Onde É que Arranjaste o Dinheiro?

O frio tinha finalmente chegado. Entrou com o último sol de ontem. Um sol mentiroso. Um sol brilhante, lá no céu, mas um frio terrível cá em baixo. Quando o sol se foi, o frio ficou.
Hoje nem houve sol. Só o frio.
Estava deitado dobre o tapete da sala a olhar para uma racha no tecto. A televisão desligada. A lareira apagada. Ela sentada no sofá, com uma manta por cima. Eu deitado no tapete da sala, de casaco vestido, a olhar para o tecto, a ver a racha a meio e o bolor da humidade que se estava a instalar nos cantos e por cima da janela. Pensei que tinha de pintar o tecto. Um dia destes.
Ela perguntou Já não há cigarros, pois não? e eu abanei a cabeça. Não sei se ela viu ou não o meu abanar de cabeça. Tentei responder mas a minha voz não saía. Depois ela perguntou Nem há vinho? e eu voltei a abanar a cabeça.
Levantei a mão para o tecto. Tentei apagar a racha com a minha mão, mas os cantos bolorentos estavam sempre visíveis. O tecto estava mesmo nojento.
Ela perguntou Tens algum dinheiro? e eu voltei a abanar a cabeça e fiz um enorme esforço para falar e disse Não. Não sei se ela ouviu. Também não sei se o meu tom de voz era audível. Eu mesmo não me ouvi. Mas eu já não me ouvia há muito tempo. Mantinha acesa a sensação de que falava, mesmo quando não o fazia, e assim nunca sabia quando falava ou estava calado mesmo quando estava a pensar que o estava a fazer.
Enfim.
Não tinha dinheiro. Nem eu, nem ela. Estávamos sem trabalho há algum tempo. Trabalhos precários dão nisto. A disponibilidade desvaloriza-te e a falta de reverência, digamos que também não abonava muito na hora de contratar alguém. Mas não importavam os motivos. A verdade era que estávamos os dois sem trabalho e sem dinheiro. Nem tínhamos direito ao subsídio de desemprego. Fazíamos parte de um grupo de gente marginal que nunca entra nas contas. Éramos artistas. Passávamos recibos verdes. Fazíamos todo o tipo de trabalhos mal pagos. Nunca conseguíamos juntar dinheiro. Andávamos sempre nas lonas. Éramos miseráveis. Uns indigentes.
Ela levantou-se. Saiu da sala.
À minha volta, sobre o tapete onde eu estava deitado, via uns bichinhos a passearem-se. Não eram formigas. Não sei que bichos eram. Mas andavam de volta das migalhas que estavam lá pelo chão. A casa estava um bocado imunda. Precisava de uma barrela. Mas quanto menos se faz, menos se tem vontade de fazer. Não conseguia levantar-me. Não conseguia ir buscar o aspirador. Ou a vassoura. Sentia-me incapaz. Queria ficar ali deitado no chão e deixar-me morrer assim.
Ela entrou na sala de casaco vestido. Tinha pintado os olhos. E os lábios. Os lábios estavam vermelhos. Um vermelho vivo. Tinha dado um jeito ao cabelo. Escovou-o. Prendeu-lhe uma flor. Perguntei-lhe Vais sair? E ela baixou-se ao pé de mim, deu-me um beijo rápido, leve, sobre os lábios e disse Já volto. E saiu de casa. A porta da rua a bater ficou a ecoar dentro da minha cabeça. Agora estava sozinho em casa e não queria estar sozinho em casa. O silêncio era ainda maior. Tentei dizer algumas palavras alto. Para me acompanharem. Rothko. Batman. Godard. Bife com batatas fritas. Um sonho de menino. Mas não sabia se estava mesmo a falar ou não. Não me ouvia. Mas podia dar-se o caso de estar a dormir. A sonhar. Ou estar afónico. Talvez surdo. Não, surdo não, que a ouvi dizer Já volto. Ou foi Já venho? Não tenho a certeza. Esqueci-me. Ando a esquecer-me das coisas.
Queria ir olhar pela janela. Queria ir olhar para a rua. Ver se a via passar lá em baixo. Mas não conseguia levantar-me do chão. E não sabia se era preguiça ou incapacidade física de fazer esforço para me levantar. Estou fraco, pensei. E devia estar. Não me lembrava da última vez que tinha comido. Nem me lembrava o quê.
O tempo passou. Eu continuei deitado no chão da sala. Deitado em cima do tapete sujo da sala. Devo ter passado várias vezes pelas brasas. Estava sonolento. A luz tinha baixado bastante.
Ouvi a porta da rua. Alguém entrou. Ela, com certeza.
E antes de a ver, ouvi-a Levanta-te, vá. E foi então que a vi com uns sacos de papel do McDonald’s. E com um cigarro aceso ao canto da boca. Já não tinha os lábios pintados. Nem a flor no cabelo. E ela ainda disse E há vinho.
Eu tentei levantar-me mas não consegui. Disse-lhe Ajuda-me a levantar, mas não sabia se ela me tinha ouvido e estiquei-lhe um braço. Ela agarrou-me na mão e levantou-me. Senti umas dores nas costas à medida que me erguia. Vacilei. Mas não caí. Agarrei-me a uma cadeira que estava à volta da mesa da sala. E perguntei-lhe Onde foste arranjar o dinheiro? mas percebi que a minha voz não estava audível. Vi-a colocar os hambúrgueres e as batatas fritas em cima da mesa. Vi-a colocar um volume de cigarros e um cinzeiro na mesa. Vi-a abrir uma garrafa de vinho tinto e a encher dois copos. Estendeu-me um. Batemos levemente com o copo um no outro. Bebemos.
E ela disse Não me perguntes onde é que arranjei o dinheiro.

[escrito directamente no facebook em 2020/01/16]

A Caixa

Encontrei-a quando fazia a mudança da minha mãe. Ao levar todas as tralhas dela de uma casa para a outra, encontrei uma tralha minha. Uma caixa. Uma caixa, guardada, guardada e perdida em casa da minha mãe há já muitos anos. Uma caixa que já não recordava. Salto de cama para sofá-cama, entre casas de amigos e conhecidos, entre camas de namoradas e restos de uma noite sem história, sem pouso certo, vou largando restos do que acumulo por aí, por onde calha, em casa deste e daquele, desta e daquela, em casa da minha mãe, afinal, a casa mais próxima do que alguma vez poderia chamar minha. E descobri-a.
Sentei-me no chão sujo (a quantidade de lixo que se vai largando enquanto se fazem mudanças! onde estava todo este pó? todo este lixo?). Esperei. Tentei refrear a ansiedade. O que estaria ali, dentro daquela caixa? O que estaria ali, debaixo daquela tampa que iria levantar?
E levantei.
A primeira coisa que vi foi a minha câmara Sony PC4, com a qual fiz o meu primeiro filme. Onde está esse filme? Onde param todas as cópias? E a montagem original? E as cassetes miniDV onde foram captadas todas as imagens e sons do filme?
Ao lado da câmara estava um action figure do Batman. Lembro-me que veio em cima de um bolo de aniversário. O bolo foi-se, o aniversário também, mas o Batman, cinzento e preto, ficou.
Há também um discman que guardei aqui quando comprei o primeiro MP3, da Creative, que, afinal, era apenas uma pen com auscultadores. Mas funcional. E era muito fácil passar música para este leitor de MP3. Não sei onde é que ele pára. Provavelmente nalguma outra caixa para onde foi remetido depois de aparecer o iPod Nano que ainda hoje tenho e funciona.
Há uma pilha de cadernos e sebentas e agendas da Moleskine cheias de palavras, textos, estórias, poemas medíocres, desenhos e outras coisas que me descrevem ao longo dos anos. É melhor queimar tudo isto. Há para aqui coisas que não são para os olhos de ninguém, algumas delas já nem sequer para os meus. Às vezes o passado envergonha-nos. Mas nem tudo é mau. Há aqui alguns textos que subscrevia. Rescrevia. Assinava. Hoje.
Há também uma caixa de Rebuçados de Ovo de Portalegre da Fábrica de Rebuçados de Santa-Clara que abro e descubro uma série infindável de canetas e lápis, lápis de várias cores e números, e todos afiados, e canetas de vários feitios. No fundo da caixa uma borracha da Rotring e uma afiadeira de metal, em forma de cunha.
Há também uma outra caixa, esta de cartão, preta, sóbria. Lá dentro tem uma caneta Mont Blanc pequena, de tinta permanente, que quis preservar. Nunca a usei. Nunca a tirei da caixa. Foi uma prenda de aniversário. Sempre tive boas prendas de aniversário. Acho que tive uma boa vida. Bons amigos. Boas memórias.
Há uma bola de neve com dois esquimós a beijarem-se. Daquelas bolas que se agitam e aparece neve a flutuar.
Uma outra caixa, de chocolate belga, alberga várias chaves, muitas chaves, quase todas com porta-chaves. São as chaves das casas por onde passei. E foram tantas. Ainda abrirão as mesmas portas? ou as fechaduras foram mudadas? Ainda estarão à minha espera? ou já me esqueceram? Acho que poderia fazer uma exposição com tanta chave, de tanta forma e feitio. Há uma delas que acusa ferrugem. Não sei o que é que esta chave abria. Uma parte do passado fugiu, outra escondeu-se. A memória é um mundo por descobrir. Poderia passar o resto da minha vida a lembrar as vidas que já vivi.
Há também uma ventoinha manual, pequenina, de agarrar numa mão, apertar uma mola e disparar a ventoinha de três pás que manda ar frio para onde quiser. As pás da ventoinha estão numa espécie de maçã com uma dentada, como se fosse o símbolo da Apple. Deve ser coisa de chineses. Sei perfeitamente quem me deu esta ventoinha. Gente que não vejo desde o princípio dos tempos.
Há ainda uma lanterna a dínamo da Quechua cuja borracha está toda peganhenta, desfaz-se nas minhas mãos e tenho de as ir lavar antes de voltar ao teclado do computador. Guardei muita merda. Muitas destas coisas são lixo.
Um maço de papéis revela as primeiras facturas de água e luz que vieram com o meu nome. As primeiras facturas que eu paguei, numa casa que era minha, cuja renda era eu que pagava, e do qual recebia um recibo com o meu nome. Há coisas que nunca mais voltam.
Por baixo das facturas, uma pequena caixa com uma pen da Kanguru para ligação à internet numa altura em que quase não havia wireless, em que éramos todos muito info-excluídos, mas nem mais felizes nem mais infelizes. Éramos só outros, numas vidas como estas mas diferentes. Será que isto ainda funciona?
Há também uma série de DVDs graváveis. Devem ter filmes e fotografias minhas. Será que descubro aqui fotografias de ex-namoradas? Fotografias de nus? Filmes de sexo? Eu a ter sexo com… Já nem me lembro. Já não recordo se as guardei aqui ou não. Tenho de descobrir uma maneira de ver isto. O meu computador já não tem leitor de DVDs.
No fundo da caixa descubro uma pequena pilha de cartas. Agarro nelas. Leio os endereços. Nomes diferentes. Moradas diferentes. Nomes de mulher. Nomes de homem. Acendo um cigarro. Encosto-me à parede. Abro uma carta. Uma qualquer. Não leio o nome de quem a envia. Não importa. Só quero ler o que já li. Só quero recuperar um tempo. E leio:
Olá meu querido, Como é que estás? É com muita saudade que olho para trás e vejo já tão distante o Verão em que nos conhecemos e passámos juntos na praia. Depois olho em frente e reparo como falta pouco para nos reencontrarmos. Voltamos ao mesmo sítio? Voltas ao mesmo sítio?
Sorrio. Escrevíamos cartas assim? Escrevi cartas assim?
Deixo cair a carta e abro outra. Sinto o coração aos saltos. Está vivo. Estou vivo. A história não é sobre os mortos. É sobre os vivos. Uma história que se perpetua nos tempos, assim a lembremos, assim nos lembremos.

[escrito directamente no facebook em 2019/10/25]

Verde na Triagem de Manchester

É Sábado à noite. Já é tarde. Tão tarde que o Sábado está quase a ir embora. Tão tarde que o Domingo está quase a chegar.
É a noite do meio do fim-de-semana. Aquela altura em que as pessoas tendem a ficar cheias de vontade de engolir o mundo em copos de gin, em garrafas mini de cerveja. É aquela altura em que as pessoas precisam de dançar em pistas de dança acanhadas. Em pistas de dança mais populares. Em pistas de dança mais alternativas. Em pistas de dança que não são pistas de dança mas uns espaços vazios onde se pode esbracejar como se estivéssemos a ter um ataque epiléptico. Desconjuntados. Bêbados. Cheios de tesão por qualquer coisa transpirada que se abra à nossa frente como uma flor necessitada de um regador repleto de água com vitaminas.
Nossa frente não, que eu não estou aí.
O meu Sábado, que é quase Domingo, é outro.
Estou no hospital. No Hospital de Santo André. No Centro Hospitalar de Leiria.
Não interessa o que vim cá fazer. É pessoal. Mas vim cá. Enquanto uns bebem, outros comem e outros dançam, eu vim ao hospital. Passei por um restaurante japonês, aqui mesmo ao lado do hospital, e estava cheio. Come-se muito sushi em Leiria. Come-se muito sushi e até tarde, em Leiria. Imaginei o restaurante cheio de enfermeiros em greve cirúrgica.
Eu cheguei ao hospital. Estacionei o carro no primeiro parque à direita. Havia lugares. Muitos lugares.
Entrei nas urgências. Fui ao balcão. Disse ao que ia. Mostrei o Cartão de Cidadão. Paguei a taxa moderadora. Fui mandado para a sala do lado. Para a triagem. Triagem de Manchester, chama-se.
Ouvi o meu nome numas colunas fanhosas. Tive dificuldade em perceber que era eu. Aquela voz electrónica fez-me lembrar o franchising espanhol 100 Montaditos. Devia ter dito que me chamava Batman. Ou Spider-man. Não o percebia na mesma. Mas tinha tido muito mais impacto.
Entrei na triagem de Manchester. Gabinete um. Duas enfermeiras conversavam. Conversavam sobre alterações na ordem de trabalho. Alterações nas fichas dos pacientes. Como preenchiam e como têm de preencher. Eu sentei-me numa cadeira. Esperei. Uma das enfermeiras olhou para mim. Expliquei. Escreveu. Continuava a falar com a colega. Escreveu. Olhou para mim. Disse qualquer coisa que não percebi. Não percebi o que disse nem se o disse para mim.
Estendeu-me uma pulseira verde. Porra! posso ter de esperar até duas horas para ser atendido. Estiquei o braço. A enfermeira agarrou-me na mão e puxou-a para si. Senti o fresco da sua mão acabada de ser lavada por um desinfectante. Enrolou-me a pulseira verde no pulso. Mandou-me seguir a linha verde até umas cadeiras e esperar que me chamassem. Tudo demasiado verde para o meu gosto.
Segui a linha verde. Encontrei as cadeiras. Sentei-me. Ouvi-as ranger. Cada vez que mudava de pé de apoio, a cadeira rangia.
Ainda range.
Estou aqui já não sei há quanto tempo. Estou entretido a ver os bichinhos que entram por baixo da porta. Penso cá para mim O hospital devia ser um local muito limpo!, mas a verdade é que, pelo menos aqui, está cheio de bichos. Bichinhos. Parecem da família dos escaravelhos. Mas também podem não ser. Podem ser besouros. Mas não sei se besouros e escaravelhos não são a mesma coisa. Se calhar são bichos-de-conta. Eles enrolam-se. Toquei nuns com os pés. Esmaguei outros. Agora está ali a passar uma aranha. A aranha não mato. Dizem que significa dinheiro. Bem que me dava jeito. Vá, vai lá à tua vida, digo-lhe baixinho para não julgarem que estou maluco.
Estou aqui há não sei quanto tempo. Estou a entreter-me a esmagar estes bichinhos que vêm da rua por baixo da porta. Já é Domingo. Bebia um vodka. Um gin. Bebia uma coisa qualquer com álcool. Ou sem álcool. Tudo o que fosse para que não estivesse aqui. Mas estou. A ver bichinhos a invadirem o Hospital de Leiria. À espera que me chamem. A mim, pulseira verde na triagem de Manchester.

[escrito directamente no facebook em 2019/03/17]

Martim

Saímos do restaurante e subimos a rua, os dois, lado a lado, mas não lado-a-lado, que ele não parava quieto, andava ali às voltas, a tentar fazer-me cócegas, a fingir que me dava murros nos braços, a brincar que era o Homem-Aranha, ágil, jovem, irascível mas com muito humor e eu, para ele, naquela brincadeira, era o Batman, velho, chato, macambúzio, muito preocupado, cheio de problemas existenciais e sem super-poderes. A tentar fingir que não o conhecia de lado nenhum. Mas na brincadeira.
Tínhamos estado a jantar juntos. Era o meu aniversário e ele veio jantar comigo. Eu é que escolhi o que íamos comer, partilhámos todos os pratos e fiquei admirado com a disponibilidade dele para com os meus desejos gastronómicos e de ele fugir à sua dieta do bitoque e lançar-se às minhas propostas e, mais que isso, gostar.
Depois de encher a barriga, saímos do restaurante e fomos passear um pouco, rua fora, para ajudar à digestão e prolongarmos um pouco mais este nosso encontro no dia do meu aniversário.
Mas ele não parava quieto. Subia aos sinais de trânsito, aos muros, parecia um gato, tinha muito de parkour na sua deambulação, mas era acima de tudo a típica electricidade adolescente que o motivava. Era difícil estar quieto.
Houve uma altura em que começou a subir por mim acima e acabámos por cair os dois na calçada e, alguém que vinha em sentido contrário perguntou Está tudo bem?, preocupado que um de nós estivesse a incomodar o outro e eu respondi logo Não, não, está tudo bem. É o meu filho., ao que ele respondeu logo de seguida Sim, sim, está tudo bem. É o meu pai., e desatámos os dois a rir perdidamente, como dois tolos, e ele acabou por rebolar para cima de mim e acabámos os dois a rebolar na calçada e a rir muito, a rir estupidamente, até que nos separámos, e ficou cada um para seu lado a rir, até conseguirmos parar e encostar-nos à parede de um prédio a recuperar o fôlego.
Eu lá acabei por me levantar, dei-lhe a mão e ajudei-o a levantar-se. Acendi um cigarro e fomos rua fora, agora a falar sobre os Capitães de Areia de Jorge Amado, livro que ele estava a ler para a escola. E de que estava a gostar.
Senti-me contente com aquele aniversário. E dele gostar de ler. Pelo menos aquele livro.

[escrito directamente no facebook em 2018/01/28]