A Rapariga sem os Dentes da Frente

Naquela época vivia com uma rapariga que não tinha os dentes da frente. Tinha batido com a boca no tablier do carro num acidente que tivera com um antigo namorado. Não usava cinto de segurança. Os problemas só acontecem aos outros, não é?
Quando a conheci ela disse-me que andava a juntar dinheiro para mandar pôr uns dentes à frente. Mas que, até ao momento, ainda não tinha conseguido juntar dinheiro nenhum. No seguimento da conversa, ofereceu-me uma bebida. Eu aceitei. Uma bebida nunca vem só e termina sempre da mesma maneira.
Quando acordei, no dia seguinte, ela ainda dormia. Observei-a a dormir. Era bonita, a miúda. Tinha um dormir suave. Depois lembrei-me da falta dos dentes à frente e pensei que não lhe fizeram falta nenhuma na noite anterior. Comecei a rir e ela acordou. Abriu os olhos, esfregou-os com as mãos, olhou para mim e sorriu-me. Eu vi-lhe a ausência dos dentes da frente e percebi que não me incomodava nada.
Nesse momento ela levantou-se da cama, nua, e começou aos saltos em cima do colchão e disse Faço ginástica todos os dias ao acordar. Mas a mim, aquilo não se parecia muito com ginástica. Levantei-me e acompanhei-a aos saltos. Até que a cama partiu e ela caiu para cima de mim e acabámos os dois por cair para cima da mesa-de-cabeceira e deitar o candeeiro ao chão. O abajur de vidro partiu-se. Eu magoei-me numa anca que bateu forte na mesa-de-cabeceira. Ela estava caída em cima de mim a rir que nem uma doida e perguntou-me Queres o pequeno-almoço? e eu, cheio de dores, incapaz de falar, acenei com a cabeça. Ela levantou-se de cima de mim, apanhou uma t-shirt caída no chão (e que era minha) e vestiu-a enquanto saía do quarto.
Regressou o silêncio. Eu estava magoado. Com dores. Levantei-me com cuidado para não me fazer doer mais. Levantei-me com cuidado para não me espetar em nenhum pedaço de vidro. Levantei-me com cuidado para não voltar a cair. Sentei-me em cima da cama partida e deixei-me tombar de costas sobre o colchão. Lembro-me de ver uma grande racha a cruzar o tecto de um lado ao outro e de ver um aranhão (eu tenho medo de aranhas) a subir a parede até ao tecto.
Então ela voltou ao quarto. Vinha a fumar um charro. Passou-mo e disse Pequeno-almoço na cama. E aquele foi o primeiro pequeno-almoço de muitos. Naquele dia deitámos a cama fora e deixámos o colchão no chão onde iríamos dormir nos meses seguintes, sempre a adiar a compra de um estrado novo da mesma forma que ela adiava a colocação dos dentes da frente.
O que não adiávamos eram as noites. Noites de rock and roll. Muito álcool, muitas drogas, muito sexo. De repente parecia que estava de regresso aos anos de faculdade. Só me faltava o sermão do meu pai a perguntar-me O que é que andas a fazer da tua vida?
Foi uma época de muitos excessos, aquela. O vinho às refeições, a cerveja fora delas, o gin à noite e o vodka para atestar. Depois começávamos pelos charros para irmos com calma e seguiam-se as pastilhas para desbundar. Às vezes coca, quando tínhamos dinheiro. Terminávamos a noite a foder que nem uns cães, eu em cima dela, os dois a arfar em cima do colchão que continuava no chão e depois íamos vomitar à sanita da casa-de-banho. Às vezes não chegávamos lá. E, no dia seguinte, lá tínhamos de andar de rabo para o ar a limpar o que tínhamos sujado na véspera. Às vezes o cheiro demorava a ir embora de casa. Mas eu gostava de a ver de gatas, de rabo para o ar, a esfregar o chão. Ela tinha um belo rabo, oh se tinha.
Tudo se precipitou num acidente que tivemos. Nenhum de nós morreu. Mas podíamos ter morrido.
Vínhamos de uma noite numa discoteca à beira mar. Foi ao passar pela zona de pinhal. Vínhamos já muito bêbados e drogados. Ela vinha a conduzir. Eu estava sentado ao lado, debruçado sobre ela, a tentar enfiar-lhe a língua na orelha e ela a fugir com a cara, a percorrer-lhe o corpo com as mãos e ela a rir e a gritar Pára! Pára!, mas a gostar das minhas mãos atrevidas, até que numa curva, não sei o que aconteceu, o carro guinou (ou terá sido ela?) e eu fui projectado do carro pela porta que estava mal fechada e se abriu, andei a rebolar no asfalto, queimei os braços e as pernas, esfacelei os joelhos e as palmas das mãos e acabei a bater com a cabeça numa pedra (pode ter sido num tronco de uma árvore cortada, já não me recordo) e ainda vi o carro a rodopiar antes de bater violentamente contra uma árvore e eu apagar.
Aquele acidente foi o fim de uma época.
Ela partiu o resto dos dentes. Andou de cadeira-de-rodas durante alguns meses, mas acabou por recuperar. Não consegue correr, nem dançar, mas caminha sozinha e sem o apoio de nada nem de ninguém.
Eu fiquei com umas escoriações, nada de muito grave. Mas assustei-me. Deixei o álcool e as drogas. Só não deixei o sexo porque entretanto conheci uma enfermeira no hospital que me tratou durante aquela semana em que estive internado. Era uma enfermeira muito habilidosa com as mãos. A primeira vez que saímos juntos fomos ao cinema ver uma reposição de Os Americanos do Robert Altman segundo Raymond Carver. Fui muitas vezes ao cinema com a enfermeira.
A outra, a rapariga sem dentes à frente e com um belo rabo, nunca mais a vi depois de sair do hospital. Falámos uma vez ao telefone. Uma chamada de despedida.

[escrito directamente no facebook em 2020/05/16]

O Tempo Estranho e os Meus Dias

Tempo estranho este que domina os meus dias.
Ontem estive aqui na Nazaré. Estive aqui à frente, na praia. Descalcei-me. Despi-me. Fui em cuecas mergulhar no mar. Sem toalha, deixei-me secar debaixo do sol. Estava quase seco quando decidi ir de novo ao mar. E fui. Mergulhei na água fria mas agradável. Deu para dar umas braçadas. Voltei a sair. Caminhei um pouco junto à beira-mar em cuecas a deixar-me secar pelo sol de fim-de-dia e pelo frágil vento que se levantou. Estava agradável. Tenho memórias de Verões da minha infância de dias fechado em casa por culpa do frio, da chuva e das marés-vivas que traziam o mar até à marginal.
Em fim-de-dia, vestido de novo, sem cuecas, que estavam molhadas, vi o céu púrpura que antecipava a noite. Sentei-me numa esplanada a beber um imperial e a ver o sol desaparecer, a luz do dia dar lugar à noite e os faróis dos carros em procissão constante iluminar a estrada à beira dos meus pés.
Agora estou aqui, quase no mesmo sítio.
Estou sentado num dos bancos da marginal, na mesma linha onde ontem mergulhei no mar. Está a chover. Está frio. O mar está picado. As ondas rebentam com força e espalham espuma branca pelo areal.
Hoje estou molhado pela chuva. Ontem estava molhado pela água do mar.
Estou debaixo da chuva e não consigo ir embora. Tenho o capuz do casaco sobre a cabeça. Olho o mar lá ao fundo e penso que não tardará a chegar cá acima. Já há comerciantes a fecharem as lojas. A colocarem barreiras de protecção nas janelas, nas montras, nas portas.
Nos hotéis aqui atrás de mim há gente nas varandas à espera de ver a subida do mar. É uma excitação. Ouço os gritinhos da impaciência.
Já não há quase ninguém na rua. Há pouco passou por aqui um carro da polícia. Esteve parado atrás de mim, senti-o, mas ninguém me disse nada. Não me virei. Ignorei o carro. Mesmo quando ouvi a sirene tocar. Fiz-me surdo. O carro da polícia acabou por partir. Nada garante que o mar suba realmente aqui acima. Mas é muito provável.
Ainda não é de noite mas já está muito escuro O céu está cinzento. Ontem estava azul e o horizonte púrpura. Hoje não há horizonte. Acima da linha de rebentação das ondas há um desfoque que não permite linha nem horizonte. Há uma mistura entre o céu e a Terra que não consigo perceber onde se dá. E tudo em cinzento. Cinzento escuro, molhado e maldisposto.
Já mal se consegue ver o Forte e a rocha que o defende. Mas ainda se consegue perceber a explosão das ondas que ao bater na rocha, se espalham em toda a volta e para cima.
Será que ainda há gente no Forte?
Será que ainda há gente na Praia do Norte?
E as marquises da praça? Como é que vão ser protegidas? Ou serão já elas uma primeira linha de defesa dos restaurantes, marisqueiras e cafés que existem por trás das paredes de acrílico?
Até a Batel acabou por fechar mais cedo. Há andaimes no prédio da Batel. Será que vão aguentar-se se o mar chegar cá acima?
E eu? Devia ir embora. E vou? Eu queria ir. Mas não consigo levantar-me. Não consigo mexer-me. Sinto-me preso. Não consigo deixar de olhar o mar. Estou à espera dele. Acho que estou à espera dele. Acho que ele vem à minha procura. Vem buscar-me.

[escrito directamente no facebook em 2020/03/01]

A Resposta

Desde que fiquei sem trabalho tenho vindo até à Nazaré.
Gosto de caminhar ao longo da marginal. É o calçadão do Oeste.
Caminho debaixo da chuva e do sol. Em dias de frio e de calor. Cheiro a maresia. Encho o peito e os meus dias.
Às vezes vou até à beira-mar. Às vezes molhos os pés. Às vezes caminho ao longo da rebentação. Vou a ouvir aquele rebentar das ondas ao meu lado, quase hipnótico, sedativo. O mar atrai-me. Gosto dele. Tenho-lhe medo.
Às vezes saio lá de baixo encharcado dos pingos das ondas furiosas. Às vezes é só mesmo da água da chuva que ignoro e esqueço que cai.
Às vezes fico ali parado na marginal, perto da antiga lota que hoje é uma outra coisa qualquer cultural, acho que nunca lá entrei dentro, fico ali a olhar para os barcos parados como um museu vivo. Ali vejo as cascas de noz com que os homens corajosos da Nazaré se lançavam ao mar, onde muitos deles morreram e por quem muitas mulheres, mães, filhos gritaram as dores da ausência. Agora são uma memória.
Às vezes, quando tenho algum dinheiro, compro uns carapaus secos nas peixeiras de rua para turista. Mas os carapaus são bons na mesma. Trago-os para casa. Junto-lhes azeite e alho e acompanho com um copo de vinho tinto. Às vezes também os vou comendo assim, simples, enquanto caminho pela marginal, e vou cuspindo as espinhas para o chão.
Às vezes sento-me na calçada, com as pernas caídas para a areia, e fico ali a olhar o mar lá ao fundo, às vezes ali perto de mim que, em dias furiosos o mar ainda chega à estrada e assusta os comerciantes e os turistas que fogem da morte que o Atlântico promete.
Às vezes também fico por ali a escrever. Às vezes vendo contos no calçadão da Nazaré. Escrevo estórias a pedido. Pequenas estórias que cabem numa folha A4. Pergunto por um facto ou outro, uma pessoa ou duas e invento ali uma estória qualquer, geralmente triste, geralmente sem esperança, em troca de algumas moedas que me pagam uma sardinha na nova Batel ou um gelado na Conchanata. Mas é raro ir à praça. Não gosto de ir à praça. É talvez o único local que não gosto na Nazaré. As marquises invadiram a calçada. Já não há praça. Há uma ideia de praça comida pelo acrílico e o alumínio das barracas que servem de esplanadas fechadas como prisões que afastam as pessoas do ar fresco da praia.
Às vezes cruzo a praça em passo acelerado e passeio-me pela zona velha ali ao lado, debaixo das enormes pedras do Sítio. Gosto daquelas ruas pequenas e esconsas. Ruas onde quase que me perco no seu labirinto. Gosto dos cheiros dos restaurantes que nasceram por lá. Gosto de ver as pessoas que andam à cata da fotografia certa para o Instagram. Gosto de me sentir longe da praça, embora tão perto.
Regresso à marginal. Recomeço a andar no calçadão do Oeste.
Às vezes conheço pessoas.
Ontem conheci uma.
Ela estava sentada na marginal a vender bijuteria que ela própria fazia. Fazia lá mesmo em directo, à frente das pessoas. Anéis, pulseiras, colares, brincos, tudo em ligas metálicas que ela manobrava, dobrava, soldava, construía.
Eu sentei-me ao pé dela. A vê-la trabalhar com as mãos. Depois pus-me a escrever contos. Ainda vendi alguns. Ainda escrevi alguns ali em directo. Perto dela.
Acabámos por ir beber uns copos.
Subimos a pé ao Sítio.
Eu cheguei lá acima de rastos. Ela estava pronta para outra. É mais nova que eu.
Fomos até ao forte.
Comprámos tremoços e pevides e estivemos a ver alguns surfistas a cavalgar as ondas. Não havia muitos surfistas. Nem havia grandes ondas. Mas deu para passarmos um bocado.
Afastei-me para ir mijar numa arriba e contei o dinheiro que tinha. O dia não tinha sido mau para mim. Os contos renderam algum dinheiro.
Voltei para ao pé dela. Convidei-a para jantar uma caldeirada. Aceitou.
Descemos de novo à Nazaré.
Fomos jantar uma caldeirada num pequeno restaurante que esqueci o nome. Bebemos vinho de jarro. Passeámos pela marginal à noite. Ficou frio. Ela levou-me para o quarto que tinha alugado numa pensão perto da praia.
A meio da noite convidou-me para ir com ela para o Algarve. Com passagem pela costa alentejana.
Passou a noite. Já vejo a luz do dia a entrar pelas frinchas das portadas da janela. Ainda não lhe respondi. Acho que ela está acordada. Acho que está acordada à espera da minha resposta.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/28]

O que É que Lhe Teria Acontecido?

Naquele dia saí à hora certa do escritório. Desci sozinho no elevador. Os meus colegas ficaram a fazer mais uma hora de trabalho enquanto esperavam para ir ver o jogo do Benfica na cervejaria ali ao lado. Normalmente eu também ficaria lá com eles, à espera da hora do jogo. Não naquele dia. Naquele dia tinha combinado ir à praia com ela. Ela queria ir passear à praia. Queria andar descalça na areia. Queria molhar os pés. Andava a passar um período complicado e achei que a praia, o passeio à beira-mar, o molhar os pés na água gelada da Vieira, talvez seguido de uma imperial ou um copo de vinho branco num dos bares à beira-mar podiam fazer milagres e ajudá-la a ultrapassar aquela altura que se estava a revelar tão complicada.
O elevador chegou ao rés-do-chão. Saí do elevador. Saí do prédio. Fui andando até ao carro. Olhei em volta. Ela tinha ficado de ir ali ter comigo. Estava calor. Arregacei as mangas da camisa. Acendi um cigarro. Encostei-me ao capot do carro a fumar, enquanto esperava.
Fumei o segundo cigarro.
O terceiro.
Telefonei para o telemóvel dela. Desligado.
Fumei outro cigarro.
Telefonei para a mãe. Não sabia dela.
Telefonei para uma colega. Não a tinha visto.
Fumei mais um cigarro.
Ai a gaita!
Os meus colegas desceram do escritório para irem ver o jogo do Benfica. Chamaram-me. Não fui.
Entrei dentro do carro.
Agarrei no volante. E pensei E agora?
E arranquei para casa.
No caminho passei pelo sítio onde ela trabalhava. Passei devagar, a olhar. A olhar para todo o lado como se procurasse alguma coisa mas sem saber o quê. Não estava à espera de a encontrar por ali. Não sei o que é que estava à espera de encontrar. Mas não encontrei nada.
Segui para casa.
Estacionei.
Saí do carro. Entrei no prédio. Chamei o elevador que nunca está no mesmo andar que eu. Entrei. Subi. Saí. Entrei em casa. Chamei. Nada.
Dei uma volta por casa. Há procura de qualquer coisa. Evidências, sei lá. Evidências não sei bem de quê. Estava à procura de quê? Dela. Acho que estava à procura de alguma coisa que me dissesse onde é que ela estava. As roupas estavam lá, no roupeiro. A escova-de-dentes estava no copo, na bancada da casa-de-banho. Até os Poemas Quotidianos do António Reis, que ela andava a ler, estavam na mesa-de-cabeceira do lado dela.
Entrei na sala. Liguei a televisão. Estava a dar o jogo do Benfica. Fiquei a ver. Adormeci a ver o jogo.
Acordei e o jogo já tinha acabado. Como é que teria ficado o resultado?
E ela?
Fui ao quarto confirmar. Não tivesse voltado casa e estar a dormir na cama. Mas não. Nada. Nada ainda.
Fui à janela da cozinha fumar um cigarro. Desfiz as mangas arregaçadas da camisa. Estava a começar a ficar com frio.
O que é que se tinha passado? O que é que lhe tinha acontecido?
E foi nessa altura que liguei para a polícia.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/27]

A Queda

É possível que ela já lá estivesse quando eu cheguei. Mas não reparei logo nela. Se estava, não a vi. Quando cheguei, queria ter saído do carro e descido a arriba até à praia e passear-me à beira-mar, se calhar até descalçar as sapatilhas e molhar os pés na água fria do mar do Vale Furado. Mas não saí nem desci nem passeei nem molhei. Agarrei na garrafa de vodka que tinha levado, uma garrafa de Stolichnaya, quente à temperatura ambiente que, estando em Fevereiro, parecia Agosto, emborquei uns goles, senti a garganta a arder e pensei Um cigarro. Preciso de um cigarro. E acendi um cigarro.
Na rádio, passava uma música qualquer intercalada com algumas conversas mas nem me lembro de quê. Não estava a tomar atenção. Aliás, não estava a tomar atenção a nada. Só às minhas egoístas dores.
Estava calor. Um Fevereiro que não parecia Fevereiro, mais um Agosto fora de tempo. Um tempo quente. Eu estava de t-shirt e ouvi a praia a chamar por mim. Telefonei para o trabalho e despedi-me. Não gostava do trabalho. Não gostava das pessoas com quem trabalhava. Ganhava mal. Por pouco não pagava para ter que trabalhar. Telefonei e disse-lhes Morri. Não posso ir trabalhar porque morri. Morri para sempre.
Abri o congelador. Agarrei na garrafa de Stolichnaya e saí de casa. Ainda não tinha chegado ao carro já a garrafa estava quente. Sim, estava calor. Estava um dia de grande calor. E eu fui até à praia. Fui até ao Vale Furado. Estava a pensar descer à praia, com um pouco de sorte não estava lá ninguém, ou pelo menos pouca gente, e despia-me, ficava nu, e mergulhava no mar frio, dava umas braçadas e saía para o sol quente e deixava-me estar ali assim, descalço e nu sobre a areia quente do Vale Furado a ser aquecido pelos raios deste sol de Fevereiro. Se calhar até fumava um cigarro ali assim de pé no meio da praia. Era isto que pensava enquanto fazia o asfalto que me ia lá levar.
Quando cheguei ao Vale Furado, parei o carro na arriba e deixei-me lá ficar sentado. Bebi uns goles de vodka. Fumei um cigarro. Senti o calor do sol passar através das janelas abertas do carro e a sonolência a tomar conta de mim. O barulho da rádio embalava-me. Pensava no trabalho que acabara de perder, como já tinha perdido a mulher, os filhos, o meu pai, a minha mãe, a maior parte dos meus amigos… Suspirei. Senti-me adormecer a pensar que o dia seguinte nunca seria a véspera da véspera e havia de ser o que fosse.
Devo ter acordado quando a rádio se silenciou. Ou talvez não. O sistema de economia eléctrica do carro desliga a rádio mais ou menos quinze minutos depois do carro estar desligado. Devo ter dormido mais que isso. Mas acordei com um estranho silêncio na cabeça. Abri os olhos. O sol ainda estava brilhante. Eu transpirava. Agarrei na garrafa de vodka e levei-a-à boca. Foi quando acendi o cigarro que reparei na miúda.
Estava sentada na cerca que protege as pessoas da queda abrupta sobre o mar. As pessoas chegam-se ali, encostam-se à cerca de madeira e olham as ondas a baterem nas rochas. Olham o mar a forçar a entrada pela areia acima. Um pouco mais longe é possível ver a Praia do Norte. Em dias claros conseguem-se ver as Berlengas, os Farilhões e as Desertas. Não recordo se as vi ou não. Porque depois de acender o cigarro reparei na miúda. A miúda estava sentada na cerca, virada para o mar. Coisa mais natural. Fumava um cigarro. Adivinhei-lhe o cigarro entre os dedos da mão que levava à boca. O fumo dissipava-se logo e mal o via. Mais que o adivinha. E lembro-me de pensar A miúda é gira. E era. Era bem gira. E ainda pensei O que faz uma miúda gira como ela sozinha aqui, num sítio como este? Depois sorri e pensei O mesmo que eu. Lembro-me de ainda ter gargalhado às parvoíces que pensava.
E depois ainda ponderei se iria, ou não, descer à praia e tomar um banho no mar, nu. E estava a pensar nisto quando vi a miúda descer da cerca, caminhar em frente e desaparecer da minha vista. Assim.
Fiquei parado dentro do carro. Deixei de pensar. Deixei de respirar. Deixei de a ver. Deixei de tudo e, por uns breves momentos, nem percebi o que tinha acabado de acontecer.
Até que vi aparecer gente que devia estar na esplanada do Mad, debruçar-se sobre a cerca e olhar para baixo. Houve ainda quem se aventurasse a passar a cerca para o outro lado e chegar-se mais sobre o penhasco para ver se via alguma coisa. Mas ninguém viu nada. A miúda desapareceu. Deve ter desaparecido no mar. E iria ser desovada algures numa outra praia, talvez mais para norte, talvez mais para sul, conforme a maré e as correntes e eu não percebia nada de marés nem de correntes.
Fiquei no carro. Não saí. Não fui espreitar. Não fui falar com ninguém. Não fui comentar o que achava do que tinha visto. Não fui dar a minha opinião. Fiquei no carro. A tentar recuperar a respiração.
Não esperei que chegasse a polícia nem os bombeiros. Acabei o resto da garrafa de vodka, pus o carro a trabalhar e saí dali.
Vim devagar o caminho todo. Não conseguia tirar da cabeça a figura daquela miúda sentada na cerca sobre o mar.
Cheguei a casa e fui até à varanda onde ainda estou.
Estou debruçado sobre a amurada da varanda a olhar lá para baixo. E não consigo não olhar. Não consigo sair daqui. Sinto uma vertigem. Uma vertigem que me chama. Um apelo ao salto. À queda.

[escrito directamente no facebook em 2020/02/04]

Naquela Altura os Dias Eram Luminosos

Já não quero mais escrever estas coisas que tenho vindo a escrever. Cada dia se torna mais difícil. Já não consigo utilizar canetas nem lápis. Não as consigo agarrar. Tenho dificuldades com as mãos. Arranjei uma máquina de escrever, daquelas antigas, daquelas da minha infância, onde uma letra na ponta de um pequeno ferro era projectada numa folha pelo martelar dos dedos num plástico quadrado com o mesmo símbolo. Já parti um dedo no martelar constante. Parti as unhas dos dedos indicador e do meio de ambas as mãos. Os quadrados de plástico estão com sangue seco. Por vezes já não se vê a letra correspondente. Mas eu sei de cor o sítio de todas as letras e continuo infatigável a escrever o que eu tenho de escrever para que fique registado no papel antes de partir. E esperar que o papel se preserve. Que não arda nem se molhe. Que resista mais que eu.
Os dias estão muito mais curtos. Já são poucas as horas em que há luz do dia. Aproveito essas poucas horas. Preciso deixar escrito que as coisas não foram sempre assim. Que já houve uma época em que o sol brilhava de manhã à noite. Em que havia um tempo em que chovia, outro em que fazia frio e outro ainda em que fazia calor. E passeávamos na praia, à beira-mar e subíamos às montanhas e escorregávamos sobre a neve.
Preciso deixar escrito que já houve uma altura em que as pessoas riam e ouviam-se gargalhadas, e havia mesmo quem achasse que era feliz. Preciso deixar escrito que o mundo não foi sempre assim. Assim como é agora. Cinzento. Triste. Húmido. Um mundo de fim do mundo.
No entanto, começo a estar fatigado. Fatigado do esforço que faço para martelar nas letras e escrever as palavras que, umas a seguir às outras, vão fazer sentido e contar histórias, histórias reais, histórias que eu vivi quando a vida ainda não era assim como é hoje. Mas também estou fatigado de reviver estas memórias e o peso que elas carregam. Farto de perceber que estragámos tudo, estraguei tudo, e agora não há nada que nos valha. Depois de mim, o quê? O que é que irá restar quando as últimas memórias se extinguirem? Quem é que ficará? O que é que ficará por cá? Que forma de vida pode sobreviver a este Inferno na Terra?
Enrolo um bocado de barba-de-milho numa folha que rasguei da Bíblia. Toco-lhe fogo. Deixo o fumo invadir-me os pulmões. Acalma-me. Aquece-me. Ajuda-me a lembrar. Fazia-me jeito um copo de vinho tinto.
Sento-me à frente da máquina onde vou martelar a história. Junto à janela. Preciso do máximo de luz para ver o que faço, o que escrevo. Antes que o dia se vá embora outra vez.
E começo:
Ela tinha nascido há pouco tempo. Ainda era quase uma boneca de trapos a que eu e a mãe tínhamos de prover tudo. E se ela ralhava se não lhe fizéssemos o que queria! Abria a boca e libertava os pulmões. Um barulho ensurdecedor entrava de rompante pelos ouvidos e, ao início, ficávamos sem saber o que fazer. Depois habituámos-nos. Havia choro para tudo. Fome. Fralda molhada. Dor de barriga. Ausência de sono. Necessidade de atenção. Calhandrice. Rabo tremido. Ah, o que ela gostava de estar aos solavancos no colo.
Ainda tinha semanas de vida e começámos a levá-la à piscina. Saíamos de casa ao fim do dia. Ainda era de dia. Naquela altura os dias, os fins de dia, eram luminosos. O sol ainda andava pendurado lá por cima. O céu era azul. Fazia calor. Eu levava-a num carrinho. Passávamos a estrada para o outro lado da rua, entrávamos pelo jardim dentro e percorríamos os caminhos até ao outro lado e, enquanto caminhávamos, ouvíamos os pássaros (sim, naquela altura ainda haviam pássaros, milhões deles), cheirávamos os odores das várias flores que se espalhavam por todo o lado, entre as árvores, à volta do coreto, a sublinhar a esplanada onde algumas pessoas liam livros, jornais, bebiam uma cerveja, fumavam um cigarro, trocavam um beijo, e desviávamos-nos das outras crianças que andavam por ali a brincar aos índios e aos cowboys, aos polícias e aos ladrões, alguns passavam de bicicleta, outros de trotineta, outros ainda de skate mas esses só nas zonas em asfalto que as rodinhas não rolavam na terra batida.
Saíamos do outro lado do jardim e entrávamos no complexo. Íamos directos às piscinas. Entrava nos balneários dos homens com ela. Despia-me, vestia os calções, despia-a a ela, vestia-lhe um fato de banho pequenino, e o colete por cima e entrávamos dentro do pavilhão da piscina aquecida. Ela começava logo aos pulos mal via os tanques cheios de água. Queria ir lá para dentro. Então eu entrava, com ela ao colo, e depois largava-a. E ela punha-se a nadar. Sozinha. E eu sempre ali à volta, atento, a ver se era preciso alguma coisa.
A maior parte das vezes a mãe também ia. Íamos os dois. Esses dias eram mais fáceis. Ora um, ora outro, conseguíamos ter tempo para mergulhar e dar umas braçadas. Fazer umas piscinas. Gastar energia. Alongar o corpo. Nadar de um lado ao outro. Às vezes mais que uma vez. Ainda tinha forças.
Quando cresceu ainda andou na natação. Ainda ganhou umas provas. Levou umas medalhas para casa. Estiveram penduradas no quarto dela. Até acontecer o que aconteceu. E o que aconteceu foi o fim de todas estas memórias.
Não sei durante quanto tempo mais vou conseguir continuar a escrever. Dói-me reviver estas lembranças. Ela foi um dos milhões de crianças que morreram naquelas primeiras horas. Aqueles dias foram muito duros.
Já há muitos meses que não vejo uma criança. E também se torna difícil cruzar-me com outras pessoas. Os tempos estão perigosos. As pessoas afastam-se. Vivem isoladas. Saem somente para procurar alguma coisa para comer, o que se torna cada vez mais difícil de encontrar. Os stocks das lojas e dos supermercados já foram quase todos pilhados há muito. Agora, resta-nos a respiga. A segunda volta aos mesmo sítios para ver se sobrou alguma coisa. Eu já pus umas sementes na banheira. Enchi a banheira de terra e enfiei lá umas sementes que encontrei. Mas ainda não nasceu nada. Não sei se ainda vai a tempo de nascer. Não sei se ainda irei ver alguma coisa a brotar da banheira.
Já não tenho mais luz para continuar. Vou ficar por aqui. Vou embrulhar-me na minha manta e tentar fechar os olhos. Estou cansado. Se amanhã ainda estiver por cá, vou tentar contar outra história. Para verem como éramos antes. Como fomos felizes. E como estragámos tudo.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/22]

Por Onde Anda a Minha Vida?

São nove da manhã. Já passa das nove da manhã. Passeio-me pela marginal. Passam umas carrinhas de mercadorias. Vêm abastecer as lojas dos retalhistas. Mas são o único sinal de vida que se vê. Os cafés da marginal estão já a funcionar, vê-se as luzes acesas no interior, mas as esplanadas estão fechadas. Não há ninguém a entrar nem a sair. Do interior não se percebe nenhum movimento, nenhuma forma de vida. Está frio e ameaça chover. Não vai haver clientela para as esplanadas.
Páro na calçada e olho para o mar. Está bravo. Ouço, ao longe, o terrível barulho que as ondas fazem ao bater na areia. Suspiro. Chego o casaco mais ao pescoço. Avanço pelo areal. A praia está deserta de gente. Há algumas gaivotas. Passo ao lado delas mas ignoram-me. Estão encolhidas. As cabeças enfiadas dentro do corpo. Deve ser do vento. Do frio. Talvez do temporal que se antecipa no mar. Chego-me mais à frente. Mas não muito. O vento traz até mim pingos das ondas. Pingos salgados das ondas estilhaçadas em milhares de pequenas gotículas. Sinto-as nos lábios. A língua vai lá automaticamente. Sento-me na areia. Sento-me numa espécie de pequena duna sobre o mar. Vejo, e ouço, o concerto das ondas a baterem na praia. É um barulho ensurdecedor. O mar pode ser violento. Mete respeito. Gosto muito do mar. De lhe mergulhar. De alongar braçadas e nadar acima-abaixo nas suas ondas de carrossel. Mas tenho-lhe respeito. Por vezes pode ser muito assustador. Já alguma vez estiveram à beira-mar, na costa atlântica, durante uma noite de Inverno, em plena tempestade? É lindo , lindo de se ver, mas ao mesmo tempo, terrível. É um sinónimo do medo. Um belo-horrível.
Lá mais ao fundo vejo as rochas a serem fustigadas pelas ondas gigantes. Imagino que, do outro lado do cabo, já devam andar alguns surfistas à cata das boas ondas.
Sinto uns pingos a tombarem-me em cima. Não é a maresia nem as gotas das ondas do mar. Olho para o céu cinzento e percebo que está a começar a chover. Há uma gota que me cai em cheio num olho. Praguejo. Coloco o carapuço do casaco sobre a cabeça. Levanto-me da areia. Deixo o mar nas minhas costas e regresso à calçada da marginal. Passo aos lado das gaivotas que continuam como estavam, mas agora parecem bonecos de decoração. Estão muito quietas com a chuva a cair-lhes em cima e o olhar fixado no mar. Mais uma vez sinto-me ignorado e percebo que é uma constante na minha vida. Eu sou um tipo ignorado. O tipo que passa ao lado de tudo e de todos como se não existisse. Penso muitas vezes que, se morresse, morria sozinho e ficava lá, onde quer que ficasse, até ser descoberto por um acaso, por alguém que passasse por lá. Imagino o meu funeral, feito numa carrinha a alta velocidade pela cidade, sem cortejo, sem companhia. Imagino o meu caixão a ser enterrado numa cova rasa sem nenhuma palavra de conforto à minha alma, sem nenhuma palavra de agradecimento às sementes que fui lançando à Terra na minha passagem por aqui. Imagino uma cena triste e muito pobre. Uma cena muito solitária. Uma cena muito filme neo-realista italiano. E um velho, magro e cansado, de respiração ofegante, a mandar-me terra para cima do caixão para impedir que eu retorne a uma vida que nunca me quis. Estes dias cinzentos e chuvosos de Inverno têm tendência a deprimir-me.
Chego à calçada da marginal já a chuva vem com toda a força. Sinto o jipe da capitania a passar atrás de mim. Levam as luzes ligadas a girar no tejadilho do carro. Onde irá? Olho para trás e vejo as gaivotas ainda paradas, imóveis, debaixo deste enorme chuveiro. Não percebo porque é que não fogem da chuva e do jipe e não se vão abrigar. Onde irá o jipe?
Olho para o outro lado da estrada e vejo a luz interior da Batel. Cruzo a estrada em passo de corrida, não para fugir aos carros, que não passam, mas para escapar à chuva que cai abundantemente.
Entro na pastelaria e sopro duas ou três vezes com força para me livrar do cansaço da pequena corrida. Sacudo o casaco. Molho o chão à minha volta. Vou ao balcão e peço Um café e uma sardinha, se faz favor. Mas não me corte a sardinha. Gosto dela inteira. E depois sento-me junto ao vidro da grande montra e fico a olhar lá para fora. E vejo a chuva, as gaivotas, as ondas furiosas do mar. O jipe da capitania desapareceu. E pergunto-me onda anda a minha vida.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/16]