A Caixa

Encontrei-a quando fazia a mudança da minha mãe. Ao levar todas as tralhas dela de uma casa para a outra, encontrei uma tralha minha. Uma caixa. Uma caixa, guardada, guardada e perdida em casa da minha mãe há já muitos anos. Uma caixa que já não recordava. Salto de cama para sofá-cama, entre casas de amigos e conhecidos, entre camas de namoradas e restos de uma noite sem história, sem pouso certo, vou largando restos do que acumulo por aí, por onde calha, em casa deste e daquele, desta e daquela, em casa da minha mãe, afinal, a casa mais próxima do que alguma vez poderia chamar minha. E descobri-a.
Sentei-me no chão sujo (a quantidade de lixo que se vai largando enquanto se fazem mudanças! onde estava todo este pó? todo este lixo?). Esperei. Tentei refrear a ansiedade. O que estaria ali, dentro daquela caixa? O que estaria ali, debaixo daquela tampa que iria levantar?
E levantei.
A primeira coisa que vi foi a minha câmara Sony PC4, com a qual fiz o meu primeiro filme. Onde está esse filme? Onde param todas as cópias? E a montagem original? E as cassetes miniDV onde foram captadas todas as imagens e sons do filme?
Ao lado da câmara estava um action figure do Batman. Lembro-me que veio em cima de um bolo de aniversário. O bolo foi-se, o aniversário também, mas o Batman, cinzento e preto, ficou.
Há também um discman que guardei aqui quando comprei o primeiro MP3, da Creative, que, afinal, era apenas uma pen com auscultadores. Mas funcional. E era muito fácil passar música para este leitor de MP3. Não sei onde é que ele pára. Provavelmente nalguma outra caixa para onde foi remetido depois de aparecer o iPod Nano que ainda hoje tenho e funciona.
Há uma pilha de cadernos e sebentas e agendas da Moleskine cheias de palavras, textos, estórias, poemas medíocres, desenhos e outras coisas que me descrevem ao longo dos anos. É melhor queimar tudo isto. Há para aqui coisas que não são para os olhos de ninguém, algumas delas já nem sequer para os meus. Às vezes o passado envergonha-nos. Mas nem tudo é mau. Há aqui alguns textos que subscrevia. Rescrevia. Assinava. Hoje.
Há também uma caixa de Rebuçados de Ovo de Portalegre da Fábrica de Rebuçados de Santa-Clara que abro e descubro uma série infindável de canetas e lápis, lápis de várias cores e números, e todos afiados, e canetas de vários feitios. No fundo da caixa uma borracha da Rotring e uma afiadeira de metal, em forma de cunha.
Há também uma outra caixa, esta de cartão, preta, sóbria. Lá dentro tem uma caneta Mont Blanc pequena, de tinta permanente, que quis preservar. Nunca a usei. Nunca a tirei da caixa. Foi uma prenda de aniversário. Sempre tive boas prendas de aniversário. Acho que tive uma boa vida. Bons amigos. Boas memórias.
Há uma bola de neve com dois esquimós a beijarem-se. Daquelas bolas que se agitam e aparece neve a flutuar.
Uma outra caixa, de chocolate belga, alberga várias chaves, muitas chaves, quase todas com porta-chaves. São as chaves das casas por onde passei. E foram tantas. Ainda abrirão as mesmas portas? ou as fechaduras foram mudadas? Ainda estarão à minha espera? ou já me esqueceram? Acho que poderia fazer uma exposição com tanta chave, de tanta forma e feitio. Há uma delas que acusa ferrugem. Não sei o que é que esta chave abria. Uma parte do passado fugiu, outra escondeu-se. A memória é um mundo por descobrir. Poderia passar o resto da minha vida a lembrar as vidas que já vivi.
Há também uma ventoinha manual, pequenina, de agarrar numa mão, apertar uma mola e disparar a ventoinha de três pás que manda ar frio para onde quiser. As pás da ventoinha estão numa espécie de maçã com uma dentada, como se fosse o símbolo da Apple. Deve ser coisa de chineses. Sei perfeitamente quem me deu esta ventoinha. Gente que não vejo desde o princípio dos tempos.
Há ainda uma lanterna a dínamo da Quechua cuja borracha está toda peganhenta, desfaz-se nas minhas mãos e tenho de as ir lavar antes de voltar ao teclado do computador. Guardei muita merda. Muitas destas coisas são lixo.
Um maço de papéis revela as primeiras facturas de água e luz que vieram com o meu nome. As primeiras facturas que eu paguei, numa casa que era minha, cuja renda era eu que pagava, e do qual recebia um recibo com o meu nome. Há coisas que nunca mais voltam.
Por baixo das facturas, uma pequena caixa com uma pen da Kanguru para ligação à internet numa altura em que quase não havia wireless, em que éramos todos muito info-excluídos, mas nem mais felizes nem mais infelizes. Éramos só outros, numas vidas como estas mas diferentes. Será que isto ainda funciona?
Há também uma série de DVDs graváveis. Devem ter filmes e fotografias minhas. Será que descubro aqui fotografias de ex-namoradas? Fotografias de nus? Filmes de sexo? Eu a ter sexo com… Já nem me lembro. Já não recordo se as guardei aqui ou não. Tenho de descobrir uma maneira de ver isto. O meu computador já não tem leitor de DVDs.
No fundo da caixa descubro uma pequena pilha de cartas. Agarro nelas. Leio os endereços. Nomes diferentes. Moradas diferentes. Nomes de mulher. Nomes de homem. Acendo um cigarro. Encosto-me à parede. Abro uma carta. Uma qualquer. Não leio o nome de quem a envia. Não importa. Só quero ler o que já li. Só quero recuperar um tempo. E leio:
Olá meu querido, Como é que estás? É com muita saudade que olho para trás e vejo já tão distante o Verão em que nos conhecemos e passámos juntos na praia. Depois olho em frente e reparo como falta pouco para nos reencontrarmos. Voltamos ao mesmo sítio? Voltas ao mesmo sítio?
Sorrio. Escrevíamos cartas assim? Escrevi cartas assim?
Deixo cair a carta e abro outra. Sinto o coração aos saltos. Está vivo. Estou vivo. A história não é sobre os mortos. É sobre os vivos. Uma história que se perpetua nos tempos, assim a lembremos, assim nos lembremos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/25]

Dia de Aniversário

Era o meu aniversário.
Estava sentado à mesa. À mesa grande da sala onde o meu pai tinha colocado o acrescento para tornar a mesa ainda maior. Mais comprida.
À volta da mesa muitos amigos meus. Eu estava sentado ao meio. Estávamos todos um bocado histéricos. Falávamos muito alto. Todos queríamos a atenção dos outros. Eu como eles. Eu mais que eles.
A minha mãe chegou por trás de mim com uma caixa de fósforos e acendeu as nove velas do bolo de aniversário que ela própria tinha feito. Era o bolo das cerimónias. Uma espécie de pão-de-ló feito com iogurte. Eu adorava a parte de cima do bolo, o vinco exterior, uma espécie de rebordo, mais queimado, e que estalava quando o trincava.
A minha mãe era uma boa cozinheira. Uma boa cozinheira como só as mães e, às vezes, as avós, conseguem ser. Para além do bolo das cerimónias, havia outros bolos que ela tinha feito e que estavam na mesa grande à espera de serem devorados por uns miúdos esfomeados e sedentos de bolos e doces que só tínhamos autorização de comer nessas alturas de festa. Havia um bolo de mármore, uma torta de laranja, rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, pastéis de massa-tenra, frango frito no qual a minha mãe espremia um bocado de limão, gelatinas e salada de frutas. Para beber era sumo de laranja, daquele em pó, ao qual se juntava água e não tinha gás.
O meu pai estava do outro lado da mesa com uma máquina fotográfica, que tinha pedido emprestada, para registar o momento.
Apagaram-se as luzes, cantaram-se os parabéns e eu, e todos os outros miúdos, começámos numa rebaldaria a soprar as velas para ver quem conseguia apagar mais e mais depressa. O caos.
Perdi o rasto a essas fotografias. Aliás, não tenho registos nenhuns da minha infância.
Às vezes ainda me pergunto se as memórias que eu tenho são mesmo as minhas memórias, e memórias do que vivi, ou se são memórias implantadas para me fazerem acreditar em algo que nunca existiu.
Acho que vou continuar na dúvida. E todos os anos, como tem sido até aqui, vou continuar a colocar em causa as histórias de quando eu era criança.
Mas, de todas as formas, era o meu aniversário. Eu estava com os meus pais e os meus amigo. E era feliz.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/26]