Às Vezes…

Às vezes pego no carro e vou até à Praia do Norte. Estaciono nas arribas para norte do Forte e fico lá em cima, dentro do carro, a fumar um cigarro e a olhar o mar a bater forte na areia lá ao fundo.
Às vezes o mar está furioso e fico contente por estar a esta distância da sua fúria.
Às vezes deixo o carro na arriba e desço as dunas até à praia. Passeio-me pela areia deserta. Caminho desengonçado. Caminho, com dificuldade, pela areia até à beira do mar. Aproximo-me tanto dele que sinto o sal colar-se-me à pele da cara e das mãos. Os olhos fecham-se com os salpicos. O barulho das ondas ensurdece-me.
Olho para um lado e para o outro. Não há ninguém. Às vezes não há ninguém na Praia do Norte. Só eu.
Vou ao longo da linha do mar. Atento às ondas. Atento à fúria das ondas. Pronto a fugir para não ser apanhado pelo espraiar de uma onda mais afoita.
Às vezes subo ao Forte.
Às vezes dou a volta ao Forte pelo lado do mar. Ponho pé-ante-pé naquelas pedras escorregadias. Desço as escadas íngremes. O mar sempre presente. Ali aos meus pés. Às vezes molha-me como se fosse um regador. Como se fosse um chuveiro.
Às vezes páro nas amuradas. Frente ao mar. Ponho um cigarro na boca. Tento acendê-lo e nunca consigo. É o vento. É o mar. É o medo.
Às vezes fico lá. Assim parado. A olhar. A olhar para o mar. E penso… Às vezes, às vezes estou parado no muro que contorna o Forte, a olhar o mar, ali aos meus pés, furioso, a bater com força contra as rochas que suportam aquilo tudo e penso como seria fácil. É tão fácil, digo para mim. Digo em silêncio para ninguém ouvir. Só para mim. Era tão fácil. Tão fácil.

[escrito directamente no facebook em 2019/12/05]

E Mergulho…

Era de madrugada quando saí de casa.
Havia já uma pequena claridade a querer despontar nas minhas costas quando me pus a caminho.
Levantei-me em silêncio da cama. Ela não acordou. Vesti-me na casa-de-banho. Passei no quarto deles. Beijei-os. Viraram-se para o outro lado, sonolentos.
Passei na cozinha. Bebi um copo de água. O cão olhou para mim. Deu duas voltas sobre si próprio e voltou a dormir. Olhei à volta. Fotografei tudo no olhar.
Deixei o telemóvel no cinzeiro sobre a mesa da cozinha. Deixei as chaves. As de casa e as do carro. Deixei também a carteira com os documentos e o dinheiro. Saí de casa. Era de madrugada.
Fui a caminhar pela cidade madrugada fora. Quando os primeiros raios de luz começaram a iluminar-me as costas, já estava fora da cidade. A periferia é feia às primeiras horas da manhã.
Começaram a surgir os primeiros carros em direcção à cidade. Cheirava mal. Gasolina. Gasóleo. Estrume. Um barulho ensurdecedor. Motores. Buzinas. Música.
Afastei-me da periferia. Os carros começaram a rarear. As casas, também. Agora era uma aqui. Outra ali. Apareceram as motorizadas. As bicicletas. Os tractores. O silêncio fazia-me ouvir os barulhos mais longínquos. Algures, uns foguetes. Ainda há festas na aldeia.
Ao meio-dia o sol estava lá no alto. Mas estava fresco. Havia algumas nuvens. Eu estava a atravessar o pinhal. O que restava dele. Já não havia carros. Nem motorizadas. Nem bicicletas. Nem tractores. Já não havia ninguém no mundo. Só eu e o meu silêncio. E a minha respiração forçada.
Continuei a andar pela berma da estrada.
Era já final do dia quando larguei o pinhal para trás. Vi o mar no horizonte. Ouvi o barulho das ondas. Senti o cheiro da maresia. E uma agitação dentro de mim.
Do penhasco olhei lá para baixo e ainda consegui ver o mar. A noite aproximava-se. O mar estava agressivo. Desci as escarpas. Com cuidado. Estava escorregadio. Havia vento. Caminhei pela areia e aproximei-me da beira do mar.
Estava frio. Eu estava transpirado, mas senti o frio que vinha do mar. Senti as gotas salgadas a atingirem-me a cara. A salgarem-me a boca.
Despi-me. Dobrei a minha roupa e empilhei-a. Coloquei as sapatilhas por cima. E caminhei devagar até à beira do mar.

As ondas rebentam e correm até mim. Molham-me os pés. Tento perceber o que estou aqui a fazer, mas não consigo. Aproximo-me mais. Entro dentro de água. Está fria. Gelada. Mas aguento-me. Sinto uma profunda angústia. Queria um motivo, uma razão, para não estar aqui. Para voltar atrás. Mas não arranjo nenhuma.
A força do mar puxa-me. Puxa-me lá para dentro. E eu deixo-me ir. Respiro fundo. Tento aguentar as lágrimas. Prendo a respiração. E mergulho…

[escrito directamente no facebook em 2018/11/24]

Parado à Beira-Mar sem Me Conseguir Mexer

Desci à praia.
Desci aquele caminho íngreme até à praia. De calções de banho, toalha ao ombro, chapéu na cabeça e o telemóvel na mão.
Cheguei à praia e caminhei ao longo da beira do mar para fora da confusão. As pessoas têm tendência para se aglomerarem à entrada ou saída. Querem estar prontos para o que der e vier. Eu, ao chegar à praia, tive que fugir à multidão acumulada logo ali, depois da descida da enorme ladeira.
Afastado, estendi a toalha, sentei-me, olhei o telemóvel e vi que não tinha rede.
Deitei-me. Estava quente. O barulho das ondas do mar a morrer na areia embalava. Deixei-me adormecer.
Acordei transpirado. Estava com a boca seca. E sem água para beber.
Fui ao mar.
Entrei devagar. Molhei-me. Mergulhei. Nadei um bocado em frente. Voltei para trás. E saí.
Fiquei em pé ali, a olhar o mar. Chegou uma rapariga. Começou a entrar devagar também. De repente, falhou-lhe o pé. Tropeçou e caiu. Ficou debaixo de água. Nunca mais subia. Comecei a ficar nervoso. Apareceu uma mancha vermelha, vinda lá debaixo. Sangue, provavelmente. E eu não conseguia mexer-me. A mancha era cada vez maior.
Um rapaz passou a correr por mim, mergulhou rápido e nadou até à mancha vermelha. Depois emergiu com a rapariga desmaiada nos braços.
Olhei e vi o pé da rapariga tombado, virado ao contrário, com um pedaço de osso de fora e sangue a cair abundante para o chão.
O rapaz passou por mim e foi a correr, com a rapariga nos braços, praia fora. Começou a juntar-se gente a acompanhá-lo.
Eu fiquei ali parado, à beira do mar, sem me conseguir mexer.
Até que lá acabei por sair, arrastando-me até à toalha, preocupado com a minha inércia. Sentei-me. E olhei o mar. E o mar estava a desaparecer.
Estava a cair um nevoeiro tão rápido tão rápido que começou a apagar toda a praia, o mar, a areia, as arribas, as pessoas, a miúdas, os rapazes, o cão, tudo…
Levantei-me depressa, peguei na toalha, no chapéu, no telemóvel e tentei correr, nos limites do que me é possível correr, para sair da praia. Passei por cima de outras pessoas, de toalhas, de chapéus que acabei por deitar ao chão.
Estava cansado. A subida era terrível. Tive de parar várias vezes. O nevoeiro perseguia-me mesmo. Estava a comer o que eu deixava para trás. Estava a morder-me os pés. Até que, finalmente, atingi o cimo da arriba. Estava acima do nevoeiro. A praia tinha sido toda comida. A praia e os veraneantes que tinham ficado lá em baixo.
Consegui sobreviver.
Ainda vi a rapariga a ser colocada dentro de uma ambulância do INEM que partiu de sirenes a gritar a dor alheia.
O nevoeiro olhava para mim e ameaçava-me. Que porra se passa comigo?

[escrito directamente no facebook em 2018/06/23]