Um Gajo Escangalhado

Sou um gajo escangalhado. Tiro fotografias imaginárias às minhas mazelas. Não se vêm, mas estão cá.
Aparentemente estou saudável. Escapo às constipações do Inverno. Sobrevivo aos meus ataques de bronquite, mesmo na ausência do Ventilan. À falta de laranjas, vou tomando Cecrisina quando tenho dinheiro. Lavo os dentes três vezes por dia. Por enquanto ainda com pasta dentífrica. Mesmo quando não como, o que tem acontecido ultimamente. Não tenho fome. Agora de Inverno deixei de tomar banho diariamente porque tenho frio. E poupo na água, no gás, no champô, no sabonete. A minha perna bamba está mais forte. Deixou de doer. Já não coxeio. Já não uso a bengala. Ainda tenho bastante cabelo, mesmo que com grande entradas nas frontes. Herança do meu pai. Fisicamente não me posso queixar. Sou um sujeito relativamente saudável. Acho.
O meu problema é outro.
Tenho a cabeça em permanente revolução. E já não vai lá com químicos. Não com todos estes que tenho tomado. O único resultado são as horas que passo sentado na retrete a tentar fazer algo que não consigo. Também não tenho nada para conseguir. Às vezes saio de lá com as pernas dormentes. Já cheguei a cair quando uma perna se recusou a mexer-se e eu nem a senti recusar. Estou baralhado. Quebrado.
Hoje estava no café. Insisto em sair de casa. Forço-me a isso. Às vezes tento não estar vencido. Fui beber um chá e tentar ler A Bola. Ao lado, uma miúda contava a outra como o namorado lhe dava uns estalos. Não é bem bater-me, dizia, É acordar-me, que eu às vezes não percebo bem as coisas. Eu tive vontade de lhe dizer que ele é que a estava a adormecer e que era um canalha e que o melhor era ela parar as coisas logo ali, matar o erro à nascença, mas não fui capaz. Tenho dificuldade em falar com estranhos. E toda a gente me é estranha. Mesmo quem eu já conheço. Tudo me é estranho. Vejo-lhes as bocas a abrir e fechar e só vejo as cáries e os dentes chumbados e podres. Tudo é doença. E morte. O som das vozes desaparece em fade sob o som ambiente que aumenta muito, tanto que me ensurdece. Não consegui dizer nada à miúda e desatei a chorar. Nem sei porquê. Saí do café. Choquei com um tipo à entrada e mandei-lhe dois murros violentos. Deixei-o estendido no chão. E fui embora. Não senti remorso. Senti-me mais leve. Voltei para casa. É onde me sinto melhor. Mais seguro. Mas atento.
Tento pegar num livro e não consigo passar da primeira página. As letras baralham-se. As palavras fogem. Perco-me nos sentidos. Canso-me. Os olhos ardem. Vomito.
Ando obcecado com a dor. A dor da alma. Leio nas notícias os males do mundo e perco as forças. O meu corpo não se sustenta. Dobra-se. Cai. Enfio-me debaixo dos cobertores e deixo-me lá ficar dias inteiros. Às vezes toca a campainha. Às vezes toca o telemóvel. Às vezes acusa mensagens. Às vezes chegam, sonoramente, e-mails. Às vezes há gente a tentar contactar comigo. E eu fujo. Tenho medo das pessoas. Tenho medo de mim. Não quero ver ninguém.
Deixei de escrever. Não tenho nada para contar a ninguém. Não tenho ninguém a quem queira contar alguma coisa.
Não tenho sentido. Não há sentido. Vejo as pessoas correr e pergunto-me Para onde vão? Para quê?
Deixei de perceber o Natal. A Páscoa. O Carnaval. E todas as outras celebrações. Celebrações de quê? De estarmos vivos? E estamos vivos para quê?
Sinto-me numa queda existencial adolescente. Não vejo sentido em nada. Não vejo sentido em mim. Quero fugir de casa dos meus pais. Mas já não vivo com eles.
O mundo todo parece algo que está cada vez mais distante. Os sons tendem a afastar-se, como quando estamos com sono. As imagens tornam-se difusas, como se estivesse a ficar com a visão embaciada. Os pensamentos sobrepõem-se uns aos outros numa amálgama caótica e não entendo nada de nada.
Acendo um cigarro e pergunto-me porque é que fumo. E dou conta que é a única coisa com sabor na minha vida. Gosto de fumar. Gosto de ver o fumo subir pelas luzes dos candeeiros e acumular-se no tecto da cozinha. Gosto de sentir o fumo dos cigarros encher-me os pulmões e dificultar-me a respiração. É a única altura em que me sinto vivo. Mas nunca sei se quero continuar vivo ou de pulmões cheios.
É possível que com vontade e alguma ajuda eu tivesse alguma espécie de arranjo. Mas acho que não quero. Perdi os pais. Perdi os filhos. Perdi as vontades. Perdi os sentidos.
Agarrei nos livros e mandei-os pela janela. Vi-os voar. Vi as folhas soltarem-se, rasgarem-se. Vi as estórias fugirem pelo mundo. O cigarro na mão. A queimar-me os dedos. Os dedos a ficarem amarelos. E depois começo a chorar a perda de todas aquelas estórias. Porque é que mandei os livros embora? Eu quero e não quero. Não sei mais nada. Sinto-me escangalhado. Mas acho que já não quero ser arranjado.

[escrito directamente no facebook em 2018/11/02]

Mas Qual País?

Vinha no carro. A TSF na rádio. Era um Bloco Central especial com os dois Pedros do costume e o super-Paulo da Caixa, que já o fora dos impostos e da saúde. Na conversa fiquei-me por um aforismo de Luís Montenegro repetido por um dos Pedros: O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Pois não. A vida das pessoas não estava melhor. Mas o país estava? Qual país? Este dos dois milhões de pobres? Dos salários mínimos de quinhentos e oitenta euros? Das pensões de sobrevivência que não chegam a duzentos euros? Dos velhos com terrenos sem futuro perdidos num interior que ninguém quer e que tem de os limpar em tempo recorde? Das pessoas expulsas dos centros das cidades pela ganância? Da pequena e grande corrupção? Dos processos que prescrevem ou desaparecem?
Senti-me deprimido.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Cheguei a casa. Acendi um cigarro e sentei-me no sofá, liguei a televisão e recostei-me. Estava cansado.
CMTV.
Manuel Pinho a lidar os deputados. Os Hells Angels. Os hooligans da Juve Leo e o assalto à Academia de Alcochete. A prescrição dos processos sobre as contas dos partidos da democracia. O desaparecimento de uma parte do processo contra Ricardo Salgado.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Levantei-me do sofá. O cigarro esquecido na mão.
Um jovem esfaqueado e morto à entrada de casa. Bruno de Carvalho a queixar-se à polícia por bullying do Sporting e a pedir audiência à Procuradoria-Geral da República. O botox da Ana Malhoa. Escolas com salários em atraso e falta de alimentos nas cantinas. Agentes da GNR castigados por passarem poucas multas. Os Maias. CR7. Jesus. O Benfica. Ufa!
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
O cigarro consumido caiu ao chão.
Fui ao quarto. Agarrei no revólver. Saí à rua.
Estava no lusco-fusco. Fim-de-dia. Muita gente na rua. A passear. A caminho de casa.
Comecei a disparar. Comecei a disparar a torto e a direito. Acertei. Acertei. Errei. Acertei.Errei.Errei.AcerteiAcerteiAcerteiErreiAcertei…
Os corpos iam tombando à minha passagem.
Eu estava a ajudar o país.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Matei os velhos para poupar nas pensões. Matei as crianças para poupar os serviços de urgência das Maternidades. Matei as outras pessoas todas para poupar o Serviço Nacional de Saúde. Matei brancos e pretos e mulatos e alguns chineses, e homens e mulheres, e alguns gays e trans e travestis para não me acusarem de racista ou sexista.
Matei polícias e médicos para poupar o Orçamento de Estado. Matei professores para evitar mais greves.
Ia limpando tudo à minha passagem.
O país está melhor, a vida das pessoas é que não.
Até que fui barrado.
A minha mãe viu-me a passar e a disparar e, quando passei ao pé dela, e eu não a vi, levantou a bengala e deu-me com ela na cabeça. Com força. Com fúria. Com muitas lágrimas nos olhos. Com muitos gritos de dor.
Eu cai no chão. E disse Obrigado, mãe!
E tudo ficou negro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/18]

Aos Velhos o Frio Chega de Véspera

Hoje consegui ir até ao rio. Não me atrevi a ir mais longe. Na televisão avisaram que vinha aí muita chuva. E se começasse a chover muito, a chuva apanhava-me no caminho. Não consigo andar muito mais depressa do que isto. Este andar lento, mas seguro, é o máximo que a bengala me permite.
Aos oitenta e cinco anos, e depois de todas as mazelas a que tenho sobrevivido, é um milagre que ainda consiga passear sozinho ao longo do rio.
Mas hoje bastou-me lá ir vê-lo. Fiquei por lá um bocado a ver a vida que gira lá à volta, mas não me atrevi a ir mais longe que isso.
Ainda vi uma rapariga a tirar fotografias a um rapaz que lia, ou fingia ler, um livro. Ainda vi um casal de namorados em arrufo que, depois de alguns berros e choro, acabou abraçado e aos beijos. Ainda vi mais uns corredores que nunca param de correr, vem sempre lá mais um, há sempre um, a correr ao longo do rio. Quem diria que havia assim tanta gente a gostar de correr?
Ainda vi uma velhota, de bengala, a passar por mim e a mandar-me um olhar daqueles! Era engraçada, ela. Deve ter sido muito bonita lá para trás, no tempo. Mas agora… De bengala… Velhota… Costas curvadas… Andar lento e pesado…
E, de repente, desatei a rir. Até parecia que eu era diferente. De bengala, velhote, de costas curvadas e andar lento e pesado, esse era eu. Era de mim que afinal estava a falar. Eu era isso tudo.
A velhota ouviu-me rir e ainda se virou para trás, devagar para não se desequilibrar, e sorriu para mim, mostrando satisfação pelo meu riso tão franco. Disse-lhe Boa-tarde, minha senhora!, que eu não sou deselegante.
Um rasgo de frio subiu pelas minhas costas acima e pensei que o dia estava a arrefecer. Não chovia, mas o frio da noite estava a chegar. Vinha de véspera para avisar os velhotes como eu. Ainda deitei um olhar à velhota que se afastava, e então, afastei-me eu também.
E pus-me a caminho para casa. Com um pouco de sorte ainda conseguiria apanhar a Rita Ferro Rodrigues e o João Baião naquele programa onde passam a vida a comer de boca aberta, esganados coitados, parece que passam fome, e dão dinheiro no fim do programa para quem ligou para lá durante a tarde. Pode ser que um dia me calhe a mim e me alivie o fim do mês.
Mas antes tenho de passar pela padaria que preciso de um pãozinho.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/24]

A Minha Mãe e a Amiga Dela

Entrei no café e sentei-me numa mesa junto ao vidro da montra com boa vista para o exterior.
Dali via passar as pessoas na rua. Assim quase como se estivesse ao pé delas, mas sem estar.
A miúda, de bandeja na mão, aproximou-se de mim e desejou-me os bons-dias. Uma educação que já vai faltando. Mas a miúda era educada e simpática. E sim, também era gira. Pedi um croissant folhado simples, imaginando-me em Buenos Aires a comer uma medialuna con dolce de leche. Uma fantasia como outra qualquer que não custava nada a ninguém, e a mim só me custava exercitar a memória e satisfazer as papilas gustativas. Mas acabei mesmo por ficar pelo croissant folhado e um café.
A miúda foi tratar de mim e eu peguei no livro que levava e abri-o na marca.
Olhei lá para fora e vi uma velhota, de bengala, a chegar muito devagarinho e sentar-se no banco de pedra que está no pequeno largo. Colocou a mala no banco, mas junto a si, debaixo do braço.
Virei-me para o livro. Mas não consegui concentrar-me. A velhota requeria a minha atenção. E vi-a, de mãos apoiadas na bengala, a olhar as pessoas que passavam por ela. Os adolescentes. Os adolescentes de mãos dadas, passada rápida, conversa alta que chegava indistinta ao café onde eu estava e as suas brincadeiras. Faziam cócegas uns aos outros, riam alto, abanavam-se muito, e eu reparei no olhar deliciado da velhota a observá-los.
A miúda chegou com o meu café e o croissant folhado simples. Agradeci. Coloquei o livro de lado na mesa. Rasguei um bocado do croissant e comi-o.
Subitamente, a velhota levantou-se rápida, numa rapidez só dela, e agarrada e suportada pela bengala correu, dentro do seu possível, para o outro lado do pequeno largo. Lá ao fundo passava outra velhota, também ela de bengala e um saco de plástico do Pingo Doce. A primeira velhota chamava pela outra enquanto se aproximava. Até que a outra a ouviu. E viu-a. E parou. E acabaram por ficar frente-a-frente.
Rasguei outro pedaço de croissant e coloquei-o na boca. Pus um pouco de açúcar no café e mexi-o com uma colherzinha.
As duas velhotas ficaram em pé a conversar um pouco. E depois viraram para ali, para onde eu estava, e começaram a andar, enquanto continuavam a falar.
Bebi o café de um golo e acabei com o resto do croissant ao mesmo tempo que as velhotas passavam frente ao vidro do café. Olharam lá para dentro e uma delas reconheceu-me. Sorriu. E chamou-me com a cabeça. Apontou para o saco de plástico do Pingo Doce da amiga e percebi que precisava de ajuda. Engoli o resto do croissant, larguei algumas moedas na mesa e saí para as ir ajudar a carregar o saco de plástico.
Enquanto as cumprimentava e pegava no saco de plástico, senti o olhar de toda a gente do café na minha direcção. Normalmente fico incomodado por ser o centro das atenções. Mas ali não fiquei. O centro das atenções não era eu, mas a minha mãe e a amiga dela. E senti-me contente por ainda podermos partilhar alguns momentos.
Depois fui atrás delas as duas, devagarinho, devagarinho, carregando o saco de plástico e ser prestável. Ainda voltei o meu olhar para o vidro do café. E vi a miúda a olhar para mim a sorrir.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/22]

A Passagem de Modelos

Ela sai de casa, todos os dias, de manhãzinha para apanhar o fresco do dia. Dá uma volta pelo quarteirão, olha as montras com coisas que já lhe dizem pouco ou nada, e segue, exercitando as pernas, agarrada à bengala que tanto lhe custou começar a usar.
Chega ao supermercado e senta-se numa cadeira à entrada, na zona da cafetaria, bebe uma meia-de-leite, come um pão com manteiga, e deita-se a ver a passagem de modelos, como ela chama às pessoas que entram e saem cheias de sacos e passadas rápidas. Conhece muitas delas, de vidas passadas, de outros tempos. Nesses encontros, gasta o tempo em viagens ao passado, em exercícios de memória.
Mais tarde ainda vai um pouco até à beira do rio. Senta-se num dos bancos que por lá existem, e deixa-se embalar pelo barulho da água a deslizar no leito, pela aragem que agita as folhas das árvores e pelo arrufo dos namorados que libertam os corpos e o desejo sem complexos ou castidade. Geralmente sorri, ao activar de novo a memória, e ao ver-se também ela ali, de mãos dadas, num beijo apaixonado, embrulhado em juras de amor eterno.
A memória é a sua novela.

[escrito directamente no facebook em 2017/07/12]