O Domingo em que Tomei Banho

Tomei banhinho para ir bem-cheiroso. Lavei o cabelo. Aparei a barba. Usei desodorizante. Vesti uma roupinha melhor. O pólo passado a ferro. Encolhi a barriga. Tudo para ser visto, bem visto, nas fila de espera para ir cumprir o meu dever de cidadão e votar. E depois…
Depois chego lá e não está ninguém. Ninguém. Ninguém para amostra. Foi chegar e depositar o voto na urna. Ainda perguntei se podia votar pelos outros e baixar a abstenção. Riram, as senhoras da mesa. Um riso amarelo sobre a piada estúpida e idiota. Ninguém me viu. Não vi ninguém. Tanto trabalho para nada. Descontraí a barriga. Voltei para casa. Vesti o pijama e caguei para o Domingo de merda.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/06]

O Domingo Tornou-se um Bom Dia

Estou em casa e olho para ela. Ela ignora-me. Já não nos falamos. Há dois meses que não nos falamos. Isso tem evitado que nos matemos um ao outro. Porque os olhares, os olhares disparam balas certeiras que nos fere mas não nos mata. Ainda estamos vivos. Ainda.
Mas hoje ouvi umas notícias.
Estou em casa e olho-a. Ela ignora-me mas eu não consigo não olhar para ela.
Hoje ouvi que a autora de um livro policial intitulado Como Matar o Seu Marido, Nancy Crampton Brophy, foi presa acusada de ter matado o próprio marido. Aparentemente ele foi morto exactamente como a esposa-escritora descreveu no seu livro best-seller.
Ela está a arranjar uma sandes de fiambre com manteiga. Bebe um copo de leite frio.
Eu não consigo beber leite. Acho que, com os anos, tenho-me tornado intolerante à lactose. Mas só do leite porque, estranhamente, tenho continuado a comer queijo sem problemas. Então, larguei o leite e comecei a beber vinho tinto a acompanhar o queijo.
Abro uma garrafa de vinho tinto. Adega Cooperativa de Portalegre.
Enquanto abro a garrafa, continuo a olhar para ela. Ela sai da cozinha a trincar a sandes de fiambre com manteiga sem olhar para mim. Sem levar um guardanapo. A espalhar migalhas. Cabra!
Fico na cozinha a beber o copo de vinho, encostado à bancada, e penso na outra notícia.
Uma mulher matou o marido com ajuda do amante. Mataram-no em casa e despejaram-no a cento e trinta quilómetros de casa. Mas morto com um tiro de pistola de uma arma registada pelo amante da mulher e o corpo enrolado num tapete da própria casa.
Abano a cabeça. As pessoas são idiotas.
Não, não tenho ideias parvas.
Não há crimes perfeitos. Leio livros há muito tempo. Vejo filmes à tempo demais para não saber que é assim.
Vamos continuar a não nos falarmos. Ela vai olhar para mim e eu vou ignorá-la. Eu vou olhar para ela e ela vai ignorar-me.
A casa é pequena. Não temos como nos evitar. Mas sabemos que vamos continuar assim. A olhar. Sem falar. A ignorar. E a foder uma vez por semana. Ao Domingo. Hoje.
Vou acabar o copo de vinho tinto e tomar um duche.
Quero estar bem-cheiroso. Mas é por mim, não para ela. Não a suporto. Mas gosto de estar bem-cheiroso quando ela se coloca em cima de mim. E se esfrega. E deixa cair a cabeça sobre o meu pescoço. E diz o quanto me odeia enquanto me beija. Não fala comigo. Fala com ela própria.
O Domingo tornou-se um bom dia.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/30]

A Noite em que Fugi de Casa dos Meus Pais

Quando fugi de casa dos meus pais, não fui longe. Enfiei-me no galinheiro e dormi toda a noite na companhia das galinhas. Era madrugada quando o galo me acordou. E foi o suficiente para sair de lá a tempo de ir roubar o pão que a padeira deixava na porta da vizinha, duas casas mais abaixo.
Naquela altura a minha mãe criava animais. Galinhas. Patos. Coelhos. Havia uns galos pequeninos que acho que se chamavam cocós. Eram muito chatos, impertinentes e, naquela noite que lá passei, foi o único bicho que andou em volta de mim a picar-me as pernas e a voar à minha volta para me azucrinar a vida. Os patos não me ligaram nenhuma e os coelhos, que eram enormes, pareciam umas raposas, tinham medo de mim e enfiaram-se no fundo das gaiolas onde as minha mãe os tinha colocado.
Eu sentei-me no chão, encolhido e encostado às gaiolas dos coelhos e fui recebendo o calor que emanavam. Alguns patos deitaram-se encostados a mim. Ignoraram-me, mas aproveitaram o meu calor.
Quando o galo começou a cacarejar, ainda noite, mas já com o horizonte a clarear, saí do galinheiro e pus-me a andar às voltas ali no bairro, a fazer não sei muito bem o quê, à procura de uma ideia, a tentar perceber o que fazer, até que vi a padeira a deixar o pão pendurado na porta da vizinha. Esperei que ela se fosse embora e fui lá buscar três papo-secos que me alimentaram a manhã.
Era meio-dia quando regressei a casa.
O meu pai não estava. Estava a minha mãe. Ela era doméstica, que era o que as mães que não trabalhavam fora, eram. Olhou para mim, como se eu não tivesse fugido na noite anterior e disse-me Onde é que andaste? Estás com um cheiro horrível. Vai tomar banho! Eu ainda argumentei que não era Sexta-feira, que ainda não era dia de banho, mas ela não quis saber.
Quando o meu pai chegou, para o almoço, eu estava lavadinho, penteado e muito bem cheiroso. O meu pai perguntou o que é que se tinha passado para eu estar assim a meio do dia e a minha mãe respondeu Está apaixonado!
Não sei de onde é que ela tirou essa ideia.
Uma semana mais tarde arranjei a minha primeira namorada.
Nunca mais fugi de casa.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/17]