Um Quarto ao Sul e um Calor Infernal

Calor. Um calor infernal.
Estamos no sul. Num quarto de hotel, à beira-mar. Numa terra a sul.
A ventoinha gira mecanicamente no tecto. Faz Flap-Flap-Flap que se mistura, languidamente, com o som das ondas do mar a bater lá em baixo na areia, e com o cântico das cigarras no monte de capim seco do outro lado da marginal.
A janela está aberta. Devia estar fechada para entrar menos calor no quarto. Mas nenhum de nós se quer levantar.
Ela está deitada sobre a cama. Nua. Está deitada, nua, sobre a cama. Tem a cama aberta. O lençol de cima puxado para baixo. Para os pés. Está transpirada. Tem uma respiração cansada. Vejo-lhe os movimentos do peito. Para cima. Para baixo. Depois pára. E de novo para cima. Para baixo. Olha para a ventoinha no tecto. Segue aquela canção com o olhar, Flap-Flap-Flap.
Eu estou sentado no sofá. Mais deitado que sentado. Esparramado. Estou esparramado e também estou nu. Também estou transpirado. Cai-me água pelo corpo abaixo. Tenho os cabelos compridos. Devia ter cortado o cabelo antes de vir para cá. Agora é a fonte da minha transpiração. Está quente, pegajoso e húmido. Tenho um cigarro por acender na mão. A outra mão agarra na pila. Está mole. Morta. Tento animá-la. Mas em vão.
Aos meus pés está uma garrafa de cerveja que larguei ainda cheia. Aqueceu mal a tirei do frigorífico. Morreu antes de a beber. Já não consigo levá-la à boca. Não consigo fumar. Não consigo foder.
Ela faz barulho. Desvio o olhar para ela, deitada sobre a cama. Vira-se ao contrário. Tem as costas marcadas a vermelho. Das dobras do lençol. Dá as costas à ventoinha. Tenta refrescar-se.
Eu olho-a. Mas nem a visão do seu rabo virado para cima me dá alento.
Está um calor de morte.
Ela balbucia qualquer coisa. Não percebo o que diz. E pergunto O quê?, e nem eu percebo o que acabei de murmurar. Aclaro a garganta. Está seca. Volto a dizer O quê? e olho para ela.
Ela continua deitada de costas na cama. Depois, muito lentamente, a arrastar-se, volta a virar-se de barriga para cima. Pára quieta a recuperar do esforço. E diz Não consigo foder contigo!
Eu olho para ela. Vejo-a debaixo da ventoinha que continua no seu Flap-Flap-Flap imparável. Tenho a pila mole na mão. E digo Está morta!
Percebo que ela não percebeu. Nem eu percebi. Tossico. Tento aclarar, de novo, a garganta seca. Digo Eu também não!
Ela levanta-se. Devagar. Senta-se na cama. Olha à volta. Agarra nas cuecas. Veste-as. Levanta-se da cama. Agarra no vestido caído pelo chão e enfia-o pela cabeça e deixa-o deslizar ao longo do corpo. Enfia os pés nas Havaianas e sai do quarto. Ouço a porta a bater.
Eu fico ali sozinho. Eu, o Flap-Flap-Flap monocórdico da ventoinha no tecto, as ondas do mar a morrer na areia, lá em baixo na praia, e as cigarras em grande festival de cantorias entre o capim do monte lá do outro lado.
Não sei se percebi o que é que acabou de acontecer.
Está muito calor. Um calor infernal.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/28]

A Noite que Não Foi a Noite

O tipo andava lá de um lado para o outro. Depois voltava para trás. E repetia tudo. Parava e olhava. Respirava fundo. Parecia. Abanava a cabeça. Voltava a caminhar. A andar de um lado para o outro.
Ele estava à beira-mar. Junto à água. Na linha de rebentação das ondas. Por vezes a água apanhava-o. Mas ele não parecia importar-se. Nem parecia aperceber-se disso. Continuava a andar de um lado para o outro. Os pés, por vezes, enterravam-se na areia molhada. Mas ele continuava. Como se nada fosse.
Parou. Olhou para o mar. Acendeu um cigarro. Ficou lá parado. A olhar o mar. A fumar um cigarro, parado, a olhar o mar.
Eu também acendi um cigarro. Eu estava cá em cima. Na arriba. Tinha ido até lá para…
Eu estava assim, no limite da vertigem, a olhar para o mar a bater violento nas rochas, quando vi o tipo. A andar de um lado para o outro. Chamou-me a atenção. Ele parecia nervoso. Sempre a andar de um lado para o outro. Prendeu-me logo a atenção.
Eu também acendi um cigarro. E fiquei cá em cima a fumar o cigarro e a olhar para o tipo.
Estávamos no lusco-fusco.
Aproximava-se a noite. Ao fundo, na linha do horizonte, o céu estava cor-de-rosa. Havia umas farripas de nuvens rasgadas no céu. Nós éramos as duas únicas pessoas ali na praia, àquelas horas. Ele lá em baixo. Eu cá em cima.
O que é que nos levava, aos dois, ali? Naquele dia? Àquelas horas?
Porque é que ele estava ali? E senti o coração acelerar quando ouvi a pergunta a bater-me na cabeça. Eu tinha medo da resposta. Olhei para baixo. Vi as ondas a bater nas rochas. Cheguei-me atrás. Sentei-me numa rocha. A fumar o cigarro. A olhar o tipo.
E disse baixinho Vai-te embora. Vai-te embora para casa.
O tipo acabou o cigarro. Mandou a beata para o chão. Colocou as mãos nas ancas, como se recuperasse o fôlego.
E eu disse baixinho Se te fores embora, eu também vou.
O tipo recomeçou a andar de um lado para o outro. Eu já não quis levantar-me. Mandei a beata pela arriba abaixo.
O horizonte começou a escurecer. O lusco-fusco estava a perder para a noite. Ainda via o tipo lá em baixo. A andar de um lado para o outro. Agora já com os pés sempre na linha de água.
Eu já não queria levantar-me. Já quase não via as ondas a bater nas rochas aos meus pés.
E disse baixinho Quero ir-me embora. Vai. Vai tu primeiro.
E tipo parou. Virou-se para o mar. Colocou as mãos na cabeça. Depois voltou a pô-las na cintura. Eu já mal o via. Mas ainda vi. Ainda vi o tipo a abanar a cabeça. E, depois, resignado, virar costas ao mar e ir embora.
O tipo virou as costas ao mar e começou a sair da praia. Vi-o caminhar ao longo da areia. Até à marginal.
Eu suspirei de alívio. Já não via a praia. Nem o mar. Nem as rochas aos meus pés. Mas ouvia o barulho das ondas a bater lá em baixo. E vi o carro do tipo a fazer a marginal debaixo das luzes dos candeeiros públicos.
Eu suspirei.
Acendi um cigarro.
Levantei-me e também me fui embora. Aquela noite não era a noite.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/26]

Nunca Mais a Vi

Tinha os olhos semicerrados. Via uma vasta linha horizontal. Água. O mar. O mar calmo. O reflexo do sol pontilhado ao longo do mar até se perder no horizonte. Muita claridade. Era difícil ter os olhos abertos.
Tinha ido aos Capuchos, em Leiria. Tinha ido ter com uns amigos a casa deles. Uns amigos que não via há muito tempo. E que continuei sem ver. Cheguei ao bairro e não arranjei lugar para o carro. É mais difícil encontrar estacionamento nos Capuchos que acertar nos números do Euromilhões. Fui andando, andando, andando à procura de lugar para estacionar e, quando dei por mim, estava na Nazaré.
Fui à praia.
Sentei-me na toalha. Semicerrei os olhos e olhei o horizonte. Depois deitei-me e deixei-me adormecer.
Acordei com os gritinhos de uma criança. Maldita criancinha.
Ergui-me na toalha e olhei para o mar. Estava calmo. Convidativo. A criancinha brincava com outra. Gritava muito. Gritava de alegria. A outra era mais calma. E depois vi-a. A mãe.
Uma mãe que ainda era uma rapariga. Bonita. Muito bonita. Ela viu-me a olhar e sorriu. Eu, apanhado de surpresa, sorri, mas senti-me corar. Estava sol. Ninguém iria perceber que eu estava corado.
Levantei-me e fui ao mar. Passei por ela. Voltei a sorrir. Ela sorriu, mas foi logo puxada pela criancinha que a levou lá para onde estava a brincar.
Mergulhei. Nadei com força até até lá à frente. Voltei. Saí da água. Procurei-a. Não a vi.
Semicerrei os olhos para focar melhor a vista. Dei uma volta com o olhar pela beira-mar. Nada. Evaporizara-se.
Peguei na toalha e fui embora da praia.
Passei pela Batel e bebi um café e comi uma sardinha.
Fui andando para casa.
Já tinha subido a estrada de saída da Nazaré, já tinha passado o corte para o Sítio, já estava perto do Parque de Campismo quando me lembrei. O carro. A merda do carro. Eu vim de carro.
Voltei para trás e voltei a descer a estrada até à Nazaré. Ao fundo o mar. Continuava calmo.
Fui olhando para os condutores dos carros que se cruzavam comigo. Fui olhando para as pessoas com que me cruzava a pé. Fui olhando para toda a gente que estava na Nazaré até pegar no carro e ir embora.
Não a vi.
Nunca mais a vi.
Pensei em voltar aos Capuchos. Vi as horas e achei que já era tarde.
Fui para casa.
Fiz uma caipirinha. Fiz várias. E deixei-me adormecer na varanda.

[escrito directamente no facebook em 2018/09/08]

Em São Pedro de Moel o Sol Desperta ao Meio-Dia

Estava uma manhã típica de São Pedro de Moel. Enublado. Fresco. Mas não desagradável de todo.
Eu estava sentado à beira-mar a ver as ondas morrer na areia. As criancinhas aproveitavam a maré baixa e distante. Chapinhavam. Os mais velhos tinham de se aventurar um pouco mais para diante à procura de uma falta de pé. As senhoras mais velhas vinham refrescar-se. Baixavam-se. Mas toda a gente percebia que vinham urinar.
Atrás de mim passou o vendedor de Bolas de Berlim.
Apetecia-me uma, mas deixei passar.
E então o grito.
Alguém gritou.
Alguém gritou forte.
Estiquei a cabeça e vi gente a fugir do mar para terra.
Ao mesmo tempo, gente que se aventurava mais para dentro do mar.
Eu continuei ali sentado, na areia.
Dois nadadores-salvadores passaram por mim a correr e entraram dentro de água. Tudo confluía para um ponto. Um ponto concreto dentro do mar. Mas que avançava, lentamente, para terra. Começava a aglomerar-se gente no ponto. Gente que começava a aproximar-se da areia. De mim.
Continuei sentado. Levantei a cabeça. E vi.
Um corpo.
Era um corpo que os nadadores-salvadores traziam para a praia. Uma excursão de gente seguia-os.
Na areia, precisaram de demarcar espaço. Os veraneantes, sem nada para fazer, aglomeravam-se à volta do corpo. Era preciso afastá-los até chegar a polícia. Deixar o corpo intacto. Afastar os curiosos. Que era quase toda a gente.
Eu deixei de ver fosse o que fosse. Entre mim e o corpo morto, deitado na areia, um monte de gente curiosa e mórbida. A ver se o conheciam. Se sabiam quem era. Se alguém dizia alguma coisa. Se as televisões apareciam. Se seria manchete na CMTV.
Eu continuei sentado na areia. O mar começava a aproximar-se aos poucos. As criancinhas já não brincavam no mar. As senhoras já não faziam mais chichi. Os adolescentes já não mergulhavam. Agora todos queriam ver o cadáver estendido na areia da praia. Até o vendedor das Bolas de Berlim lá estava. A esticar o pescoço por cima da multidão a tentar ver alguma coisa.
A polícia chegou. Afastou as pessoas. A equipa forense investigou o que pode, quis e conseguiu. Depois levaram o corpo embora.
Não sei quem era.
O mar já me batia nos pés. Finalmente levantei-me. Olhei para o horizonte. O sol começava a despontar. E vinha cheio de força. Começava o calor. O calor infernal de São Pedro de Moel em Agosto. Já era meio-dia, claro. Hora de ir para casa. Tinha umas brasas para ir atear. Era dia de sardinhada.

[escrito directamente no facebook em 2018/08/16]

Zangado

 

Estive ausente uma semana, duas semanas, sem escrever um conto no Facebook.
Estava zangado, zangado com tudo. Especialmente comigo. Estava zangando com quem estava zangado comigo. Estava zangado com quem me zurzia aos ouvidos. Estava zangado com quem tem certezas e razões e sabe tudo. Estava zangando com quem me obriga a fazer o que não quero fazer.
Passei noites sentado à secretária com um envelope aberto com 40 valium 10 e 9 valium 5. A olhar para eles. E dizia Não, não é para mim, eu gosto de viver, eu gosto de ir o cinema, ao teatro, ao futebol, de namorar, de passear no Marachão, fazer piqueniques na Ervedeira. Eu gosto de comprar pevides em São Pedro de Moel. De olhar do alto a falésia do Vale Furado. De beber café no Mad. De fazer amor na rua e sentir o frio a bater-me na costas. Gosto de ver os bunker horríveis da Praia da Vieira. Gosto de ver as construções feias da praia do Pedrogão e das suas festas de sardinha, e das suas festas Tecno à beira-mar (ainda existem?), dos chocos fritos de Setúbal, da melhor imperial do mundo no Lebrinha, em Serpa, da sopa de Cação no Lado de Lá que não sei se anda existe. Gosto dos filhos, das mulheres, ex-mulheres, amantes, namoradas, amigos, que ainda os há e tudo e tudo e tudo e acima de tudo, das memórias que, mesmo no mais horrível, sabem bem.
Volto vezes sem conta a sentar-me à secretaria com o envelope aberto. A olhar os valium. Mas as memórias não deixam fazer asneira. Já é tarde. É sempre tarde. Mas desisto.
Até um dia.

Chove lá fora. Estou sozinho. É de noite. Sei que tenho quem goste de mim. Mas não chega. A liberdade não existe sem dinheiro. Dinheiro para pagar a renda da casa, a água, a luz, o gás, o telefone, para poder comer um pão com manteiga, sustentar os filhos… Porra!, viver.
Peguei numa mão cheia de valiuns e meti-os na boca. Empurrei-os com água. Tenho pena de não ter vodka. Aceleraria o processo. Repeti o gesto três vezes até acabar com os valiuns.
Não senti nada, Não senti nada de diferente.
Levantei-me e imediatamente caí inerte no chão. Senti bater com o nariz nalgum sitio anguloso. Senti parti-lo.
E, então, apaguei.

[2018/04/02]

Não Morrer sem Viver

Não sei o que fazer. Não sei o que mais posso fazer, a não ser deixar-me ir por aí fora. E seja lá o que for.
Avisaram que vinha aí o Félix. Uma tempestade terrível, de vagalhões e chuva e neve e frio e vento de não-sei-quantos-quilómetros-hora.
Peguei em mim e arranquei para a Praia do Norte. Estava rendido às experiências radicais. Não morrer sem viver. Queria ver essas ondas gigantescas, esses ciclones que se formam no mar.
Cheguei e parei o carro. Mas algo não estava bem. O sol estava espetado lá no alto. Não se via uma única nuvem no céu. A praia estava cheia de gente que se passeava nos limites da beira do mar. Casais de namorados de mãos dadas trocavam beijos salgados. Vários cães corriam uns atrás dos outros numa loucura sem par. Uma miúda tentava segurar uma pequena cadela pela trela que queria entrar no carrossel da loucura canina.
A tarde estava amena. Só o vento estava um pouco acelerado. E fazia-se ouvir. Produzia carneiros nas cristas das ondas. Mas morriam logo na areia.
Fiz como toda a gente e desci a arriba até à praia e fui andando até ao mar.
Descalcei-me, arregacei as calças e mergulhei os pés na água gelada do Atlântico Norte. A Nazaré não é para meninos.
De repente o céu escureceu. As nuvens chegaram rápidas, não sei donde, e fecharam o céu. A vida deixou a cor e passou a preto e branco, com muitas tonalidades de cinzento.
Ouviu-se trovejar. Viram-se relâmpagos a riscar o céu cinzento. Começou a chover torrencialmente. O mar tornou-se agressivo e as ondas cresceram e começaram a invadir a praia.
As pessoas começaram a correr para sair da areia. Um pai largou uma menina ali na praia e foi a correr, rápido, para a arriba. Uma mãe corria com uma criança ao colo, tropeçou e caiu. Alguns cães estavam parados, como que hipnotizados, a olhar a fúria do mar. Mas toda a gente estava a tentar correr. Queriam subir a arriba, entrar dentro dos carros e fugir dali.
Mas não conseguiram.
A invasão das ondas do mar foi tão rápida e violenta que ninguém conseguiu chegar às arribas. Só o mar. Só a violência do mar galgou as arribas e conseguiu puxar os carros para baixo e fazê-los rodopiar.
A água ia e vinha. Vinha buscar corpos e quando ia, levava-os lá para longe, para o meio do mar, para o meio dos vagalhões, da chuva, do barulho infernal que ambientava a nossa desgraça.
Eu vi-me lá no meio das ondas. Apanhado por uma, andei ali embalado, entre a terra e o mar, enrolado no meio da espuma amarela, sem conseguir nadar, a engolir alguns pirolitos salgados, rodeado de mais gente como eu, sem saber o que fazer, apanhado de surpresa, a tentar boiar, a tentar sobreviver, a manter-me ali, naquela fronteira, entre a vida e a morte e esperar O que Deus quiser.
Depois, senti-me sem forças, senti-me perder a noção das coisas. Senti que o meu corpo era puxado para baixo, para dentro do mar, para de onde não poderia nunca mais fugir.
E senti-me perder os sentidos. Deixei de ouvir barulho. Deixei de sentir medo. Senti-me ir…

Acordei com o sol a bater-me nos olhos, com força e calor. Estava deitado em cima de uma porta de madeira, no meio do mar. Sentei-me na porta, em equilíbrio difícil. Olhei à minha volta e o horizonte era todo igual. Um risco suave a separar dois azuis quase iguais. Não havia uma única nuvem no céu. Não havia mais ninguém à minha volta. Estava sozinho no meio do mar. Não sei onde. Não sei quando.
Não sei o que fazer. Não sei o que mais posso fazer, a não ser deixar-me ir por aí fora. E seja lá o que for.
Será isto a morte?

[escrito directamente no facebook em 2018/03/10]

Matilde na Praia

Ela não me dava um segundo de descanso.
Eu bem tentava passar pelas brasas, de cabeça enfiada na toalha, com A Bola dobrada, e ainda por ler ali ao lado, debaixo do sol abrasador, a torrar, a trabalhar para o bronze, mas ela não me deixava em paz.
Os pés cheios de areia passeavam-se pelas minhas costas. Até que gostava. Soavam a uma massagem radical. Leve, suave, mas picante. Os pés arrastavam a areia como se fosse lixa. Unhas que se passeavam por mim. Mas unhas ou lixa fofinhas. Que produziam mais cócegas que dor.
Virei-me sobre mim e ela tombou na minha barriga. Ninguém se magoou. A barriga era grande o suficiente para lhe aparar a queda e, a mim, para me proteger do tombo.
Da barriga rebolou para a areia e caiu de cara com as pernas no ar. Quando se levantou estava com cara cheia de areia. Mulher-Areia, disse-lhe. És uma super-vilã cheia de super-poderes maléficos para me super-chateares.
Ela começou por chorar, ao sentir a boca cheia de areia e ao não conseguir abrir os olhos. Mas depois de me ouvir falar desatou a rir. Peguei nela e sacudi-lhe a areia da cara. Limpei-lhe a boca e os olhos e ela olhou para mim a sorrir.
Depois disse-lhe Vamos ao mar dar um mergulho e tirar o resto da areia, e levantei-me.
Estendi-lhe a mão e ela agarrou-me o dedo indicador. E lá fomos os dois, praia fora, a descer até ao mar.
À beira do mar agarrei-a ao colo e entrei com ela dentro de água. Fomo-nos molhando com cuidado. Mas ela era aventureira, apaixonada pelo mar, e pulava no meu colo, com vontade que a largasse. Dei um impulso para cima e deixei-me afundar com ela ao colo. Quando me levantei ela começou a tossir. Tinha engolido um bocado de água. Começou a fazer beicinho mas não chorou. Recomeçou aos pulos. Eu agarrei-a pelos braços e fui baixando-a à água e fazendo-a subir. À velocidade da luz. Acompanhando os risos e as gargalhadas que dava. Fazia-a voar sobre as ondas. Pu-la num carrossel. Brincamos um bocado por ali. Depois fiquei cansado. Ela queria mais, mas eu fiquei cansado. E saímos do mar.
Sentámo-nos à beira-mar. As ondas rebentavam à nossa frente e ainda vinham lamber-nos o rabo sentado na areia. Íamos ficando com areia nos calções. Cada vez com mais areia nos calções. Mas que importava? Estávamos os dois à beira-mar, debaixo de um belo e quente sol, a ver passar as pessoas que iam mergulhar e voltavam cheias de frio. A vida era simples. Simples e bela.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/23]

Cada Vez Mais Longe, Cada Vez Mais Fundo

E o patrão disse-me Não fazes mais que a tua obrigação!, e eu fiquei fodido. Obrigação? O amor não se tem por obrigação.
Hoje o dia acordou cheio de sol. Nem pensei muito. Sou dado a decisões irreflectidas. Não fui trabalhar.
Arranquei para a praia. Não me cruzei com nenhum carro na estrada. Quando lá cheguei, não vi ninguém. O café aberto, mas vazio. Desci até à praia. Entrei na areia. Caminhei. Caminhei muito. Caminhei bastante até me afastar.
Não havia ninguém na praia. Nem pescadores. Nem casais de namorados. E, no entanto, estava um dia maravilhoso para passear na praia, para namorar à beira do mar, para dar asas à loucura e fazer sei lá o quê.
Gritei. Gritei para o alto. Para o céu. Mas ninguém me ouviu. O meu grito foi comido pelo rebentar das ondas no mar. Estava um belo dia de Primavera neste Inverno, estava um belo e quentinho sol, mas o mar estava bravo. Parecia irritado. Vomitava espuma amarela que vinha subir a areia. Batia com força no fundo e nas rochas e espalhava gotas de mar por cima da praia suja e de mim.
Sentei-me na areia a contemplá-lo. Gostava de o ver. Era um bonito e assustador bailado debaixo de um som gutural que ampliava o medo.
Num salto irreflectido levantei-me e comecei a despir-me. Dobrei a roupa muito bem dobrada e coloquei-a na areia, peça em cima de peça, e as sapatilhas em cima de tudo, para fazer peso e a roupa não voar. Depois fui lentamente, mas decidido, até ao mar. E fui entrando lá dentro. Devagarinho. A água estava gelada. Fui-me adaptando, aos poucos, mas fui entrando, cada vez mais longe, cada vez mais fundo.
Fui molhando o corpo com as mãos. A água começou a subir por mim acima. A minha masculinidade ficou reduzida ao mínimo. Não a sentia. E então mergulhei. E nadei um bocado debaixo de água para fora da rebentação.
Vim ao cimo do mar um pouco longe da praia. E fiquei a vê-la como se estivesse a despedir-me.
Fiquei ali um bom bocado, a boiar em pé, a subir e a descer nas ondas, a ser levado, lentamente, pela corrente, lá mais para dentro, a ver a praia a ficar cada vez mais distante, até que comecei a pensar Eu não sou lá grande nadador. A minha filha é! A minha filha é uma grande nadadora. Eu não. Mas continuava ali, a sentir-me levado lá para dentro.
E foi então que vi um cão. O cão estava à beira do mar a ladrar. Corria de um lado para o outro a ladrar. E, num segundo, pareci reconhecer aquele cão. Aquela forma de correr de um lado para o outro. Aquela forma de ladrar, consecutiva com pausas rítmicas. E depois vi passar à minha frente, no mar, uma garrafa de plástico de litro e meio, vazia, mas fechada, e percebi que o cão estava atrás da garrafa, exactamente como…
E nadei para a garrafa, agarrei-a e comecei a nadar em direcção à praia. Mas era difícil. A corrente estava cada vez mais forte. Insisti. Dei aos braços. Forcei. Forcei-me. Nadei. Nadei com muita força. Com muita vontade. Determinação. Enfiei a cara dentro de água, prendi a respiração, e forcei os braços ao longo das ondas até ao limite das minhas forças e da minha capacidade torácica e descobri-me, finalmente, na areia, com as ondas a rebentarem-me em cima. A espumarem-se em mim.
Cambaleante de cansaço procurei o cão com a garrafa de plástico na mão. Mas não o vi. Não o ouvi. Fechei um pouco os olhos para fazer foco e perscrutei os horizontes da praia. Nada do cão. Nem ninguém. Nada.
Sentei-me na areia. Molhado. Ao lado da minha roupa. E fiquei ali um bocado. Ao sol. A secar.
Por fim vesti a roupa e saí da praia. O sol estava lá no alto. Bonito e quente. Não havia nuvens no céu. Nem gente na praia. Nem um cão.
Levei a garrafa de plástico comigo e fui-me embora.

[escrito directamente no facebook em 2018/02/21]

A Minha Época Estava a Desfazer-se

Roubei um carro da polícia.
Estava num café quando ouvi, na mesa do lado, uma miúda perguntar ao namorado Quem era o Mark E. Smith? e ele dizer Não sei. Porquê? e ela responder Morreu! Apareceu-me aqui no feed. Pensei que era alguém importante mas, senão conhecias…
Foda-se! Pensei que era alguém importante?
Levantei-me da mesa e saí do café. Quando cheguei à rua lembrei-me que não tinha pago a bica e o queque que tinha consumido. Voltei lá dentro e larguei uma moeda de 2 euros na mesa, e saí de novo do café.
Estava escuro. E com a noite, com o princípio da noite, tinha vindo o frio. Era Inverno. Mas o sol da tarde tinha-me enganado. Só trazia um casaquito de lã que agora não era suficiente para parar o frio que se fazia sentir e que me entrava pelos ossos dentro.
Acendi um cigarro para me aquecer um pouco. E pus-me a caminho. Não sabia para onde. Não queria ir para casa. As coisas estavam azedas e não me apetecia enfrentar de novo o diabo.
Segui rua fora, de mãos nos bolsos, o cigarro a consumir-se na boca e a pensar que uma época, a minha época, estava a desfazer-se aos poucos. Já tinha sido o David Bowie. Depois o Cohen. O Zé Pedro. Agora o Mark E. Smith. Quem seria o próximo? O David Byrne? O Morrissey? Ou o James Murphy? Que irritação! Estava mesmo zangado. É que até me apetecia voltar para casa e ir ouvir os vinis dos The Fall e tentar exorcizar a sua falta. Mas não podia ir. Agora não podia ir. Por causa dela. Porra para ela. E não podia ouvir The Fall no telemóvel. Não tinha dezasseis anos. Não ouvia música no telemóvel.
Estava a chegar a um cruzamento quando reparei que havia alguma confusão. Vários carros parados. Pessoas aglomeradas no meio do cruzamento. As luzes azuis e vermelhas do carro da polícia a varrer as imediações.
Aproximei-me para observar. Reparei que o carro da polícia estava vazio e com as portas abertas, mas estava com o motor a trabalhar. Olhei a confusão e percebi que os dois polícias estavam a tentar resolver algum problema no meio da multidão.
Entrei para dentro do carro da polícia, fechei a porta, pus marcha-atrás e saí dali para fora. Ainda vi os polícias a correr para o carro através do espelho retrovisor.
O sirene do carro começou a apitar quando comecei a acelerar. Tive de experimentar vários botões que se exibiam ali à minha frente para desligar a sirene e as luzes. Mas consegui. Cruzei a cidade. No rádio, alguém estava a falar para quem estava a conduzir o carro. Desliguei o rádio.
Saí da cidade. E fui estrada fora, sem saber bem para onde.
Depois decidi ir até ao Pedrogão. E fui.
Quando lá cheguei larguei o carro no meio do pinhal que não tinha ardido. Com as mangas do casaco puxadas para as mãos, limpei o volante, o rádio, o tabliet e todos os botões onde pudesse ter mexido e o puxador da porta e saí dali.
Fui até à praia. Sentei-me mesmo à beira-mar a ouvir o barulho das ondas e deixei-me estar ali algum tempo, até que percebi que estava muito frio e que estava a ficar gelado. Fui até um café que estava aberto. Ainda há cafés abertos durante o Inverno no Pedrogão. Enquanto bebia um café e uma aguardente para aquecer, telefonei a um amigo para me lá ir buscar. E disse-lhe Traz música dos The Fall.
Enquanto esperei fui bebendo várias aguardentes. E lá fui aquecendo. Não me lembro do meu amigo ter chegado. Não me lembro de ouvir música. Não me lembro de regressar a casa. Não sei o que aconteceu ao carro da polícia.
Mas agora, agora eu estou em casa e estou prestes a iniciar outra discussão. Porra para isto.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/24]