Não Quero Ser Feliz, Quero Viver

Ser feliz? Eu não quero ser feliz! Eu quero viver, foda-se,

subir o Amazonas, descer o Mississippi, mergulhar no Ganges, no Ganges não que aquele rio está nojento e cheio de merda, mas podia mergulhar no Tejo, ali na Amieira, se houvesse água suficiente porque agora nunca se sabe, embora o ministro garanta a pés juntos que água é coisa que nunca falta ao Tejo, e eu acho que o ministro nunca viu o Tejo para além das janelas do seu gabinete no Terreiro do Paço, se é que é no Terreiro do Paço que o ministro tem o gabinete, eles são tantos e nunca sabemos quantos são, quem são, onde estão, e eu gostaria de subir o Kilimanjaro, o Himalaias e o K2, deslizar pelas encostas dos Alpes abaixo, cruzar o Atlântico até à Terra do Fogo e subir as Américas, as Américas todas, desde a América do Sul até à América do Norte, passando devagar, e com paciência, pela América Central, e apreender bem toda a América Latina, subir o Chile até ao deserto do Atacama, fazer o trem da Morte do Pacífico ao Atlântico, nadar nas Caraíbas mas com atenção aos tubarões que também são gente e gente perigosa, mas não são maus, são assim, visitar Fernando de Noronha e Paraty, beber uma Skol em Manaus e deixar-me transpirar até ficar magrinho e elegante, navegar por entre os manguezais do Maranhão e dançar Nação Zumbi em Pernambuco, ir ao terreiro na Bahia, visitar os pueblos no México e comer chili até deixar a língua vermelha, mastigar folhas de coca na Bolívia e sobreviver à ditadura da Bíblia que persegue o continente, e comer um bife de chorizo, que saudades tenho de um bife de chorizo barrado de chimichurri, ir até ao Alaska, pular o Pólo Norte e descer à Sibéria caminhar pelos tãos todos, Azerbaijão, Turquemenistão, Uzbequistão, Cazaquistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão, Quirguistão, que já foi Quirguízia e outras coisas porque já todos foram outras coisas que os homens não conseguem estar sossegados, raios os partam, a ver a vida fluir, têm de estar sempre a fazer uma merda qualquer, guerras, batalhas, revoluções, a chatear o vizinho pelo simples prazer de colocar uma bota cardada na cabeça de uma criança que só quer ouvir o vento, o chilrear dos pássaros, a erva a crescer como uma vez me disseram que era o que acontecia no Laos, as pessoas sentavam-se a ouvir a erva a crescer nos campos e sim, gostava de passear por lá, pelo Laos, Vietname, Cambodja e partilhar tigelas de arroz com velhos mais velhos que a Terra, e esqueci-me que também queria andar a cavalo pela Mongólia e cruzar a China pela Grande-Muralha e poder ser visto da Lua por algum selenita que possa existir, e o Neil Armstrong não os viu porque se esconderam todos quando viram chegar o boneco da Michelin que podia levar também, não se sabe, nunca se sabe, uma Bíblia na mão para evangelizar toda a gente e pôr toda a gente de arma na mão, dar um passo de uma Coreia à outra, e no que foi um Vietname ao outro se descobrisse onde já foi a fronteira, e regressar à Indochina que também há-de ficar lá para esses lados mas só os franceses e a Marguerite Duras é que sabem, e tenho saudades de ler Marguerite Duras, na verdade tenho saudade de ter a idade que tinha quando tinha tempo e vontade de ler os livros da Marguerite Duras e da Yourcenar, e navegar ao Deus-dará pelos Mares da China com o Corto Maltese, e descer às nésias, a Polinésia, a Micronésia e a Melanésia, mergulhar no Mar de Coral, cruzar a pé o deserto australiano, apascentar ovelhas nas montanhas neo-zelandesas, navegar até aquele ponto, aquele ponto exacto, que é o ponto mais solitário do mundo, onde no meio do Oceano Pacífico estamos o mais longe possível de terra, de gente, de civilização, de dor, de obrigação, e regras e deveres, e da religião e da Bíblia e de todo o consumo a que sou obrigado, mas isto não iria durar muito tempo que eu iria querer voltar para o meio de gente, cruzar o canal do Panamá para regressar ao Atlântico e descer a África onde nasci, onde nascemos, nós todos, onde todos temos origem, uma só raça e várias cores, o suficiente para o ódio dos néscios, e fazer o caminho de Capelo e Ivens de Angola a Moçambique, e mergulhar nas águas tépidas do Índico mas com cuidado que é uma zona de muitos tsumanis, e eu quero conhecer tudo e ver tudo e perceber tudo, mas há coisas que não quero ver, e não quero ver um tsunami no Índico, nem o Stromboli em actividade, nem a falha de Santo André a tremer, nem uma avalanche nos Alpes, mas dar voltas e mais voltas à Terra, a pé, a cavalo, de bicicleta, de barco, a subir e a descer, a comer, a beber, a ler, a ver, a apreender, a renascer, a sorrir, a chorar, a correr, a gatinhar nos braços de uma mulher, de um homem, branco, preto, vermelho, amarelo, às bolinhas cor-de-rosa, comer queijos, uvas, tâmaras, fios-de-ovos, beber vinhos, cervejas, licores, cheirar perfumes, odores, descer cascatas, nadar em rios e mares, amar nas dunas, nas praias, deitado no musgo, em camas alegres e bem resolvidas, ouvir música, ver concertos, ler ainda mais livros e revistas e jornais, passear com animais e passear de chinelos, sapatilhas, botas, ao frio, ao calor, no Verão, no Outono, no Inverno, na Primavera, no Hemisfério Norte, no Sul, no Médio Oriente e visitar Veneza enquanto não é Atlântida, e ser tudo e todos, e falar todas as línguas do mundo, e acordar em todas as camas do mundo, em todos os cantos do mundo, em paz com toda a gente do mundo, mesmo com os que ainda não sabem que a vida é muito mais interessante se for vivida assim, desta forma, vivida

e depois ficar furioso ao ser acordado por duas mulheres cinzentas que tocam a campainha de casa para me falarem da Sentinela e eu percebo que sonhava, não vivia, e então faço uma pequena mochila, e parto de casa nesse mesmo momento, embarco num barco para o outro lado do equador, e vou finalmente subir o Amazonas, preâmbulo para uma viagem a conhecer todo o mundo e tudo o que o mundo tem para me dar antes de encetar a minha viagem derradeira para Marte, onde me espera, finalmente, a imortalidade.

[escrito directamente no facebook em 2019/11/19]

Um Tango Mortal no La Poesia, em Buenos Aires

Buenos Aires.
Estava no café La Poesia, no Barrio de San Telmo. Tinha Todos os Fogos, o Fogo nas mãos. Na mesa, um copo de vinho tinto. Tinha pensado em beber uma Quilmes, mas as madeiras que me rodeavam pediam vinho. E vinho foi. Alma Negra. Uma empanada de carne. Ainda restava lá na mesa um bocado de queijo. E pão. Que ia depenicando entre as páginas de Julio Cortázar.
A madeira das mesas, das cadeiras, dos armários, do balcão, tudo aquilo me fazia sentir aconchegado. Rodeado de garrafas de vinho. Dezenas de garrafas de vinho. Queijos. Muito queijos. Azeitonas. De todo o género e feitio. E inúmeros cartazes publicitários antigos que me faziam crer estar numa máquina do tempo.
Tinha ido a Buenos Aires dar um seminário no Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales. Aproveitei para pôr em dia o meu conhecimento de cinema argentino. E encher a barriga de misérias. Já tinha decidido jantar um suculento bife de chorizo cheio de chimichurri. Mas ainda era cedo. Depois das aulas regressei ao La Poesia para descansar e retemperar forças. Já lá tinha estado de manhã a tomar o pequeno-almoço. Café e medialunas com dulche de leche. De comer e chorar por mais. E eu nem gosto de doces.
Despachado das aulas, lá estava de novo no La Poesia.
Estava então com o Cortázar nas mãos quando entra um homem, jovem, elegante, de fato de bom corte e sapatos de lustro puxado, cabelo com brilhantina penteado para trás com um risco bem marcado de lado, barba feita e um pequeno bigode, fininho, sobre o lábio superior. Circulou rápido entre as mesas, parou no meio do café, olhou em volta, virou-se para o empregado dentro do balcão e estalou os dedos no ar. O empregado parou a música ambiente que estava a tocar, em que eu nem tinha reparado, e colocou um tango. Toda a gente no café parou o que estava a fazer e fixou os olhos na personagem. Silenciaram-se as conversas. Pararam as leituras de livros e jornais. O jovem, esquivando-se ao toque nos estreitos caminhos entre as mesas, foi até um casal de meia idade que lia o jornal e bebia vinho a copo. Estendeu a mão à senhora que sorriu, envergonhada, olhou para o homem ao seu lado, que fez má cara, e deu a sua mão ao jovem, que a segurou, enquanto ela se levantava.
O jovem levou a senhora para o centro do café. O apertado centro do café. Eu larguei o Julio Cortázar na mesa. Agarrei no copo de vinho. Trinquei um bocado de queijo e apreciei. O jovem agarrou na senhora e começou a dançar. A dançar o tango mantendo-a colada a ele. A dançar de uma forma muito sensual. Sexual. Erótica. Os olhos que se comiam. As ancas que se tocavam. Os movimentos que pareciam lançar os peitos da senhora para fora da camisa. O nariz dele que contornava o pescoço dela. Que a cheirava.
O homem, sentado à mesa, de jornal aberto à sua frente, olhava com desagrado a dança.
A música termina. O jovem aperta a senhora e beija-a na boca. Um beijo intenso. O homem levanta-se da mesa, larga o jornal no chão e corre para o centro do café. Puxa a mulher violentamente para trás. Ela cai sobre uma cadeira e resvala para o chão. O homem agarra o braço do jovem. Este leva a mão ao bolso das calças. Traz uma navalha-borboleta na mão. Abre-a. Espeta-a na barriga do homem. Este pára. Larga o braço do jovem. Leva a mão à barriga. Olha-se. Vê sangue a sair por entre os dedos das mãos. O jovem endireita-se. Enfia a navalha-borboleta no bolso traseiro das calças. Estica o casaco. Faz uma vénia à senhora que continua caída no chão. Levanta a mão num adeus arrogante para todo o café e vai-se embora.
O homem cai de joelhos sobre si próprio, com sangue a sair-lhe da barriga e a tombar sobre o chão.
O empregado de balcão faz uma chamada no telemóvel.
Os clientes que estavam no café começam a sair.
Eu meto o queijo na boca. Bebo o resto do vinho. Agarro no Cortázar e também saio do café.
Ainda vi a senhora a arrastar-se de joelhos para o homem que jazia deitado no chão. Ainda vi o empregado a olhar para mim enquanto me ia embora sem pagar. Ainda vi o sangue no chão. Ainda ouvi a sirene da polícia.
Acelerei o passo.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/20]