Um Cogumelo no Céu de Beirute

A minha mãe dizia que aqui (aqui onde vivíamos) Vivemos num cantinho do céu. Tudo o resto é sempre lá longe. Lá longe onde existem os acidentes. Onde existem as guerras. Onde existem as centrais nucleares que explodem. Onde existem os democratas que implodem a democracia. Onde existe a semente do diabo. É sempre lá longe. Longe da vista. Longe do coração. Longe do paraíso que é este Cantinho do céu guardado por Deus, dizia a minha mãe.
O telemóvel deu sinal. Um alerta da TSF. Notícia importante. Uma enorme explosão em Beirute, no Líbano. O que é uma enorme explosão?
Liguei a televisão da sala. Na SIC Notícias estava uma imagem em loop. A imagem da explosão. Primeiro um cogumelo branco, enorme, que depressa se desintegra, depois um cogumelo mais pequeno, escuro, e o sopro de ar que arrasta o telemóvel que gravava o acontecimento. Sou impressionável.
Acendi um cigarro. Sentei-me no sofá. Estava a tremer.
Revi. Revi tudo. Primeiro um enorme cogumelo branco que se desfez depressa, e deixou caminho a um cogumelo mais pequeno e escuro. Depois o sopro da explosão, a onda de repercussão, que fazia rodopiar o telemóvel e quem o estava a agarrar para gravar a explosão.
Que explosão era aquela? Ninguém sabia. Talvez um acidente. Talvez um ataque. Os especialistas falavam. Cristãos e muçulmanos. Judeus e muçulmanos. O Hezbollah. O Irão. Israel. A crise económica. Há sempre uma crise económica. Oh, a puta da crise económica que nunca deixou de existir desde que eu conto as moedas no bolso das calças. Mas os ricos cada vez mais ricos. É para o que servem as crises económicas. Para os ricos ficarem mais ricos. As crises são sempre uma oportunidade.
A explosão era uma grande explosão. Afinal, haviam várias explosões. Vários mortos. No meio da cidade. Depois das imagens da explosão, as imagens de Beirute depois das explosões. E, de repente, parece que estou a olhar para Aleppo. A explosão destruiu aquela zona da cidade. Destruição, mesmo. Edifícios destruídos. Carros destruídos. Estradas destruídas. Janelas rebentadas numa área de cinco quilómetros. O som ouviu-se no sul do Líbano. Ouviu-se no norte de Israel.
Acabo o cigarro e acendo outro. Encho um copo com Jameson. Sem gelo.
Chegam novas imagens da explosão. Mas o ritmo é sempre o mesmo. O cogumelo grande. O cogumelo pequeno. O sopro da deslocação de ar que parece arrastar tudo à sua frente, tudo ali à volta. Parece um ataque nuclear em miniatura. Efeitos especiais de Hollywood.
A explosão impressiona-me.
Aqui vivemos num cantinho do céu, não é?
Mas lá longe!… Oh, foda-se! Lá longe…
A noite começa a cair em Beirute. Vê-se, melhor, as sirenes dos bombeiros e da polícia. Há muita gente na rua. Gente com telemóveis na mão.
Depois aparecem as imagens da destruição. As imagens depois da explosão. Depois do cogumelo. E é devastador. À volta do porto, a destruição. Uma terraplanagem. Um sopro transformou o centro de Beirute. Mas já lá anda gente. Há sempre gente em todo o lado. As pessoas são como as baratas. Mesmo no coração da destruição não pára de aparecer gente.
Há mortos. Dez mortos, parece. Para já. Centenas de feridos. Para já.
Há terras condenadas ao horror. A viverem o Inferno na Terra.
Nós aqui, vivemos num cantinho do céu. Dizia a minha mãe.
Apago o cigarro. Despejo o copo de whiskey. Acendo outro cigarro. Despejo mais Jameson no copo.
Parece que foi um acidente num armazém de pirotecnia. Mas também pode ter sido outra coisa. Ninguém sabe. Nunca se sabe. No Líbano pode haver sempre mais qualquer coisa. Há-de haver sempre outra explicação. Afinal, estamos no médio-oriente. No Líbano. Em Beirute. Há sempre um problema. Há sempre uma explosão. Há sempre uma morte. Há sempre um Deus. Há sempre a porra de um Deus a justificar tudo. Para o bem e para o mal. É tão bom sacudir a responsabilidade dos ombros.
Entretanto há o Covid-19. Os hospitais de Beirute lotados. Para onde irá esta gente? Estes feridos?
Na televisão, os comentadores não param de falar na crise económica. Na devastação económica. Nos problemas económicos libaneses. Problemas crónicos. Não são sempre crónicos, os problemas económicos?
Uma última notícia no oráculo televisivo afirma Líbano diz que Israel nada tem a ver com explosões.
Há países nascidos para sofrer. Há gente nascida para sofrer.
Apago a beata do cigarro. Bebo o último gole de whiskey. Volto a encher o copo. Volto a acender um novo cigarro.
É noite em Beirute.
No oráculo do canal noticioso, assim como não quer a coisa, a notícia passa em rodapé Israel ataca posições no sul da Síria. Nunca nada é só aquilo que parece.

[escrito directamente no facebook em 2020/08/04]

Quarenta Graus à Sombra

Quarenta graus à sombra. Aqui onde estou. Sentado no alpendre de casa a olhar as montanhas, a única constante na minha vida.
Quarenta graus à sombra. Pelo menos é o que me informa o telemóvel, um smartphone daqueles todos chiques mas a que basta faltar a bateria para ficarem sem serventia.
Quarenta graus à sombra e eu estou de boxers sentado no alpendre. Sinto a transpiração escorrer pelas costas abaixo. Agarro no copo de gin e bebo mais um gole. Um grande gole. Não posso bebericar. Tenho de o esvaziar rápido. O gelo já quase que derreteu com o calor.
Quarenta graus à sombra. Tenho os pés descalços sobre a tijoleira. Está quente e, ao mesmo tempo, está fresco. Sinto a transpiração escorrer entre os dedos dos pés.
Acendo um cigarro. Fico admirado como consigo fumar com todo este calor. Mas é uma maneira de me tranquilizar. Quando o fumo do cigarro entra por mim dentro, sinto-me relaxar.
Ouço os gritos dos miúdos das casas vizinhas. Imagino-os nas piscinas. O pai a grelhar uns hambúrgueres. A mãe a fazer uma salada. Bebem um copo de vinho branco. Os miúdos entram e saem da piscina. Mergulham. Correm à volta da piscina. Caem. Partem a cabeça. Fazem um bocado de sangue. Mas nada que estrague o dia da família. Com um pouco de sorte e o cansaço dos miúdos, ainda poderá haver festa logo à noite.
Não aqui. Eu estou sozinho. Sozinho, cansado e cheio de calor.
Alguém toca a campainha lá em baixo, no portão lá de baixo. Não faço tenção de ir abrir. Pego nos binóculos, e vejo quem está ao portão. Duas senhoras. Duas senhoras demasiado vestidas para o calor que está. Devem ser Testemunhas de Jeová. Ao mesmo tempo admiro-lhes a persistência. Dia-após-dia em busca de fiéis. Faça frio ou calor, chova ou faça sol. Nada os pára. Nada os demove. E lá estão elas outras vez. Voltam a tocar à campainha. Lá de baixo não me conseguem ver. Vão-se embora.
Apago o cigarro.
Recosto-me na cadeira. Sinto os olhos a fecharem-se e não resisto. Este é o meu presente. Não quero fazer nada. Só estar aqui. Deixar-me embalar pelo calor que já não é reconfortante mas que me mói. Não adormeço. Fico só assim, na fronteira. A ver e a ouvir as coisas ao longe, como numa outra dimensão.
Quarenta graus à sombra e há gente que trabalha debaixo deste sol.
Desperto. Acabo o copo de gin. Penso que deveria ir fazer outro, mas não consigo levantar-me. Estou colado à cadeira. Demasiado inerte. Eu e ela somos só um. Volto a acender outro cigarro na vã esperança que o fumo seco do cigarro me faça levantar e ir fazer mais um copo de gin. Mas acho que tal não vai acontecer. Tenho muitas dificuldades para me obedecer.
A campainha do portão lá de baixo volta a tocar. Agarro outra vez nos binóculos. Agora são dois bombeiros. Trazem um caderninho nas mãos. Devem andar a vender rifas. Já só falta os organizadores da festa de Agosto virem pedir para o andor.
Anda toda a gente a pedir. Ninguém a oferecer. E depois há eu. E eu só estou.
Quarenta graus à sombra. Se eu tivesse aqui a caçadeira, podia experimentar a pontaria. Ora bolas, os bombeiros já vão embora.
Tenho a cabeça a tombar sobre o peito. Acho que é desta. Acho que é agora vou mesmo fechar os olhos e adormecer…

[escrito directamente no facebook em 2020/07/11]

A Árvore Grande

A árvore era grande. Grande não, enorme. A árvore era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E estava ali desde sempre. Durante toda a minha vida, e durante toda a minha vida a árvore esteve por lá, eu nunca tinha reparado nela. Foi preciso eu sentir-me cansado e ter-me sentado no banco de jardim para descansar e fumar um cigarro, para olhar para a árvore pela primeira vez na vida e descobrir que a árvore era grande. Grande não, enorme.
O facto de ter descoberto a árvore ao fim de mais de cinquenta anos deixou-me apreensivo sobre a forma como olhava para a cidade. Eu realmente via a cidade?
Enquanto estive ali sentado a fumar o cigarro e a olhar a árvore grande, reparei que as pessoas continuavam a ir e a vir, de um lado e de outro, sem reparar na árvore. Iam depressa. Algumas mesmo em passo de corrida. Outras só a andar depressa. Aos pares, em trio, solitárias. As solitárias iam de auscultadores nos ouvidos. Os pares e os trios iam na conversa. Conversavam umas com as outras. Ninguém olhava para a árvore. Alguém conhecia aquela árvore, ali? Alguém sabia da existência de uma árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade?
Apaguei o cigarro no chão. Olhei em volta e não vi nenhum cinzeiro. Nem nenhum caixote do lixo. Deixei a beata esmagada no chão.
Acendi outro cigarro.
Aquela árvore fazia-me lembrar um dos romances da minha adolescência. Aquela árvore remeteu-me para A um Deus Desconhecido de John Steinbeck.
Imaginei-me a cortar as raízes daquela árvore grande. O que é que aconteceria com a cidade? Com aquela cidade que também era minha? Continuaria assim tão brilhante e cheia de gente de sucesso?
Imaginei a chegada do Inverno em pleno Agosto. O tempo cinzento. As trovoadas. Os relâmpagos a riscarem o céu. As chuvas torrenciais. O frio. O granizo. Os tremores-de-terra. As culturas mortas. As fábricas sem matérias-primas. A zona histórica da cidade alagada. Os esgotos entupidos. O rio a transbordar. As pessoas a fugirem. As que pudessem. As outras a ficarem. À espera dos bombeiros que não apareciam. Da polícia que tentava, em vão, evitar os assaltos às lojas. E, então, as primeiras casas a desabarem. Os bairros mal construídos, na periferia da cidade, a desabarem. O tsunami que entraria pelas praias do litoral e galgaria terra pelo leito de rio até à cidade. Salvar-se-iam aquelas que subiriam à Nossa Senhora da Encarnação.
Deitei fora a beata do cigarro. Voltei a esmagá-la com o pé. Não havia cinzeiro nem caixote do lixo e deixei-a no chão, ao lado da outra.
Olhei para a árvore grande, tão grande e alta que era mais alta que o prédio mais alto da cidade. E disse, baixinho, Um dia escrevo-te uma carta de amor.
Depois levantei-me do banco e voltei à minha caminhada ao longo das margens do rio. Como os outros. A andar depressa e sem olhar à minha volta. Sem ver a cidade. Mas a pensar que a conhecia. E a pensar que, no fim, no fim daquela caminhada, era tipo para ir comer um hambúrguer aos arcos dourados.

[escrito directamente no facebook em 2020/07/06]

A Companhia do Meu Primeiro Cigarro do Dia

Nunca tinha reparado nela e, agora, vejo-a todos os dias. Por volta das oito da manhã, acendo um cigarro na varanda, e vejo-a a caminhar ao longo da rua até desaparecer lá ao fundo, e virar à direita, na esquina da pastelaria agora fechada. Ela não sai aqui do prédio. Já vem de baixo. Do início da rua. Não sei se vive aqui ou se só passa por aqui mas, todos os dias, todos os dias desde que estou fechado em casa, vejo-a passar lá em baixo.
Logo da primeira vez chamou-me a atenção porque não passava ninguém aqui em baixo na rua. Eram oito da manhã e eu tinha saído da cama, vestido uns boxers, e vindo à varanda fumar o meu primeiro cigarro do dia. Estava calor, nesse dia. A rua estava deserta. Esta rua que, num dia normal está cheia de gente que a percorre para cima e para baixo, esta rua que, a partir das oito da manhã começa a carregar as suas baterias com a chegada das carrinhas da panificadora, os camiões da cerveja, o pessoal das entregas da DHL, os empregados das lojas que empurram as montras para o passeio, as esplanadas que brotam de novo com mesas e cadeiras e chapéus-de-sol todos os dias, a senhora das flores que coloca vasos na rua, a escola de condução que estaciona a motorizada frente à entrada a apelar às aulas, agora está deserta. Mesmo o pessoal da câmara que, às vezes, e com ajuda dos bombeiros, vinha aqui dar uma limpeza geral, com mangueira, varrer as misérias presas às pedras da calçada, não têm aparecido agora. Agora e desde aquele primeiro dia em que toda a gente, ou quase toda a gente, ficou em casa para evitar a contaminação. Foi nesse dia o primeiro dia em que a vi, a passar lá em baixo, sozinha, na rua deserta, a caminho de qualquer lugar. Provavelmente trabalhar. Num daqueles trabalhos essenciais à nossa vida. Se calhar é repositora de lineares. Caixa de supermercado. Técnica de farmácia. Médica. Enfermeira. Polícia não me parece. Pelo menos daqui de cima. Tem o cabelo loiro. E eu nunca conheci uma agente da polícia com o cabelo loiro.
Agora já não me levanto todos os dias para vir aqui à varanda fumar um cigarro. Agora levanto-me todos os dias para a ver passar lá em baixo. Vai sempre bonita. Bem arranjada. Eu, desde que estou para aqui fechado em casa, ando de boxers, às vezes nu, quando está frio visto um fato-de-treino, que é o que levo à rua se preciso de sair para ir ao supermercado ou à farmácia, ou então visto uma roupa velha, as calças de ganga de pernas largas, as t-shirts que usava para dormir, as sapatilhas rotas, as meias sem elástico, porque regresso a casa e vai tudo para lavar a quarenta graus, e eu de regresso ao duche. Ela não. Ela vai sempre elegante. Como se fosse para alguma festa, mas não será para uma festa porque agora não existem festas. É só uma miúda que gosta de se arranjar e ainda bem, porque gosto de a ver assim arranjada, às vezes de calças de ganga, sapatilhas All Star, outras vezes de saia e camisa, também já a vi de vestido, um casaco por cima, meias de vidro, tudo de várias cores, não sei se tem uma preferida que já lhe vi a colecção da Pantone. O meu guarda-roupa é essencialmente preto e cinzento e o azul das calças de ganga. Um guarda-roupa triste e melancólico. Ela é uma miúda alegre e que me alegra. Agora já preciso dela diariamente para me marcar o arranque do dia. Preciso de a ver. Começo a ter com ela, uma miúda com que nunca falei, mais afinidade que com as minhas ex-mulheres. Imagino-a cheirosa, o cheiro do banho acabado de tomar e talvez o aroma fresco de um perfume leve. O sorriso, que nunca lhe vi, plantado na cara. E uma conversa sem fim.
No outro dia pensei no dia em que não a vir passar. Pensei no dia em que chego à varanda, acendo um cigarro e ela não passa lá em baixo na rua. Nesse dia deprimi um pouco. Cheguei a ter vertigens na varanda. Espero não voltar a deprimir mais. Espero que ela continue a passar. Espero que continue a fazer companhia ao meu primeiro cigarro da manhã.

[escrito directamente no facebook em 2020/04/18]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

Sinto-me em Queda

Querem que sorria?
Que agradeça a sopa quente que me oferecem num copo de plástico?
Que a minha cabeça acene, obediente, as ordens de um algoritmo?
Querem gratidão pela dádiva do Pai?
Estou em queda.
Tudo cai. Tudo morre. Não há gratidão possível quando tudo morre.
Foi o quadro que caiu parede abaixo. Não rasgou a tela, vá lá. Mas partiu a moldura. Uma moldura barata comprada numa loja de chineses. Assim como a tela. Foi numa loja de chineses que o artista comprou a tela que pintou. Não havia dinheiro para mais, disse. Não há dinheiro para mais, digo.
Foi o computador que caiu do braço da poltrona abaixo, onde estava em equilíbrio precário para apanhar o wireless fugidio. Uma amolgadela no alumínio perfeito do MacBook Pro, desenhado na América mas fabricado na China.
Foi o carro que bateu num pilar numa marcha-atrás feita às escuras e sem visão no ângulo morto. Chapa rasgada, amolgada e tinta descascada.
Foi a conta da electricidade. Tenho-a aqui na mão. Valor por kwh. Escalão 1. Potência mais baixa. Taxas e impostos. Contribuição audiovisual. Mais o IVA para isto tudo. Deixar cortar? Que importa agora? Não estou em casa.
Estou em queda.
Escorreguei no meu próprio vómito. Parti a bacia. Tenho de parar de beber vinho barato. É barato mas sai caro. Dá-me azia. Revolve-me o estômago. Faz-me bolsar as tripas.
Escorreguei no vomitado e caí. Parti a bacia. Enxaqueca. Dentes cariados. Garganta inflamada. Cravos nas mãos. Unhas encravadas nos dedos dos pés. Hemorroidas. Borbulhas várias ao longo do corpo, especialmente nas costas e nas virilhas. Algumas com cabeça branca. Cheias de pus. Varizes. Pernas trémulas. Artroses. Já não escrevo nada com caneta. Mal toco as teclas do computador amolgado. Agora só falo. Comigo. Duas horas caído no chão até conseguir arrastar-me pelo corredor, os gritos calados, até chegar ao telemóvel e chamar os bombeiros.
Estou no SNS. Talvez o que melhor funciona nesta pobre país a cair das arribas para o mar. Talvez por isso queiram dar cabo dele. Talvez porque funciona para quem não tem seguros de saúde privados. Como pagá-los? O Salário Mínimo Nacional é de 635 euros em 2020.

O presidente da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, António Saraiva, considerou que 635 euros para 2020 é Um objectivo ambicioso, tal como o objectivo para 2023, de atingir 750 euros.

Triste quando a ambição do presidente da CIP é tão pouco ambiciosa. Reflecte a realidade empresarial nacional. Temos os salários que merecemos. Os trabalhadores que merecemos. Os empregos que merecemos. Os patrões que merecemos.
E eu? O que é que eu mereço?
Estou em queda. E a vida tirou a vida para me chatear.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/10]

Ano Novo, Vida Nova

Já fiz quase dois dias inteirinhos deste novo ano que estreei ontem. Nada de novo debaixo do sol nem dentro de casa.
Queria acreditar que as coisas seriam diferentes. Não são.
Regressei ao trabalho. Entrei às oito da manhã. Estava ainda escuro. Frio. Mesmo em sistema self-service, as pessoas ainda me pedem para ser eu a encher os depósitos. A agarrar a mangueira de combustível e enfiar a agulheta dentro da entrada do depósito do carro. O cheiro. O óleo nas mãos. Tudo igual. Pagam em plástico. No final já nem espero uma moeda de gorjeta. Já lá vai o tempo. Agora é como se eu fizesse parte do preço do litro. O meu trabalho. Um trabalho de merda, mal pago e mal tratado.
Foi um dia de muito movimento. Os carros chegavam quase vazios e queriam voltar a partir cheios. Andou-se muito durante as festividades. Fez-se fila. Eu sozinho. Para encher os depósitos. Para receber os pagamentos. Para os trocos para a máquina de tabaco. Pediram-me para passar uma escova no pára-brisas. Para calibrar os pneus. Pediram-me duas latas de óleo. Uma embalagem de detergente para os vidros. Os que esperavam para o combustível, buzinavam. Eu olhava, mas não podia fazer nada. Estava sozinho. E assim continuei. Sozinho a servir toda a gente. Uma gente bem cheirosa, sabonete, champô, after-shave, perfume. A quererem agradar ao novo ano. Eu também vim de banho tomado. Durou até ao segundo carro.
Pude fazer uma breve pausa a meio da manhã. Bebi um café na máquina de venda automática e fumei um cigarro. Cheguei a imaginar pegar fogo à estação de serviço e ver tudo a arder. Eu sentava-me no lancil do passeio do outro lado da estrada a ver os depósitos de combustível a explodirem e a queimar tudo ali à volta. Eu sentado no passeio, a fumar um cigarro e a contar os minutos que os bombeiros demorariam a chegar ali à estação. O quartel dos bombeiros fica a cerca de quinhentos metros de distância da estação de serviço mas, o camião tem de dar a volta pelo outro lado, que a estrada é de sentido único. A sirene tocaria. A chamar os bombeiros que estariam ainda de cama. Agarrados às mulheres de penteado novo pela festa de Passagem de Ano. Alguns ainda de ressaca. Demorariam a responder ao apelo. Quanto tempo até chegarem ali à estação?
Cheira-me bem. Não é o cheiro a queimado. Não é o cheiro a gasolina. É um cheiro a dinheiro fresco.
A buzina a tocar. A buzina a tocar e ninguém a responder ao apelo. A buzina afinal era do carro de um cliente que me chamava. Um Mercedes. Um homem de fato e gravata. Senti-lhe o cheiro de perfume do outro lado da estrada antes de perceber que a buzina era para mim. Apago o cigarro na estrada. Levanto-me. E lá vou eu.
Claro que sim. Claro que atesto o carro. Sim, sim, eu. Eu agarro na agulheta. Puxo a mangueira. Fico ali a agarrar na agulheta até encher o depósito. Café só na máquina. Eu tenho moedas. Sim. Olhe aqui. Sim. Já sai com açúcar. Pode escolher a quantidade. Sim, tem colher. É de plástico. Infelizmente. Mas irá mudar, sim. Quem sabe quando?
Ano novo? Vida nova? Não nestas latitudes. Não na minha vida. Aqui continua tudo igual. Tudo velho.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/02]

Melancolia

Forço-me a sair de casa.
Não posso estar sempre deitado na cama. Preciso de me mexer. Mexer o corpo. Sentir o sol sobre mim. Ver claridade. Respirar o CO2 dos automóveis em despique.
Saio de casa com as mão nos bolsos. Os ombros descaídos. Está um dia claro de sol amarelo, nem quente nem frio. Algumas nuvens. Uma ligeira aragem. Um dia sem história.
Caminho.
Caminho ao longo do passeio. Circulo perdido pela cidade. Vou onde me levam os passos. Os meus pés numas All Star rotas, todas escavacadas, sapatilhas que já calcorrearam mundo, mas confortáveis. Espero que não chova. As calças de ganga caem sobre as sapatilhas e prendem-se debaixo do rasto. Rasgam-se. Vejo um fio da ganga a bailar com os meus passos, perdido que estou pelas ruas da cidade.
Caminho.
Caminho até ao rio. Sento-me num banco de madeira a olhar o rio frio que está parado no seu leito. Uns miúdos brincam no muro mais à frente. Um deles cai. Cai ao rio. Devia ir ajudar. Talvez mergulhar no rio. Talvez telefonar à polícia. Talvez telefonar aos bombeiros. Talvez ligar ao cento e doze. Mas não o faço. Não consigo fazer. Nem coloco a mão no bolso das calças à procura do telemóvel. Nem me levanto do banco, excitado, nervoso, curioso com o sucedido. Deixo-me ficar sentado. Suspiro sem grande força. O olhar perdido na direcção dos outros miúdos que chegam com um agente da polícia. E eu olho. Limito-me a olhar. Depois deixo cair o olhar no chão. Levanto-me.
Caminho.
Caminho de novo com as mãos nos bolsos. De novo os ombros descaídos. Os pés arrastam-se pelo macadame e puxam o meu corpo quase-morto. Deixo o miúdo caído ao rio nas mãos do polícia. Dos amigos. Do socorro que o polícia há-de providenciar. Deixo tudo lá para trás. Para trás de mim. Devia ter trazido o iPod. Devia estar a ouvir música. Os ouvidos mudos à cidade. Mas não me apetece. Não me apetece ouvir música. Quero silêncio. Quero vazio. Quero nada. Não quero o iPod.
Acendo um cigarro. Os patos cruzam o macadame a caminho do rio. Um miúdo passa a correr e, rápido, apanha um dos patos e foge com ele a grasnar debaixo do braço. Eu viro-me. Vejo-o desaparecer entre as árvores que acompanham o rio. Vejo-o desaparecer e deixar de existir. Aconteceu o que eu julgo que vi? Ou não aconteceu nada? Nem eu vi nada? Passou por aqui um miúdo? Ou não? Mas continuo. Continuo em frente. Não sei para onde vou.
Caminho.
Só caminho em frente. Vejo as folhas a cair das árvores. Ouço o barulho que faço ao pisá-las. É mesmo uma manhã outonal.
O sol amarelo que clareava o dia acabou por se ir, envergonhado. O céu ficou cinzento. Levantou-se um ligeiro vento. Caiu o frio. Estou sem casaco. Mas vou continuar em frente.
Queria regressar a casa. À cama. Ao conforto da minha cama.
Ultrapasso uma velhota que treme no seu passo inseguro apoiada a uma bengala. Penso que não vai chegar ao seu destino. Afasto-me, devagar. Mas o meu devagar é muito rápido para a velhota. Ouço um barulho seco atrás de mim. Imagino que a velha caiu. Mas não me viro. Não me quero envolver.
Caminho em frente. E depois páro.
Não sei mais para onde ir. Os pés não se mexem. Posso virar à direita. Posso ir para a esquerda. Mas não tomo nenhuma decisão. Os meus pés não se mexem. O meu corpo não sugere. E então começa a chover. Primeiro uma pequena e leve borranha. Depois as gotas engrossam. E começa a chover copiosamente. Chove sobre mim. Mas eu não me mexo. Os meus pés parados. Os buracos nas All Star a deixar entrar a água fria. Sinto as meias a encharcar e os pés molhados. Suspiro de novo.
Já não caminho. Estou aqui. Não sei o que estou a fazer, mas parece-me que não estou a fazer nada. Estou só aqui porque não consigo não estar. Não me mexo. Não me apetece fazer nada.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/29]

Atento

Quando o vi, a minha primeira reacção foi vomitar. Apoiei-me na parede, o corpo curvou-se para a frente e vomitei sobre as sapatilhas. Limpei a boca à manga da camisola. Virei-me e procurei-o de novo.
Já não o vi.
Ainda dei algumas voltas pelas ruas adjacentes, mas não voltei a vê-lo. Pensei que não estivesse por cá. Pensei que tivesse ido embora da cidade. Na verdade nunca pensei. Presumi que sim. Que depois de tudo o que se tinha passado, ele tivesse ido embora da cidade.
Agora estou a tremer. Fiquei nervoso. Fiquei nervoso ao vê-lo.
Sento-me no lancil do passeio. Não consigo andar. Preciso de descansar. Preciso de pensar noutras coisas. Acendo um cigarro. Encosto-me ao marco do correio.
Passa um polícia. Olha para mim. Aproxima-se e pergunta Está tudo bem?, ao que respondo Só uma quebra de tensão, senhor agente. Não quero ter de explicar tudo outra vez. Mais uma vez. Reviver tudo de novo. Não, não quero. Por isso digo Só uma quebra de tensão!
O polícia insiste. Se calhar pensa que estou na ressaca. Insiste Precisa de alguma coisa? Quer que chame os bombeiros? E eu volto a fugir à justificação. Obrigado, senhor agente. É só fumar este cigarro que já fico bem. Mostro-lhe o cigarro nos dedos. Também o olho.
O polícia ainda olha um pouco para mim. Depois levanta a mão, numa forma de cumprimento, e segue o seu caminho, de bloco na mão. Vai olhando os bilhetes nos tabliers dos automóveis.
Eu fumo o cigarro e sinto-me descontrair. Por instantes esqueci quem vi. Por instantes regressei ao esquecimento.
Acabo o cigarro. Levanto-me. Sinto-me mais calmo. Regresso ao meu caminho, mas vou atento. Os meus olhos percorrem todas as caras com que me cruzo, as que vejo à distância, as que passam, rápidas, pelo canto do olho.
No início pensei muitas vezes no que lhe faria se me cruzasse com ele. E desenvolvi muito modelos gráficos da minha vontade. Depois fui deixando de pensar nele e no que aconteceria se me cruzasse com ele. Não que tivesse esquecido, perdoado, ultrapassado tudo. Mas o tempo ajuda-nos a livrar do mal. Segui em frente. O melhor que consegui. Que pude. Ainda pensei mesmo que tivesse saído da cidade e ido, sei lá, para fora, para o estrangeiro, recomeçar a vida longe, longe de tudo isto, longe de mim e das minhas dores.
Lembro-me que cheguei a comprar um revólver. Ainda andei uns tempos com ele, mas acabei por o lançar ao rio. Não gostei daquilo em que me estava a tornar. Depois andei com um facalhão de mato. Pelo menos, não era a brutalidade de uma bala disparada à distância, sem pensar. Para o facalhão tinha de me aproximar dele e espetar-lho. Sentir-lhe a dor. O grito. Ver o sangue a jorrar, provavelmente para cima de mim. Guardei o facalhão na arrecadação, junto com as revistas do Tarzan do Burne Hogarth. Depois só trazia o canivete-suíço. Hoje, nem isso.
Mas agora que o voltei a ver, já não sei. Já não sei nada. Dói-me o estômago. E a cabeça. Espero não voltar a vê-lo. Nunca mais. Mas estou atento.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/16]

A Malta de Chicago

Tudo começou quando os ultraliberais chegaram ao Parlamento. Não demorou até conseguirem maioria e formarem governo. A Malta de Chicago, como entre eles se denominavam, puseram o país de pernas para o ar. Às vezes, virar as pernas para o ar pode não ser mau. Aqui, naquela altura, foi. Ainda é.
Logo na chegada ao Parlamento gritaram ao que vinham. Ocuparam espaço nas redes sociais a ilustrar os amanhãs gloriosos onde o homem poderia ter direito de escolha. Não era Liberdade. Não era Segurança. Nem era Riqueza. Era Escolha. Essa era a palavra de ordem que começaram a disseminar como vírus: Escolha. Como se a Escolha fosse uma possibilidade para a maior parte da população.
A juventude e a comunicação fácil criou algum élan ao grupo e, desde o início, a aprovação das ruas superou a representação no Parlamento. Não causou, por isso, estranheza quando, nas eleições seguintes, a meio do mandato por queda do governo de esquerda que começou, aos poucos, a perder a rua, ganhou as eleições com maioria absoluta.
A Malta de Chicago foi buscar votos a muitos lados do espectro político. À direita mais conservadora, que os viam como o mal menor (antes ultraliberais que socialistas), aos sociais-democratas, em extinção depois de uma guerra fratricida entre as várias cambiantes dentro do partido, que acharam por bem migrarem para aquele que já tinha sido um sonho de uma parte do partido, à esquerda desiludida com a falta de investimento na saúde, na educação, e iludida com esse chamariz da Escolha, de poderem colocar os filhos nas escolas preferidas. O Estado não paga a escola, paga o aluno. Pois, mas as escolas escolhem os alunos. Não há lugar para todos. Não há, com certeza, lugar para alguns deles. Há que fazer selecção. E foi o que foi feito.
Não tardou que a escola pública se degradasse e fosse residual. Muitas crianças já não conseguiam ir à escola. Mas havia trabalho. Havia sempre trabalho para os jovens empreendedores que não tivessem medo de fazer dinheiro.
Não tardou que os hospitais públicos se degradassem e os que restavam fossem meia-dúzia ao longo do país. Poucos médicos nos hospitais públicos. Poucas condições. O INEM, deficitário, foi extinto. Sociedades privadas de bombeiros e paramédicos começaram a fazer o trabalho do INEM. Mas era necessário ter seguro. Seguro privado. Seguro privado pago e em dia. Seguro que a maioria da população não tinha. Começou a morrer gente nas ruas, nas estradas, à entrada das portas fechadas dos hospitais.
Eu penso sempre que foi aqui que morreu a época do humanismo e começou a época da ganância financeira extrema. O dinheiro era Deus e a religião o pão e a filosofia.
A verdade é que tudo começou a ser pago. Um bebé já nascia com a dívida dos pais. Com dívidas não se podia votar. A Malta de Chicago eternizou-se no poder. Não havia quem não tivesse dívidas. Dívidas criadas para se poder viver. A única coisa que ainda não se pagava era o ar que se respira. Mas não sei até quando. Já ouvi uns zun-zuns.
O Estado ficou mesmo mínimo e as grandes corporações conduzem o Estado que finge que conduz o país.
É estranho tudo isto. Olho para trás e lembro-me como a vida era. Difícil, mas correcta. Não há muito tempo. Quase ontem.
Acendo um cigarro. Tusso. Dói-me a perna.
Um paramédico chega-se a mim e diz Se fumar esse cigarro terá de pagar uma taxa extra no transporte. Se houver transporte!…
Eu continuo a fumar o cigarro. Desvio o olhar do paramédico. Estou sentado no lancil do passeio. Tenho a perna em sangue. Acho que não está partida, mas deita muito sangue. Os paramédicos não a podem verificar nem levar-me para o hospital até confirmar que o seguro está pago. Eu já disse que está pago. Mas eles têm de confirmar a minha conta. Parece que há uns problemas no site. Ainda não conseguiram aceder à conta.
E eu espero.
Sentado no lancil com a perna a sangrar e cheio de dores.
Olho o fumo que sai do cigarro. Através do fumo do cigarro vejo a mota que me bateu. A mota está caída no asfalto. Aquilo é sucata. Está toda partida. Destruída. O miúdo que me atropelou já foi para o hospital. Golden Card. Eu tenho de esperar. O meu cartão… O meu cartão não é Golden Card. Não sou um gajo de Chicago.
Acho que ainda vou acabar por ir a pé para casa. Espero ter lá betadine.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/10]