Despedida de Solteiro

O tipo era um fantasma. Estava branco. Tão branco que parecia translúcido. Eu via-lhe os riscos azuis das veias a cruzarem-lhe a cara. Sentia-lhe as jugulares a pulsar. A transpiração. As gotas de suor a escorrerem da cabeça para baixo. O cabelo brilhava. Era transpiração ou gel? O respirar pesado. Seria tudo nervos?
Ela estava bonita. Bonita como as noivas ficam. Estava bonita e radiante no seu vestido branco.
Estávamos todos à espera que ele dissesse o sim. Mas ele não parecia estar ali. Ele parecia estar a morrer. Estava à espera do momento em que ele vomitava para cima dela e do padre e dos padrinhos e de toda a gente que esperava ansiosa pelo Sim.
Ao meu lado, toda a gente se ria. Só homens. Os miúdos do meu passado, agora crescidos. Homens. E riam-se do noivo. Um deles baixou-se e segredou-me ao ouvido A despedida de solteiro foi ontem! e passou-me alguma coisa para as mãos. Um telemóvel.
E eu pensei no porquê das pessoas fazerem festas de despedida de solteiro. Principalmente na véspera. Qual a razão?
Olhei para o telemóvel que o tipo me tinha passado para as mãos. E vi o noivo. Vi o noivo perdido no meio de pernas e braços e mamas de mamilos pequenos e grandes e rosados e rabos rijos e flácidos e vaginas rapadas e peludas e com desenhos e lábios carnudos vermelhos vermelhos vermelhos que o engoliam todo e lhe iam deixando beijos por todo o corpo. Literalmente por todo o corpo. Em troca do que lhe iam comendo. E comeram-no todo. Logo ali eu vi uma boca a chupar-lhe o dedo grande do pé. E o resto… O resto…
Eu queria deixar de ver o pequeno filme daquele telemóvel. Mas não conseguia não ver. Estava fascinado com aquele happening em despedida de solteiro. Vi coisas que não julgava serem possíveis. E eu não sou propriamente casto.
E depois de todas as impossibilidades físicas e de corpos contorcionistas que não julgava possível existirem, ainda o vi vomitar-se todo para cima dele próprio e de toda a gente que partilhava com ele aquela cama king-size como se fosse só mais uma etapa de um trajecto de luxúria e desejo.
Fiquei mal-disposto.
Porque é que está a casar?
E antes de dar o sim, vejo-o, no altar, vomitar para cima da noiva do padre dos padrinhos das damas de honor e de toda a gente que estava mais próximo para testemunhar aquela união que, percebia agora, não iria realizar-se tão cedo, com certeza, depois de acontecer o que estava a acontecer e depois de toda a gente ir ver o vídeo porque, tinha a certeza, o filme não iria ficar confinado àquele telemóvel que eu tive nas mãos porque os homens não conseguem não ser sacanas e filhos-da-puta uns com os outros, não por maldade mas tão só porque sim.
Devolvi o telemóvel ao dono e sai da igreja. Deixei atrás de mim toda aquela gente em polvorosa, Coitado do noivo a vomitar, terá comido alguma coisa estragada?

[escrito directamente no facebook em 2019/06/08]

Corte de Cabelo

Desci da camioneta no novo terminal. Aquilo era um novo terminal já comido pelo tempo. Há muitos anos que não ia ali. Não ia ali de camioneta. Naquele tempo o terminal era outro. Este agora era um terminal novo. Mas a memória que tinha do antigo preservava-o mais que este que me garantia ser novo e já tão estragado pela erosão. Também pela falta de manutenção, uma das grandes doenças destes tempos que correm. As entidades gastam as verbas na criação dos espaços mas, depois, não têm como os manter. Ou não querem. Ou esquecem-se. O esquecimento também é uma doença destes tempos.
E foi isso que eu vi quando desci naquele terminal. O esquecimento e a morte.
Saí da camioneta e fui logo bafejado por uma onda de calor. Estava quente. Levei com uma explosão térmica que me fez desejar não ter ido ali. Mas aguentei. Tive de aguentar. Não fiz todos aqueles quilómetros para voltar atrás.
Havia silêncio. Quase silêncio. O motorista tinha desligado o motor da camioneta. Os ouvidos, habituados àquele rame-rame de um motor a gasóleo, suspiraram de alívio. O calor abafava quase todos os sons. Percebia-se o som distante das cigarras. Mais distante ainda, o som do mar. Pelo menos parecia-me. Mas podia ser só sugestão. Estava com calor. Com calor e com vontade de mergulhar. Mas tinha ido ali por outro motivo.
Tinha ido ali para cortar o cabelo.
Saí do terminal e caminhei junto às casas da rua para tentar aproveitar as mínimas sombras existentes. Cheguei à marginal. Olhei o mar. Estava convidativo. Pensei na minha transpiração. Sabia-me bem um mergulho, pensei. Mas vai saber-me melhor o cabelo cortado. Cortado curto. E caminhei durante algum tempo pela marginal. Acompanhei o mar. Olhei as pessoas a apanhar banhos de sol. Apreciei os corpos. Senti alguma vergonha do meu. Depois meti para dentro. Virei numas ruas até chegar à casa. Toquei à campainha. Ouvi um clique. Empurrei a porta. Abriu. Entrei. Avancei pela casa na penumbra. À espera de descobrir o que procurava. Voltei a sair. Luz. Comecei a ouvir música. Umas velhas canções New Wave. Saí do outro lado da casa. Saí para um quintal. Com umas árvores. Um baloiço. Uma piscina de borracha. Uma piscina grande. Um pequeno balcão a fazer de bar. Uma mala térmica. E uma cadeira. A cadeira. A cadeira onde ela cortava o cabelo.
Ela estava a acabar de cortar o cabelo a um rapaz. Eu abri a mala térmica. Olhei lá para dentro. Olhei para as garrafas no bar. Agarrei num limão. Pequei num copo. Fiz um gin tónico. Sentei-me no chão. Encostado a uma árvore. À sombra. À espera.
Depois o rapaz foi despachado.
E ela chamou-me. Levantei-me. Abraçámos-nos. Trocámos beijos. E ela disse Tinha saudades tuas. E eu disse Isto está bonito.
Sentei-me na cadeira. Ela cortou-me o cabelo. Conversámos. Quer dizer, ela falou. Eu escutei. Acabei com o gin.
Ela já não tinha mais cabelos para cortar. Mais tarde haveria de chegar gente para beber uns copos e ouvir música. Aproveitou para entrar na piscina de borracha e refrescar-se um pouco. Eu olhei o relógio de pulso e fui embora. Despedi-me.
Refiz a marginal. Voltei ao terminal. Ainda tinha de esperar uma hora pela camioneta para me levar de regresso a casa.
E foi então que fui ao mar. Dar um mergulho. Com o meu cabelo cortado curto. Nem me lembrei de ter vergonha do meu corpo flácido. Mergulhei no mar e senti-me bem. Senti-me fresco.

[escrito directamente no facebook em 2019/05/28]

O Bêbado da Aldeia

O tipo estava sentado lá ao fundo, no muro que limita o quintal. Estava sentado no muro a olhar para as mesmas montanhas que eu costumo olhar, mas cá de cima, do alpendre.
Geralmente não consegue chegar tão longe. Geralmente cai de bêbado logo no início da rua. Quando acorda, volta para trás. Mas há dias em que consegue chegar até aqui. Senta-se no muro. Fuma um cigarro. Às vezes adormece, sentado no muro. E não cai. Depois acorda e volta para trás. Volta para casa. Ele mora do outro lado da aldeia. Costuma sair de casa já bêbado e vem por aí fora até parar. Pára onde parar. Dorme um pouco. Volta para trás. Raramente vai além da minha casa. Quase todos os dias isto repete-se.
Eu fui ao frigorífico e apanhei duas Sagres médias.
Desci o quintal.
Percorri o muro, por dentro. Aproximei-me do tipo. Passei as pernas para o outro lado do muro e sentei-me ao pé dele. Abri uma garrafa e dei-lha. Ele agarrou-a. Abri a outra. Batemos as garrafas e demos uma grande gole. O dele foi enorme. Quase que despejou a garrafa de um só trago.
Acendi dois cigarros. Dei-lhe um. Ele agarrou no cigarro e acenou com a cabeça.
Ficámos ali assim, os dois, a beber uma cerveja, a fumar um cigarro e a olhar as montanhas em frente. Lá muito ao fundo. As montanhas estavam brancas lá no cimo. Estavam com neve. É raro nevar. Às vezes acontece. Tem estado frio. Mas hoje o sol rompeu. Estava-se bem ali, debaixo do sol.
Estivemos algum tempo em silêncio. Só a olhar. Até que ele diz Vou contar-te uma história! Eu olhei-o. Mas ele não me olhou. O olhar dele continuava no alto das montanhas em frente. Mas estavam húmidos. Não sabia se ia chorar ou se era da bebedeira.
Há muito tempo que ela me andava a chatear para levarmos a miúda à praia. Estás a ver? A miúda já tinha cinco anos e ainda não tinha visto o mar. Nem a areia. Nunca tinha ido à praia. E morávamos aqui, tão perto da praia. Naquele dia resolvi fazer uma surpresa, sabes? Levantei-me cedo. Tratei dos animais. Apanhei umas hortaliças. E depois disse-lhe para vestir a miúda. Íamos à praia. Ela ficou tão contente, mas tão contente, que se agarrou a mim, cruzou os braços no meu pescoço e beijou-me. Ela beijava tão bem! E lá fomos nós. Íamos os três na motorizada, sabes? Íamos os três na motorizada para a Nazaré quando, ao chegar aos campos, ali naquela recta antes da subida, estás a ver onde é? vem um carro, branco, tão branco que parecia um sonho, vinha para cá, nós íamos para lá e, de repente, saiu um outro carro, vermelho, esse era vermelho, saiu de trás do outro, para o ultrapassar, acho que não me viu, ou quando me viu já era tarde, já estava ao lado do outro carro, acelerou e, quando estava a aproximar-se de mim guinou para a direita, mas ainda não estava distante suficiente do outro carro e ele bateu-lhe, bateu-lhe na traseira e fez o carro derrapar, e o carro derrapou, derrapou para cima de nós, de nós os três que íamos na motorizada, e eu senti o embate, senti quando fomos projectados mas, depois, depois mais nada!, não me recordo de mais nada. Acho que desmaiei.
Ele levou a garrafa de cerveja à boca e acabou com ela. Olhou para o resto do cigarro, que já era quase só filtro, deu mais uma passa e jogou-o fora. O olhar sempre no alto das montanhas. E, depois de um silêncio, concluiu.
Acordei no hospital. Estive lá um mês. E só depois de sair de lá é que soube.
Eu vi uma lágrima a cair-lhe pela face. A boca mexeu-se, mas não disse nada. Levantou-se. Disse Tenho saudades dos beijos dela! e foi embora. Voltou para trás. Regressou a casa.
Eu fiquei ali no muro mais um bocado. A pensar nas vidas que temos. Nas que perdemos. A pensar como tudo é efémero. E cruel. E a pensar onde é que Deus anda nestas alturas.

[escrito directamente no facebook em 2019/01/05]

A Tristeza Não Dura

Estava quase a chegar à praia. Estava quase a colocar o pé na areia. Quando vi a primeira onda, rasa, pequenina mas forte, a galgar os pequenos muros de areia feitos com os pés e começar a arrastar telemóveis, chinelos, sacos, cestos, mochilas, a enrolar toalhas e pára-ventos, e os chapéus-de-sol como borbulhas espetadas ao longo do avanço da pequena onda que tudo levava à frente menos os chapéus-de-sol, espetados na areia. As pessoas apanhadas de surpresa.
Estava quase a colocar o pé na areia mas não o fiz. Estava já toda a gente a recuperar o espírito, a perceber o perigo e a começar a correr à toa atrás de um chinelo que fugia e de um telemóvel que não parava quando veio a segunda onda, mais forte que a primeira, e arrancou os chapéus-de-sol espetados na areia e deitou crianças e jovens ao chão e começou a levar um pouco de pânico ás pessoas ali na praia.
Desisti de colocar o pé na areia e comecei a subir a escadaria de volta quando vi a terceira onda, ainda mais forte, a levantar as pessoas do chão, a bater com força e a levar tudo de arrasto. Nada lhe fazia frente.
As pessoas começaram realmente a assustar-se.
A meio das escadas ainda vi pessoas a tentar fugir. Pessoas a ultrapassar outras pessoas, pessoas a pisar pessoas, homens a largarem mulheres e crianças e a fugirem à quarta onda, grande, grande que arrastava os corpos mais pequenos das crianças para o mar.
Continuei a subir as escadas e virei-me ainda a tempo de ver a quinta onda, enorme, a limpar toda a praia. Já não havia telemóveis, nem chinelos, nem sacos, nem cestos, nem mochilas, nem toalhas nem pára-ventos, nem sequer os chapéus-de-sol. Ainda havia alguns corpos a tentar chegar às escadas, mas com dificuldade. E o que mais se via eram corpos a boiar no mar, a afastarem-se para longe. Para o horizonte.
Antes de chegar ao alto do penhasco, ainda vi a sexta onda. Mas já não vi mais nada. Já não havia nada para ver. Já não havia praia. Só água. Só mar. Só corpos no mar. A boiar.
Virei costas e já não vi a sétima onda.
Mas quando cheguei ao alto do penhasco, à estrada onde tinha o carro, agoniado, angustiado, assustado, a querer gritar mas sem forças para o fazer, vi a festa. A festa de gente que se abraçava, agitava bandeiras de Portugal e levantava os chapéus-de-sol e as toalhas, e as raparigas corriam com os seios soltos, livres, e havia abraços e beijos, alegria e muitos sorrisos. A Selecção Portuguesa de Futebol Sub-19 tinha acabado de se sagrar campeã da Europa frente à Itália, na Finlândia.
Não há tristeza que sempre dure.
Tirei a minha toalha e fui festejar. Tinha tempo para chorar os mortos. A bem da verdade nem os conhecia.

Um Corpo Áspero

Ela puxou-me para dentro da tenda e eu fui. Por que raio haveria de não ir?
Estávamos os dois já muito bebidos. Eu talvez mais que ela. E deixei-me levar. Ela levou-me e eu fui.
Entrámos ruidosos na tenda. O parque estava em silêncio. No mais silêncio que um parque de campismo em pleno Agosto consegue ficar. Era tarde. Já de madrugada. Para além dos pinheiros já se adivinhava a chegada de uma pequena claridade. Entrámos na tenda e fechámo-nos lá dentro.
Ela agarrou-se a mim e começou a beijar-me onde calhava. Onde conseguia chegar com os lábio gretados. Pensei que precisava de baton hidratante.
Eu esforcei-me para conseguir descalçar as sapatilhas no pouco espaço que ela me permitia. Primeiro os beijos, depois as mãos pelo corpo e por fim a vontade de me tirar a t-shirt, coisa que fui eu que acabei por fazer.
Tirei-lhe também a dela. Passei a minha mão pelos braços, pelas costas, pela barriga e senti um corpo áspero.
A minha primeira reacção foi de repulsa. Mas tentei esconder-lha.
Insisti.
Voltei a passar as minhas mãos pelo corpo dela e não conseguia não pensar na pele que ia descobrindo. Uma pele áspera. Pele de anfíbio. Réptil. Às escamas.
Larguei-a.
Encostei-me ao fundo da tenda.
Tentei olhar para ela mas não consegui vê-la bem. Estávamos na penumbra.
Ela tentou aproximar-se, mas repeli-a. Gaita. Tinha aquela sensação nas minhas mãos. E não conseguia deixar de pensar na pele que não via, mas sentia. E não gostava do que sentia.
Era doentio. Eu estava em pânico. Precisava de sair dali.
Disse-lhe Não és tu, sou eu. Claro que ela percebeu que era uma desculpa. Mas não fez nada para me contrariar.
Parou.
Parou a olhar para mim. Ou para onde eu supostamente estava naquela penumbra.
Peguei na t-shirt e nas sapatilhas, disse Desculpa! e saí da tenda.
Na rua vesti a t-shirt. Calcei as sapatilhas. Acendi um cigarro e saí do parque.
Fui até à praia.
Caminhei junto ao mar.
E pensei no que se tinha passado.
Pensei nela. Na pele dela. E pensei em mim. E pensei no que tinha experimentado. Pensei no corpo dela e no que senti. No que achava que tinha sentido. E, depois, no que eu lhe podia ter provocado. E pensei que o problema não era a pele dela. Claro. Burro. Eu é que era o problema.
Ela tinha-se arrepiado com o meu toque no seu corpo e eu não percebera isso.
Voltei para trás.
Corri.
Entrei no parque de campismo a transpirar e fui procurar a tenda dela.
Não encontrei.
Nunca mais a encontrei.
Ainda hoje a procuro.

[escrito directamente no facebook em 2018/07/02]

O que É que Foi, Caralho?

Vinha a comer uma fartura do Penim quando o vi.
Estava junto à roda gigante a olhar lá para cima, de pescoço esticado, cabeça levantada e em bicos dos pés, talvez para ver melhor.
Estava descalço. De calças rotas nos joelhos. A t-shirt gasta e descolorida que já tivera um desenho. A cara suja. O ranho a sair pelo nariz.
Parei ao pé dele a olhá-lo a olhar. Ele olhava lá para cima. Eu olhava para baixo.
Ele, pequeno, imaginava o que é que se veria lá de cima, onde a roda gigante atingia o seu zénite.
Eu, grande, tentava perceber o que é que ele estaria a ver, ao olhar assim para a enorme roda gigante.
Ao fim de algum tempo ele percebeu que eu estava ali parado, a olhar para ele. Enfiou o dedo no nariz e limpou o ranho. Depois limpou o dedo à t-shirt e perguntou-me O que é que foi, caralho? e ficou a olhar para mim, desafiante.
Queres ir lá acima? perguntei-lhe eu, e ele respondeu Se eu quiser vou, não preciso da tua ajuda.
E virou-se de novo para a roda gigante. Eu acabei de comer a fartura, limpei a boca cheia de açúcar e amarfanhei o guardanapo, olhei à volta, não vi nenhum caixote do lixo e deixei-o cair no chão, assim, descaradamente, de uma forma natural. E pus-me também a olhar para a roda gigante.
As cadeiras estavam cheias de parezinhos de mãos dadas e aos beijos.
O miúdo deve ter pensado o mesmo que eu pois virou-se para trás e disse-me Eu só não vou porque a minha namorada não está aqui, se não, ia. Ia até lá acima. Quase à altura do castelo.
Eu fiquei ali um bocado a olhar para ele, a processar o que me tinha dito e perguntei-lhe E uma fartura? Queres uma fartura? Anda que eu ofereço-te uma fartura ali no Penim.
Ele colocou as mãos nos bolsos das calças rotas e disse Está bem! e começou a andar e eu coloquei-me ao seu lado e lá fomos nós, comer uma fartura ao Penim na Feira de Maio, porque a roda gigante é só para parezinhos de namorados.

[escrito directamente no facebook em 2018/05/08]

Odeio Adolescentes!

Abri a porta do frigorífico e vi que estava vazio. Tenho de ir às compras. Mas ando sem vontade. Os sítios estão todos sempre cheios de gente apressada, alegre, contente, a falar a torto e a direito da magnífica noite em família que estão a preparar. De repente as famílias dão-se todas bem, as pessoas amam-se todas muito e o mundo é um local feliz e cheio de amor.
Então resolvi ir jantar ao restaurante lá de baixo. É sempre bom ter um restaurante debaixo de casa. Não nos deixa ir muito longe e, se nos embebedamos, o elevador traz-nos de volta para cima.
Sentei-me ao balcão. As mesas estava dispostas ao longo do restaurante, ligadas entre si em dois grupos. Imaginei que ia haver confusão de jantar de Natal, de empresa, de anos, uma coisa dessas. Ia tentar despachar-me antes que eles chegassem. Mas não houve tempo.
Ainda não tinha atacado o queijinho fresco, já estava a entrar no restaurante uma montanha de hormonas aos saltos na forma de adolescentes. Tinha-me esquecido. O primeiro período da escola tinha terminado ontem. Hoje desceram à cidade para jantar, serem crescidos, gritarem uns com os outros, fumarem, beberem álcool e darem largas à libido. Beijos, apalpões, chupões.
A meio do bitoque já nem conseguia ouvir o som da televisão. Atrás de mim um turbilhão de excitação em forma de barulho. E pensei, Odeio adolescentes!
Mas não, não odeio adolescentes. Odeio o facto de já não ser adolescente. Odeio o facto de já não exercer aquele ritual de acasalamento dos adolescentes. Odeio já não ter aquela vontade, aquele desejo, aquela tesão, aquela vontade de foder o mundo inteiro num parque de estacionamento sem me preocupar que alguém esteja a ver. Odeio que a minha velhice me castre o desejo. Que a minha voz já não se sobreponha à deles. Odeio que o meu conhecimento não supere a inabilidade brilhante de quem ainda não sabe como fazer as coisas, mas tem uma vontade enorme de descobrir e aprender.
Na verdade, a única coisa que me irrita esta noite ao ouvir a liberdade com que se movem atrás de mim, entre todos eles, é a minha inveja. A inveja de já não ser como eles. Mesmo que as minhas memórias me alimentem. Mas já não é a mesma coisa.

[escrito directamente no facebook em 2017/12/16]

Quando Ela Era Feliz

Eu peguei-lhe na mão. E ela deixou a mão na minha. E então, puxei-a para a estrada.
Passámos, na passadeira, para o outro lado. Eu andei rápido, e ela veio aos pulinhos, quase a correr, puxada por mim, mas em segurança, que eu estava a agarrá-la, mesmo que ela estivesse em desequilíbrio em cima de umas sandálias abertas, de meio salto, o que lhe torneava bem as pernas e eu gostava de apreciar, mas às quais não estava habituada, e muito menos em passo de corrida. Mas chegados ao passeio do outro lado, desatou a rir, nervosa, de cara muito vermelha de vergonha por ter corrido e, pior ainda, ter corado por eu ter percebido o nervosismo.
Entrámos pelo pequeno jardim, já com pouca ramagem, e saímos do outro lado, a caminho de casa dela. As nossas mãos transpiravam, mas nenhum de nós a tirava, para não dar a entender que a transpiração poderia ser um incómodo.
Perto de casa parámos numa esplanada, sentámos e pedimos duas imperiais e uns tremoços. O tempo estava bom, sol e calor, e assim aguçávamos o apetite, não que fosse necessário ser aguçado, mas não demonstrávamos o nervosismo nem a excitação em que eu e ela nos encontrávamos, e assim estávamos um pouco mais libertos.
Eu fumei um cigarro. Ela falou-me de umas notícias que tinha lido no jornal. Mas tudo assim muito depressa. As cervejas foram bebidas rapidamente e rápido arrancámos, finalmente, para casa dela.
No elevador trocámos beijos. Ela tocou-me, eu toquei-a e antecipámos o que nos esperava. E quando chegámos a casa, fomos directos ao quarto dela, sem direito a sedução que estávamos mais que seduzidos, e com os preliminares despachados à velocidade da luz que o desejo explodia.
Estávamos nós enrolados nos lençóis, corpos nus a dançarem, um dentro do outro, os lábios a lamber o sabor agri-doce do outro, quando a ouço chorar. E parei, assustado. Agarrei-lhe a cabeça e encostei-a ao meu peito. Sosseguei-a. Afaguei-lhe o cabelo e perguntei Fiz alguma coisa mal?, e ela abanou a cabeça, enquanto fungava. Então? insisti. E ela disse, Estou feliz.

[escrito directamente no facebook em 2017/11/03]

Um Piquenique na Fonte da Felícia

Era domingo. Um domingo de Outono. O sábado tinha corrido mal. Chateámos-nos, eu e ela. Por coisas sem sentido e peso. Mas foi o que aconteceu. E ela deu-me um estalo. E eu parti uma jarra que a mãe dela lhe tinha dado.
Por isso, no domingo passei lá por casa com uma cesta para um piquenique e ela ficou sensibilizada, muito contente, agarrou-se com os braços ao meu pescoço e encheu-o de beijos até me deixar todo lambuzado.
Saímos de carro e fomos até à Fonte da Felícia, ali no Pinhal do Rei, perto de São Pedro de Moel, nas margens da ribeira.
Levei uma manta que coloquei no chão. Depois retirei do cesto uns pratos de plástico, uns talheres e uns copos. Os copos eram de vidro, claro. Retirei do cesto uns queijinhos secos, um frasco com alcaparras e uma latinha com anchovas e outra com azeitonas, e um grande pão do Soutocico. Abri uma garrafa de vinho tinto. E servi o vinho. Fizemos um brinde a nós. Petiscámos e, um pouco mais tarde, surpresa das surpresas: desvendei um tacho com arroz de frango que ainda estava quente. Ela fartou-se de rir quando me viu tirar o tacho que estava envolvido em folhas de papel do jornal A Bola. E fartámos-nos de comer.
De barriga cheia, deitámos-nos na manta, abraçados um ao outro e adormecemos. E passámos um pouco pelas brasas.
Quando acordámos estava calor e fomos tomar um banho na ribeira.
Despimo-nos e, nus, a brincar um com o outro como miúdos, fomos para o meio da ribeira, molhámos-nos, chapinhámos e pulámos ridiculamente. Não deu para nadar, porque a água era pouca, mas deu para nos entusiasmarmos e, passado pouco tempo, estávamos a fazer amor nas margens da ribeira.
Depois voltámos para a manta e fumámos uns cigarros. E mandámos as beatas fora. Estávamos eufóricos. Parecíamos dois putos apaixonados. Por isso nem ligámos ao lixo que fizemos e por lá deixámos. Arrumámos as nossas coisas e resolvemos voltar para casa para ir ao cinema. Era preciso não perder a onda da boa disposição.
Foi mais tarde, quando saímos do cinema, que ouvimos, no noticiário, que o Pinhal de Leiria tinha ardido quase todo. E foi aí que fiquei preocupado e pensei Apagámos os cigarros? Mas não comentei nada com ela. Não queria que nos chateássemos de novo.

[escrito directamente no facebook em 2017/10/24]