O Caminho Até ao Esquecimento

Eu passava pelo corredor, a porta do quarto dela estava encostada, tinha medo de estar fechada no quarto, era muito medricas, mas ao mesmo tempo queria estar sozinha, isolada do resto da casa, do resto da família.
Em silêncio, espreitava para dentro do quarto pela frincha da porta encostada e via-a sentada na cama, as costas apoiadas na parede fria e a almofada a aparar a cabeça, os pés, os pés dentro das sapatilhas sujas, acho que nunca tinham sido lavadas, espojados em cima da coberta da cama. A cama estava por fazer, claro. Ela pegava nas orelhas do edredão e da coberta e puxava para cima, mas não fazia a cama. Deitava-se todos os dias assim, naquela espécie de enxerga mal parida de panos enrodilhados neles próprios, dia-após-dia, durante uma semana, até ao dia em que a mãe lhe mudava a roupa da cama e então sim, a cama era feita, bem feita, e ela conseguia dormir, pelo menos uma vez por semana, numa cama lavada, de lençóis esticados e frescos, e um edredão sacudido de lixos e cheiros que ela acumulava ao longo da semana até ser novamente Sábado e a mãe entrar pelo quarto a dentro, a ralhar, mais uma vez, com ela, mas as conversas a entrarem e a saírem à mesma velocidade, a velocidade de quem não quer saber nada disso e consegue viver assim sem estas merdas pequeno-burguesas de limpeza e respeito pelos pais.
Ela estava então com as sapatilhas em cima da coberta, uma coberta que só não parecia tão nojenta porque era escura, os auscultadores nos ouvidos e o telemóvel na mão, a ler não-sei-o-quê, a escrever não-sei-o-quê, a ouvir não-sei-o-quê e, se calhar, na conversa com sei-lá-quem.
Os dias repetiam-se mecanicamente. Eram sempre iguais. Ela estava sempre em cima da cama agarrada ao telemóvel. Nunca a via estudar. As notas, embora não tivesse negativas, eram de um suficiente que me exasperava. Para mim aquilo era medíocre. Não estudava. Se estudasse… Se estudasse podia ter boas notas e escolher, afinada, o curso que mais lhe agradasse. Assim, com aquelas notas de cábula, aspirava a quê? Balconista de Centro Comercial sem consciência sindical?
Eu percebia que o mundo dela era tecnológico. Eu próprio chegava a pedir-lhe ajuda em momentos mais complicados quando o telemóvel se armava em teimoso. Ou o computador encontrava alguma incompatibilidade entre os programas oficiais e os pirateados. Mas não ia além disso. Numa conversa estava sempre calada. A falta de cultura geral deixava-me apreensivo. Não seguia as notícias. Não reconhecia nomes. E, no entanto, tentava fazer-me passar vergonhas com os nomes dos youtubers que seguia. Mas o que é que aqueles programas de merda contribuíam para a felicidade de qualquer um de nós? Que coisas é que aqueles programas nos ensinavam? Que caminho lhe ofereciam? O futuro não iria passar por ali, também.
Eu entrava no quarto, ela levantava a cabeça do telemóvel e revirava os olhos como se dissesse O que é que este quer agora? O este era eu, o chato do pai. E o que eu queria era duas ou três palavras. As palavras que abafava durante o jantar silencioso que fazia connosco, comigo e com a mãe. Comia, quando comia, com a cara fechada sobre o prato. Às vezes até parecia que sorvia a comida. Como se tudo fosse sopa. Outras vezes comia assim de boca aberta. Eu a chamar-lhe a atenção e ela a fazer de propósito, a mastigar sonoramente, a abrir ainda mais a boca cheia de comida e a mostrar-me a pasta em que a estava a transformar. E eu não conseguia não rir. Eu e a mãe. Ainda lhe dizia Não sejas parva!, mas ela insistia naquelas parvoíces e eu e a mãe achávamos piada. Mas logo se levantava. Nunca queria sobremesa. Nem doces nem fruta. Comia o que comia, não esperava por ninguém, e depois saía da mesa. Às vezes regressava à cozinha para fazer crepes ou panquecas, procurar uns biscoitos, um iogurte, e a mãe perguntava-lhe se não tinha jantado ao que ela respondia sempre Estou a crescer! Estava sempre a crescer. Estava sempre a crescer mas acabou por nunca crescer.
Então abri a porta e vi a cama bem feita. Edredão e coberta bem esticadas. Várias almofadas organizadas em cima da cama. Há quantos anos não se sentava ninguém naquela cama? Já tinha dificuldade em lhe sentir o cheiro. Só não me esquecia da cara porque uma fotografia numa moldura em cima da secretária mo lembrava de cada vez que entrava lá dentro.
Agora já não havia pés em cima da cama. Agora não havia auscultadores nos ouvidos a ignorar mundo em troca de uma qualquer musiqueta de dança parva. Agora era somente uma memória. Uma memória que estava a fazer o seu caminho até ao esquecimento. O meu esquecimento. E será que isso era possível? Será que eu alguma vez a poderia esquecer?

[escrito directamente no facebook em 2019/12/26]

Os Filmes Pornográficos do Meu Pai

Eu tinha onze anos quando descobri os filmes do meu pai. Os filmes super-8. Estavam numa caixa de latão. Uma caixa de latão igual às que a minha mãe usava como caixas de costura. Iguais às que a minha avó usava para colocar os biscoitos.
Andava a remexer nas coisas dos meus pais. Eles não estavam em casa. Estava só com a minha avó. Com a minha avó e a minha irmã mais nova, que era tão nova que não conta para aqui. Andava numa caça ao tesouro. Naquela altura não havia Youtube Kids, Cartoon Network ou Canal Panda. Não havia consolas de jogos. O primeiro que entrou lá em casa foi o TV Brinca e era uma espécie de jogo de matraquilhos onde só havia dois traços a defender uma baliza de um rectângulo que andava de um lado para o outro. Mas isso foi mais tarde. Já não recordo bem quando. Mais tarde. Mas foi antes do Spectrum. O Spectrum fazia muito barulho a arrancar. Era uma espécie de ritual para entrar num mundo mágico. Era como as provas de aptidão para entrar no grupo dos Pequenos Vagabundos.
Para me entreter, e como só havia televisão à hora do almoço e à noite, aventurava-me nos fundos dos armários do corredor e do quarto dos meus pais. À procura de tesouros. Foi assim que descobri que já tinha sido louro. Quando era bebé. A minha mãe tinha guardado um envelope com dois anéis de cabelo, loirinhos, e o meu nome em diminutivo, escrito à mão, no envelope.
Naquele dia descobri, nos confins do armário, debaixo de outras caixas que estavam debaixo de cobertores debaixo de vária toalhas, aquela caixa. Era de um latão dourado. E chamou-me logo a atenção. Abri-a com cuidado. Algum nervosismo.
Havia uma série de rolinhos de plástico. Com fitas. Fitas que se desenrolavam. Puxei algumas. Tinham imagens. Pareciam fotografias. Mas eu não conseguia perceber o que era. Eram muitas. Algumas dentro de caixinhas de cartão. Outras soltas.
Mais tarde falei desta minha descoberta lá na escola. Havia quem soubesse o que era. Filmes. O meu pai também tem filmes desses lá em casa, disse-me. Que filmes?, perguntei. De miúdas nuas, respondeu.
Miúdas nuas?, pensei.
Podemos vê-los lá em casa. Na máquina de projecção do meu pai, sugeriu. E eu disse Está bem! E ele ainda disse Traz amanhã. Vamos para minha casa. E eu voltei a dizer Está bem.
Foi um problema para ir buscar a caixa de latão dourada ao fundo do armário do quarto dos meus pais. Tive de esperar pela hora de me ir deitar. Não adormecer. Esperar que eles fossem para a sala. Ver televisão. Talvez A Visita da Cornélia. Talvez algum filme. Porta encostada. O som relativamente baixo. Uma pequena luz indirecta. Num candeeiro ao fundo da sala. Eu não adormeci. E em silêncio fui ao quarto deles. Às escuras. Só na companhia da luz da lua que entrava pela janela do quarto e me assustava um bocadinho. Tirei as toalhas. Os cobertores. As outras caixas. A caixa. A caixa de latão dourada. Voltei a meter tudo de novo no fundo do armário. As caixas. Os cobertores. As toalhas. O monte mais pequeno. Rezei para que a minha mãe não notasse que o monte estava um pouco mais pequeno.
Acordei cedo. Com vontade de ir para a escola. Ia fazer os trabalhos de casa com os amigos. Tudo ali na rua. Tudo vizinhança. A escola. Os colegas. Os amigos. As casas de uns e outros. E não havia medo da rua, naqueles tempos.
E no fim das aulas lá fomos. Em romaria para casa de um deles. De um de nós. A caixa. Os rolos de plástico. Que eram filmes. A máquina de projecção. A janela quase fechada para tirar luz à sala. E começou.
Éramos para aí uns cinco ou seis. Espalhados pela sala. Nos sofás. No chão. E começou o barulho da máquina. Rrrrrrrrr. E umas imagens. A cor. Umas senhoras. Talvez meninas. Num piquenique. Num parque. A comer. A beber. Depois tiraram as roupas. Começaram a brincar entre elas. Chegaram uns homens. Talvez rapazes. As raparigas foram ter com eles. Despiram-nos.
Na sala reinava o silêncio. Não se ouvia, sequer, o respirar de cinco ou seis adolescentes a verem o seu primeiro filme pornográfico. Bom, não ele. O miúdo da máquina de projecção. Esse já tinha visto os filmes do pai dele. Até sabia mexer na máquina. Mas também não respirava.
Ficámos em silêncio a ver o resto do filme daquele pequeno rolo. Um tempo curto, mas que pareceu longo. E havia muitos mais rolos para ver. Mas não vimos.
Quando aquele rolo chegou ao fim, a máquina continuou no seu barulho imparável Rrrrrrrrr. Ninguém se mexeu. Ninguém disse nada. Continuámos em silêncio, sentados exactamente como estávamos. Como estivemos sempre, a ver o filme. Como se ainda estivéssemos a ver o filme. Durante algum tempo. Até que alguém disse Vamos jogar à bola? E lá fomos.

[escrito directamente no facebook em 2019/02/26]