Moro num T1+1

Moro num rés-do-chão baixo, ao nível da rua. É um T1+1, o que quer dizer que tem um quarto, uma sala e um pequeno buraco que fazia parte da sala mas que foi separado por um tabique para quarto de empregada, ou de arrumação e fazer o apartamento subir um nível no valor do arrendamento. Fiz desse buraco uma espécie de escritório com uma mesa mais pequena que fui comprar ao Vassoureiro e os livros aguentam-se empilhados uns nos outros à espera de melhores condições de vida (minha) que lhes garantam outra dignidade (uma estantes seguras) num apartamento de divisões um pouco maiores e com vista para qualquer lado que não os ouvidos putrefactos da vizinhança.
A minha casa é pequena, mas é suficiente para mim. Tenho um quarto, uma sala, uma cozinha, uma casa-de-banho com uma pequena janela de vidro que abre e deixa entrar ar fresco e o buraco que me serve de escritório. Um pequeno corredor vai da sala à cozinha fazendo a distribuição das outras divisões.
A sala fica paredes meias com a rua. Quando vou à janela fumar um cigarro, fico à altura das pessoas que passam por lá. O pequeno buraco que me serve de escritório também. Também fica paredes meias com a rua. E também tem uma janela. Às vezes deito-me no chão do escritório, arredo a cadeira e deito-me no chão do escritório, entre as pilhas de livros, para endireitar as costas, e sinto as pessoas a passarem por mim, quase como se me tocassem na cabeça. Às vezes alguns miúdos da rua encostam-se à minha parede a fumar uma ganza e ouço-lhes as conversas. Conversas de merda, na maior parte das vezes. Mas já me ri desgraçadamente.
O quarto e a cozinha têm uma janela para um pátio nas traseiras dos prédios. Quando vim para esta casa, às vezes ia até lá, fumava um cigarro a passear entre as couves e as batatas que os porteiros dos prédios que formam aquele pátio interior lá iam plantando. Saltava a janela da cozinha e passeava por lá. Mais tarde cimentaram todo o pátio e os porteiros deixaram de ter sítio onde plantar hortaliças. Depois começaram a descer os vizinhos dos vários andares, desciam pelas escadas de incêndio e juntavam-se no cimento a jogar o Monopólio, à bola, a beber cerveja e a fumar umas ganzas. Eu deixei de frequentar o pátio. E é raro fumar à janela da cozinha para não dar com os vizinhos a fazer o mesmo que eu e a dar fé das vidas dos outros. Fumo no interior da cozinha com a janela aberta. Ou fumo no escritório também com a janela aberta. Mas é raro fumar no escritório porque é raro abrir a janela. O barulho é quase sempre ensurdecedor. O passeio tem dois metros de largura e depois há uma estrada de duas faixas em sentido único e os carros aceleram por ali. Às vezes há vizinhos que param os carros em segunda fila, com os quatro piscas ligados, às vezes nem isso, e provocam engarrafamentos e buzinadelas. O som é insuportável.
Era. Já não é. Era.
O meu T1+1 que me servia na perfeição, tornou-se, de repente, enorme e minúsculo. Os dois contrários ao mesmo tempo. Mesmo tempo, mesmo tempo, não. Em tempos diferentes.
Quando me deito no chão do escritório, que agora faço com muito mais assiduidade, já não escuto as conversas dos miúdos na rua, nem os carros a galgar asfalto, nem há carros a buzinar a outros carros parados em segunda fila. Agora já não há pessoas, nem carros, nem barulho. Agora só há silêncio. Por vezes estou na sala a ler um livro e fico admirado por o barulho da história ser maior que o barulho da minha vida.
Mas quando estou há mais de duas semanas em casa, fechado como agora, e só saio para ir ao pão ou para comprar alguns mantimentos à mercearia que fica cinquenta metros acima na rua, a casa parece minúscula, demasiado acanhada para a enormidade da minha neura, uma neura criada na obrigatoriedade de ficar em casa, coisa que eu até gosto de fazer. Mas não obrigado. Não por decreto. Não porque me mandam. Agora até a rua me parece pequena. As duas pastelarias fechadas. A oficina a trabalhar a meio-gás (estão de porta fechada mas ouço o barulho no interior). As escadas que levam à C+S lá mais acima, desertas. A casa dos tecidos encerrada. O restaurante onde ia por vezes comer uma alheira de caça, encerrada. Tudo fechado. Ou quase tudo. Tudo em silêncio. E eu. Eu aqui, fechado em casa. Não estou de quarentena. Estou só em isolamento. Estou recluso. Em fuga ao vírus.
Agora trocava o meu T1+1 por uma casa velha com um quintal mal amanhado e uma casota para um cão e um galinheiro para umas galinhas e uma vista sobre árvores e montanhas e um riacho e o barulho das cigarras e dos grilos e dos pássaros e até do raio das corujas que não se calam durante a noite inteira mas que me adormeceriam e me fariam ser mais bem-disposto. E há quanto tempo não chove?

[escrito directamente no facebook em 2020/03/23]

O Último Suspiro

E naquela tarde desejei que a vida fosse um dia de sol brilhante, quente e confortável, um mar ondulante e dócil de águas mornas onde poderia nadar crawl e que nadaria como ninguém, boiaria num colchão de ar e seria levado ao longo da costa até uma praia deserta e secreta onde encontraria uma sereia verdadeira com rabo de peixe, almoçaria um bife do lombo com batatas fritas e um ovo a cavalo, molharia um bocado de miolo de um papo-seco na gema amarelinha do ovo, beberia um pirolito e guardaria o berlinde de porcelana colorido que iria juntar ao atabafador, ao contra-mundo e ao olho-de-boi na caixinha das preciosidades onde também estaria o pin do Benfica, o cartão de sócio da União de Leiria, os cromos de futebol das pastilhas May e a fotografia da Cindy, uma inglesa de Bristol que conheci na Praia da Oura e com quem andei de gaivota, comi gelados de laranja da Olá e chorei baba e ranho quando me vim embora para Leiria e ela ficou mais uma semana, jurámos trocar cartas e só foi a primeira e só chegaram duas, e que depressa troquei pela Rita que conheci no colégio, mas a fotografia ficou para me lembrar as pequenas histórias que fazem toda a minha vida, e depois iria a uma matinée de cinema ver o Grease, a Guerra das Estrelas ou uma reposição da Fantasia que o meu gosto é eclético, passearia de bicicleta tipo chopper ao longo do rio e subiria a estrada até à nascente do Liz, às Fontes, logo ali acima das Cortes, e regressaria mais tarde até à descida do Seminário onde iria fazer a descida em carrinho-de-rolamentos e passaria pela caixa de água pública onde o Jorge um dia rebentou umas bombas de Carnaval que lhe iam arrancando os dedos da mão, mas não arrancaram e nós fartámos-nos de rir à conta dele que nunca mais pegou em bombas de Carnaval, só em bombinhas de mau-cheiro que partia nas aulas de matemática e a freira era obrigada a dar a aula por terminada porque o cheiro se tornava impossível e ninguém mais tomava atenção à matéria, e saíamos da sala e íamos jogar à bola para o campo pelado onde esfolei e esfolaria ainda mais vezes os joelhos e todos os finais de tarde seriam passados na Feira de Maio, na pista dos carrinhos-de-choque da feira, aos empurrões aos outros carros para impressionar as meninas que olhariam para mim e suspirariam, e eu veria os seus pequenos corações a baterem forte dentro dos seus frágeis corpos de adolescentes à minha passagem e iria passear à volta do mundo com uma dessas meninas e conheceria todos os países e todos os povos da Antártida ao Ártico, passando pela Austrália, a Ásia, a América do Norte, Central e do Sul, e toda a África, e teria todo o tempo do mundo para usufruir da vida de todos estes continentes e povos, e comeria das gastronomias locais e nunca ficaria maldisposto com nenhuma das iguarias que o mundo está cheio de maravilhas para comer e beber e ver e ouvir e tocar e sentir e apreender, e cada vez que regressaria iria rever os meus amigos que ainda seriam sempre os meus amigos porque os amigos seriam sempre para a vida, ao contrário dos amores que se enterram na areia da praia em cada fim de Verão, e mataria saudades dos meus pais e da escola onde andava mas já não andaria porque iria aprender pelo mundo fora a fazer surf no Hawai, mas poderia ser também na Nazaré ou em Peniche, a jogar futebol de praia em Copacabana, judo no Japão, a tocar didgeridoo na Austrália, percussão em África e kazoo… onde é que poderia aprender a tocar kazoo?… talvez em África também e ocarina com os descendentes dos maias e…
…e depois descobria, naquela tarde, que a vida afinal nunca seria assim tão boa enquanto assistia ao último suspiro do meu pai deitado na cama onde estava já há uns meses à espera de ser levado lá para onde vão as pessoas que respiram pela última vez e eu chorava como choravam todos os abandonados cá deste lado ao sentirem-se sozinhos e perdidos, à espera que a vida, mesmo assim, não me abandonasse como parecia ter abandonado naquele momento.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/15]

Ao Sábado Chegava o Citroën 2CV com Peixe Fresco

Sempre que ouvia a buzina da carrinha, sabia que era Sábado e que ia almoçar peixe.
Naquele tempo ainda não havia frigoríficos. Quer dizer, haver havia, lá é que ainda não. As pessoas preservavam algumas coisas no gelo ou no fundo dos poços, em cestos pendurados por cordas que puxavam quando queriam alguma coisa do cesto. Mas nem toda a gente tinha poços. E pouca gente podia pagar o gelo.
Lá em casa a carne era salgada e colocada nas salgadeiras. O fumeiro ficava pendurado por cima da lareira. O peixe, com excepção de algum carapau seco que durava algumas semanas lá por casa, tinha dia fixo e era ao Sábado, dia em que a carrinha Citroën 2CV dava a volta pela zona e chegava à praça onde aguardava as mulheres que vinham comprar o que houvesse. E o que havia nunca era muito variado. Mas essa talvez fosse a percepção de um miúdo que até não gostava muito de peixe mas tinha de o comer porque a mãe o obrigava. Me obrigava. Eu era o miúdo.
Eu estava por casa. Aos pontapés na bola. Ou a brincar com o Tejo, o pequeno rafeiro que tomava conta do quintal e comia os restos que ninguém queria. Ouvia a buzina a anunciar a chegada da carrinha. Às vezes ficava mal humorado ao pensar que teria de almoçar peixe. Às vezes ficava contente porque a minha mãe levava-me com ela e a senhora da carrinha era simpática comigo e, juntamente com os carapaus que vendia à minha mãe, dava-me sempre um rebuçado. Às vezes uma pastilha. Foi numa dessas pastilhas que ganhei o meu primeiro cromo de futebol. Um jogador do Benfica, claro. Acho que o Vitor Baptista. Esse cromo acompanhou-me a vida toda. Depois perdi-o numa das minhas inúmeras mudanças de casa.
Com o peixe numa cesta, regressávamos a casa. Eu acabava quase sempre por regressar sozinho porque a minha mãe estava sempre a parar para falar com as amigas dela. Porta sim, porta não. Conversas à janela. Nas esquinas das ruas. No adro da igreja. À porta do café.
Eu regressava a casa e sentava-me na mesa da cozinha a ler uma banda-desenhada da biblioteca móvel. Às vezes lia esses livros duas, três, quatro, cinco vezes, ou até mais, dependia do tempo que a carrinha-biblioteca demorava a passar.
A minha mãe finalmente chegava. Amanhava o peixe. Fazia as brasas. E assava-o. O meu pai chegava sempre a tempo de abrir uma garrafa de vinho, servir dois copos, sentar-se à mesa e começar a comer.
O meu pai passava a semana fora. A viajar pelo país fora. Vendia coisas. Às vezes também trazia coisas. Coisas que eu nunca tinha visto. Uma vez apareceu lá em casa com uma caixa de aguarelas. Dei cabo delas rapidamente. E toda a gente percebeu que não tinha jeito para pintar. E não tenho. Ao fim-de-semana o meu pai aproveitava para tratar de uma pequena horta no quintal lá de casa. Era a sua horta. Fazia tudo sozinho. Não era muito grande, a horta. Mas, na altura, aquilo parecia-me uma selva. Brinquei lá muito ao Jim das Selvas. A minha mãe ia lá buscar as verduras que me obrigava a comer.
Sentados à mesa, o meu pai e a minha mãe comiam o peixe assado com umas batatas e umas couves cozidas. Eu comia as batatas temperadas com azeite. O peixe, andava lá com o garfo a remexer, a fingir que comia sem o levar à boca, a dizer que já estava cheio, não conseguia comer mais, e o meu pai, invariavelmente, a dizer-me que não saía da mesa sem comer o peixe todo. E tinha de comer. Mas às vezes demorava muito tempo.
Quando o meu pai apareceu lá em casa com uma televisão, foi muito mais fácil mandar-me comer o peixe ao Sábado. Sem o peixe comido não havia televisão nem desenhos-animados. E, nesta altura, já estava agarrado aos desenhos-animados.
Ainda hoje, quando ouço um buzina assim mais aguda, penso na carrinha Citroën 2CV e no peixe que a minha mãe assava. Mas agora gosto bastante de peixe.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/17]

Não Saber o que Fazer a Seguir

Saí de casa depois de almoço.
Pus os pés na estrada e fui por ali fora. O sol a dar na cabeça. Os carros a passarem rente a mim. Naquela zona não há passeio. Entre o asfalto e o campo de terra lavrada há uma vala para deixar correr as águas em dias de chuva. O que é feito desses dias?
Não sei onde é que ia. Ia, só.
Os Domingos são dias de uma certa melancolia. E quando não há bola, fico sem saber o que fazer. É que não posso ficar em casa o tempo todo. Não posso ficar dentro da cama o tempo todo. Não posso ficar debaixo dos lençóis o tempo todo.
Preciso livrar-me desta força que me prende. Faço um esforço. Às vezes penso que é um esforço inglório. Acabo sempre por voltar para lá. Sim, acabo sempre por voltar para lá, mas enquanto ando aqui por fora sinto-me bem. Relativamente bem.
Saí de casa e fui por ali fora.
O sol estava forte. Batia-me com força na cabeça. Eu caminhava pelo asfalto e, quando vinha um carro, afastava-me para a vala. A vala estava seca, mas era difícil caminhar na vala. O caminho não era direito e entortava-me os pés. Deformava-me as sapatilhas. Magoava-me os joelhos. Houve uma altura em que eram muitos os carros e tive de ir para o campo lavrado. Entre a vala de inclinada e os torrões de terra seca do campo lavrado não sabia qual o melhor caminho. Mas optei pelo campo de terra lavrada. Sujei as sapatilhas. Pensei que, mais tarde, teria de as lavar. Não consigo andar com as sapatilhas sujas. Não, não me incomodam as sapatilhas sujas. Tenho umas All Star todas porcas. A minha mãe até tem vergonha de sair comigo se eu usar as All Star tal o seu estado de sujidade. Mas não estas. Estas, umas New Balance 996 são muito boas para caminhar, mas não podem ficar sujas. Não ficam bem sujas. E isso incomoda-me. Mas anotei. Passei por cima da vontade e decidi que as limpava quando chegasse a casa. Logo que chegasse a casa.
O sol estava quente. Encontrei uma árvore no caminho. Não sei que árvore era. Não percebo nada de árvores. Mas tinha uma boa ramagem. Um tronco grosso. Sentei-me lá debaixo, à sombra. As costas contra o tronco. Puxei de um cigarro. Acendi-o.
E, depois de fumar ali sentado, o que é que iria fazer?
Essa era a pergunta que eu fazia ali sentado. Na verdade não conseguia descansar. Na verdade, nem conseguia saborear o cigarro. A minha preocupação era sempre o que é que iria fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem onde estou porque estou sempre a pensar onde vou a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a fazer o que faço porque estou sempre a pensar o que fazer a seguir.
Descobri um dos meus grandes problemas: nunca estou bem a gostar de ninguém porque estou sempre a pensar em quem vou gostar a seguir.
Por vezes sinto-me enlouquecer. É por isso que gosto de me enfiar na cama. Tapar-me com os lençóis. Não ver nada. Não ouvir nada. Deixar passar o Domingo. E os outros dias da semana todos, uns atrás dos outros. Depressa. O tempo a passar rápido.
Acabei o cigarro. Apaguei a beata na terra. Levantei-me.
Não sabia o que fazer.
Não sabia para onde ir.
Não sabia o que queria.
E estava ali assim, naquela imobilidade, quando chegou o carro.
O carro parou. Abriu-se uma janela. Ela olhou para mim a sorrir e perguntou Queres vir? E eu disse Sim, mãe. Ela abriu a porta do outro lado e eu entrei.
Enquanto ela engatava a primeira e o carro arrancava, ainda me disse Fiz um Bolo Veludo de Framboesa. E eu sorri.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/24]

São Valentim

Conheço-o desde sempre. Toda a minha vida ele andou por aqui. Aliás, já por cá andava quando nasci. Ele já andava na rua aos pontapés na bola quando eu dei o primeiro berro pendurado pelos pés nas mão ásperas da parteira.
Ele era o filho da porteira. Foi o meu primeiro amigo. Eu descia as escadas do prédio e ia para casa dele. O quarto dele era um mundo de bizarrias. Cheio de tralha. Tudo a que pudesse deitar a mão e que sugerisse retorno. Nem que fosse no futuro. A primeira colecção de latas de bebidas que vi na vida, foi em cima do guarda-fatos do quarto dele, em exposição. Até tinha algumas de Espanha. E de França. Eram latas que os primos, emigrados, lhes traziam nas férias.
Foi com ele que fumei o primeiro cigarro. O primeiro charro.
Foi com ele que aprendi os primeiros rudimentos do sexo. Ele era mais velho. Mais sabido. Já tinha ido com umas miúdas. Até já tinha um pequeno bigode (um pequeno bigode?! uma penugem!) quando, uma vez, me disse O que elas gostam é disto!, e apalpou o próprio sexo, por cima das calças de ganga apertadas e com remendos entre-pernas.
Eu saí dali. Da casa dos meus pais. Da cidade. Cresci. Fui estudar para outra cidade. Uma cidade maior. Deixei de vir a casa tantas vezes. Foi um processo gradual. E, aos poucos, acabei por me afastar.
A morte dos meus pais trouxe-me de volta. Cansei-me da cidade grande. Voltei à cidade pequena. Ocupei a casa dos meus pais. Agora minha. Minha e da minha mulher. E da minha filha. Sim, casei, tive uma bela menina que, graças a Deus, sai à mãe, e regressei à casa onde nasci.
Ele continuava lá. Na casa da porteira. Agora era a casa do porteiro. A mãe já tinha falecida há uns anos. Ele ficou com o lugar que era da mãe. Agora era ele que cuidava das casas. Do prédio. De nós.
A primeira vez que o vi, quando regressei, apresentei-lhe a minha família. Mas tudo o que tinha tido com ele, tinha-se esvaído. Já não o conhecia. Não sabia o que conversar com ele.
Agora, quando me cruzava com ele nas escadas, era Olá! Bom-dia! Boa-noite! Até logo! e encerrava ali o assunto. Às vezes percebia que ele queria encetar alguma espécie de conversa cúmplice. Mas a cumplicidade já não existia. Já não existia nada entre nós. O tempo tinha tratado de a assassinar.
A verdade é que me incomodava cruzar com ele nas escadas. Ou no pequeno jardim de entrada do prédio, onde ele estava quase sempre a tratar de qualquer coisa. E sim, aquele pequeno jardim era uma preciosidade dele, mas que elevava o nosso prédio, no contexto dos prédios cinzentos daquela rua cinzenta, a outro nível. Dava prazer chegar a casa. Mas o facto de ter que lhe dirigir uma palavra, como se o conhecesse, e conhecia, de facto, deixava-me um pouco deprimido.
Hoje, quando cheguei a casa, voltei a cruzar-me com ele nas escadas. Parecia que, às vezes, me fazia uma espera. Agora estava a arranjar uma caixa do correio. Eu entrei no prédio. Levava um ramo de flores na mão. Um ramo com treze rosas vermelhas. Uma por cada ano da relação que tinha com a minha mulher. E ele viu-me chegar com o ramo de rosas e largou um rasgado sorriso e disse Dia dos Namorados, hein? e eu anui.
Preparava-me para pôr o pé no primeiro degrau, para subir as escadas e ir para casa quando ele me colocou a mão no braço e me fez parar. Chegou-se ao pé de mim, com a boca próxima do meu ouvido e disse Eu cá é mais putas e vinho verde! e fez um pequeno sorriso.
Eu não me manifestei. Ou acenei levemente a cabeça, já não me recordo, e foi aí que ele começou Nunca tive sorte com as mulheres, sabes? A maior parte das que tive, foi a pagar. E isto, hoje, está difícil. Ser porteiro não dá muito. Não dá nada! Dá para ir vivendo, assim, aos poucos de cada vez. Uma vez ou outra vou à bola. Em Maio vou à feira. Mas não tenho férias. Também, para onde é que ia? Sozinho?
Ele já tinha largado o meu braço. Mas eu não conseguia ir embora. Queria ir. Mas não podia. Não podia deixá-lo ali sozinho. A necessidade de falar. De contar algo. Algo que eu não queria ouvir. Mas tinha de ouvir. Tinha de lhe dar tempo. Um pouco do meu tempo. Em nome do passado. Afinal, tínhamos sido amigos.
Disse Putas e vinho verde? Mais o YouPorn e uma garrafa de Seven-Up. A vida está complicada, pá…
Senti-o ficar mais pequeno. Os ombros descaíram para a frente. O pescoço enterrou-se pelo corpo. Os olhos encovaram num buraco negro. De repente descobri-lhe o cabelo grisalho. A barba rala, com peladas, e muitos pêlos brancos. Vi as mãos a tremer.
Baixei a mão com que agarrava o ramo de flores. Aproximei-me dele. Dei-lhe um abraço. Dei-lhe um abraço sentido. Éramos crianças e estávamos na rua a brincar. Eu e ele. À bola. Com os carrinhos de rolamentos com que caí e esfacelei os joelhos. Aos índios, com arcos e flechas feitos de varetas de chapéus-de-chuva velhos e com o qual lhe ia vazando um olho. Felizmente não aconteceu nada.
E disse-lhe baixinho Estou aqui! Se precisares de alguma coisa, estou aqui, pá.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/14]

A Avenida

Vista daqui, esta zona da cidade continua igual. Há cinquenta anos que as formas são as mesmas. Mudam alguns conteúdos, poucas formas, e, no fim, está tudo praticamente na mesma.
Estou aqui na Avenida da cidade. A Avenida. Toda a gente sabe qual é. Mesmo que, na realidade, seja a única que não é. Já foi importante. Já mandou na cidade. Hoje definha. Os homens matam a cidade por ausência e desinteresse. E acumulação de erros que teimam em continuar a cometer.
Já houve por aqui vários cafés. Bastantes até. Muito frequentados. Com charme. Uns modernos, à época. Outros clássicos. Desapareceram todos. Vieram as agências bancárias. Ocuparam tudo. Agora foram-se embora. As agências. Acabaram com o pouco que restava depois de já terem morto a Avenida.
Às vezes penso que esta gente não merece a cidade que tem. Teve.
Lembro-me de vir para aqui, para esta mesma varanda, aqui neste terceiro andar, e sentir que estava no tecto do mundo. As pessoas pareciam-me formigas a correr lá em baixo. Às vezes deixava cair balões com água sobre a cabeça das pessoas. Às vezes cuspia. Empoleirava-me no muro da varanda e deixava cair uma bola de cuspo, para ver o tempo que demorava a cair cá de cima até lá baixo, e se acertava em alguém. Na cabeça de alguém. Às vezes fazia concursos com os meus amigos, habitantes de outras portas, também habitantes da Avenida. Bateram à porta muitas vezes. Pelos balões. Pelos balões de água. Pelas cuspidelas. Pelas pedrinhas de brita mandadas cá de cima. Pelos papelinhos dobrados, lançados em fundas de elástico presos aos dedos. Uma vez veio cá a polícia. Tinha andado a rasgar cartazes políticos na rua. Foi depois do 25 de Abril de 1974. Andava tudo louco com as eleições. Comícios na Praça, aqui ao lado. A sede do Partido Comunista atacada ali em frente. A enorme fila à volta do cinema para ver Chove em Santiago de Helvio Soto. Os tiros. As manifestações. As bandeiras. As tarjas. Eu andava aí pela rua, eu e os meus amigos aqui das portas vizinhas, a brincar. A cabriolar. Fazíamos muita merda. Na rua. A maior parte dela não chegava a casa. Aos ouvidos dos nossos pais. Roubávamos flores no jardim, que também definha hoje, para darmos às nossas mães. As mães que vinham gritar à janela por nós. Em diminutivo, estava tudo bem. O nome composto estava tudo mal. E lá voltávamos a casa. Para almoçar. Ou jantar. Ou para fazer os trabalhos de casa. Jogávamos à bola nos passeios. No largo. Partíamos montras. Rasgávamos cartazes dos partidos, porque sim. As pontas estavam soltas, a esvoaçar ao vento e, bastava um puxão. Um pequeno puxão. Vinha tudo atrás. Até o cimento das paredes. E a polícia veio cá a casa. O meu pai prometeu um sermão. Mas nunca chegou.
Estou aqui agora, a beber um copo de vinho e a fumar um cigarro. A vista não é maravilhosa. Nem desafogada. Esbate com o prédio mal tratado ali de frente. E depois? Continuo a ouvir a voz grave saída dos altifalantes fanhosos da Rodoviária. Uma companhia de anos. Saía, não saía. A Rodoviária. Passam os anos e continua aqui. Tomar uma decisão é difícil. Se sai daqui, é mais uma facada nesta artéria que já perdeu toda a importância para o Shopping feito nas margens da cidade (nem perto nem longe, ali, onde ajuda mais à morte urbana). Se fica, é mais um cancro a apodrecer a cidade. Já apanharam algum autocarro para onde quer que fosse? Para Fátima, por exemplo? Já tiveram de frequentar as casa-de-banho? Pois…
Cinquenta anos a frequentar esta varanda. Os mesmos pombos. As mesmas camionetas. Os mesmos bandos de adolescentes que desaguam para as escolas da cidade, de manga curta em pleno Fevereiro. Que raiva já não ser assim. Já não ser adolescente. Já não ter o sangue quente. Já não ter essa tesão furiosa que afasta o frio e o mau tempo.
Agora bebo vinho. Comecei com a mama da minha mãe que me dava de mamar aqui à janela. Um pouco recuada da varanda por pudor. Passei às canecas de leite. Às garrafas de leite achocolatado. Aos sumos da Superfresco. À RC Cola. Às garrafas de cerveja. Ao vodka. Ao whiskey. Muita bebedeira curada aqui à janela. De Verão. De Inverno. A apanhar o fresco da noite. Da madrugada. Das manhãs soalheiras. Acordar, vomitado, com o som roufenho a avisar que a carreira para o Janardo estava na linha seis e ia partir. E eu rebolava na varanda, sobre o vomitado que teria de lavar.
Olho agora daqui e a única coisa que se mantém é o Teatro. Que já foi cinema. O cinema fugiu-lhe. O teatro é quando calha. Agora são os espectáculos de variedades como eram há cem anos.
Às vezes sinto-me aqui sozinho na Avenida. Não há ninguém. Está vazia. Em silêncio. Gosto quando está em silêncio. Mas entristecem-me as ausências. O deserto de gente. A falta de cidade. Uma artéria estrangulada nas más decisões políticas, ano-após-ano.
Ao longo dos anos pensei várias vezes em lançar-me da varanda. Quando novo, desistia por cobardia. Não me sentia com coragem para um tão grande acto de desespero. Quando cresci, porque percebia que, afinal, a altura não era assim tanta e que a probabilidade de ficar aleijado era bastante grande. Agora porque já não consigo passar as pernas para o outro lado da varanda.
Deixo-me ficar aqui sentado. Um copo de vinho tinto numa mão. Um cigarro na outra. Fico a olhar a pouca vida que ainda corre lá em baixo. E volto para dentro quando arrefece. Sento-me frente à televisão e vejo o programa do Hernâni Carvalho. E já não sei qual de nós está mais doente.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/06]

Os Domingos de Bacalhau Assado no Jota

Eu agarro as más memórias e enterro-as fundo até desaparecerem da face da terra e eu as esquecer.
Por isso só me restam as boas memórias. E então passam a ser só memórias. É por isso que as minhas memórias são deliciosas.
E das melhores memórias que me alimentam estes dias secos e tristes estão os Domingos de bola em Leiria. Se a União ganhasse, o meu pai levava-nos a lanchar ao Jota, na Barreira. Era assim uma espécie de lanche ajantarado num Domingo em fim-de-dia.
Invariavelmente bacalhau assado na brasa, desfiado e apresentado em travessa cheia de azeite aquecido com alho picado. Normalmente vinha na companhia de migas, migas de Leiria que são diferentes das alentejanas. As migas de Leiria são feitas de couve migada, ou nabiça, e broa esfarelada. Há quem faça algumas variantes destas migas juntando arroz branco ou feijão frade. Mas isso aprendi mais tarde. Ali, naquela altura, naqueles tempos, era assim. Demorei a apreciar as migas. Mas quando me passaram pelo estreito, nunca mais as perdi de vista. E o azeite do bacalhau era todo embebido em pedaços de broa ou de pão do Soutocico.
O meus pais bebiam vinho que era servido em jarros de barro, não sei de onde provinha. Eu bebia uma Superfresco de Laranja, uma Gasosa ou uma RC Cola, a terceira cola americana que era representada pela Superfresco, de Leiria, mas que nunca vingou. Também bebia nessa altura Laranjina C, com o C entre aspas, assim “C”, mas eu não gosto das aspas, uma garrafa redonda, bonita, mas não sei se havia no Jota.
Se o dia fosse mesmo de festa, se a União tivesse ganho o jogo, havia direito a sobremesa gulosa, normalmente o Doce de Três Sabores, que ainda hoje existe, e que consiste em bolacha partida, natas e leite condensado, ou um Doce de Amêndoa, do Zé dos Doces, que era uma fabulosa bomba calórica mas que na altura ninguém se importava. Hoje já é difícil de encontrar e quando há, não é a mesma coisa.
Acho que é a falta desta composição dominical que me levou a deixar de gostar dos Domingos. Perderam a magia que o meu pai lhes conferia. E isso também me aumenta as saudades.
Que porra, mesmo quando são boas, as memórias, trazem sempre um fiozinho de tristeza lá dentro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/07]