Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Sábados Tristes

Acordava ao Sábados sem vontade de sair da cama.
Mas antes de me levantar tinha de ter o sexo semanal com ela. Mesmo que não me apetecesse. Tinha de ser rápido e intenso, como se fosse dentro do carro no antigamente. Antes da criançada se levantar e transformar a casa num inferno
Mas tinha de ir passear o cão. Levar uns sacos de plástico para apanhar os cagalhões que ia deixando pelo caminho e passeá-los pela cidade até encontrar um caixote do lixo.
Mas tinha de preparar o pequeno-almoço para os miúdos enquanto a mãe fazia a sua aula de yoga. E depois tomar o pequeno-almoço com eles, entre os seus gritos histéricos e pedaços de torrada a voarem pela cozinha.
Mas tinha de ir lavar o carro que a família gostava de se passear no Audi limpo como se tivesse acabado de sair do stand, como novo, mesmo que ainda não estivesse pago.
Mas tinha de ir à Praça comprar peixe fresco, porque ao Sábado era dia de almoçar peixe fresco. E devia ter ido mais cedo, eu sei. Àquela hora já ia aos restos, mas não conseguia levantar-me mais cedo. Estava cansado. Não queria levantar-me. Não queria sair da cama.
Mas tinha de ir fazer as brasas. Para grelhar no carvão o peixe fresco comprado tardiamente na Praça. Sardinhas. Carapaus. Peixe-Espada. Robalos. Douradas. Às vezes também grelhava carne. Umas lentriscas. Uma morcela. Mas pouco, porque ela não gostava muito de morcela.
Até um dia.
Um dia arranjei uma pistola através de um antigo colega de tropa. Uma pistola e umas balas.
E foi durante o momento em que estava a assar os pimentos. Eram verdes e vermelhos. Não gosto muito dos amarelos. Embora a cor fique bem na salada. Estava a assar uns pimentos e antes de assar as sardinhas. Peguei na pistola, rápido e, sem pensar, disparei na cabeça. E tudo se fez negro.
Não morri.
A bala entrou e saiu. Provocou umas lesões graves que me afectaram o corpo e a vida. Mas não morri.
Estou na cama. É Sábado e estou na cama. Já não tenho de me levantar. Mas queria. Queria poder levantar-me e fazer coisas que não consigo como passear o cão e comprar o jornal. Talvez assar umas sardinhas.
Estou na cama e tenho o cão deitado sobre os meus pés. Mas não o sinto. Não sinto nada. Nem as papas que ela se esforça por me enfiar na boca à espera que escorram pela goela.
Sei que ela começa a ficar farta de mim. Tenho pena das coisas terem terminado assim. Para ela e para mim.
Hoje é Sábado e estou na cama. Mas queria não estar.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/14]

Abro uma Garrafa de Mouchão para Comemorar

Primeiro chegou-me o cheiro. Um cheiro a torradas. Abriu-me o apetite. Gosto de torradas. Depois pensei que fosse o vizinho a fazer brasas. Ao Sábado costuma assar sardinhas.
Foi então que ouvi a sirene dos bombeiros.
Fui ao alpendre. Nada em frente. Desci as escadas. Virei à direita e vi. Uma coluna de fumo escuro. O céu começava a estar pintado em tons de cinza. O mato estava a arder. Pinheiros e eucaliptos. Mas também havia uns olivais. E depois, vegetação rasteira, arbustos, silvas. Havia umas casas lá para aquele lado. E se continuasse em frente, chegava cá.
Vi uns camiões dos bombeiros a passar ao fundo da estrada. Iam a apitar.
Acendi um cigarro e fiquei ali a vê-los desaparecer na curva da estrada e ouvir as sirenes extinguirem-se.
Estava um dia quente. Talvez tenha sido combustão espontânea. Talvez tenha sido fogo posto. Há gente para tudo.
Conhecia alguém que tinha um pedaço de terreno lá para aqueles lados. Resolvi telefonar-lhe. Acabei primeiro o cigarro.
Telefonei. Ninguém atendeu.
Fui buscar uma mangueira. Liguei-a a uma torneira exterior e comecei a molhar a casa. As árvores. Os arbustos. Reguei as flores.
Fiquei com calor. Fui buscar uma cerveja e fiquei a olhar para a coluna de fumo que se elevava no horizonte. E pensei O que é que posso fazer? e não sabia o que mais podia fazer.
O telemóvel tocou. Sim? atendi. Do outro lado era o telefone da pessoa que eu conhecia, mas a voz não era dela. A voz disse Sou um bombeiro e encontrei este telemóvel no meio do mato. Aqui à volta está tudo a arder.
Desliguei.
Acendi um cigarro.
Fui sentar-me no alpendre. Não era propriamente amigo da pessoa. Mas já tínhamos bebido uns copos. Já tinha os partilhado uns caracóis. Um dia encontrei-o na Nazaré e fomos ao Santo comer uns berbigões.
Percebi que fora apanhado no fogo. Percebi que a vida era isto assim. Umas vezes estávamos ali, uns com os outros, a comer, a beber, a conversar, a namorar, a foder. E depois já não estávamos. Desaparecíamos da vida uns dos outros de um momento para o outro. E a dor ficava com quem ficava. Quem ficava é que sofria. E penso que também sofri um pouco, apesar de não ser propriamente amigo dele. É uma ausência que se instala. Uma falta.
O telemóvel voltou a tocar. O mesmo número. Atendi e disse Sim? E ouvi do outro lado Sou eu. Isto ardeu tudo. E eu ia indo com o mato. Consegui fugir a tempo. Um bombeiro encontrou o meu telemóvel e disse que tinha falado contigo.
Sorri. Sorri e disse Passa por aqui. Tenho uma garrafa de Mouchão que vou abrir. Vamos despejá-la.
E percebi que, lá do outro lado, ele estava a chorar. Acho que naquele momento senti que passei a ser amigo dele.

[escrito directamente no facebook em 2019/09/07]

Em São Pedro de Moel o Sol Desperta ao Meio-Dia

Estava uma manhã típica de São Pedro de Moel. Enublado. Fresco. Mas não desagradável de todo.
Eu estava sentado à beira-mar a ver as ondas morrer na areia. As criancinhas aproveitavam a maré baixa e distante. Chapinhavam. Os mais velhos tinham de se aventurar um pouco mais para diante à procura de uma falta de pé. As senhoras mais velhas vinham refrescar-se. Baixavam-se. Mas toda a gente percebia que vinham urinar.
Atrás de mim passou o vendedor de Bolas de Berlim.
Apetecia-me uma, mas deixei passar.
E então o grito.
Alguém gritou.
Alguém gritou forte.
Estiquei a cabeça e vi gente a fugir do mar para terra.
Ao mesmo tempo, gente que se aventurava mais para dentro do mar.
Eu continuei ali sentado, na areia.
Dois nadadores-salvadores passaram por mim a correr e entraram dentro de água. Tudo confluía para um ponto. Um ponto concreto dentro do mar. Mas que avançava, lentamente, para terra. Começava a aglomerar-se gente no ponto. Gente que começava a aproximar-se da areia. De mim.
Continuei sentado. Levantei a cabeça. E vi.
Um corpo.
Era um corpo que os nadadores-salvadores traziam para a praia. Uma excursão de gente seguia-os.
Na areia, precisaram de demarcar espaço. Os veraneantes, sem nada para fazer, aglomeravam-se à volta do corpo. Era preciso afastá-los até chegar a polícia. Deixar o corpo intacto. Afastar os curiosos. Que era quase toda a gente.
Eu deixei de ver fosse o que fosse. Entre mim e o corpo morto, deitado na areia, um monte de gente curiosa e mórbida. A ver se o conheciam. Se sabiam quem era. Se alguém dizia alguma coisa. Se as televisões apareciam. Se seria manchete na CMTV.
Eu continuei sentado na areia. O mar começava a aproximar-se aos poucos. As criancinhas já não brincavam no mar. As senhoras já não faziam mais chichi. Os adolescentes já não mergulhavam. Agora todos queriam ver o cadáver estendido na areia da praia. Até o vendedor das Bolas de Berlim lá estava. A esticar o pescoço por cima da multidão a tentar ver alguma coisa.
A polícia chegou. Afastou as pessoas. A equipa forense investigou o que pode, quis e conseguiu. Depois levaram o corpo embora.
Não sei quem era.
O mar já me batia nos pés. Finalmente levantei-me. Olhei para o horizonte. O sol começava a despontar. E vinha cheio de força. Começava o calor. O calor infernal de São Pedro de Moel em Agosto. Já era meio-dia, claro. Hora de ir para casa. Tinha umas brasas para ir atear. Era dia de sardinhada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/16]

Matilde na Praia

Ela não me dava um segundo de descanso.
Eu bem tentava passar pelas brasas, de cabeça enfiada na toalha, com A Bola dobrada, e ainda por ler ali ao lado, debaixo do sol abrasador, a torrar, a trabalhar para o bronze, mas ela não me deixava em paz.
Os pés cheios de areia passeavam-se pelas minhas costas. Até que gostava. Soavam a uma massagem radical. Leve, suave, mas picante. Os pés arrastavam a areia como se fosse lixa. Unhas que se passeavam por mim. Mas unhas ou lixa fofinhas. Que produziam mais cócegas que dor.
Virei-me sobre mim e ela tombou na minha barriga. Ninguém se magoou. A barriga era grande o suficiente para lhe aparar a queda e, a mim, para me proteger do tombo.
Da barriga rebolou para a areia e caiu de cara com as pernas no ar. Quando se levantou estava com cara cheia de areia. Mulher-Areia, disse-lhe. És uma super-vilã cheia de super-poderes maléficos para me super-chateares.
Ela começou por chorar, ao sentir a boca cheia de areia e ao não conseguir abrir os olhos. Mas depois de me ouvir falar desatou a rir. Peguei nela e sacudi-lhe a areia da cara. Limpei-lhe a boca e os olhos e ela olhou para mim a sorrir.
Depois disse-lhe Vamos ao mar dar um mergulho e tirar o resto da areia, e levantei-me.
Estendi-lhe a mão e ela agarrou-me o dedo indicador. E lá fomos os dois, praia fora, a descer até ao mar.
À beira do mar agarrei-a ao colo e entrei com ela dentro de água. Fomo-nos molhando com cuidado. Mas ela era aventureira, apaixonada pelo mar, e pulava no meu colo, com vontade que a largasse. Dei um impulso para cima e deixei-me afundar com ela ao colo. Quando me levantei ela começou a tossir. Tinha engolido um bocado de água. Começou a fazer beicinho mas não chorou. Recomeçou aos pulos. Eu agarrei-a pelos braços e fui baixando-a à água e fazendo-a subir. À velocidade da luz. Acompanhando os risos e as gargalhadas que dava. Fazia-a voar sobre as ondas. Pu-la num carrossel. Brincamos um bocado por ali. Depois fiquei cansado. Ela queria mais, mas eu fiquei cansado. E saímos do mar.
Sentámo-nos à beira-mar. As ondas rebentavam à nossa frente e ainda vinham lamber-nos o rabo sentado na areia. Íamos ficando com areia nos calções. Cada vez com mais areia nos calções. Mas que importava? Estávamos os dois à beira-mar, debaixo de um belo e quente sol, a ver passar as pessoas que iam mergulhar e voltavam cheias de frio. A vida era simples. Simples e bela.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/23]