis com um serviço noticioso à hora certa. Estava tudo a acontecer em directo nas redes sociais. A revolução não será televisionada, como já tinha profetizado Gil Scott-Heron, mas será transmitida ao vivo através do Facebook e do Instagram.
Várias cidades americanas estavam a ferro-e-fogo. Manifestações de rua, algumas bem violentas, desde há uma semana, desde a morte de George Floyd. A América, Terra dos Bravos e dos Homens Livres, a tal Terra do Sonho, estava a viver um pesadelo que nos habituámos a ver noutras latitudes. O presidente americano chegou a ser escoltado pelos serviços secretos para um bunker debaixo da Casa Branca. Mais tarde, e depois de balas de borracha e gás lacrimogéneo, o presidente americano foi correr até uma igreja que fora vandalizada para, de bíblia na mão, incendiar ainda mais os ânimos das pessoas revoltadas. O bispo Michael Curry veio protestar contra essa imagem de Donald Trump de bíblia na mão. A mayor de Chicago chegou a mandar Trump foder-se.
Wow.
No Brasil as coisas não estavam melhor. A trupe de Bolsonaro começou por aplaudir uma investigação a um ex-companheiro de luta do presidente brasileiro, entretanto caído em desgraça, para logo depois ficarem furiosos, e muito irritados, ao ponto de ameaçarem, junto com a sua família, o ministro do STF responsável pelas investigações ao grupo de ódio ligado à cúpula bolsonarista, ao jeito dos gangsters como James Cagney. Ao mesmo tempo, os Anonymous, um grupo de hackers, que depois vieram dizer que afinal não eram eles, garantiam estar em posse de documentos comprometedores para Jair Bolsonaro e os filhos 01, 02 e 03, Inflávio, Carluxo e Bananinha. Numa bravata que metia Terra Plana, Marielle, pé de goiaba, copos de leite e Deus em cima de todos eles.
Ufa.
Entretanto, em Portugal, o aprendiz dos outros dois garantia que quando chegasse ao poder, ofender polícias, magistrados e guardas prisionais (estranhamente não disse nada sobre guardas alfandegários, nem dos serviços de estrangeiros e fronteiras) irá dar prisão e que, a rede social Twitter, irá deixar de ser uma bandalheira.
Fiquei parvo. Em choque. A droga anda marada.
Peguei num copo de vinho. Acendi um charro. Sentei-me no alpendre a olhar as montanhas lá ao fundo e comecei Om!… Om!…

Ai, esta terra ainda vai cumprir seu ideal
Ainda vai tornar-se um imenso Portugal

[escrito directamente no facebook em 2020/06/02]

Para um Diário da Quarentena (Sexto Andamento)

Estou a contabilizar treze dias de reclusão. Na verdade estou aqui em casa como tenho estado ao longo dos últimos anos, saio para me abastecer, cuidar da minha mãe e pouco mais. A diferença é que se ia pouco a sítios de convívio, agora deixei mesmo de ir.
Não estou em quarentena, mas estou em reclusão. Uma falsa reclusão já que tenho saído de casa. Todos os dias desço a pequena alameda e vou até à estrada. Mas até os carros deixaram de passar aqui em frente. Sinto-me só, principalmente porque a minha vizinhança sonora agora é o silêncio. O silêncio e os grilos que me prometem um Verão quente, um Verão, por ventura, também recluso em casa.
Ainda se ouvem, ao longo do dia, os sinos da igreja. Talvez sejam as horas. Não sei se será mais alguma coisa. Talvez para avisar os fiéis que a missa da hora está a passar em directo na internet? Ou que está gravada para poder ser degustada como os fiéis preferirem às horas que preferirem?
Agora que me dizem para estar por casa tenho mais dificuldade em estar por cá. Quer dizer, estar, estou, mas apetecia-me não estar. É o meu desejo de ser do contra. A porra de um feitio que me leva ao não por defeito. Não vou. Não quero. Não sei. Não gosto. Foda-se!
Estou há treze dia em casa, com todas estas minhas saídas por necessidade lá pelo meio, mas ao final do dia de hoje, e depois de ter ficado toda a manhã na cama a prometer levantar-me Daqui a cinco minutos! até terem passado quatro horas e depois de ter andado toda a tarde a engonhar entre a sala e a cozinha, a ida ao alpendre para fumar um cigarro, o regresso ao quarto para arrumar alguma coisa que tenha ficado por arrumar que ando a fazer isto às mijinhas, talvez para não me cansar, talvez para ter uma desculpa para lá voltar, talvez mesmo só para me obrigar a fazer coisas ao longo do dia e não ficar com aquela sensação com que fico, afinal de contas passou-se um dia novo e inteirinho e eu acabei por não fazer a ponta de um corno.
São tempos excepcionais!, digo-me como desculpa para não ter feito o que devia ter feito, que estou em casa mas tenho coisas para fazer, coisas tão importantes como lavar as mãos e os dentes e acabo sempre por esquecer, não querer fazer, estar-me a marimbar para estes rituais que deveriam ajudar-me a manter um certo equilíbrio emocional mas acho que já estou todo quebrado e não há volta a dar.
Estou há treze dias por aqui, mas com a sensação de fim dos tempos e, ao final do dia, de um dia geralmente de merda, como o dia de hoje, sento-me no sofá com um copo de vinho tinto, e descubro num jornal online, que os espanhóis apresentaram um estudo que revelava que tão importante como lavar as mãos e usar álcool-gel e a distância social é o copo de vinho, ligo a televisão e ponho-me a par das últimas notícias e, normalmente, acabo por ficar maldisposto.
Estou, portanto, há treze dias assim, mais ou menos por casa, mais preocupado que normalmente e sento-me no sofá com um copo de vinho numa mão, acendo um cigarro e ligo a televisão.
Hora das notícias.
Há coisas que já sei. Sei de véspera e que fui ouvindo ao longo do dia.
Sei que o presidente brasileiro é um merdas evangélico que acha que, esta crise que pode dizimar milhões nas favelas das principais cidades, não será mais que uma gripezinha para um atleta como ele. E fui ver ao Youtube como ele é atleta. Ri-me cheio de vontade. Com esperança que o vírus acertasse no caminho.
Também sei que o presidente americano, religioso-fanático como é está preocupado com a Páscoa e o facto das pessoas não irem à missa e, acima de tudo, não gastarem dinheiro. Da família de presidentes e primeiros-ministros imbecis, o presidente norte-americano acha que a América é forte o suficiente para dar cabo do vírus chinês em duas semanas. Foi o que ele disse.
Ouvi também que o governador do Texas garante que os velhos texanos não se importarão de dar a vida pela economia do país. Nada como o templo capitalista para se apelar à fé no santo Dólar.
Sobre Itália e Espanha, já perdi a noção dos números. Estão sempre a serem actualizados e já estão para lá da minha compreensão. Isto numa altura em que a Organização Mundial de Saúde avisa que o epicentro da crise pode mudar para os EUA num prazo de duas semanas. E ainda continuo a ouvir gente afirmar que a gripe normal mata mais, muito mais. Cansado de pessoas sem formação lançarem-se à sabedoria adquirida na universidade da vida.
Por cá vamos bem lançados para entrar nos números da Europa. Ao menos que sejamos Europa nisto, já que não somos em quase nada ou, pronto está bem, não quero ser muito mau nem mal-agradecido, em pouca coisa, então que sejamos Europa nisto, mesmo que as verbas da Europa não cheguem cá como chegaram as dos anos oitenta que enriqueceu muita gente mas acabou por não afinar o país nem os seus empresários.
Vim aqui para registar o meus diários dos dias difíceis e acabei a falar do que me tem atormentado durante estes dias. Ainda por cima não é por mim que me atormento, mas pelas pessoas de quem gosto e que gostaria de não ver nestas situações de perigo.
A UEFA adiou o Europeu de Futebol. O COI adiou os Jogos Olímpicos. O Festival da Eurovisão foi cancelado. O Festival de Cannes foi adiado. Os festivais de Verão não sei o que vai ser deles. As pessoas, principalmente as mais velhas, vão continuar a morrer. Outras vão continuar a sair em grupo porque são imunes. Há muita gente que vai ser despedida. Muitas empresas, especialmente PME, que irão à falência. As pessoas podem ficar sem dinheiro para as despesas correntes. Renda da casa. Luz. Água. Gás. A fome vai chegar. As outras doenças estão a perder prioridade e podem levar outras pessoas também à morte por outros caminhos. O Estado avança com linhas de crédito através dos bancos, os únicos que não dão nada a ninguém e acabam por ganhar com a crise. As concessionárias das auto-estradas podem vir a ser indemnizadas por falta de utentes e a Padaria Portuguesa pede ajuda ao Estado para pagar mal e porcamente aos seus empregados. Acho que estou a assistir em directo ao fim do neo-liberalismo.
Estou aqui sentado há um tempo no sofá com o copo de vinho ainda intacto na mão e o cigarro inteiro transformado em cinza pronto a tombar sobre o tapete. Na televisão passam anúncios publicitários e nem percebo a quê e pergunto-me quem será o público-alvo. Estou um pouco perdido nos meus dias. Preciso de me colocar em ordem.
Amanhã vai ser um dia mais organizado.
Amanhã vai ser um dia melhor.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/25]

O Conformista

Levanto-me tarde. Levanto-me tarde porque não tenho porque me levantar cedo. E levanto-me tarde porque já não conseguia mais estar na cama. Se não, continuava em directa até amanhã de manhã, hora de me levantar, aí sim, para cumprir prazos, obrigações e promessas. Hoje não. Hoje levanto-me porque estou farto de estar deitado.
Visto qualquer coisa que está ali à mão. Ali, caído sobre a pequena poltrona que tenho no quarto e onde nunca me sentei. Umas calças de fato-de-treino, umas meias, um t-shirt. Vou até à cozinha. Fico ali em pé, no meio da cozinha, a tentar perceber o que é que fui ali fazer. Sinto-me um pouco perdido no dia e na casa. Parte de mim continuou na cama. Não sei que dia é. Coço a cabeça. Penso que tenho de voltar a comprar champô para a caspa. Talvez Linic. Como o Ronaldo. O CR7. Coço o rabo e percebo que estou sem cuecas.
Chego-me à janela. A luz está baixa. Mas não deve ser muito tarde. Ligo a televisão da cozinha. Jorge Jesus e a equipa do Flamengo está em todo o lado. Em todos os canais. Até parece que é o Benfica. Que me importa a mim o Flamengo? O Jorge Jesus, fico contente por ele. Acho que ele nunca ficou contente por mim. Eu também nunca fiz nada merecedor de tal honraria. A minha vida é miserável. Não tenho história. Onde está a minha Taça dos Libertadores?
Faço café. Vejo que passa um pouco das duas da tarde. Costumo ver o Leste Oeste, com o Nuno Rogeiro, a esta hora na SIC Notícias. Já percebi que não vou ver. O futebol é poderoso. Come tudo o resto. Já vi o Pedro Santana Lopes abandonar um estúdio de televisão ao ter uma entrevista interrompida por causa da chegada de José Mourinho ao aeroporto da Portela. Na altura achei que o Santana Lopes tinha razão. Continuo a achar. O futebol mexe com muito dinheiro e é importante. Sim, é certo. Mas é só futebol. É só a porra do futebol. Nada mais que isso. Um jogo. E quanto mais penso nisso mais entendo que a televisão, os programas de televisão, as ideias transmitidas pela televisão, os programas que os programadores decidem que é o que o povo quer ver na televisão, é a grande responsável pelo nivelamento, por baixo, da exigência social e política do país. Dos países.
Enquanto espero pelo café olho para a rua. A luz baixa e cinzenta deprime-me. Vejo a cidade deprimida. A cidade está vazia. Não há ninguém na rua. As pessoas devem estar por casa. Solitárias nas suas casas. Cada um agarrado ao seu computador, ao seu tablet, ao seu smartphone. Filhos e pais de costas voltadas. Amantes desencontrados. Gente sozinha, mesmo que na companhia de corpos presentes, mas tão distantes quanto o alcance da rede.
Acendo um cigarro. Eu preciso sempre de um cigarro. Algumas amigas chateiam-me com o facto de fumar. Que me faz mal. Que é um erro social. Que é um compromisso que não devia ter. Não lhes ligo. Estou em casa. Estou sozinho em casa. Não incomodo ninguém. É estranho que sejam só raparigas a chatearem-me por causa do tabaco. Talvez porque gostem mais de mim. Talvez porque sejam mais controladoras.
Encho uma caneca com café. Sento-me na mesa da cozinha. Vou olhando para a loucura instalada no Rio de Janeiro enquanto se aguarda a volta de honra dos vencedores pela cidade. Tanta gente nas ruas. Tanta gente a aplaudir. Tanta gente a partilhar a glória da vitória. E pergunto-me onde estava esta gente quando Jair Bolsonaro ganhou as eleições daquele país-continente? Um presidente que glorifica a ditadura e a tortura da ditadura.
Desligo a televisão. Acabo de beber o café. Vou à sala procurar um livro para ler. Apetece-me ler. Cai-me nas mãos O Conformista do Alberto Moravia. Nem de propósito. É o que somos. O que queremos ser. E por momentos penso que, afinal, Alberto Moravia escrevia sobre o futuro e não sobre o presente. Andamos ainda, e sempre, a aprender.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/24]