Gosto

gosto da primavera, de namorar raparigas jovens e menos jovens, já vividas e cheias de estórias para me contarem e gosto do cheiro das flores campestres, de mergulhar no rio, no açude, no lago, nu, e de me deitar sobre as margaridas e deixar-me aquecer pelo sol do meio-dia, e de ler livros deitado na relva, no sofá, sobre a cama, gosto de ler philip roth e mário de sá-carneiro, cormac mccarthy e baudelaire, rimbaud e cocteau e não esquecer camus, borges e cortázar, gosto de sumo de laranja fresco, peixe assado nas brasas, frango de churrasco, e pão acabado de fazer em panificadoras, gosto de rosas e malmequeres, de fumar cigarros e um charro de vez em quando, gosto de ir à escola agora que já não vou, gosto de desenhar mesmo não sabendo, e de matemática, literatura e poesia, gosto da poesia do al berto, da szymborska e do joan margarit, gosto de chupar as azedas que encontro à beira da estrada, de festas de aniversário em garagens onde eu sou o dj, gosto de beber cerveja, loira, stout ou blanche, gosto de tremoços e pevides, castanhas de caju e amendoim torrado, gosto de passear de mão-na-mão, de mãos transpiradas de desejo e de antecipação, gosto de cortar o cabelo muito curto para refrescar a cabeça, usar desodorizante, calçar sapatilhas e vestir t-shirts, gosto de passear pelo país, conhecer as praças das cidades, vilas e aldeias, e gosto do verão, do calor do sol a queimar-me o corpo e a dificultar-me a respiração, gosto de vestir calções e calçar chinelos, gosto da praia e de mergulhar nas ondas do mar, de beber um gin numa esplanada à sombra de uma árvore, de um vodka antes de jantar, de uma pizza em forno a lenha, de uma salada de rúcula e tomate cherry, queijo feta e iogurtes naturais com granola caseira, gosto de ver os jogos olímpicos e o mundial de futebol, que também pode ser o europeu, gosto de banda-desenhada, do hergé e do hugo pratt, do comés e do frank miller, do lostal e do bilal, gosto de água das pedras e coca-cola e não, não pode ser pepsi, mas pode ser zero, sem cafeína ou light e com uma rodela de limão, gosto de amêijoas, berbigão, mexilhão e conquilhas, navalheiras, camarão de moçambique e da figueira da foz, gosto muito de limonadas sem açúcar, do bafo quente do interior alentejano, da costa vicentina e do sotavento algarvio, gosto das festas das aldeias perdidas no interior e das grutas de alvados, gosto das serras d’aire e dos candeeiros e de caminhar por elas, gosto das imperiais no lebrinha, de ver os girassóis a girar, de melancia, melão e meloa, de beber um tinto esporão, um verde alvarinho, gosto de adormecer na praia, ver as suecas em topless, jantar na rua, na varanda ou no quintal, olhar as estrelas, e sonhar ser o starman, também gosto do outono, do casaquinho de algodão, dos óculos escuros que uso o ano inteiro, de música, muita música, dos beatles e dos stones, dos velvet underground e do nick cave, dos joy division, dos jesus and mary chain e dos chameleons, mas também gosto do nick drake, do leonard cohen e do david bowie, dos mão morta, dos pop dell’arte e dos gnr com vítor rua e alexandre soares, de bolas de berlim com creme, da chuva que molha tolos e do cheiro da terra molhada, gosto do fim das férias, do início das aulas, dos cadernos novos, de livros novos, do regresso à vida de todos os dias, do benfica e da união de leiria, gosto de viajar para longe e saber que regresso, gosto de conhecer o que não conheço, de visitar o rainha sofia sempre que possível, de arroz de cabidela, de raparigas despenteadas pelo vento, de lábios carnudos pintados de red velvet, de peitos pequenos médios e grandes, de pernas em meias de vidro pretas, de música ao vivo em salas escuras e sombrias e em jardins luminosos, gosto de ler jornais em papel, sujar os dedos com tinta, desligar a televisão, jogar ao monopólio e ao risco, gosto dos dias a encurtar e as noites a crescer, gosto de dormir acompanhado, de fazer sexo, mas gosto mesmo é de foder, de gritar alto na rua às duas da manhã, de ouvir as persianas a serem levantadas e gente a ralhar comigo, gosto de passear à chuva à beira do rio, e também gosto muito do inverno, da lareira acesa e a lenha a crepitar, de uma morcela de arroz e um chouriço assado, de uma bifana grelhada nas rulotes ao pé do mercado da cidade, gosto de arroz doce e rabanadas, filhoses e sonhos, gosto do frio que me recorda a vida, gosto de filmes e de teatro, do wenders e do godard, da anna karina e da monica vitti, gosto de estar sentado numa sala e ver os actores ao pé de mim, gosto de tempestades, de relâmpagos e do som cavo de um trovão, gosto de tocar campainhas e de sobreviver ao natal e à passagem de ano, gosto de sentir que o mundo está a acabar para me agarrar com unhas e dentes ao tempo que me resta, gosto do meu pai e da minha mãe, dos meus filhos, mesmo os que não sei que tenho e os que não são meus, gosto de todas as mulheres que foram mulheres da minha vida, e gosto muito das saudades que tudo isto me dá, gosto de escrever, ler e aprender, gosto de cozinhar e de comer, gosto de dançar, pular e rir, gosto de estar com pessoas e brincar com os amigos, mesmo que não sejam muitos, gosto das minhas memórias, mesmo as falsas, gosto muito de viver mas, não tenho medo de morrer

[escrito directamente no facebook em 2020/01/07]

Eu Sou o Filho, Eu Sou o Pai

Dia do Pai.
Onde está o meu? Onde estou eu?
Dia do Pai e estou aqui. Estou sentado. Estou sentado a um balcão. Tenho um espelho à minha frente. Um espelho meio tapado pelas garrafas. Um espelho meio despelhado pela queda do metal ou da prata que quebra o vidro e o faz, faria! reflectir.
Vejo-me mal. Uma curvas. Uma silhueta. Sou mesmo eu? Reconheço-me no meio da desfaçatez de um espelho velho e gasto?
Esse sou eu! Talvez.
Não sei onde está o meu Pai. Já o procurei entre as estrelas e não o encontro. Uso óculos. Preciso de lentes mais fortes. Lentes de fundo de garrafa de vinho tinto forjado no terroir alentejano. Lentes que desbravem o cosmos. A alma. A vida e a morte.
Não sei onde estou eu próprio. Eu fugido. Eu Pai.
Estou aqui, sentado ao balcão a tentar descobrir-me num espelho que já não espelha. Tenho um copo vazio à minha frente. Cheio. De novo vazio. Cheio outra vez. Vazio de novo.
Isto é um jogo.
A Cabra-Cega que não vê. A Apanhada que não agarra. As Escondidas que finge que não encontra. Mas sabe. Sabe onde está. Mas não diz. Não vê. Não quer saber.
Mas quer. Quer saber. Mas não sabe como.
Onde está o meu Pai? Onde estou eu?
Porque fugi? Não foi dele. Deles. Foi de mim. Mas não sei porquê. Ou sei. Sei mas não quero saber.
O copo continua cheio. E vazio. E de novo cheio.
Vejo-me ao espelho. Mas não me vejo.
É um jogo.
Tiro o revólver do cós das calças e coloco-o em cima do balcão.
É o dia do Pai.
Onde está o meu?
Onde estou eu?
Bebo do copo cheio. Fica vazio.
Estou ao balcão. Não sei quanto tempo vou ficar aqui. Não sei se quero ficar aqui. Nem sei se quero ir embora. Não sei nada. Não quero saber nada.
Só queria não ser nada. Não ser Pai. Nem ser Filho. Nem Irmão. Nem ser Eu.
Pego no revólver. Pego no revólver e faço girar o tambor. Tem balas, o revólver?
Olho o revólver na minha mão. O tambor a girar. E penso que tenho na minha mão a minha vida; E penso que tenho na minha mão o disco dos Beatles.
Tomorrow Never Knows. E é isto. Amanhã logo se vê. Porque não agora?
E o tambor do revólver gira. Gira no revólver. Não sei se o tambor tem balas. Não sei já o que tenho na mão. Se a minha vida. O amanhã. Todo o lado.
Onde é que está o meu Pai?
Onde é que estou eu?
E tu? E vocês?
Pode isto acabar bem?

[escrito directamente no facebook em 2019/03/19]